Eu, eu mesma e meu umbigo.

Se até ele tem olhos para o dele, por que eu não vou ter para o meu?

Eu estava descendo as escadas do Mergulhão para tomar meu ônibus de volta para casa quando uma força invisível me puxou para o caminho oposto. A esta força invisível e estranha – porém familiar – vou chamar de “umbigo“. Explico:

Ele age por si só desde que se viu finalmente independente, quando cortado do cordão que ligava o meu corpo ao da minha doce e gentil mãe, que me trouxe ao mundo depois de me suportar por nove longos e tenebrosos meses, fazendo uma zona dentro dela, bagunçando todos os seus hormônios e sentidos, arredondando seu corpo, dando chutes, causando enjôos e provocando estrias, tudo isso para me ver nascer, ter nosso cordão cortado de imediato, sem a menor piedade e ter em seus braços uma criatura em miniatura de gente se sentindo independente.

Minha mãe guarda (pelo menos guardava, até alguns anos atrás) um pedaço desse cordão umbilical como se fosse um anel de brilhantes que nunca ganhou de noivado do meu pai (Freud explica?). “É de recordação!” – se defendia. Sempre achei aquilo curioso e aquela “peça preciosa” muito esquisita mas, enfim…

Sei que quando houve o rompimento, meu umbigo – ao contrário da minha mãe – fez questão de esquecer o quão foi subordinado. Veio a este mundo com a intenção de desbravá-lo, mas foi se encolhendo a medida que meu corpo foi se esticando e os anos foram avançando. Queria se fazer invisível mas, ao mesmo tempo, carente e possessivo, exigia que eu só tivesse olhos pra ele. Calma lá, Seu Umbigo!

Comecei a ouvir boatos terríveis a respeito dele. Diziam os rumores que um umbigo sozinho era capaz de devorar uma pessoa. Lamentei por abrigar no meu corpo uma criatura tão perigosa e achei por bem ignorá-lo completamente. O treinamento foi árduo nos anos que se seguiram. Morria de medo que apontassem para a minha barriga na rua e dissessem: “Vejam, ela só enxerga o próprio umbigo!”

Ele, resignado, buscou conforto nas profundezas da minha barriga saliente. Nunca mais tivemos notícias um do outro. Acabei perdendo-o de vista e cheguei a lamentar por isso inúmeras vezes. Mas aí, hoje de manhã, curiosamente, eu acordei com o meu dedo indicador testando a profundidade em que ele vivia imerso há tantos anos. Fiquei surpresa ao constatar como havia ido longe o meu menino! Tão longe que foi difícil tocá-lo e se não fosse o auxílio do espelho seria impossível enxergá-lo.

Mas, ufa!, ele ainda estava lá e, graças a Deus, estava vivo. Nos olhamos. Meu umbigo e eu. Foi nessa hora que descobrimos uma saudade quase aguda um do outro. Foi como reencontrar um velho amigo com quem eu tinha muita coisa que gostaria de conversar, “causos” da minha jornada que, por escolha minha, foi tão distinta da dele. Entusiasmados, marcamos um novo encontro para o fim do dia, assim que cumpridas todas as tarefas de trabalho diário. Mas minha falta de jeito me fez esquecer nosso encontro. E foi nessa hora que ele me mostrou para quê veio.

Me pôs dentro da minha livraria preferida, ainda que eu achasse aquilo o cúmulo, com tanta coisa que ainda precisava ser feita em casa, me mostrou meia dúzia de livros com os quais eu venho flertando nas últimas semanas, me convenceu a comprar ao menos um deles (mas eu comprei três e sou ré confessa. Pronto, falei.), pediu um expresso com brownie pra mim e me fez escrever isso aqui para entender que, de uma vez por todas, preciso dar uma espiadinha nele uma vez por dia, pelo menos.

Nada que a prática não leve a quase perfeição, não é? A vida inteira te ensinam que egoísmo é defeito, um dia você acorda e descobre que mais do que uma definição de defeito ou qualidade, acima do bem ou do mal, egoísmo pode ser salvação e altruísmo perdição. Aí você vai lá e começa a aprender tudo de novo, e com gosto.

Roberta Simoni

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8 comentários sobre “Eu, eu mesma e meu umbigo.

  1. Engraçado… No início da semana ouvi meu namorado dizer que eu precisava esquecer um pouco os outros e que a minha falta de egoísmo pode fazer mal. Por isso eu digo que ele me entende tão bem, ta parecendo meu umbigo… rá.

    Bjim

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