Admirador à Nova Moda

Procura-se Admirador à Moda Antiga!

Hoje fui surpreendia por um “e-mail anônimo” de um suposto “admirador secreto” que se intitula como Mr. Big. Lembrei da primeira carta de amor que recebi na vida que, por sinal, também foi anônima. Tenho guardada até hoje, sem saber ao certo quem foi o remetente que desenhou aquele coração com dois pombinhos se beijando (bicando?) e escreveu um “Eu te amo” tremido do outro lado da folha. Brega. Mas meigo. Eu tinha 10 anos, e aquela carta me deixou furiosa. Depois vieram outras que só não me aborreceram mais graças à sabedoria da minha mãe que, vendo minha aflição diante daquelas ingênuas demonstrações de amor, me chamou para uma conversa séria, de mulher para “mulher”.

É muito bom ser amada, filha, não há nenhum mal nisso. E, acredite, um dia você vai desejar que isso aconteça com toda a sua força.” E acrescentou, cuidadosamente: “você precisa começar a aceitar que os meninos te admirem ao invés de chutá-los quando eles te elogiam, tá bom?” Tá bom. Já tem alguns anos que eu parei de bater neles, mamãe. Você já pode ficar orgulhosa da sua caçula! Mas e nos tarados, mamãe, eu posso bater? Só de leve… posso? Deixa, deixa…

Segue o e-mail do misterioso Mr. Big, com minhas observações em vermelho. Divirtam-se. 😉

“Eu não tenho blog. Na verdade tenho, mas só pra escrever bobeiras e ninguém lê (por isso ninguém lê…). Leio pouquíssimos blogs, pra não dizer que não leio nenhum. Escrevo há algum tempo e, essa informação vai ser importante, adoro mulheres que escrevem. Mas, assim como todo homem, gosto mais de mulher gostosa. E foi assim que cheguei até você. (devo me sentir lisonjeada?) Um amigo me mostrou uma foto sua no Facebook (tempos modernos, sinto saudades das cartas com com pombinhos bregas, corações mal desenhados e grafia ruim). E antes que me pergunte (acredite, eu teria medo de perguntar), meu amigo é seu amigo, e vi através do Facebook dele.

Depois de olhar suas fotos por alguns minutos, vasculhei e encontrei mais fotos e um blog. Pelas fotos descobri que você é mais gostosa do que eu pensava (essa é a parte em que eu deveria me sentir ainda mais lisonjeada, é? ah, ok…). E pelo blog, puta que pariu (ops, o rapaz se empolgou!), pelo blog descobri que você é a mulher da minha vida (ooooooooi???). Sem exageros, floreios ou galanteios (Aham Cláudia, senta lá…), até porque criei este email só pra te mandar este texto, e você não sabe quem eu sou (certeza?).

Você escreve maravilhosamente bem, mas é mais que isso. Você escreve com a alma (é, tenho mesmo esse péssimo hábito). Sei que é meio gay falar isso (é homofóbico o menino?), mas mesmo sabendo que é ficção, eu imagino você escrevendo. Dá pra ler você, dá pra conhecer você intimamente pelos seus textos (vai nessa…). E, quando você está lá, dentro de você (no bom sentido), vem você e desfila toda sua sensualidade nos textos. Você quer matar a gente? (eu não tenho intenção de matar ninguém, moço, só escrevo o que é natural pra mim, o que, para outras pessoas, dependendo de quem lê e de como lê, pode soar como provocação erótica… não me culpe por pensamentos pecaminosos alheios!)

Para um homem normal, digo, que gosta de mulher, não dá pra não imaginar você seminua escrevendo (ahhh, dá sim… pergunta só pro meu pai, que é um dos meus principais leitores!). Imaginar você contra a luz, só de blusinha, matando a gente pouco a pouco (Beta, A Assassina de Leitores Indefesos). Até porque, foto gostosa + textos sensuais é algo que nenhum homem consegue dissociar (a verdade é que vocês homens precisam de muito pouco ou nada para associarem tudo com sexo). Descobri depois que você é fotógrafa. Juro que não consegui não sonhar com você um dia sequer depois disso. Nem umzinho. (a hora do pesadelo 1, 2, 3, …)

Mas, ao mesmo tempo, percebi uma coisa nos seus textos: você é, na maioria das vezes, uma pessoa melancólica. Mesmo sendo “ficção”, dá pra perceber isso (sim, sim… praticamente uma maníaca-depressiva, me ajuda?). Uma mulher lindíssima, gostosíssima, que escreve sensacionalmente bem, fotografa igualmente bem, e por que não é a pessoa mais feliz do mundo? (Óhhhh mundo cruel!) Por que você não tem o homem que você quiser? Por que? Que homem em sã consciência não ia querer estar com você em qualquer momento? Na cama, escrevendo, fotografando, andando pela rua, sei lá. Que homem não ia querer isso? (Por que os dinossauros foram extintos da Terra? Por que Eva mordeu a maldita maçã? Por que eu nasci brasileira e pobre? Por que? Por que? “Óh vida, óh céus, óh azar!”)

Bem, Beta (com o perdão da intimidade), é isso. Só mandei este e-mail porque te achei meio triste nos últimos textos e quis que você soubesse que aqui, onde quer que seja, tem um cara que daria um braço para ter você, exatamente assim como você é. Exatamente. (Óuuun… isso foi bonitinho, de verdade!) E é sério. Então, continue escrevendo, continue fotografando, continue sendo gostosa (aí você tá pedindo demais, ô Seu Admirador, essa é a parte mais difícil e é a que os homens mais esperam de nós…) e continue sendo você. Que eu vou continuar sendo seu maior admirador – e acredite, I mean it. Beijos e me desculpe a intromissão.

p.s.: A parte de que eu daria um braço por você não é licença poética, DE VERDADE. Um dia espero que você possa descobrir que isso é verdade.” (Eu espero que não, Seu Mr. Big, pelo-amor-de-deus! Se um dia eu descubro que alguém perdeu um braço por minha causa, me jogo da ponte Rio-Niterói, e nós não queremos isso, certo? Então, agradeço por me oferecer seu braço, acredito na utilidade dele, mas acho que ele terá maior funcionalidade continuando exatamente onde está, ok?)

…Eis que eu me pego melancólica – como bem definiu o Seu Mr. Big – e nostálgica, sentindo saudades dos meninos de 12 anos que me mandavam cartinhas bregas de amor, me davam frascos de perfumes pela metade de presente (provavelmente roubados da mãe), bichinhos de pelúcia feiosos, que pegavam naquelas maquinas de jogos, como troféus dedicados à namoradinha. Deu saudade do primeiro pedido de namoro, logo depois do primeiro beijo às escondidas atrás da igreja, após a missa. Saudade dos amores puros e não idealizados em estereótipos.

Manhêêêê, sabe aquele dia que você falou? Chegou!

Roberta Simoni

Soninha de Verdade

Soninha não queria sair da cama. Menos pela preguiça matinal e mais pela vontade de fazer sexo. De novo. Olhou pro lado e Ricardo dormia profundamente, ressaqueado da noite anterior. Acabou pegando no sono outra vez e não se deu conta do lapso de tempo entre o momento em que decidiu voltar a dormir até a hora em que foi acordada por Ricardo encostando seu corpo no dela, abraçando-a por trás e roçando sua ereção entre as suas pernas. Ela considerava aquele o melhor jeito que um homem poderia encontrar de desejar “bom dia” a uma mulher. Acordaram devorando-se como há tanto tempo não faziam.

Ela só saiu do quarto mais tarde para ir até a cozinha buscar o número do delivery no imã da geladeira. Ele só vestiu um short para receber o entregador de pizza. Até ao banheiro foram juntos, tomaram banho no box apertado entre risadas, shampoo, sabonete e beijos molhados. Transaram no chuveiro. De novo.

Ricardo insistiu para Soninha ficar até segunda-feira de manhã. Poderiam passar outra noite juntos, sairiam no mesmo horário para trabalhar no dia seguinte. Soninha não quis, tinha outro compromisso. Mentira! O único compromisso que tinha era com o medo. Temia se deixar levar e acabar voltando para Ricardo. Ainda gostava dele. Menos do que antes, mas gostava. E era exatamente por isso que não podia ficar.

Passaram-se meses, talvez um ano ou mais, desde que se separaram. Ela saiu com outras pessoas. Ensaiou novos amores, mas ficou só no ensaio. Um dia resolveu ceder às incontáveis e incansáveis investidas de Ricardo. Saíram para jantar. Ele levou flores. Ela levou um escudo invisível. Por trás do escudo, um vestido vermelho impecavelmente lindo.

Era óbvio que ele ainda a amava. Todo mundo sabia. Sempre falava nela e não escondia de ninguém o que sentia, se relacionou superficialmente com outras mulheres e nem delas fez questão de esconder Soninha debaixo da cama ou atrás da cortina.

Como é típico, de longe Soninha voltou a ser a personificação da perfeição para Ricardo. “É a mulher da minha vida!”

Soninha sabia disso. Instintivamente sabia. Por isso, impôs limites à essa “nova-antiga” relação. Usou fitas de isolamento imaginárias. Seria só a Soninha de Mentirinha dele. Ele ficaria com o melhor dela e só nos dias propícios, e ela ficaria com o que de mais maravilhoso ele podia oferecer à Soninha de Mentirinha. Era um plano perfeito… teoricamente.

O que ela – nem ninguém – imaginava era que ele fosse sentir saudades da Soninha de Verdade. Mas ele sentiu. Mais do que isso: a desejou. Quis ficar com ela quando ela teve a primeira crise de TPM, quis acordar ao lado dela também nas segundas-feiras mal-humoradas, sentiu saudades de ouvi-la reclamando do banheiro molhado e dos copos sujos na pia da cozinha. Teve o impulso de buscá-la no trabalho quando falaram ao telefone e sentiu que ela estava num dia ruim. Virou homenzinho. Se tardiamente ou não, só nossa Soninha poderia responder.

O problema é que a Soninha de Verdade temia ser outra além da Soninha de Mentirinha com Ricardo. Por ora estava satisfeita em mergulhar no raso, sentia-se segura e confortável. Talvez, quando sentisse vontade de fazer apnéia numa profundidade maior, desse uma chance a um novo homem ou, quem sabe, uma nova chance a Ricardo? O que sabia era que agora só se sentia capaz de ser a Soninha que ele merecia: a de mentirinha, dentro do seu impecável vestido vermelho. Aquela Soninha que, afinal, ele tanto quis um dia.

Roberta Simoni

Soninha de Mentirinha

Ali Michael por Sofia Sanchez e Mauro Mongiello

À Gabs, por estimular continuamente minha inspiração.

Soninha chegou em casa sem a alma e sem os sapatos. Não sabia ao certo onde tinha deixado sua alma, mas os sapatos, pelo menos, ela trazia nas mãos, em segurança. Bebeu, mas não estava bêbada. Apesar de ter se esforçado a noite inteira para não ficar sóbria, a adrenalina causada pela briga atrapalhou seus planos de diversão. Se negou a entrar no carro de Ricardo na hora de ir embora, apesar da insistência dele por saber que àquela altura da madrugada ela não conseguiria pegar nenhum táxi de volta para casa, mas Soninha é uma amostra dessas mulheres que começaram a pipocar aos montes entre meados da década de setenta e oitenta. Essas que hoje estão entre os vinte e tanto e trinta e poucos anos, independentes, modernas, loucas por sexo, que não perdem tempo com picuinhas e ciúmes bobos e são auto-suficientes, isto é, até a primeira crise de carência aguda.

“Volto a pé, mas não volto com ele, nem que seja descalça porque essa desgraça de sapato me dá um calo terrível, mas é lindo e eu ainda tô pagando…”

Soninha é do tipo de mulher que à primeira vista chama a atenção pela beleza, e à segunda vista chama mais ainda pelo jeito cativante, extrovertido e com um intelecto pra ninguém colocar defeito, apesar dos cabelos loiros aparentemente denunciarem outra coisa. Cabelos naturalmente loiros, longos e lisos, diga-se de passagem. O sonho de toda patricinha que gasta rios de dinheiro com a mesma tintura que a Ana Hickman usa, chapinha de última geração e escova de tudo quanto é nacionalidade. Ela joga o cabelo de um lado pro outro, amarra, solta, faz coques sem o menor esforço nem intenção de fazer charme, o que torna cada movimento despretencioso ainda mais sensual e também insultante para as demais mulheres. Seu corpo não é sarado porque, como ela mesma anuncia aos quatro ventos, prefere gastar seu tempo e dinheiro exercitando seu cérebro a seu bumbum, mas, ainda assim, ele está visivelmente em cima. Não é do tipo de parar o trânsito, mas já fez um sujeito cair da bicicleta ao se perder no decote que deixava parte dos seus seios à mostra, seios que, por sinal, não são de silicone.

A mãe queria que ela fosse médica, o pai, advogada, mas ela saiu de casa com outra ideia na cabeça. Queria ser publicitária, e foi. Mudou de cidade, arrumou trabalho e pagou a faculdade sozinha, depois o aluguel do apartamento, a prestação do carro, e se acha no direito de dividir a conta do restaurante com o namorado quando necessário. Não era o caso de Ricardo. Eles estavam juntos há dois anos e ele nunca deixara ela pôr a mão na carteira, o que ela aceitava de bom grado porque sabia que não era nenhum sacrifício pra ele.

Se conheceram quando Ricardo, que ocupa um cargo de importância numa concessionária, contratou a agência onde Soninha trabalha para fazer a próxima campanha publicitária da empresa. Era ela quem estava à frente do projeto, a ideia tinha sido dela e o processo de criação do produto também. Ricardo não conseguia se decidir se ela era linda, competente, criativa ou gostosa. Na verdade, ela era tudo isso e mais um pouco, coisa que ele foi descobrindo a cada novo encontro profissional e, mais tarde, íntimo. Desnecessário falar que ele se apaixonou perdidamente.

Na verdade, é fácil se apaixonar por Soninha, Ricardo não era o primeiro e nem seria o último. Ela tem qualquer coisa genuína de menina, qualquer coisa avassaladora de mulher e essa mistura dá samba, inclusive na cama.

Ela acreditou mesmo que com Ricardo ia ser diferente. Bem na verdade ela assustava os caras e não era pra menos, sempre com uma resposta afiada na ponta da língua, indomável quando contrariada, destemida e determinada. Teimosa feito uma mula e toda trabalhada no discurso de que não precisa de homem para ser feliz, como se a gente acreditasse. Mas Ricardo gostava do jeito arredio da moça, soava como um constante desafio pra ele, que tinha um jeitinho todo especial de amolecer o coração dela. Quando Soninha se dava conta, estava fazendo tudo o que o Ricardo queria, e com o maior gosto do mundo.

Mas aí, veio a primeira briga boba, a segunda e depois a terceira. Ricardo descobriu que a Soninha perfeita era de mentirinha, a Soninha real sofria de TPM, acordava mortalmente mal-humorada e era tão densa e frágil às vezes. Soninha ficava altamente quebrável quando se sentia carente, coisa que a princípio Ricardo tirava de letra, mas depois de constatar que sua namorada não era tão diferente assim das outras mulheres, foi deixando sua paciência se esvair aos poucos. Até que o episódio do bar, onde discutiram por nada, ou por tudo, tornou tudo muito óbvio: Ricardo até gostava de Soninha, mas nunca esteve apaixonado por ela, mas pela ideia que tinha dela.

Na verdade, é muito mais fácil se apaixonar por uma ideia do que por uma pessoa. E, no mundo de Ricardo, só existia a Soninha segura, feliz, a publicitária que ele tanto admirava. Não estava preparado para lidar com a Soninha insegura, passando por uma crise na carreira e frágil daquele jeito. Não sabia como agir com a namorada e, sem perceber, começou a negligenciar o relacionamento.

Soninha sentiu vontade de chorar, mas não conseguiu, ou queria ter vontade de chorar, mas nem isso teve. Não estava muito longe de casa quando se deu conta de que estava repetindo padrões, namorando caras que, involuntariamente se apaixonavam por um ideal de mulher no qual ela parecia se encaixar perfeitamente, até demonstrar as primeiras falhas ou ficar inoperante em determinados dias. E isso fazia com eles perdessem total ou parcialmente o interesse por ela, coisa que, quando ela detectava, era fatal.

Quando estava entrando em casa, Ricardo ligou preocupado, ela disse que estava bem e que só precisava de um tempo para pensar na vida. Sabia que se separariam, senão amanhã, dali a algum tempo, mas terminou com ele no dia seguinte. Já estava acostumada a ver seus relacionamentos acabando assim, podia até começar diferente, mas sempre terminava do mesmo jeito, achou que não fosse chorar, porque já estava acostumada a sentir aquela dor, mas chorou – e de soluçar. Lá estava sua alma de volta, enfim.

Se olhou no espelho com aquelas olheiras enormes, os olhos vermelhos, a cara inchada, o cabelo embaraçado e desejou que alguém pudesse vê-la naquele instante e se apaixonar por ela bem daquele jeito.

Roberta Simoni