Soninha de Mentirinha

Ali Michael por Sofia Sanchez e Mauro Mongiello

À Gabs, por estimular continuamente minha inspiração.

Soninha chegou em casa sem a alma e sem os sapatos. Não sabia ao certo onde tinha deixado sua alma, mas os sapatos, pelo menos, ela trazia nas mãos, em segurança. Bebeu, mas não estava bêbada. Apesar de ter se esforçado a noite inteira para não ficar sóbria, a adrenalina causada pela briga atrapalhou seus planos de diversão. Se negou a entrar no carro de Ricardo na hora de ir embora, apesar da insistência dele por saber que àquela altura da madrugada ela não conseguiria pegar nenhum táxi de volta para casa, mas Soninha é uma amostra dessas mulheres que começaram a pipocar aos montes entre meados da década de setenta e oitenta. Essas que hoje estão entre os vinte e tanto e trinta e poucos anos, independentes, modernas, loucas por sexo, que não perdem tempo com picuinhas e ciúmes bobos e são auto-suficientes, isto é, até a primeira crise de carência aguda.

“Volto a pé, mas não volto com ele, nem que seja descalça porque essa desgraça de sapato me dá um calo terrível, mas é lindo e eu ainda tô pagando…”

Soninha é do tipo de mulher que à primeira vista chama a atenção pela beleza, e à segunda vista chama mais ainda pelo jeito cativante, extrovertido e com um intelecto pra ninguém colocar defeito, apesar dos cabelos loiros aparentemente denunciarem outra coisa. Cabelos naturalmente loiros, longos e lisos, diga-se de passagem. O sonho de toda patricinha que gasta rios de dinheiro com a mesma tintura que a Ana Hickman usa, chapinha de última geração e escova de tudo quanto é nacionalidade. Ela joga o cabelo de um lado pro outro, amarra, solta, faz coques sem o menor esforço nem intenção de fazer charme, o que torna cada movimento despretencioso ainda mais sensual e também insultante para as demais mulheres. Seu corpo não é sarado porque, como ela mesma anuncia aos quatro ventos, prefere gastar seu tempo e dinheiro exercitando seu cérebro a seu bumbum, mas, ainda assim, ele está visivelmente em cima. Não é do tipo de parar o trânsito, mas já fez um sujeito cair da bicicleta ao se perder no decote que deixava parte dos seus seios à mostra, seios que, por sinal, não são de silicone.

A mãe queria que ela fosse médica, o pai, advogada, mas ela saiu de casa com outra ideia na cabeça. Queria ser publicitária, e foi. Mudou de cidade, arrumou trabalho e pagou a faculdade sozinha, depois o aluguel do apartamento, a prestação do carro, e se acha no direito de dividir a conta do restaurante com o namorado quando necessário. Não era o caso de Ricardo. Eles estavam juntos há dois anos e ele nunca deixara ela pôr a mão na carteira, o que ela aceitava de bom grado porque sabia que não era nenhum sacrifício pra ele.

Se conheceram quando Ricardo, que ocupa um cargo de importância numa concessionária, contratou a agência onde Soninha trabalha para fazer a próxima campanha publicitária da empresa. Era ela quem estava à frente do projeto, a ideia tinha sido dela e o processo de criação do produto também. Ricardo não conseguia se decidir se ela era linda, competente, criativa ou gostosa. Na verdade, ela era tudo isso e mais um pouco, coisa que ele foi descobrindo a cada novo encontro profissional e, mais tarde, íntimo. Desnecessário falar que ele se apaixonou perdidamente.

Na verdade, é fácil se apaixonar por Soninha, Ricardo não era o primeiro e nem seria o último. Ela tem qualquer coisa genuína de menina, qualquer coisa avassaladora de mulher e essa mistura dá samba, inclusive na cama.

Ela acreditou mesmo que com Ricardo ia ser diferente. Bem na verdade ela assustava os caras e não era pra menos, sempre com uma resposta afiada na ponta da língua, indomável quando contrariada, destemida e determinada. Teimosa feito uma mula e toda trabalhada no discurso de que não precisa de homem para ser feliz, como se a gente acreditasse. Mas Ricardo gostava do jeito arredio da moça, soava como um constante desafio pra ele, que tinha um jeitinho todo especial de amolecer o coração dela. Quando Soninha se dava conta, estava fazendo tudo o que o Ricardo queria, e com o maior gosto do mundo.

Mas aí, veio a primeira briga boba, a segunda e depois a terceira. Ricardo descobriu que a Soninha perfeita era de mentirinha, a Soninha real sofria de TPM, acordava mortalmente mal-humorada e era tão densa e frágil às vezes. Soninha ficava altamente quebrável quando se sentia carente, coisa que a princípio Ricardo tirava de letra, mas depois de constatar que sua namorada não era tão diferente assim das outras mulheres, foi deixando sua paciência se esvair aos poucos. Até que o episódio do bar, onde discutiram por nada, ou por tudo, tornou tudo muito óbvio: Ricardo até gostava de Soninha, mas nunca esteve apaixonado por ela, mas pela ideia que tinha dela.

Na verdade, é muito mais fácil se apaixonar por uma ideia do que por uma pessoa. E, no mundo de Ricardo, só existia a Soninha segura, feliz, a publicitária que ele tanto admirava. Não estava preparado para lidar com a Soninha insegura, passando por uma crise na carreira e frágil daquele jeito. Não sabia como agir com a namorada e, sem perceber, começou a negligenciar o relacionamento.

Soninha sentiu vontade de chorar, mas não conseguiu, ou queria ter vontade de chorar, mas nem isso teve. Não estava muito longe de casa quando se deu conta de que estava repetindo padrões, namorando caras que, involuntariamente se apaixonavam por um ideal de mulher no qual ela parecia se encaixar perfeitamente, até demonstrar as primeiras falhas ou ficar inoperante em determinados dias. E isso fazia com eles perdessem total ou parcialmente o interesse por ela, coisa que, quando ela detectava, era fatal.

Quando estava entrando em casa, Ricardo ligou preocupado, ela disse que estava bem e que só precisava de um tempo para pensar na vida. Sabia que se separariam, senão amanhã, dali a algum tempo, mas terminou com ele no dia seguinte. Já estava acostumada a ver seus relacionamentos acabando assim, podia até começar diferente, mas sempre terminava do mesmo jeito, achou que não fosse chorar, porque já estava acostumada a sentir aquela dor, mas chorou – e de soluçar. Lá estava sua alma de volta, enfim.

Se olhou no espelho com aquelas olheiras enormes, os olhos vermelhos, a cara inchada, o cabelo embaraçado e desejou que alguém pudesse vê-la naquele instante e se apaixonar por ela bem daquele jeito.

Roberta Simoni

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11 comentários sobre “Soninha de Mentirinha

  1. Pô, nem precisei esperar tanto, afinal. Desde que você postou no Twitter que tinha acabado de escrever um conto, eu estava muito curioso. Não havia lido seus contos. Suas crônicas são irresistíveis, mas este conto… nossa! Bom demais pra um final de tarde chuvoso como esse. Parabéns!

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