Soninha de Verdade

Soninha não queria sair da cama. Menos pela preguiça matinal e mais pela vontade de fazer sexo. De novo. Olhou pro lado e Ricardo dormia profundamente, ressaqueado da noite anterior. Acabou pegando no sono outra vez e não se deu conta do lapso de tempo entre o momento em que decidiu voltar a dormir até a hora em que foi acordada por Ricardo encostando seu corpo no dela, abraçando-a por trás e roçando sua ereção entre as suas pernas. Ela considerava aquele o melhor jeito que um homem poderia encontrar de desejar “bom dia” a uma mulher. Acordaram devorando-se como há tanto tempo não faziam.

Ela só saiu do quarto mais tarde para ir até a cozinha buscar o número do delivery no imã da geladeira. Ele só vestiu um short para receber o entregador de pizza. Até ao banheiro foram juntos, tomaram banho no box apertado entre risadas, shampoo, sabonete e beijos molhados. Transaram no chuveiro. De novo.

Ricardo insistiu para Soninha ficar até segunda-feira de manhã. Poderiam passar outra noite juntos, sairiam no mesmo horário para trabalhar no dia seguinte. Soninha não quis, tinha outro compromisso. Mentira! O único compromisso que tinha era com o medo. Temia se deixar levar e acabar voltando para Ricardo. Ainda gostava dele. Menos do que antes, mas gostava. E era exatamente por isso que não podia ficar.

Passaram-se meses, talvez um ano ou mais, desde que se separaram. Ela saiu com outras pessoas. Ensaiou novos amores, mas ficou só no ensaio. Um dia resolveu ceder às incontáveis e incansáveis investidas de Ricardo. Saíram para jantar. Ele levou flores. Ela levou um escudo invisível. Por trás do escudo, um vestido vermelho impecavelmente lindo.

Era óbvio que ele ainda a amava. Todo mundo sabia. Sempre falava nela e não escondia de ninguém o que sentia, se relacionou superficialmente com outras mulheres e nem delas fez questão de esconder Soninha debaixo da cama ou atrás da cortina.

Como é típico, de longe Soninha voltou a ser a personificação da perfeição para Ricardo. “É a mulher da minha vida!”

Soninha sabia disso. Instintivamente sabia. Por isso, impôs limites à essa “nova-antiga” relação. Usou fitas de isolamento imaginárias. Seria só a Soninha de Mentirinha dele. Ele ficaria com o melhor dela e só nos dias propícios, e ela ficaria com o que de mais maravilhoso ele podia oferecer à Soninha de Mentirinha. Era um plano perfeito… teoricamente.

O que ela – nem ninguém – imaginava era que ele fosse sentir saudades da Soninha de Verdade. Mas ele sentiu. Mais do que isso: a desejou. Quis ficar com ela quando ela teve a primeira crise de TPM, quis acordar ao lado dela também nas segundas-feiras mal-humoradas, sentiu saudades de ouvi-la reclamando do banheiro molhado e dos copos sujos na pia da cozinha. Teve o impulso de buscá-la no trabalho quando falaram ao telefone e sentiu que ela estava num dia ruim. Virou homenzinho. Se tardiamente ou não, só nossa Soninha poderia responder.

O problema é que a Soninha de Verdade temia ser outra além da Soninha de Mentirinha com Ricardo. Por ora estava satisfeita em mergulhar no raso, sentia-se segura e confortável. Talvez, quando sentisse vontade de fazer apnéia numa profundidade maior, desse uma chance a um novo homem ou, quem sabe, uma nova chance a Ricardo? O que sabia era que agora só se sentia capaz de ser a Soninha que ele merecia: a de mentirinha, dentro do seu impecável vestido vermelho. Aquela Soninha que, afinal, ele tanto quis um dia.

Roberta Simoni

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13 comentários sobre “Soninha de Verdade

    • Laercio, adorei o “benditas cólicas”, hahahaha!
      Quanto a montagem da foto, não foi feito por mim. Achei por um acaso na internet. E, na verdade, foi o que me deu a ideia de criar o conto “Soninha de Verdade”, inspirado no anterior. Que bom que gostou! 😉

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  1. Pingback: Tweets that mention Soninha de Verdade « Janela de Cima -- Topsy.com

  2. Somos legião, no budismo a concepção é que somos muitos, memes de Dawkins.

    “Eu sou contraditório, eu sou imenso. Há multidões dentro de mim.” Walt whitman

    Não existe a Soninha de verdade ou mentira. É a mesma Soninha.

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  3. QUANDO se quer de verdade ,
    há de querer-se
    os defeitos
    e as qualidades…

    as mulheres não podem querer ser a Soninha de MENTIRA, é trair-se…pois sabemos muito bem que quando os queremos, temos de aceitar o todo deles, por que eles não o nosso ? eu penso assim…

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