Das aparências

Pareço legal, mas sou invocada… esse meu péssimo hábito de ser simpática tira completamente a minha credibilidade.

Pareço uma pessoa tolerante, mas fico irritada com gente lerda andando à minha frente numa calçada apertada; não me conformo em ter que desviar da fumaça de um fumante na rua; tenho vontade de passar por cima de motorista que não passa dos 40km por hora na pista da esquerda; não consigo entender o que leva as pessoas a ocuparem o espaço central da escada rolante na saída do metrô enquanto poderiam se manter em um dos lados para liberar a passagem. Em suma: sofro de um altíssimo grau de intolerância para situações que passam despercebidas para a maioria das pessoas. Sorte a delas. Azar o meu por elas manterem desativado o botãozinho do bom senso.

Pareço uma típica carioca da gema, mas às vezes não suporto a zona da minha cidade. Pareço uma brasileira feliz, mas pelo menos uma vez por dia eu penso em me mudar pra outro canto do mundo onde o básico funcione. Isso sem falar na vontade constante de voltar pro meu planeta…

Quem me vê por aí sorrindo, cheia de dentes, nem imagina que eu rodo a baiana quando me sinto injustiçada; que eu viro uma leoa para defender os meus; que eu sou dona de uma sinceridade quase insultante e que crio climão para não sofrer de indigestão ou não morrer entalada.

Pareço auto-suficiente, mas me peguei sentindo falta da minha mãe me mandando calçar o chinelo para não me machucar com os cacos de vidro do copo que acabei de quebrar, e quase chorei de raiva porque o papel higiênico acabou e eu não tive ninguém além de mim mesma para acusar de não ter ido ao supermercado.

Pareço altamente sociável, mas se me observarem bem de perto, sou meio autista.  Pareço também uma infinidade de coisas que, de fato, sou. E tô aqui para provar que o clichê “de perto ninguém é normal” procede. E se de longe tem gente que até engana, esse não é o meu caso, como podem ver…

Roberta Simoni