Do que você (não) sabe.

Eu não sei o que você pensa a meu respeito – se é que o fazes – mas quase acho graça quando fala que me conhece muito bem.

Você não sabe que tenho sonhos em preto e branco, e que conjugo o tempo pelo que sou quando estou dormindo e acordada.

Não sabe que nesses sonhos descoloridos há música francesa tocando no rádio e que eu não só consigo entender as letras, como sei cantar todas as canções.

Não imagina que o rádio dos meus sonhos só toca as músicas que gosto, e quando não há nada de bom tocando em nenhuma estação, o rádio se cala. E assim permanece por longos intervalos.

Já pensou como seria bom se eu fosse como esse rádio? Se tudo que eu falasse soasse como música aos seus ouvidos e se eu só falasse quando fosse para te dizer o que você gosta de ouvir?

É claro que já pensou, que já teve vontade de me calar a boca, o impulso de interromper bruscamente meus pensamentos tortos de tão certos a seu respeito, mas aposto que se viu recriando as minhas frases tolas na sua cabeça uma centena de vezes antes de dormir.

E você nem sabe dos julgamentos que faço intimamente, nem mesmo de ti, pois pensa que eu já te disse tudo, com esse meu péssimo hábito de dar voz a tudo que me passa pela cabeça, tantas vezes sem antes passar pelas vias do coração. Mas estou guardando o melhor pro final.

Você não notou que eu sou outra a cada dia. Você poderia ter se apaixonado por várias “mins”, mas só gostou de uma ou outra que se deu ao trabalho de conhecer. Poderia ter se deitado com várias mulheres e ter feito planos diferentes com cada uma delas. Você nunca teria se entediado se tivesse notado…

Quem me diria hermética? Qualquer estranho, mas não você, afinal, conhece-me como a palma dessa tua mão bonita que você nunca parou para observar direito.

Julga minha transparência como leitura fácil, mas não passou do primeiro parágrafo.

Roberta Simoni

Sou Rio e Sorrio

Hoje foram tantas as coisas que provocaram o meu riso que se eu pudesse teria sorrido só metade delas para guardar a outra parte para os dias menos propícios às graças.

Tenho o riso solto e às vezes queria poder prender um pouco pra não gastar tudo de uma vez. Mas gastei. Gastei tudo. Vendo aquela foto minha que você tirou; lendo um trecho irônico do livro do Alan Pauls; vendo o novo filme do Wood Allen; gastei rindo de mim, ouvindo a mesma música toda santa manhã, fugindo da tevê como todo santo domingo, fazendo as mesmas promessas de toda santa segunda-feira e ainda enchendo a boca pra dizer que não sou dada a rotinas sagradas. Aham.

Gastei meu riso vendo gente rindo à toa. Me joguei no tapete verde do parque e fiz as pazes com o sol e com a literatura. Dei uma pausa na leitura para fazer uma anotação e foi quando vi que a velhinha que passava também parou de caminhar para assistir a astúcia das crianças que se penduravam nos galhos fortes de uma enorme árvore à nossa frente. Ela agora sorri com os olhos e tem olhos brilhantes de criança na pele enrugada de gente que tá no mundo faz tempo. Nem percebe que eu a observo observando os moleques, tampouco desconfia que me provoca qualquer coisa parecida com emoção.

Acho que viver num lugar onde a vida é percebida é de uma delicadeza e graciosidade quase invisível aos olhos humanos e incompreensível ao olhar limitado que a gente tende a ter se não se força a enxergar melhor. E se meus olhos míopes vêem cenas que entendem como uma espécie de bênção, eu aceito a graça. E fico grata.

Nessas tardes felizes como as de ontem e hoje parece que não há outro lugar no mundo e que o mundo não teve antes, nem haverá depois. É só isso. Ver o sol se pôr atrás do Morro Dois Irmãos, pedalar da Urca ao aeroporto Santos Dumont para ver de perto os aviões decolarem, repousar na Pedra do Arpoador, me esticar no gramado do aterro do Flamengo entre o parque e a praia, tomar café no Parque Lage, fotografar a tarde inteira, dar longas caminhadas na Lagoa e ter a possibilidade de viver um pouco de fim de semana todo fim de dia de feira.

Viver as tardes do Rio de Janeiro é ter sempre a certeza de que nunca será possível se decidir de que forma a gente pode ser mais feliz aqui.

E não há nada como se sentir feliz onde se vive. É como sentir-se, enfim, parte de alguma coisa boa num universo estranho, onde tantas vezes nada parece fazer parte de você.

Roberta Simoni

“Rio, rio, rio
Rio pra não chorar
Pra quem não sabe sou rio
A cantar

Sou do Flamengo
Sou ali em Botafogo
Sou da casquinha do ovo
E essas flores
Na Rocinha vou plantar
Quem olha minha barraca
No morro de Santa Marta
Quer morar

Se tenho fome
Como logo o Pão de Açúcar
Urro no topo da Urca
Se quero abraço
Tenho o Cristo pra abraçar
Tamborim pra ti tarol
Escolados pelo sol
Rio e morro de amar

Rio, rio, rio
Rio pra não chorar
Pra quem não sabe sou Rio
A cantar.”

(Vide Gal – Marisa Monte / Composição Carlinhos Brown)

Nós, heróis.

Quando estudamos roteiro, seja de cinema ou de televisão, aprendemos que toda jornada de um “herói” começa pela recusa. Seja o herói o Superman, o Batman, ou uma pessoa comum com dilemas nada fictícios.

Como muito bem explicava o Décio, meu professor de roteiro: “Estava o mundo posto em sossego quando…”

O herói tá lá no seu mundinho quando, de repente, surge um problema ou um novo desafio e ele se vê obrigado (ou tentado) a enfrentá-lo.

Ele recusa ou demora a aceitar o chamado, geralmente porque tem medo, até que encontra um mentor que o convence a aceitar e oferece ajuda. Normalmente é aquele cara que diz “vai dar tudo certo” e se nada der certo, ele estará lá mesmo assim para dar apoio.

O herói, então, abandona o “mundo comum”, passa por testes, encontra aliados e enfrenta inimigos, obtém êxito em suas provações, se frustra em outras, passa por crises,  pensa em desistir de tudo, mas volta ainda mais forte, preparado para o desafio final, onde coloca em prática todo o aprendizado que recebeu ao longo da trama.

Qualquer semelhança com a sua vida não é mera coincidência…

Enfrentar leões, sacrificar tigres, engolir sapos, comer mosca.

Se a gente não faz isso tudo num dia só, faz pelo menos um deles. Eu, como sou dotada de talentos múltiplos para minúsculos desastres cotidianos, não raro realizo todas essas tarefas num único dia. Nem por isso ganho uma medalha diariamente. Vida de herói anônimo não é mole…

Você pode enfrentar um ou mil leões por dia e normalmente isso depende do estilo de vida que você adota, ou da selva em que você vive, fato é que todo dia haverá um leão que seja para ser derrotado, na espreita para te atacar. Sabe aquela máxima que diz “se ficar o bicho pega e se correr o bicho come”? Então. Algumas vezes não é nem questão de matar ou morrer, mas de se esconder do bicho ou se disfarçar para escapar. E ai de quem disser que criatividade para se livrar de um leão não é atitude heróica!

Sacrificar tigres, na minha opinião, é o mais difícil dos desafios, porque normalmente os tigres que você tem que matar são os que você mesmo criou, viu crescer, deu de comer e quando se deu conta, o bicho ficou maior que você e tentou te devorar. São aqueles defeitozinhos e aqueles medinhos que deixaram de ser “inhos” e tornaram-se a causa de muitos males na sua vida e a única forma de detê-los é sacrificando.

“Dentro de mim morreram muitos tigres, os que ficaram, no entanto, são livres.” Essa frase é do Lau Siqueira (pelo menos foi isso que o Google me disse…), mas quem me mostrou foi a Gabs, e eu achei sensacional.

Engolir sapos e comer moscas é outra coisa que todo mundo faz o tempo todo, uns com mais dificuldade, outros com menos. Eu sou do grupo dos que não engolem sapos com facilidade, tampouco saboreio uma mosca, mas quem disse que consigo escapar disso? Vai dizer que isso não é um ato heróico de todo dia? Só tendo superpoderes para suportar engolir certas coisas a seco…

Todo mundo é muito herói. Cada um com suas batalhas diárias, internas ou externas. A jornada de ninguém é diferente, o desfecho é que muda…

E o que a gente sempre torce é para que o herói vença no final.

Roberta Simoni

Depressa

Oi, Junho! Mas… já?

Você chegou rápido de novo, seu apressado!

Junho, Junho… o que trazes pra mim? Uma alegria, dois ou três dias de prazer e paz? Por favor, diga que sim!

Menos sustos este mês, eu espero. Mais saúde, boas notícias, muitas iniciativas – e mais “acabativas” ainda – e se não for pedir demais, um bocadinho de dinheiro pra gente não passar outro mês no vermelho.

Ah, Junho… só de falar teu nome já me alivia! Quando você vem é sinal de que o seu amigo Julho está para chegar. E ainda que eu não seja aquela que adora fazer aniversário, sou aquela que acredita em inferno astral e no final dele, acima de tudo.

É você, Junho, quem vai levar ele daqui pra bem longe, por isso, não se alongue muito nos próximos dias. Não seja prolixo, demasiado cansativo, tampouco pedante ou irritante. Já que veio rápido, vá depressa!

Seja ameno como o clima da estação de agora e não vá sem deixar saudades…

Roberta Simoni