Nós, heróis.

Quando estudamos roteiro, seja de cinema ou de televisão, aprendemos que toda jornada de um “herói” começa pela recusa. Seja o herói o Superman, o Batman, ou uma pessoa comum com dilemas nada fictícios.

Como muito bem explicava o Décio, meu professor de roteiro: “Estava o mundo posto em sossego quando…”

O herói tá lá no seu mundinho quando, de repente, surge um problema ou um novo desafio e ele se vê obrigado (ou tentado) a enfrentá-lo.

Ele recusa ou demora a aceitar o chamado, geralmente porque tem medo, até que encontra um mentor que o convence a aceitar e oferece ajuda. Normalmente é aquele cara que diz “vai dar tudo certo” e se nada der certo, ele estará lá mesmo assim para dar apoio.

O herói, então, abandona o “mundo comum”, passa por testes, encontra aliados e enfrenta inimigos, obtém êxito em suas provações, se frustra em outras, passa por crises,  pensa em desistir de tudo, mas volta ainda mais forte, preparado para o desafio final, onde coloca em prática todo o aprendizado que recebeu ao longo da trama.

Qualquer semelhança com a sua vida não é mera coincidência…

Enfrentar leões, sacrificar tigres, engolir sapos, comer mosca.

Se a gente não faz isso tudo num dia só, faz pelo menos um deles. Eu, como sou dotada de talentos múltiplos para minúsculos desastres cotidianos, não raro realizo todas essas tarefas num único dia. Nem por isso ganho uma medalha diariamente. Vida de herói anônimo não é mole…

Você pode enfrentar um ou mil leões por dia e normalmente isso depende do estilo de vida que você adota, ou da selva em que você vive, fato é que todo dia haverá um leão que seja para ser derrotado, na espreita para te atacar. Sabe aquela máxima que diz “se ficar o bicho pega e se correr o bicho come”? Então. Algumas vezes não é nem questão de matar ou morrer, mas de se esconder do bicho ou se disfarçar para escapar. E ai de quem disser que criatividade para se livrar de um leão não é atitude heróica!

Sacrificar tigres, na minha opinião, é o mais difícil dos desafios, porque normalmente os tigres que você tem que matar são os que você mesmo criou, viu crescer, deu de comer e quando se deu conta, o bicho ficou maior que você e tentou te devorar. São aqueles defeitozinhos e aqueles medinhos que deixaram de ser “inhos” e tornaram-se a causa de muitos males na sua vida e a única forma de detê-los é sacrificando.

“Dentro de mim morreram muitos tigres, os que ficaram, no entanto, são livres.” Essa frase é do Lau Siqueira (pelo menos foi isso que o Google me disse…), mas quem me mostrou foi a Gabs, e eu achei sensacional.

Engolir sapos e comer moscas é outra coisa que todo mundo faz o tempo todo, uns com mais dificuldade, outros com menos. Eu sou do grupo dos que não engolem sapos com facilidade, tampouco saboreio uma mosca, mas quem disse que consigo escapar disso? Vai dizer que isso não é um ato heróico de todo dia? Só tendo superpoderes para suportar engolir certas coisas a seco…

Todo mundo é muito herói. Cada um com suas batalhas diárias, internas ou externas. A jornada de ninguém é diferente, o desfecho é que muda…

E o que a gente sempre torce é para que o herói vença no final.

Roberta Simoni

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18 comentários sobre “Nós, heróis.

  1. UAI PEPECO!!! Post misturando jornada do herói com insights seus, sempre fantásticos, o que mais eu poderia querer?

    Só faltou o Joseph Campbell levantar do túmulo em Honolulu, dar um beijo na Clarice Lispector e, ambos, lhe darem os “parabéns, nossa cria!”

    😉

    Né?

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  2. Hoje é dia de discordar de você e da G.
    Nem todo mundo é herói. Tem gente que tenta ser herói e quebra a cara até perceber que cabe melhor no papel de vilão.

    E, mantendo suas metáforas zoológicas, tem gente que não precisa fazer nada disso; basta ter sangue de barata.

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  3. Heróis… É o que todos poderiam (ou gostariam) de ser, o que não falta realmente são leões para enfrentar e sapos para comer.
    Mas nessa jornada além dos heróis e vilões, temos os mocinhos, tadinhos!

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  4. Heróis? Entendo a sua imagem. Mas herói remete para o sobre-humano. Interessa-me mais essa coisa de sermos meros humanos. Explico.
    Para mim, ser inteiro em tudo o que faço já bastaria. Chegada a noite, o meu descanso sempre depende do que fiz, ou não, durante o dia. Fui inteiro, absolutamente inteiro com quem interagi? Fiz o melhor do que poderia ter sido feito? O melhor daquilo que sou capaz? Estive completo em cada acto? E comigo próprio? Cumpri aquilo que quero para mim? Dei o melhor de mim? Disse exactamente o que deveria ter dito? Isto aplica-se a todos os seres humanos com quem me deparo, próximos e não próximos, mas também aos objectivos que estabeleço para mim.

    O mais irónico é que tudo isso, mesmo que concretizado, pode ser muito pouco. Ou mesmo nada. Pode ser apenas um rotundo falhanço. Acredite. E daí nasce a minha desconfiança relativamente aos seus heróis. Mesmo quando achamos que cumprimos tudo o que haveria para cumprir, mesmo quando entregamos tudo o que temos, a insuficiência do gesto pode acontecer. Pode ser o mais sincero que temos para dar e simultaneamente um acto falhado. Porque se há coisa profundamente humana é a de falhar. Falhar na comunicação. Falhar nos gestos. Falhar nas palavras escolhidas para se expressar. Falhar até de modo altamente convicto achando que se está a acertar. E descobrir que de heróis temos pouco, de semi-deuses quase nada e de meros seres humanos imperfeitos tudo.

    Enfim, dito isto, complemento as minhas tíbias considerações com mais duas ou três coisas, à laia de apresentação, uma vez que aqui comento pela primeira vez: sou português, de lisboa; não escrevo segundo o acordo ortográfico nem o farei nunca; gosto do que escreve e de como escreve, há muito; e, sendo eu um “portuga” – expressão utilizada por uma sua conterrânea para caracterizar a supostamente atávica dificuldade dos portugueses em entender os brasileiros –, deixo expresso o desejo de não ter sido inapropriado no meu comentário relativamente ao que escreveu.

    Um abraço do outro lado do oceano.

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