Penso, logo…

Enquanto isso, através dessa parede fina, eu ouço em alto e bom tom os dois duelando verbalmente e não consigo decidir qual deles tem mais razão, nem quem tem maior dom de persuasão…

– (…) Mas, por que perdeu o sentido?

– Porque perdeu.

– Vai me dizer que perdeu a graça também?

– É. Perdeu. A graça. O sentido. A razão de existir…

– Não dá para perder o que nunca se teve.

– O que eu nunca tive? Graça? Sentido? Razão de existir?

– Razão de existir, talvez. Essa sua mania de querer encontrar sentido em tudo é esquizofrenia, sabia?

– Não me diga? Virou psiquiatra agora? Então me diga, “doutor psiquê”: você nunca questiona o sentido de nada?

– Não precisa fazer sentido sempre.

– Existir basta?

– Quase. Viver é o suficiente.

– E qual a razão de existir quando não há nenhum sentido?

– Se eu me fizesse essa pergunta seria como você, viveria buscando a lógica da vida e esqueceria de viver.

– Não é verdade!!! É verdade??? Ok. É verdade.

– Você pensa demais…

– Você sente demais…

– Não se ocupe tanto procurando sentido pro que eu sinto!

– Eu faria isso se não fosse o seu cérebro. E você deveria agradecer e aproveitar que tem um para usar.

– Eu usaria e agradeceria depois, nessa ordem, se você fosse mais eficiente…

– Eu seria, se você me deixasse pensar melhor…

– Eu deixaria, se você não me impedisse de viver.

– Penso, logo existo. E quanto a você?

– Eu não penso, logo vivo.

– Ou vive tanto que, logo, não pensa…

– Ou isso.

(… e agora? Quem poderá me defender de um coração e um cérebro igualmente persuasivos?)

Roberta Simoni