O Batom Vermelho

Meus sonhos têm sido responsáveis por metade da minha cota de inspiração ultimamente. Durmo, sonho, acordo, escrevo. Não exatamente nessa ordem.

Estava lendo Cortázar quando bateu aquele sono gostoso ainda agora. Quando esse tipo de coisa acontece, largo o que eu estiver fazendo (e isso incluí até mesmo o Cortázar) e me entrego de corpo, alma e ilusão.

É… ilusão! Normalmente essa sensação gostosa de leseira passa depressa e quando chego a conseguir dormir, o sono nunca é o bastante.

Dessa vez não durou mais do que 10 minutos, e o mais lamentável é que eu acordei como se tivesse dormido por 10 horas, ou melhor, minha mente acordou a todo vapor, só ela. O corpo segue padecendo…

Sonhei que eu estava casando. Ora eu era o noivo, ora a noiva, e vivia a aflição na pele dos dois. Quando eu era o noivo e estava prestes a entrar na igreja, tomado por um nervosismo típico de quem tem consciência que vai fazer merda, eu aparecia, dessa vez como noiva, já me sentindo na pele dela e no vestido longo, pesado e desconfortável que a pobre usava, como todo bom vestido de noiva deve ser.

Ela, ou melhor, eu – a noiva – puxava o noivo antes que ele entrasse na igreja e começava a mexer no paletó dele. Procurava pelo meu gloss rosa, não encontrava. O noivo, nervoso, me mandava parar de mexer no seu bolso, eu perguntava pelo meu gloss e ele dizia que tinha deixado em casa, porque não fazia o menor sentido casar carregando minha maquiagem no bolso, o que, afinal, faz todo sentido!

Eu, muito irritada, ouvia o som da marcha nupcial e tentava tirar a todo custo o batom vermelho da minha boca (e que não saia nem com reza forte) porque, de repente, comecei a me sentir insegura com ele. Enquanto isso, o noivo me mandava esquecer essa besteira de batom e tratava de se encaminhar pro altar, apressado como se fosse possível a cerimônia acontecer sem ele.

Decidida a não casar com a boca vermelha e aborrecida por não poder passar meu brilho labial, dei meia volta e fui embora, deixando o noivo – que até agora eu não desconfio quem seja – para trás.

Oi?

10 minutos depois eu estava acordada, tão solteira e cansada quanto antes.

E agora eu estou aqui, pensando e escrevendo. E tô decidida a não procurar o significado para um sonho como esse no Google, porque sei que não existe a menor possibilidade de encontrar. Logo, o que me resta é divagar e tirar minhas próprias conclusões.

Caso tenha chegado até aqui, acompanhe-me:

Pra começar, desconfio que eu não vá casar um dia, então até aí, tudo bem, deve estar no subconsciente e isso explica o casamento não se concretizar no sonho. E quanto ao batom? Por que essa implicância com o batom vermelho? Por que só casar com o rosa?

É bem verdade que eu uso bem menos batom vermelho do que eu gostaria, não é todo dia que me sinto preparada pra ele, só nos mais ousados. Sem contar que não é sempre que combina ou fica bom em mim, só quando eu estou mais, digamos… ousada!

Vai ver que, lá no fundo, eu ache que casamento e ousadia não combinem tanto, o que, em alguns casos, não é verdade, porque casar pode ser exatamente a maior ousadia que alguém pode cometer na vida!

Já o noivo, como todo homem que se preze, tá pouco ligando se o batom é vermelho ou rosa, ou se existe algum batom ali, desde que a nossa boca tenha mais utilidade do que só fazer falar, falar e falar.

Talvez o que me falte seja a vontade de casar, ou de pensar no assunto tão cedo, ou talvez seja só medo de ousar mais um pouco, e desta vez não me refiro ao casamento, mas exatamente a tudo o que está desvinculado a ele ou à ideia de união. E de estável.

Um gloss rosinha é garantia absoluta de sucesso, é discreto, combina sempre e nunca é extravagante. Usar batom vermelho todo dia, assim como casar, ou escolher ficar só, requer coragem.

Acontece que tenho me permitido desfilar com a boca vermelha mais vezes por aí. Rosa é ousadia pouca, não serve. Grande coisa a gente não consegue com coragem pequena.

Roberta Simoni

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11 comentários sobre “O Batom Vermelho

  1. Outro dia sonhei q eu tava casando e no meio da festa acabou a coca-cola. (Hein? Tá bom. Parei)

    “Grande coisa a gente não consegue com coragem pequena”.

    PERFEITO!

    E vc com certeza é das mais corajosas!!! Vejo váaaarias ousadias no seu futuro!!!!

    Beijos!

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  2. Eu acho engraçadíssimo, e ao mesmo tempo um pouco assustador até, o quanto seus textos sincronizam com minhas vivências!! rs.
    E identicamente ao comentário acima: “Grande coisa a gente não consegue com coragem pequena.” – PERFEITO!!
    Sinto que esta frase me renderá mais do que meras identificações e reflexões…

    Grande beijo!
    Liah.

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