Da ausência de lógica

Quando eu contei para a Renata o que fiz, o comentário que ela teceu a respeito do ocorrido foi o seguinte: “isso merece duas coisas: terapia e um texto no blog.”

Enquanto não começo com a terapia, vira texto, o que não deixa de ser terapêutico. Então, senta que lá vem história…

Fui almoçar em Niterói, na casa da querida Thaty, a quem chamo carinhosamente de sogrinha, pois estamos seriamente desconfiadas que o seu filho Bernardo, de 5 anos de idade, está vivenciando aquela coisa de paixonite infantil pela tia Roberta aqui, uma graça… e uma honra, visto que ele é uma das poucas crianças que considero realmente adorável e que consigo ficar por perto durante muito tempo sem querer fugir do recinto.

Pois bem, depois de pedir o Bê em namoro oficialmente aos pais dele, que fizeram gosto do relacionamento promissor, ao contrário do próprio, que me respondeu com um “vou pensar, tá?” (o que me fez perceber que os homens já começam a apresentar defeitos desde novinhos), e depois de me deleitar com a lasanha divina da Thaty e com a conversa fiada de melhor qualidade, resolvi voltar para casa. Já era noite quando tomei meu ônibus de volta pro Rio.

Eu, criança de quase trinta que sou, basta entrar em qualquer transporte que balance um pouco para cair em sono profundo (sim, uma turbulenciazinha durante um vôo é sonífero!). Eis que uma hora depois acordei num lugar estranho. Custei a entender que eu estava longe de casa. Onde? Na Avenida Brasil, entrando na Linha Vermelha. O ônibus semi-vazio que peguei em Niterói, àquela altura, já estava lotado, e as pessoas não tinham uma aparência exatamente amigável e eu não me senti segura de pedir uma ajuda, uma informação ou mesmo uma bússola emprestada. O que eu fiz? Coloquei meus fones de volta nos ouvidos, pus minhas musiquinhas para tocar e agi naturalmente, como se eu estivesse onde eu queria estar.

Enquanto o ônibus se afastava cada vez mais da Zona Sul e me levava pra lá da Zona Norte, eu tentava raciocinar. Já eram quase dez da noite e eu estava sozinha, com a minha máquina fotográfica na bolsa. Correr o risco de perder meu equipamento de trabalho não era algo considerável, por isso, decidi que descer do ônibus seria pior do que seguir nele e ver até onde ele me levaria. E ele me levou para Ilha do Governador, no Galeão, o ponto final.

Lá estava eu, em pleno sábado à noite, perambulando num aeroporto, sem nenhuma mala na mão, sem eira, nem beira. Nem chegando, nem partindo pra lugar algum. Só estava lá, por algum acaso, eu estava lá.

Ok. É o que temos pra hoje, pensei. Então tá. Só me restava tentar entender o que me fez chegar até ali, além da minha total distração ao pegar o ônibus errado e dormir feito uma pedra durante trajeto, tinha que ter uma razão maior, uma boa justificativa para aquilo tudo. Sei lá, de repente eu poderia encontrar uma passagem promocional para Bangladesh, ou talvez revisse um amigo de longas datas que andava sumido ou, quem sabe, me depararia com o homem da minha vida???

Nada. Nada. Nada. Nenhum sinal de coisa nenhuma.

A única coisa com a qual me deparei foi com o ônibus para a Zona Sul saindo no instante em que eu cheguei. Corri, mas não deu para alcançá-lo. Mais 40 minutos de espera até o próximo chegar e quase três horas depois da hora que saí de Niterói eu estava em casa, sã e salva. Mais salva do que sã, como consta o relato.

Até agora não descobri o que eu fui fazer num aeroporto do outro lado da cidade em pleno sábado à noite sem ter ido viajar e tendo voltado para casa sem nenhuma história boa pra contar, nem nunca vou saber. Esse é o tipo de resposta que a vida nunca dá pra gente, é quase como ligar para a sua operadora de celular para cancelar um serviço, a ligação “cair” e você ficar esperando que um vendedor de telemarketing retorne a ligação.

Nem ao menos eu dei de cara com a Astrid Fontenelle gravando o programa Chegadas e Partidas para dar o meu relato, no mínimo, inusitado…

Se foi apenas um teste de autocomplacência, dessa vez eu passei com excelência. Se há alguns anos alguém me dissesse que eu cometeria tamanha estupidez e nem sequer esbravejaria ou ficaria furiosa por isso, eu custaria a acreditar. Devo estar ficando mais generosa comigo, ou então já nem me surpreendo mais.

De um jeito ou de outro, fica a impressão de que a vida, às vezes, brinca com a gente, joga pra lá, pra cá, faz como se fôssemos bonecos num teatro de marionetes. Coloca um monte de pontos de interrogação para apimentar a brincadeira e raramente responde às nossas perguntas. Poucas vezes faz algum sentido, mas até que é divertida.

E mesmo sem entender direito, quero continuar vivendo aqui por mais algum tempo, aqui onde está sempre amanhecendo.

Roberta Simoni

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17 comentários sobre “Da ausência de lógica

  1. Meu amor… além de concordar totalmente que homem dá defeito desde muito cedo, vou te dizer que a idade traz isso… já esbravejei tanto com a Jac antigamente. Hoje eu tenho mais paciência com ela e suas imperfeições… até pq acho que pau que nasce torto não se endireita mesmo.

    :**

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  2. Então… muito bem, Flipper!!! 😉

    Texto delicioso, amiga… agora só falta a terapia, né? (mas enquanto ela não vem, faz favor de continuar me ligando cheia de histórias hilárias pra me contar, tá? Hhahahahaha..!)

    Bjo!!!!

    *.*

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  3. Gente, porque eu não me surpreendo…
    Aliás, você conta essas coisas como se nunca tivesse feito tais bizarrices antes, como daquela vez que fui pro Rio e tentamos ir à Ipanema, descemos do metrô, a maior chuva, sentamos pra comer numa lanchonete e voltamos pra sua casa.

    Ou aquele fantástica furada que eu nos meti, a interminável viagem para a Casca D’Anta (Serra da Canastra)…tsc tsc tsc…

    Boa sorte na terapia.

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    • Doug,

      Depois daquela viagem, terapeuta nenhum no Rio de Janeiro aceitou me tratar. Não é qualquer profissional que está preparado para lidar com esse tipo de trauma…

      Eu conto essas coisas como se fossem novidades porque se eu começar a contar todas as bizarrices aqui, ou me interditam ou eu vou ter que mudar o nome do blog para “Janela de Hospício”… hahahahaha!

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  4. Ok. Mas foi tudo com essa calma???? Pq pânico aqui, é mato! Sobretudo nesse tipo de situação perdida AND sozinha AND de noite AND no Rio de Janeiro.

    Bom… se pensarmos no “efeito borboleta”, de repente essa sua viagem vai provocar a queda do capitalismo. (Hein? Não? Tsc…)

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    • AM… você é a MELHOOOOOR… hahahahahahahahahahaha!

      “Efeito Borboleta”, taí… muito bem lembrado! Vai ver é isso…
      Queda do Capitalismo já!

      Menina, acredita que foi exatamente com essa calma que descrevi no texto? Nem eu entendi! Já posso me transformar num um monge budista! rs

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  5. Kkkkkkkkk…Beta minha linda, isso acontece comigo direto, o melhor horário é indo para o trabalho…já acordei em cada canto…kkkkk
    Quando não vou para o ponto final, me levanto como se nada tivesse acontecido e puxo a cigarra no ônibus…kkkkkkk…
    Amei o texto…pra variar…beijo enorme, do tamanho do nosso sono no ônibus…rs.

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  6. Oi Beta!!
    Muito obrigada pela visita e comentário no blog! Fiquei muito feliz que tenha gostado do texto! Uma amiga minha tb adorou e até pediu para posta-lo no blog dela! =) Respondi ao seu comentário por lá!

    Aproveitando, quero comentar este seu último texto… Há pessoas que fazem isso de propósito viu? Não se sinta tão mal… Conheço uma pessoa que diz que se “desestressa” pegando qualquer ônibus em Ribeirão Preto, e fazendo a volta completa dele, seja a qualquer hora, tirando cochilos… Isso sim não tem lógica alguma!! rsrsrs…

    Grande beijo!

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  7. Lembrei de uma música da década de 80 “Cuide-se bem”, penso que coisas inusitadas deste tipo acontecem, como um desvio de algo perigoso que estava a nossa espera com data e horário marcados…

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  8. Eu como você….sou fotógrafa…
    Eu assim como você…questiono mil coisas que acontecem…e escrevo.

    Li muito rindo seu post.
    MAS fiquei pensando: Por que não aproveitar pra tirar umas boas fotos!!?
    Também lembrei do Chegadas e Partidas…e acho que você devia ter registrado esse momento “unico e mágico”. rs

    Sou muito lesada…e sempre me perco aqui em SP. Na falta de uma camera…optei por comprar um bom celular pra poder registrar minhas aventuras de desorientação 😀

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  9. No mínimo engraçado seu roteiro, ri muito, depois do caso passado e que vc nao saiu lesada,( de lesões ) é claro. Só sendo da gema “mermo” pra nao surtar de medo….bem, podes futuramente fazer um livreto roteiro tal como :” DICAS DO RIO de JANEIRO o que fazer quando vc se perder,querendo ou sem querer”
    ora, lembra do livro que um dia o DIDI tava lendo e com tanto interesse e alguem do lado perguntou o que ele tava lendo, ele disse com grande seriedade, “a grande cavalgada” parecia, pelo titulo interessante, dai a pessoa pediu e ele deu, daí a pessoa comelou a ler em voz alta….pocotó..pocotó..pocotó..pocotó..pocotó..pocotó..pocotó..pocotó..nem adianta, pois só tinha isto mesmo, um livro grosso ainda mais rsrsrsrs, ora, mesmo que neste manual de sobrevivencia, pois é, acredite !! no minimo entre num onibus e siga…e siga..e siga….rsrsrs

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  10. aê, Beta, desculpe os erros, vou prestar mais atenciones , afinal teu blog é de uma jornalista , e eu sou uma leiga nordestina pelo meio..valeu…quando tiver muito erro, não libera não… abraço. gosto de todos os teus textos, e os videos, e as fotos, de arrasar !! estou repassando teu link do blog.

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