Corre, criança!

No sonho eu estava indo viajar, mas não sabia para onde. Não é que eu não me lembre aonde estava indo, é que no próprio sonho eu só sabia que estava indo viajar, mas não imaginava o destino. O plano era chegar no aeroporto e escolher um rumo conforme as disponibilidades de locais e horários, contanto que o embarque fosse imediato. Eu arrumava as malas com uma euforia infantil, de quem não precisa se preocupar com nada, só em simplesmente ir e ser feliz.

Mas as perguntas práticas começaram a impregnar: iria para um lugar tropical ou frio? Que roupas deveria levar? Por quanto tempo ficaria fora? De quanto dinheiro precisaria? Comecei a sentir aquele velho e conhecido medo do desconhecido, não aquele que paralisa, mas o que move. O objetivo era sair de casa sem saber aonde estava indo, quando voltaria e, o principal, como voltaria. Eu estava dando um par de pernas de presente para o meu coração, pernas intuitivas!

Mas elas só andaram até a fila do check-in no aeroporto, quando uma senhora apareceu, me convenceu a sair da fila, me levou para uma casa grande e me trancou lá dentro. Foi aí que o sonho colorido virou pesadelo cinza.

Lembro de ter dormido e acordado, ainda na casa dela, trancada num quarto confortável e quando a mulher abriu a porta, me trazendo um prato de comida, eu escapei, correndo  escada abaixo, procurando a saída. Ela gritava que não ia adiantar, porque eu não ia conseguir fugir. Mas eu chegava até um quintal e pulava os muros das casas vizinhas até sair numa rua escura e barrenta. De repente o dia virou noite. A mulher, correndo atrás de mim, esbravejava, me chamando de tola, dizendo que eu não ia encontrar lugar melhor no mundo do que a casa dela. E eu só corria, corria, corria. Cheguei até a encontrar – e ultrapassar – um maratonista no caminho (ah, gente! Me deixa sonhar….). A essa altura, eu já tinha perdido a minha mala e as minhas sandálias, corria descalça na estrada de barro.

A velha miserável continuava atrás de mim, enfurecida. Eu já estava sem fôlego, mas continuava correndo. Quando finalmente consegui despista-la, já era tarde da noite, eu estava suja, perdida, com medo e, para piorar, eu tinha virado criança. Usava um vestido rosa rodado lindo, mas continuava imunda dos pés à cabeça. Daí acordei.

Não sabia por que eu tinha voltado a ser menina, não sabia exatamente de quem eu estava fugindo, tampouco para onde eu estava indo, mas recuperei a liberdade que era tão minha lá no começo do sonho.

Faz dias que tive esse sonho, comecei a escrever sobre ele, depois fiquei tão sem rumo no texto quanto a menina de vestido rosa rodado, suja de lama. Só hoje, enfim, tive uma epifania!

A mulher que me tira do aeroporto e me tranca numa casa é a minha própria consciência racional, a minha versão protetora de mim mesma, meu lado conservador que não entende meu instinto livre e aventureiro. É o medo personificado, fazendo das tripas coração para confiscar meu futuro.

Afinal, como esperar que o medo e a razão não reajam mal diante de tamanho disparate? Eu estava saindo de casa para me perder na tentativa de me achar, era óbvio! Uma necessidade tão grande de liberdade que vira uma coisa quase irracional, instinto puro, tipo bicho que quer sair da jaula com comida farta e água fresca para voltar para selva, com todos os perigos e desafios que ela oferece. Até os animais domesticados, tratados cheios de mimos e vontades, diante de um portão aberto, fogem.

Então deixa eu ser criança que, na primeira chance, me desprendo das mãos dos meus pais, corro pra mais longe, mesmo sem saber pra onde, só para experimentar a sensação deliciosa de estar indo para algum lugar com os meus próprios pés.

Vou voltar lambuzada de lama, mas com um sorriso impagável na cara.

(e essa é a minha resposta para você, minha senhora!)

Roberta Simoni

Sobre carnaval, zumbis e cinema mudo.

George Valentin interpretando por Jean Dujardin em "O Artista"

Eu pensei que não fosse querer escrever sobre o carnaval dessa vez, na verdade, eu estava resistindo, mas, como bem a Liah previu, depois de uma publicação aborrecida minha no twitter: “isso vai acabar virando um post daqueles…”

Por que eu resisti até agora? Bom, para começar eu escrevo sobre o carnaval para um site carioca, para piorar eu estou trabalhando no carnaval, fazendo a cobertura fotográfica para uma marca de grande circulação e, para terminar, tudo o que eu tenho para dizer é basicamente… ruim. Ponto.

Eu não estaria saindo às ruas se não fosse para garantir o meu ganha pão. Outro ponto. Mesmo assim, estou saindo todos os dias, fazendo o meu trabalho direitinho, como manda o figurino, sorrindo e fazendo pose de feliz… ok, feliz é exagero, mas tô bancando a resignada simpática. Uma perfeita atriz, profissão que eu pensaria em investir se mamãe não tivesse me dito – e eu não tivesse acreditado – que se eu virasse atriz, a Literatura teria muito a perder. A culpa é sempre das mães.

O problema não está no trabalho em si, que gosto de fazer, o drama está no trajeto, especialmente no percurso que faço do trabalho até à minha casa, que é curtíssimo, mas eu juro que parece mil vezes mais longo do que a trilha de vinte e tantos quilômetros que encarei em Ilha Grande, subindo e descendo morro debaixo de sol do meio-dia. É que lá na trilha não tinha gente bêbada, suada, se imprensando, me puxando… em suma: não tinha nada parecido com zumbi por lá.

Vou contar um segredo: eu tenho medo de zumbis. Não assisto filmes nem leio livros onde eles apareçam. E não adianta me dizer que eles não existem, o carnaval tá aí para provar que existem, sim!

Agora eu entendo por que tenho ficado tão apavorada quando saio à rua nesses dias. Eu olho para aquela multidão e tudo o que vejo são zumbis semi-nus e coloridos, cambaleando zonzos, anencefálicos e com um objetivo em comum: comer gente.

Nos outros anos, para fugir da realidade, eu me fantasiava de qualquer coisa e me misturava – sem me misturar tanto – no meio deles. Esse ano, não. Não dá para ficar fugindo para sempre de quem se é, ou de quem se está sendo. E eu estou sendo essa pessoa irritadiça e nada espirituosa. Hoje, um zumbi, digo… um folião passou por mim e disse: “Nossa! Você ficou linda nessa fantasia de séria!”. Isso me fez pensar em como é mais fácil e divertido enxergar máscara onde só se tem um rosto de verdade para ver.

E lá fui eu, com a minha “fantasia” de séria, no meu horário de folga, me esconder dentro de uma sala de cinema. E, quer saber? Foi o melhor momento do meu carnaval. Dentro do cinema o silêncio era absoluto, vocês nem acreditariam se eu dissesse que a sessão lotou e que, mesmo assim, eu só conseguia ouvir o som irritante dos meus dentes triturando a pipoca. Tudo bem que a única que não tinha a cabeça branca naquela sala era eu, mas e daí?

Fui assistir “O Artista”, do diretor francês Michel Hazanavicius, que foi, na verdade, uma experiência cinematográfica da qual eu já deveria ter vivido há muito tempo: assistir um filme mudo, em preto e branco, diante de uma telona de cinema, comendo pipoca e, à certa altura, embaçando a vista de emoção. E que filme, gente! Que filme! Assistam!

É um filme simples, onde os recursos estão em abrir mão dos recursos, provando que precisa-se de muito pouco para se contar uma história, contanto que a história seja boa e bom contada. Em tempos onde se faz um carnaval com tudo e tudo vira carnaval, dentro e fora das telas, esse filme é um presente incrível.

Saí do cinema desejando que o mundo aqui fora estivesse, pelo menos por mais alguns minutos, como estava lá dentro: mudo e cheio de magia e encanto…

Para quem quiser ver a crítica do filme, achei essa daqui bem boa!

Roberta Simoni

No fundo são todos Chicos, Tons e Vinícius

Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Moraes no Rio, em 1979. (Foto do querido Evandro Teixeira)

A água já estava chegando na altura das minhas canelas, desliguei o chuveiro e interrompi o banho com minha cabeça ainda cheia de espuma, interfonei para o porteiro, que estava ocupado e não podia subir para desentupir meu ralo, não consegui encontrar o telefone do “marido de aluguel”, daí pensei na falta que faz ter um homem por perto, às vezes.

É claro que eu já xinguei a mãe de todos eles, já desejei viver sem, ou melhor, desejei conseguir desejar viver sem eles. Também já julguei todos como iguais, tudo farinha do mesmo saco, flor que não se cheire. Gastei horas falando mal deles com outras mulheres, afinal, essa é a parte mais divertida de todo “Clube da Luluzinha”, é tema recorrente.

Mas a verdade é que na maior parte do tempo eu gosto mesmo é de estar na presença deles.

Desde pequena eu sempre estive rodeada por figuras masculinas, nas reuniões familiares achava mais divertido ficar perto deles, que bebiam, falavam alto, diziam palavrões impressionantes e eram engraçadíssimos, a julgar pelas gargalhadas que ecoavam pela casa quando estavam juntos. As mulheres trocavam receitas, chamavam a atenção das crianças que tentavam se divertir e reclamavam dos maridos enquanto lavavam a louça do jantar. Maldizer os homens é tradição milenar, isso a gente aprende desde pequenininha. Só depois é que vai entender que tradições, quase sempre, são equívocos.

Os homens já nascem com claras vantagens sobre nós, são livres, crescem soltos como gatos. São criados longe da repressão, com menos regras, não escutam discursos enfadonhos sobre o pecado (se escutam, ignoram!) e normalmente desconhecem o significado da palavra culpa porque são fiéis, acima de tudo, às suas próprias vontades. Percebem a leveza de tamanha safadeza?

Não é o que parece. Não estou dizendo que os homens são melhores do que as mulheres. A questão aqui é outra, não é comparativa.

Só não sou do tipo que considera os homens um mal necessário. Eu gosto de tê-los por perto não só quando o meu chuveiro queima ou o meu ralo entope, como agora. Gosto porque sempre aprendo alguma coisa com eles. Quando jogam vídeo game até passarem de fase, por exemplo, demonstram como são perseverantes, e quando assistem futebol são as criaturas mais compenetradas do universo, já repararam? Acho tudo isso lindo, desde que eu não precise disputar atenção com uma televisão, é claro.

Adoro a praticidade deles, a ausência de modos, de frescuras e a maneira quase irritante como simplificam tudo. Acho admirável o senso de orientação que eles possuem, mas acho graça mesmo é do orgulho que sentem de pedir informação quando estão perdidos, e a maneira como mexem nos nossos cabelos sem nunca conseguirem mantê-los no lugar que gostaríamos que ficassem, levando em consideração o tempo que passamos arrumando-os diante do espelho.

Gosto de colocar os meus pés pequenos perto dos pés grandes de um homem e me sentir miúda, de deitar num peito cabeludo e aconchegante e de ter a sensação de que nada de mau pode me acontecer enquanto eu estiver envolvida no abraço daqueles braços compridos.

Admiro a postura segura e corajosa que costumam ter diante de alguma situação de risco, mesmo sabendo que eles estão tão apavorados quanto nós. Gosto de ver como se portam como herois em nossa defesa diante de uma barata.

Eu amo o cheiro deles mesmo quando não passam perfume. Sou viciada nas suas loções e desodorantes e seria capaz de viver morar numa axila masculina. Adoro barba por fazer, feita, mal feita, grande, curta… em suma: adoro o fato de terem barba, independente do estilo que adotam, desde que nunca-jamais-sob-hipótese-alguma deixem de roçar na minha nuca. Mas não há nada que eu adore mais num homem do que as mãos e a maneira como eles manuseiam talheres, volantes, canetas, ferramentas e, principalmente, o meu quadril.

E quando se apaixonam? Homem apaixonado é coisa linda – e engraçada – de se assistir e de sentir. Viram poetas, fazem rima, prosa e amor até de madrugada. Ficam assustados quando se descobrem românticos, tentam disfarçar, mas raramente são bem sucedidos na tentativa. Ficam tolos, bobos, voltam a ser meninos. Deixam a gente fazer o que bem entender deles. Homens apaixonados resultam em homens apaixonantes, como esses Chicos, Tons e Vinícius.

Isso sem falar que eles têm a peça-chave do encaixe que, quando bem utilizada, nos fazem amá-los como se fossem dois seres independentes um do outro, mas que queremos sempre em um só.

Acho engraçado como quando, não raro, sou a única mulher numa roda de homens e, a certa altura, um deles se desculpa pelo vocabulário esdrúxulo, como se me ofendesse. Nunca me choquei com a liberdade da conversa masculina. Talvez porque mesmo tendo as unhas pintadas com esmalte cor-de-rosa e usando sapatilhas de boneca, eu me sinta tão livre quanto eles, embora eu não seja.

Eu gosto do tato e da falta de tato masculina. Gosto mais do tato, é verdade. Verdade também que já reclamei e sigo reclamando da falta de sensibilidade deles. Que mal tem eu querer que o sujeito tenha pegada forte e seja delicado comigo ao mesmo tempo ou na mesma medida e proporção?

Nunca me esqueço de um dia em que eu estava chorando de soluçar por conta de um desafeto e um amigo me levantou, me puxando pelo braço, ergueu minha cabeça e me disse: “seja macho, engole o choro agora!”. E não é que eu engoli? E, antes que eu morresse desidratada, comecei a rir. Nós, mulheres, temos um talento nato para o drama e algumas vezes precisamos adotar uma postura mais pragmática pra controlar o instinto teatral, mesmo assim, ainda temos a TPM para colocar a culpa. Mas eles que não ousem colocar culpa na nossa TPM.

E essa é mais uma razão que me faz amar os homens: eles não têm TPM, embora alguns se comportem como se menstruassem mais vezes no mês do que eu. Mas eu tô falando de homem de verdade, do tipo que não sabe a diferença entre calçados scarpin e antonella, menos ainda entre culote e celulite; que não tá nem aí se o seu cabelo estiver encaracolado ou esticado com escova marroquina, japonesa ou uma estrangeira dessas qualquer; se suas unhas estiverem pintadas ou não; se suas calças estiverem passadas, engomadas ou amarrotadas. Ele sempre vai preferir que você esteja sem calças perto dele.

Eu amei verdadeiramente os homens que passaram pela minha vida, cada um a seu modo. O que ficou de cada relação (seja paternal, amorosa ou de amizade) foi uma enorme gratidão pelo amor que me deram, mesmo os que me amaram da maneira mais torta e equivocada. Decerto eles tentaram ser os Chicos, Tons e Vinícius da minha vida e, de certa forma, eles foram.

Mas, Bossa Nova à parte, continuo em apuros com o ralo do meu banheiro… homens?

Roberta Simoni

Pelo sim, pelo não…

Segundo Neruda, escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias.

Nos últimos quinze dias eu escrevi, sei lá, uns 15 textos diferentes. Comecei com uma maiúscula, coloquei ideias no meio, mas não consegui dar um ponto final em nenhum deles. Agora eu dei para isso: economizar pontos finais. E antes fosse só nos textos.

Eu ainda não descobri se essa coisa toda de escrever é uma dádiva ou um fardo. Ao menos eu descobri – ainda que tardiamente – que eu posso escrever sobre qualquer coisa. Sabe-se lá o quanto isso é libertador e perturbador? O que eu faço com essa liberdade toda? Não sei. Talvez eu fique em casa num sábado à noite decidindo se coloco um ponto final em um dos meus textos, se vou à festa com os meus amigos, se saio com aquele rapaz bonito que me convidou para um choppinho no Devassa, ou se escrevo um texto para contar dos textos que não terminei.

Como podem ver, fiquei com a última opção. Ando pouco devassa. E embora eu torça para que não haja muita gente em casa num sábado à noite lendo o que eu estou escrevendo, eu precisava publicar porque não suportaria terminar a semana com mais essas reticências nas costas.

Nas próximas horas eu preciso decidir se vou cancelar uma viagem importante, se vou pintar minhas unhas de vermelho ou azul, se vou aceitar uma proposta de emprego, se vou lavar o cabelo, se vou abandonar um projeto, se vou depilar com cera ou passar gilete, se vou dar um telefonema que pode mudar a minha vida para sempre e se vou trocar o meu sofá por uma escrivaninha. Como podem ver, ando muito ocupada arrumando desculpas para não terminar a infinidade de coisas que comecei. Típico.

Não sei! – essa foi a resposta que mais usei ao longo da semana. Quase uma libriana! Não sei se faço, se espero, se compro, se vou ou se fico, inclusive na merda, porque, né? Tá ruim, mas tá tão quentinho…

Para reverter esse quadro, decidi trocar o talvez por não e o não sei por sim durante uma semana, a começar a contar de hoje. Todos com ponto final ou, melhor ainda: com muitas exclamações!!! Doa a quem doer, perdendo o que tiver de ser perdido e ganhando na mesma proporção. Depois volto aqui para contar o resultado do desafio. Se eu sobreviver às minhas próprias decisões, naturalmente.

Se alguém mais se animar a sair do “quentinho”, pode ir começando a escolher para qual lado do muro vai pular e é bom que se prepare para correr caso tenha um cão bravo do lado que escolher. Com emoção antes do ponto final é mais gostoso!

Roberta Simoni