Pelo sim, pelo não…

Segundo Neruda, escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias.

Nos últimos quinze dias eu escrevi, sei lá, uns 15 textos diferentes. Comecei com uma maiúscula, coloquei ideias no meio, mas não consegui dar um ponto final em nenhum deles. Agora eu dei para isso: economizar pontos finais. E antes fosse só nos textos.

Eu ainda não descobri se essa coisa toda de escrever é uma dádiva ou um fardo. Ao menos eu descobri – ainda que tardiamente – que eu posso escrever sobre qualquer coisa. Sabe-se lá o quanto isso é libertador e perturbador? O que eu faço com essa liberdade toda? Não sei. Talvez eu fique em casa num sábado à noite decidindo se coloco um ponto final em um dos meus textos, se vou à festa com os meus amigos, se saio com aquele rapaz bonito que me convidou para um choppinho no Devassa, ou se escrevo um texto para contar dos textos que não terminei.

Como podem ver, fiquei com a última opção. Ando pouco devassa. E embora eu torça para que não haja muita gente em casa num sábado à noite lendo o que eu estou escrevendo, eu precisava publicar porque não suportaria terminar a semana com mais essas reticências nas costas.

Nas próximas horas eu preciso decidir se vou cancelar uma viagem importante, se vou pintar minhas unhas de vermelho ou azul, se vou aceitar uma proposta de emprego, se vou lavar o cabelo, se vou abandonar um projeto, se vou depilar com cera ou passar gilete, se vou dar um telefonema que pode mudar a minha vida para sempre e se vou trocar o meu sofá por uma escrivaninha. Como podem ver, ando muito ocupada arrumando desculpas para não terminar a infinidade de coisas que comecei. Típico.

Não sei! – essa foi a resposta que mais usei ao longo da semana. Quase uma libriana! Não sei se faço, se espero, se compro, se vou ou se fico, inclusive na merda, porque, né? Tá ruim, mas tá tão quentinho…

Para reverter esse quadro, decidi trocar o talvez por não e o não sei por sim durante uma semana, a começar a contar de hoje. Todos com ponto final ou, melhor ainda: com muitas exclamações!!! Doa a quem doer, perdendo o que tiver de ser perdido e ganhando na mesma proporção. Depois volto aqui para contar o resultado do desafio. Se eu sobreviver às minhas próprias decisões, naturalmente.

Se alguém mais se animar a sair do “quentinho”, pode ir começando a escolher para qual lado do muro vai pular e é bom que se prepare para correr caso tenha um cão bravo do lado que escolher. Com emoção antes do ponto final é mais gostoso!

Roberta Simoni

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7 comentários sobre “Pelo sim, pelo não…

  1. beta, querida,
    tenho lido tanto sobre escrita e processos (coisas, inclusive, que acho que podes gostar). e talvez porque meu próprio processo peça mais espaço, um alargamento de imensos “sim” na página. compartilho do grito, então. da ficção que forja a vida. porque sempre esta delícia, te ler!
    beijo!

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  2. ..”isto é, se eu sobreviver às minhas próprias decisões, naturalmente.”

    Ja que o ” OU ISTO OU AQUILO ” da Cecilia Meireles se desencarnou de ti, DESEJO BONS RESULTADOS EM TODAS AS TUAS DECISÕES, pois até não tomando nenhuma ja é uma, e é por certo,a pior de todas, portanto,tome-as.

    os unicos pontos finais que não gosto são destes teus textos :reflexao, relatos cotidianos( não são cotidianos não, vc nos egana!), rapidos demais. Sempre queremos mais, das duas uma, ou vc escreve bem e bom demais ou nós, estamos cotidianamente e vitalmente necessitados de palavras , não importa que tema vc siga, que satisfaçam nosso ego-ista.

    estas fotos do arcoires ficaram estupendas.

    tudo de bam, como diz o mineiro sô, êta trem bam é ler teus textos….

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      • olha, caríssima Beta,por favor, nunca leve à sério ( pelo menos em relação a nós, simples leitore mortais )aquela música do rei RC: ” eu tenho tanto…que lhes falar…mas com palavras…nao sei dizer…” sabemos que tens muitas coisas pra nos falar, e queremos sabê-las !! suas,inventadas ou misturadas, não importa,com palavras sabes nos dizer, não sei de onde inspiras mas sei que expiras muitas boas palavras.the and.

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  3. Roberta, que delícia encontrar seu blog. Algo meio que por acaso, ou não… Procurava por um texto de inspiração do meu próprio blog e caí bem aqui. Essa história de “sair do quentinho” foi ótima! Estou meio assim, cheia de reticências também e muito afim de olhar para o outro lado do muro.
    Que escrita gostosa de ler.

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