Vinte e Seis Reais (ou A Fortuna de Ramalho)

Chiquinho Ramalho e Paulo Cardoso - by Roberta Simoni

Mal de Alzheimer e Arteriosclerose avançados foi o diagnóstico que os médicos deram para o meu avô paterno. Francisco Ramalho, popularmente conhecido como “Chiquinho da Praia do Siqueira”, o maior engenheiro sem diploma que eu conheci, o sujeito rabugento e engraçado que muito antes de perder o juízo já falava sozinho, esbravejando com Noé por ele ter, supostamente, permitido que um casal de pernilongos entrasse na arca. Pô, Noé, com tanto bicho para salvar…

O mesmo sujeito que há alguns anos contrariou a família toda quando assumiu o namoro com uma mulher que – todo mundo sempre soube – não é flor que se cheire. Nem na qualidade de flor é possível encaixar essa senhora. A mesma, inclusive, que tratou de abandoná-lo na porta da casa dos meus pais há algumas semanas, depois de ter tirado todo o (pouco) dinheiro do velho doente e caduco que ela, é claro, se cansou de cuidar.

Dia desses ele me contou que tem uma neta que mora no Rio de Janeiro…

– É mesmo, vô? Que legal! Como ela se chama?

– Ela quem, menina?

– Sua neta…

– Neta? Eu não tenho neta.

– Tem sim, vô. Sou eu, a sua neta que mora no Rio, lembra?

– No Rio? Já nadei, sim. Mas agora não quero nadar, não… anda, menina, devolve o meu dinheiro!

R$26,00 é a quantia que a namorada do meu avô fez o favor de deixar no bolso da bermuda dele quando decidiu “devolvê-lo” aos filhos. Vinte e seis reais é o valor da fortuna do Vô Chiquinho. Todos os dias ele enrola, desenrola e depois enrola de novo as notas de real com um pedaço de barbante, dorme e acorda segurando aquilo que acredita ser o seu maior tesouro. Tesouro que tivemos que colocar dentro de um saco plástico transparente e levar para debaixo do chuveiro com ele. Só assim foi possível mantê-lo no banho sem que ele tentasse fugir com medo de ser roubado nesse interím higiênico.

Papai morreu pra mim! – Era o que meu pai afirmava categoricamente antigamente, quando se referia ao meu avô. Mas pai nenhum renega um filho e, de um dia pra outro, foi nisso que o meu avô se transformou para o meu pai: um filho. E ele que mal conseguia chegar perto das fraldas sujas do neto, agora escova os dentes do pai, faz a barba, limpa o bumbum, dá banho, comida na boca e dorme ao lado, sobre vigília constante.

Papai estava certo: o pai dele morreu. E no lugar dele ficou uma criança pirracenta e de cabelos brancos, que se nega a tomar banho depois de fazer xixi nas calças e que – sem o menor sinal de afeto ou gratidão – o acusa de ladrão.

Sim… porque meu pai não confessa, mas ele faz tudo isso por causa da fortuna, a gente sabe. Há um interesse por trás de toda essa enorme compaixão e generosidade. Só uma coisa justifica tanto cuidado e sacrifício: amor desmedido – a verdadeira fortuna do herdeiro.

Com muito custo consegui convencê-lo a sentar-se comigo na varanda. Arrumei mais uns dois metros de barbante para ele enrolar o vil metal. Aquilo renderia uma, com sorte, duas horas de distração pra ele e de descanso para mim. Peguei o livro e li um trecho em voz alta, mas ele se mostrou profundamente irritado, nada contra Valter Hugo Mãe, acredito. Nada pessoal também, é só que a leitura estava atrapalhando sua concentração no mecanismo de enrolar o barbante em torno das valiosas notas.

Papai chegou e trocamos de turno.

Da janela da cozinha consigo ver os dois. Meu velho com o velho dele, tão parecidos, com a diferença do cruel efeito do tempo, se alternando entre pais, filhos e dois completos desconhecidos.

Vovô andando na frente, a passos lentos e rastejantes, papai um pouco atrás, seguidor silencioso e quase oculto…

Agora vovô está parado em frente à roseira que era da minha avó e que papai batizou de “Dona Norma”. Meu pai sente o coração acelerado, alimenta uma esperança genuína de que a plaquinha com o nome da mãe cause qualquer tipo de reação no pai. Mas ele, naturalmente, não esboça nenhuma emoção, nem imagina quem foi Dona Norma. Sua preocupação é outra: encontrar o esconderijo perfeito para enterrar seu tesouro. Escolhe a planta ao lado. Não supõe que está sendo vigiado. Age sorrateiro feito menino astucioso. Papai não tenta impedí-lo, deixa que ele estrague seu jardim, que suje as mãos e a roupa de terra e, principalmente, que acredite que sua missão foi cumprida.

O filho observa o pai, tenta entender cada movimento daquela nova pessoa que está (des)conhecendo, procura decifrar o que se passa pela cabeça dele e acompanha de perto aquele doloroso processo, não o de crescimento, como no caso de um filho pequeno, mas o de envelhecimento de um pai doente.

Depois se aproxima devagar, pega o pai pela mão suja de terra e o conduz para dentro de casa. Enquanto tenta pacientemente convencê-lo a se lavar, Ramalho diz:

– Rapaz, os ladrões levaram todo o meu dinheiro, você viu?

– Eu vi, papai… mas fica tranquilo que eu pego eles e trago seu dinheiro de volta! Eles vão ver só…

Roberta Simoni

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40 comentários sobre “Vinte e Seis Reais (ou A Fortuna de Ramalho)

    • Antes de mais nada, você escreve muito bem, nada a ver com gramaticalmente correto, mas com clareza, emoção na medida certa (emoção tem medida? ), sabe o caminho do coração de quem te lê.
      O que acontece com Ramalho é triste para que compartilhou uma vida com ele, mas , pode ter certeza, ele não sofre, voltou a infância, onde a maioria dos adultos, já foi feliz. Vejo isso , também, na família que já foi minha, meu sogro. Portanto, Dona Beta, você nunca pare de escrever o que vê pelas janelas dos seus olhos!

      Feliz Páscoa, para você, seu pai e seu Ramalho! 🙂

      Beijão!

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    • As novidades, infelizmente, não são boas. Em duas semanas a doença avançou assustadoramente. Ele já não anda mais, está na cadeira de rodas, mal consegue falar e até para comer está tendo dificuldades. Mas vamos levando, firmes na batalha…

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  1. Roberta, como sempre… Gostei muito de ouvir sua história e ver todas as cenas com seus olhos. Muito bom o texto.
    Não sei se você já teve a oportunidade de ler um livrio chamado ‘Para Sempre Alice’ de Lisa Genova, é apaixonante; é uma história linda sobre Mal de Alzheimer.

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  2. Sabe, Beta, esse foi, de longe, o texto mais cheio de alma que eu pude ler.
    O tempo, assim como a maioria das coisas deste mundo, é uma faca de dois gumes: serve tanto para curar, quanto para adoecer.
    Estou extremamente emocionada e com uma vontade enorme de calar. Calar minha voz e pensamentos com meus lamúrios, calar minhas escritas em meus papéis improvisados e em meu blog.
    Como Ana Márcia Cordeiro disse acima, agradeço muito por você fazer arte e com ela nos preencher!!
    Grande beijo!
    Liah.

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  3. FATOS…

    No fim…volta tudo ao começo.

    90 % dos pais, avós ( de quem ainda tem é obvio) e nós mesmos, de todos que acessam este blog -estou só minimizando para não aterrorizar tá ?- isto os que chegarem ao “privilégio”( mesmo?) dos setenta, ou “C-tenta” chegar é claro ” ,oitenta, noventa…cem ? vixe…não deseje isto !!! enfim, teremos um parente ou seremos ALZHEIMEIZADOS de alguma forma…

    torno a dizer: temos muitas tias Bernadestes,parentes, avós, pais com alzheimer…mas quem tem uma Roberta Simoni desta na “famia” para fazer historia, e é real viu ? com foto e tudo, vai virar documentario e pense que tem necessidade…

    protesto!!! como é que faz as pessoas se comoverem com algo que é cada dia mais ‘normal” ? mas ela faz…

    Beta , vc esta humanizando a todos nós, antes das nossas horas desta realidade chegar.

    só espero não esquecer de acessar este blog..rsrsrs

    e sim, olha, fala serio, se eu me fosse hoje nem estes 26,00 de teu vovô eu teria de riqueza rsrsrsrs

    o ser é melhor que o ter, a riqueza dele são vcs, talvez não pelo que ele seja, se sim, se não, mas por quem vcs são….isto se chama amor. .

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  4. Linda…mais uma vez não dá pra ler sem chorar. Mesmo quem não conhece a nossa história se emociona com suas palavras tão cheias de sentimentos.
    É uma linda reflexão sobre a efemeridade da vida…pena que lembramos tão pouco de agradecer e muito mais de reclamar.
    Como já falaram suas leitoras: o que falar depois desse texto?! calar seria mais produtivo, reflexivo…
    Muito beijos com amor saudades…
    Sua fã
    Mamy

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  5. Através de Renato , pude ler esse texto lindo e escrito com tanta sensibilidade e ao mesmo tempo muita veracidade .Chorei,por que tenho uma pessoa da família passando por tudo isso ,e ao ler senti como se estivesse falando dela;uma mulher de 70 anos super ativa ,que ajudava filhos ,noras,netos administrava toda parte financeira de sua casa e que em pouco tempo,já não conhece os seus filhos,marido ou qualquer pessoa de seu relacionamento.
    Não te conheço,mas senti necessidade de deixar os parabéns pelo lindo texto,que nos serve como uma reflexão,principalmente num dia de Páscoa.

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  6. Beta, sua familia é toda bonita, externa e internamente, e não to falando de intestino sujo não. rsrsrs. I´m speak da aparencia, sua mãe, teu pai, vc, teus avós, todos bonitos. BONITA FAMILIA.

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  7. Beta querida…ainda não tinha lido este lindo (como todos) texto seu.
    Aqui em casa passamos E-X-A-T-A-M-E-N-T-E a mesma situação com minha vó materna, de 95 anos, que está com Mal de Alzheimer há + ou _ 4 anos e em um nível muuuuito avançado.
    Entendo perfeitamente a luta, companheirismo e amor de seu pai, minha vó faz igualzinho seu vô quando se fala em dinheiro. Já encontramos uma certa vez uma nota de R$ 50,00 costurada dentro de seu travesseiro, e ai de quem pegasse…fora tantas outras coisas, daria para escrever um livro! Rs.
    Ela mora conosco, mas sempre acha que está internada numa clínica, hospital ou na casa de alguém que não conhece, mas nunca na casa de sua filha com sua neta, e aí pergunta: as coisas aqui são caras? Quanto é para tomar café e almoçar? Rs.
    Ai, Beta, são muitas coisas…amei seu texto…beijos bem gostoso no vô e diga para seu pai que o admiro demais, essa atitude dele, assim como de minha mãe se resume em uma única frase: Só por amor!
    Beijo enorme!

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  8. Eu andava por aí e andava com saudade de ler vc…

    Faz um tempo eu vi por aqui um cara te chamando de “Hemingway de Saias”. Na hora eu achei uma grande babação de ovo (mesmo vc não os tendo).

    Parecia um elogio grande demais, pelo simples fato de ambos serem jornalistas… Mas eram ao mesmo tempo tão diferentes… Não… esse cara (o seu fã) não sabia o q dizia. Eu te conheço bem demais e não concordava com ele.

    Provavelmente (rsrsr) por influência sua e do Mark Twain, eu tenho lido um pouco mais de literatura pura. Fiquei fã do Hemingway e só nesses dois últimos meses devo ter lido uns 3 livros dele e comecei a conhecê-lo melhor… O Sr. Heminway.

    Não tenho certeza se foi isso que o seu fã quis dizer (ele vai jurar que sim…) mas tenho que concordar que vc está trilhando um belo caminho para vestir as saias do Hamingway…rs

    Não por causa de sua história de vida, tampouco por seu estilo de escrever, mas pela sensibilidade com que vcs observam a tragédia humana…

    Somente uma artista como vc para mostrar a beleza por trás do fim da vida de um homem e somente uma artista para mostrar isso ao mesmo tempo como uma celebração da vida.

    É nesses momentos que eu tenho orgulho de você. Respeito e admiração tb.

    Continue assim, com essa sensibilidade maravilhosa. Eu não sei aonde vc vai chegar, mas tenho certza de que vc verá muita coisa bonita pelo caminho, coisas que os olhos cansados da maioria das pessoas não vê.

    B.N.Alma.

    Rei de Copas

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    • Tão cheio de amor… tão lindo… tão… Você me fez chorar muito, Roberta! Mas foi um choro bom, de desabafo, de saudade… de amor! Obrigada, pelo lindo e honesto texto!
      você aqueceu minha alma hoje!

      😉

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    • êta cara, vc falou bonito aí, esse ” S ” de Simoni é o mesmo de Sensibilidade. A Beta , já que vc a conhece tão bem,parece-me daqueles artistas, se fosse atriz de teatro, ainda que fosse monólogo seria como um grande elenco para o publico, se fosse de cinema, seria como um tipo Dança com Lobos ( e o kevin Costner ainda tinha o Lobo ) mas ela não precisaria, pois sua atuação preenche os espaços, por maiores e longos que sejam , se fosse cantora seria uma Adele e um piano e bastaria, mas sendo escritora, ela pode, porque pode mesmo, escrever sempre, o que quiser, em primeira pessoa, do jeito dela,pela visão dela, pela audição dela, pela sensibilidade dela, e o incrivel é que agrada a todos.

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  9. Ah, Beta, minha amiga… Você sempre emociona! Um olhar doce descrevendo uma época tão amarga que vocês estão vivendo. Eu desejo força, paciência e muita proteção para todos vocês, principalmente para seu pai. E mande um beijo para seu avô, fale que foi de um guardião de tesouros da cidade, que leva no coração uma das riquezas que ele tem: você! Bjs!

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  10. Alma que busca… não encontrar é impossível
    Alma que encontra… que chora… sensível
    Somente o olhar que ama vê o que crê
    o belo no feio, o rico no pobre, alegria no triste
    o forte no fraco, o muito no pouco…
    O que importa!? Ver, crer, entender, aceitar,
    viver, amar, escrever, se importar!

    Parabéns, minha irmãzinha querida!
    Quão maravilhoso é ler linhas tão inspiradoras e ao final dizer
    “Graças a Deus! “rsrs
    Não porque acabou, mas porque Ele nos dá oportunidade de viver mais um dia para ver coisas tão belas como esta!

    Minha alma está feliz!

    Beijos do tio postiço!

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  11. Betatinha, estou sem palavras para expressar o sentimento que senti ao ler seu texto. Chorei! Me bateu uma certa saudade de ir a (crase) sua casa passar um tempo que fosse com voce e sua familia. Amo voces!

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  12. Beta; lindo esse texto; mas mais do que isso, cheio de emoção, sentimento e verdade. Mostra prá gente que nada é eterno e que tudo é incerto na vida. . Beijos e Parabéns

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  13. Que coisa linda, meu Deus! Às vezes fico pensando como você pode ser tão sensível…mas acabo de perceber que, como minha mãe diz, és “fruto do meio”. Com esses pais lindos que tem, seria impossível ser diferente. Eu admiro muito a sua família e essa força de vocês que não sei de onde vem, mas que para os que acreditam, só pode ser de Deus.

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