O meu rapaz…

Eu vi você na Itália.

Você usava uma daquelas suas camisas sociais bonitas. Estava lá a trabalho? Imagino que sim…
Achei que eu pudesse estar delirando, já que quando se chega em Roma pela primeira vez, tem-se a sensação de estar pisando num lugar absurdo, surreal… tudo é colossal e desmedido. Quando se acaba de admirar um palácio renascentista, você tropeça numa antiguidade venerável, dá de cara com uma ruína, esbarra num monumento inacreditavelmente perfeito e depois outro e outro…
Me escondi atrás de um desses monumentos e fiquei te olhando. Não me julgue.
Você conversava com um homem que falava alto e gesticulava muito (era um italiano, acertei?) e você de braços cruzados, só assentia com a cabeça, esboçando um sorriso vez ou outra que, eu sei, é um daqueles seus sorrisos que dizem: “estou te dando atenção por educação, mas não estou interessado em nada do que está dizendo”… Você não mudou nada mesmo. Fiquei vendo aquela cena e rindo sozinha.
Depois outras pessoas chegaram, todas muito animadas. Assim como eu, devia ser a primeira vez delas em Roma. Uma moça trazia uma máquina fotográfica na mão. Alguém do grupo se dispôs a tirar uma foto. Vocês fizeram pose em frente à Fontana di Trevi que, se não estivesse sempre tão lotada, eu teria dúvidas se não era mais um fruto da minha imaginação lírica. Me distraí olhando você diante da fonte mais linda que já vi na vida e o meu sorvete começou a derreter. Fiquei com a manga do casaco toda lambuzada por sua culpa.
Lembrei daquelas fotos de grupo da escola, da faculdade, dos churrascos da turma do trabalho. Você, alto, ficava sempre lá atrás, só dava para ver sua cabeça, quando muito. Uma vez você se queixou comigo, numa dessas crises existenciais periódicas e passageiras, dizendo que não conseguia se destacar nem nas fotos.
Fiquei ali parada para ver como você se posicionaria no grupo e como o grupo se posicionaria perto de você. As pessoas foram se aprumando ao seu redor, você ficou no centro naturalmente, ninguém se meteu na sua frente, de forma que era possível ver mais do que a sua cabeça dessa vez. Você se abaixou um pouco para ficar na altura das moças que estavam ao seu lado e inclinou a cabeça para frente para disfarçar a papada no pescoço que você cisma que é feia, depois você esticou os braços como se eles pudessem abraçar o grupo inteiro, ou o mundo. E sorriu largo. Eu sorri junto, como se fosse aparecer na foto também.
Aí, na hora de bater a foto, a moça que estava do seu lado direito falou alguma coisa com alguém, mas eu não consegui entender o que era e parece que você também não, mas você não moveu a cabeça, só olhou de lado, de rabo de olho. Típico. Afinal, os velhos hábitos não te abandonariam só porque você atravessou o Atlântico…
A foto ficou assim: você lindo, no centro, abraçando o mundo, sorridente e com o olhar desconfiado.
Esse é o meu rapaz, pensei.
E aí eu acordei.
Roberta Simoni
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4 comentários sobre “O meu rapaz…

  1. Quer dizer então que o único coliseuhumano, monumentohumano, que tu enconstraste foi apenas na immaginaziones, onde se esconderam os bellos intalianos hã dona Beta ? rsrsrs deixa pra lá e esconde teu diário de bordo. As fotos ficaram ótimas.

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