Amar é… (ou A Romântica Enrustida)

Já era madrugada quando o telefone tocou. Era a minha avó. Também estava com insônia e, sabendo que eu sofro do mesmo mal, me ligou para colocar a conversa em dia. As coisas não mudaram muito desde a época em que ficávamos acordadas até tarde na sala da casa dela, assistindo o programa do Jô, conversando e fazendo crochê. Pensando bem, mudaram sim. Tudo mudou. Menos o fato de continuarmos insones, ela lá e eu cá.

E aí quando eu me vejo contando para a minha avó sobre a minha última empreitada amorosa e escuto ela contando sobre como ela tem feito para livrar-se do meu avô que, aos 85 e gozando de uma saúde bem precária, ainda teima em dar umas investidas sexuais na relação – sem sucesso, pois minha véia não quer mais saber dessas saliências – eu percebo que não tenho uma família, tenho amigos de bar. O que, com muita sorte, dá na mesmo.

É claro que nem todo mundo lá em casa é assim, tão moderninho. Minha irmã, por exemplo, tem quase a mesma idade que eu e é mais conservadora do que a minha mãe e a minha avó juntas. Eu jamais ligaria para ela contando sobre uma frustração sexual, por exemplo, como já fiz com a minha mãe. Mais de uma vez, é verdade.

Minha mãe e eu já fizemos compras em sex shop juntas. Pois é. Diante disso é difícil imaginar que falar sobre sexo seja um problema pra mim ou que haja qualquer outro assunto que me intimide ou me bloqueie. Mas há. Ninguém é assim tão bem resolvido a ponto de conseguir transitar descalço por todos os universos com a maior segurança do mundo, sem medo de entrar um espinho no pé ou de pisar num caco de vidro.

O que me intimida? O amor. Esse bicho de sete cabeças grandes e monstruosas, com cara de bicho papão. Amor e matemática. São duas coisas que – dizem – têm lógica, mas eu não compreendo lá muito bem. Faria sentido para mim se fosse uma equação mais ou menos assim: eu + você + amor = felicidade. Mas sempre tem algo a mais. Ou a menos.

Falo do amor romântico, desse que faz a gente se imaginar vestida de branco, segurando um buquê de flores e dizendo sim para um noivo bonitão tipo o Ken da Barbie. E se eu falo tanto sobre o amor e se escrevo sobre ele com uma frequência considerável, não significa que eu saiba o que estou dizendo sempre. Sinto decepcioná-los caros leitores, mas, às vezes, eu não faço a menor ideia. Ok, quase sempre.

Bom, eu idealizo. Nisso eu sou boa. Eu invento. E eu minto. Eu crio. E eu até vivo um pouquinho do que eu escrevo de vez em quando. Não é como se eu não soubesse amar. Não é como se eu soubesse também. Eu penso que sei, mas posso estar equivocada, tanto que se você me surpreender com um pergunta do tipo “o que é o amor?”, eu vou demorar tanto para te responder quando se você me perguntar quanto é sete vezes oito.

Calma, eu ainda tô pensando! … Cinquenta e seis? Certo? Certo!

Ah… o amor? Bom. Isso é muito relativo. Vai de pessoa para pessoa, depende. Tá… eu tô enrolando. Tá vendo? Eu me perco. Fico com medo de ser piegas, de parecer idiota. Não fui preparada para isso. A verdade é que os tempos mudaram, o amor romântico tá na moda de novo, é a tendência dessa estação e, ao que tudo indica, da próxima também, e eu sou péssima para seguir qualquer tipo de modismo. Tenho meu próprio estilo de mulher moderna, independente e… bom, de romântica enrustida.

Veja bem, os tempos são outros. Eu nasci numa época em que as mulheres sonham com carreiras de sucesso e cargos importantes. Um bom marido, na maior parte das vezes, funciona como um acessório de enfeite, um brinco de diamantes, uma pulseira de ouro, um anel de esmeralda. Em suma: virou artigo de luxo. Muitas sonham, poucas têm. A maioria acaba se conformando em conseguir ser bem sucedida profissionalmente. Embora haja quem ande por aí, exibindo um amor falsificado pendurado na orelha.

Fosse o amor tão simples como nas figurinhas do “Amar é…”, seria tudo mais interessante e divertido. E talvez seja. A gente é que complica, idealiza demais e realiza de menos. O meu amor talvez seja como o meu álbum de figurinhas do “Amar é…” que, desde criança, eu colecionava e já naquela época eu devia ser uma romântica em potencial, só que enrustida. A coleção ainda não tá completa e eu ainda tô saindo do armário. Mas olhando assim, para essas figurinhas todas, amar me parece coisa demais. Amar é coisa que muita gente tenta. Amar é muita coisa para quem tenta. Amar é coisa de gente grande em figurinha pra criança. Amar é coisa muita pra pouca gente e pra muita gente, é pouca coisa.

Pra mim (respondendo, por fim, à fatídica pergunta), o amor é um não-ideal. Não tem fórmula, lógica, razão nem por quê. O amor deve ser qualquer coisa parecida com uma vontade insubstituível e irresistível de acordar todos os dias e ver aquela mesma pessoa ali, do mesmo lado da cama. O resto inventa-se, o resto dá-se o nome que quiser…

Roberta Simoni

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11 comentários sobre “Amar é… (ou A Romântica Enrustida)

  1. BELO TEXTO !!
    O AMOR EXISTE. Todos desejam, muitos procuram, alguns encontram, e destes alguns, poucos e raros dão valor até o fim . A Taís Araújo ( casada com Lazaro Ramos e tem um baby) disse estes dias numa entrevista . “Casamento é um exercício diário. Um dia a gente ama, no outro, quer matar.” Isso é sinceridade, pois viver o amor no meio artístico já é um desafio pra eles. Um ano de casado de um ator/atriz tem valor de 3 comparado a qq outra profissão. Bem, como disse a Beta, é muito relativo esta definição, ninguém procure uma, viva o amor e vá criando cada um suas próprias definições,(vide o MARCELLO PONTES aí, )todas começarão com AMAR É…

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  2. Hahaha, Romulo, é verdade! O namorado da Suzie é que era o Bob. A minha amiga Beta tem essas coisas, às vezes ela acha que nasceu uma década antes e confunde as coisas. Mas de todo o resto eu assino embaixo. Românticas enrustidas, + 1 membro… rs… de qualquer jeito, às vezes faz bem a gente sair do armário, né, amiga?
    Beijocas e parabéns pelo lindo texto. Pra variar – só pra variar – me emocionou.

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  3. Amor né mole não,hein. Tenho sérias dificuldades também. Tentando não ser melosa acabo sendo ríspida. Tentando ser carinhosa, acabo sendo piegas. Enganos típicos da nossa geração, acredito.

    Mas depois de alguns anos (e filhos) de um casamento bem apaixonado, me arrisco a distribuir minha sabedoria acerca do tema, na forma de versinho do supracitado álbum de figurinhas:

    “Amar é… brigar e proteger o outro durante a discussão
    mesmo quando se está com um pé-de-cabra na mão”

    Porque… bom… eu quebro coisas… mas tomo o cuidadinho de não acertá-lo.

    (Ou será q eu erro???)

    O.o

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  4. Lindo, lindo, lindo!
    Minha tia colecionava as figurinhas do “Amar é…”. E eu me lembro muito delas na minha infância.
    Sempre que venho aqui te ler, fico sorrindo atoa. Adoro!

    🙂

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  5. Lindo texto, linda reflexão Pepeco!!!
    Mas, não é mérito seu…refletir sobre o amor, não é nada fácil.
    Não existe realmente lógica, fórmula ou qualquer macete. O jeito é viver.
    Cada dia é uma nova história, uma nova expectativa, um novo desafio e muitas decepções.
    Mas, sempre vale a pena, pois ainda não inventaram nada mais prazeroso, perigoso e estimulante.
    “Passamos a amar não quando encontramos uma pessoa perfeita, mas quando aprendemos a ver perfeitamente uma pessoa imperfeita”.
    Eu recomendo…
    Beijos com amor e saudade…
    Mamy

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