A Semana dos Nãos

Acordei e vi que ele arrumava a mala. Fingi continuar dormindo só para poder observar como separava meias e cuecas calma e cuidadosamente. Não tinha a pressa de quem está prestes a perder o vôo, mas tinha o desânimo de quem viaja para o Polo Norte só de meias e cueca.

A essa semana que seguiu sem ele, resolvi batizar de “A Semana dos Nãos”. Foram muitos nãos grandes para caberem todos em dias poucos e curtos.

Um contrato não assinado. Um pedido de patrocínio negado. Um texto não terminado. Um transplante de raciocínio matemático rápido negado. Um artigo não vendido. Um pedido de empréstimo de talento para negócios negado. Um ou dois projetos vetados. Uma publicação de livro negada. Um trabalho adiado. Uma pauta não aprovada. Um visto para a lua negado.

É claro que eu coloquei a culpa nele por ter ido embora e me deixado aqui sozinha com essa cambada de nãos malquistos. Persona non grata! Daí ele me aparece hoje dizendo que foi só ali e já voltou, afinal, não teria passado pela minha cabeça que ele pudesse ter ido embora para sempre carregando apenas meias e cuecas na mala, certo? Errado. A não ser que eu fosse uma criatura mais lógica e menos emocional.

Apesar das negativas, ele voltou! Voltou porque eu, graças às negativas, tive a semana mais elucidativa do ano. Os pontos de interrogação impertinentes foram devidamente substituídos por nãos exclamativos, embora alguns sejam intermitentes.

Entre certezas desagradáveis e incertezas, eu fico com a primeira opção. Uma vez tendo um não (ou vários) como resposta, a gente pula para a próxima tentativa de sim.

De mala na mão, meu sonho voltou pra casa. Dentro da mala, meias e cuecas sujas que eu nem me importei de ter que lavar.

Roberta Simoni

Pra caber no encaixe…

– Onde dói?

– Dói tudo, doutô!

– Aqui dói?

– Dói também. Dói até os ossinho da alma.

– Alma não tem osso, menina!

– Pois a minha tem sim, sinhô! Não tá vendo essas fraturas expostas aqui?

– Cadê?

– Aqui, doutô! Os sentimento tudo pulando pra fora. Faz eles voltarem pra dentro, doutô, faz?

– Filha, eu não posso tratar de alma fraturada. Como eu vou fazer para te engessar depois?

– Mas se o senhor que é o médico não sabe, como eu vou saber? Me disseram que o senhor podia dá um jeitinho de me ajustar no lugar.

– Mas eu não posso, criança!

– E de lego, pelo menos, o senhor entende?

– De lego???

– É! Aquele jogo de encaixar aquelas peças coloridinhas, sabe?

– Ah, sei…

– Sabe? Ah, então o senhor pode me curar! Mamãe disse que a gente é igual a peça de lego, uma encaixa na outra pra montar um brinquedo legal.

– E onde eu entro nisso?

– O sinhô entra me fazendo entrar, ora! É que me dói tudo porque eu não me encaixo nas outras pecinhas… eu forço daqui, me machuco de lá, mas não entro em nenhuma, nada me cabe e eu não caibo em nada, doutô! Me conserta pra eu caber em algum lugar, pufavô?

– Menina, você não é uma peça de brinquedo! Que ideia é essa?

– Também não sei de quem foi essa ideia de fazer a gente igual a essas pecinhas de montá. Mas isso me parece coisa de um tal de “Jerico”. O senhor conhece esse moço, doutô? Minha avó sempre fala que as coisas que eu faço se parecem com as ideias dele, mas eu juro pela minha mãe mortinha que nunca copiei a ideia de ninguém! O senhor acredita em mim?

– Criança, eu…

– … eu sei, doutô! O senhor também não acredita em mim, não é? Tudo bem, não precisa acreditar, só me conserta! Deve ter conserto para peças defeituosas assim, feito eu, não tem?

– Escuta aqui, criatura, você não está doente nem é defeituosa. O seu problema é imaginação fértil.

– Engraçado, o senhor pareceu até meu pai falando agora! Então como é que faz pra parar de fertilizar a cabeça da gente, doutô?

– Não existe anti-fertilizante cerebral para transformar alguém numa peça funcional.

– Ah, não? E se o senhor inventasse? Podia ficar rico com isso, já pensou?

– Rico eu não sei, mas talvez eu conseguisse fazer você caber dentro da realidade.

– Ah, então melhor deixar como tá, né doutô? Se existir já me dói todinha, imagina se eu tiver que caber nessa tal de realidade? Dizem que lá é úmido e apertado, eu vou acabar transbordando e depois vai dar um trabalho danado pra me juntar…

Roberta Simoni

O admirador e o admirado

Percebi que minhas mãos suavam enquanto eu imaginava o que poderia dizer quando estivesse a menos de um metro dele. Mas a fila estava enorme, dava voltas na livraria. E eu, logo eu, que tenho verdadeiro pavor de filas, fiquei ali, esperando resignada.

É bem verdade que grande parte dos escritores que admiro já morreu há um tempo considerável, logo, estar diante de um em plena forma literária é um privilégio. O autor português, Valter Hugo Mãe, esteve lançando seu novo livro no Rio essa semana. Eu, tiete que sou, fui ao lançamento, comprei o livro, levei outro mais antigo, enfrentei a fila quilométrica e esperei minha vez de ganhar meu autógrafo.

Quando finalmente minha vez chegou, entreguei os livros a ele e me vi paralisada, sem ação, até me escutar dizendo a frase mais criativa e original do mundo: “sou sua fã”. Aposto que ele nunca ouviu isso de ninguém. Sou um gênio, só que ao contrário. Pedi para tirar uma foto, agradeci a atenção dispensada e tomei de volta meus livros agora autografados. Pena as dedicatórias serem quase ilegíveis. Desconfio que além de escritor, o Mãe seja médico.

Saí da livraria me sentindo a criatura mais boba do universo mas, nem por isso, envergonhada. “Ah tá… então é assim que se sentem os fãs diante dos artistas da novela” – pensei. Sempre que saio à rua com algum amigo não-anônimo e vejo ele sendo abordado por algum fã, fico tentando entender como é isso de ficar emocionado diante de alguém que só se conhece “de vista” pela televisão ou internet. Agora eu sei. No meu caso, foi através de livros, mas a sensação, acredito, é a mesma.

Na mesma semana que descobri como é essa coisa toda de ser fã, tamanha foi a minha surpresa ao descobrir que tenho uma “leitora-fã” e acabei, sem querer, experimentando como é a sensação de estar do lado de lá também. Se é que posso chamá-la assim, né Marynha Dantas? Acho que classificar como fã acaba distanciando o admirador do admirado.

Recebi um monte de presentes lindos e mais do que especiais que a Maryinha me mandou pelo correio, diretamente de Sergipe. Tive a sensação dela ter enviado tudo que estava ao seu alcance para me fazer sentir querida e isso, de todos os presentes, foi o que mais me comoveu e emocionou.

Dentro da caixa de sedex, vários livros (alguns autografados pelos autores), produtos de beleza (minha boca, inclusive, nesse exato momento, está mutíssimo agradecida pelo hidratante labial), doces nordestinos de-li-ci-o-sos, uma toalha lindíssima, com meu nome e minha foto bordados com o maior capricho do mundo, lembrancinhas para o meu pai e minha mãe (que ficaram também muito agradecidos), e o presente mais caro de todos: um livro montado à mão, especialmente para mim. Nas primeiras páginas da edição exclusiva, o seguinte aviso:

“Atenção: todos os textos e fotos foram retirados do blog Janela de Cima, da escritora Roberta Simoni. Este trabalho manual e arcaico não pode ser copiado (pois você desiste pelo trabalho que dá). Não tente desgrudar as folhas e ver o que há por trás, pois um livro foi dilacerado para em cima das belas folhas coloridas se fazer este trabalho, o qual se chama ‘O dia que se perdeu a tesoura e tudo foi cortado a dedos’. É só para ‘remember’ e ratificar que há uma galera considerável esperando um livro (nem que seja de bolso, em papel reciclado) desta escritora, jornalista e viajante do e no tempo, ainda não tão famosa a nível global, mas querida por todos que amam o que é escrito com sensibilidade e talento. Aguardamos.” (Marynha Dantas)

Agora, me digam, quando eu poderia imaginar que enquanto eu estava aqui, levando minha vidinha insana e distraída, havia alguém lá no Nordeste do país preparando uma surpresa tão linda assim pra mim?

Isso de admirar e ser admirado por quem a gente nunca olhou nos olhos é uma coisa mágica. Obrigada, Marynha, por me provocar a sensação de estar no caminho certo numa semana onde a estrada me pareceu tão sinuosa, escura e perigosa, me fazendo pensar, diversas vezes, em voltar e procurar outro caminho menos arriscado.

Roberta Simoni

Durmam, seus trombadinhas!

Tentei colocá-los para dormir mais cedo. Vesti todos com pijamas de algodão com estampa de bolinhas. Acomodei-os em travesseiros fofinhos. Fronhas e lençóis limpinhos. Cheiro de lavanda, tecido florido. Janelas e cortinas fechadas. Luz apagada e…

Um deles levantou-se invocado e disse: não gosto de bolinhas! O outro: prefiro listras. O outro: tem uma camisola? Na outra extremidade da cama, um anunciou: vou dormir pelado! Pro cacete vocês todos. Durmam como quiserem, desde que durmam!

Por fim, eles todos: tem café?

Brigaram por espaço na cama, se acotovelaram, fizeram guerra de travesseiro, treparam feito loucos. Discutiram, duelaram e se amaram. Fumaram meu último cigarro. Quebraram minha única taça de vinho. Beberam todas as minhas garrafas d’água no gargalo. Abriram o Chandon que eu estava guardando. Esvaziaram minha dispensa. Escancararam a janela do meu quarto. Puxaram minha coberta. Deixaram meus pés de fora…

Espalharam livros pela minha cama e não me deixaram ler nenhum. Nem escrever. Falaram a noite inteira. Me desconcentraram, distraíram e dispersaram. Julgaram, ofenderam e divertiram. Riram alto. Gritaram no travesseiro. Morderam fronha. Puxaram meu cabelo. Fizeram cafuné. Não tiraram um cochilo. Viram o dia amanhecer comigo. Me esvaziaram e depois dormiram feito anjos.

Meus pensamentos ocuparam, outra vez, o lugar que é seu na minha cama.

Roberta Simoni