O admirador e o admirado

Percebi que minhas mãos suavam enquanto eu imaginava o que poderia dizer quando estivesse a menos de um metro dele. Mas a fila estava enorme, dava voltas na livraria. E eu, logo eu, que tenho verdadeiro pavor de filas, fiquei ali, esperando resignada.

É bem verdade que grande parte dos escritores que admiro já morreu há um tempo considerável, logo, estar diante de um em plena forma literária é um privilégio. O autor português, Valter Hugo Mãe, esteve lançando seu novo livro no Rio essa semana. Eu, tiete que sou, fui ao lançamento, comprei o livro, levei outro mais antigo, enfrentei a fila quilométrica e esperei minha vez de ganhar meu autógrafo.

Quando finalmente minha vez chegou, entreguei os livros a ele e me vi paralisada, sem ação, até me escutar dizendo a frase mais criativa e original do mundo: “sou sua fã”. Aposto que ele nunca ouviu isso de ninguém. Sou um gênio, só que ao contrário. Pedi para tirar uma foto, agradeci a atenção dispensada e tomei de volta meus livros agora autografados. Pena as dedicatórias serem quase ilegíveis. Desconfio que além de escritor, o Mãe seja médico.

Saí da livraria me sentindo a criatura mais boba do universo mas, nem por isso, envergonhada. “Ah tá… então é assim que se sentem os fãs diante dos artistas da novela” – pensei. Sempre que saio à rua com algum amigo não-anônimo e vejo ele sendo abordado por algum fã, fico tentando entender como é isso de ficar emocionado diante de alguém que só se conhece “de vista” pela televisão ou internet. Agora eu sei. No meu caso, foi através de livros, mas a sensação, acredito, é a mesma.

Na mesma semana que descobri como é essa coisa toda de ser fã, tamanha foi a minha surpresa ao descobrir que tenho uma “leitora-fã” e acabei, sem querer, experimentando como é a sensação de estar do lado de lá também. Se é que posso chamá-la assim, né Marynha Dantas? Acho que classificar como fã acaba distanciando o admirador do admirado.

Recebi um monte de presentes lindos e mais do que especiais que a Maryinha me mandou pelo correio, diretamente de Sergipe. Tive a sensação dela ter enviado tudo que estava ao seu alcance para me fazer sentir querida e isso, de todos os presentes, foi o que mais me comoveu e emocionou.

Dentro da caixa de sedex, vários livros (alguns autografados pelos autores), produtos de beleza (minha boca, inclusive, nesse exato momento, está mutíssimo agradecida pelo hidratante labial), doces nordestinos de-li-ci-o-sos, uma toalha lindíssima, com meu nome e minha foto bordados com o maior capricho do mundo, lembrancinhas para o meu pai e minha mãe (que ficaram também muito agradecidos), e o presente mais caro de todos: um livro montado à mão, especialmente para mim. Nas primeiras páginas da edição exclusiva, o seguinte aviso:

“Atenção: todos os textos e fotos foram retirados do blog Janela de Cima, da escritora Roberta Simoni. Este trabalho manual e arcaico não pode ser copiado (pois você desiste pelo trabalho que dá). Não tente desgrudar as folhas e ver o que há por trás, pois um livro foi dilacerado para em cima das belas folhas coloridas se fazer este trabalho, o qual se chama ‘O dia que se perdeu a tesoura e tudo foi cortado a dedos’. É só para ‘remember’ e ratificar que há uma galera considerável esperando um livro (nem que seja de bolso, em papel reciclado) desta escritora, jornalista e viajante do e no tempo, ainda não tão famosa a nível global, mas querida por todos que amam o que é escrito com sensibilidade e talento. Aguardamos.” (Marynha Dantas)

Agora, me digam, quando eu poderia imaginar que enquanto eu estava aqui, levando minha vidinha insana e distraída, havia alguém lá no Nordeste do país preparando uma surpresa tão linda assim pra mim?

Isso de admirar e ser admirado por quem a gente nunca olhou nos olhos é uma coisa mágica. Obrigada, Marynha, por me provocar a sensação de estar no caminho certo numa semana onde a estrada me pareceu tão sinuosa, escura e perigosa, me fazendo pensar, diversas vezes, em voltar e procurar outro caminho menos arriscado.

Roberta Simoni

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15 comentários sobre “O admirador e o admirado

  1. Carissíma Beta… como diz a moda, surtei !( vi no meu email o link ) pensei – num bom nordestinês e original Patativa do Assaré sem correção ortográfica – ” num kerdito no que eu tô oiando e leno “…li no meu email e depois corri pra cá, pra ver se não foi algum acidente blogástico, e aí, olha só, eu tô aki, na JANELA DE CIMA, na moral, num texto exclusivo e como sempre, ” e m o c i o n a n t e” só talento mesmo pra transformar cocadas & pessoas nordestinas em assunto pra se ler. rsrsrs.
    Essa foi ótima -“Tive a sensação dela ter enviado tudo que estava ao seu alcance para me fazer sentir querida..” ha ha ha ha hilário mas é verdade, se fosse há 20 anos ainda teria ido junto avos de quintal, raizes de macaxeira com terra, uma galinha caipira etc bem, imagine quando algum outro leitor-fã dos lados da Amazônia surtar de te mandar uma lembrancinha das bandas de lá ? será um baita pirarucu, litros e litros de açaí original, até água do Solimões e Negro.
    Bem, de coração, obrigada pelos meus dez minutos de fama. Deus te abençoe !!

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      • Grata, caro “Rei das Copas”, rsrsrs mas neste reinado aqui,acredito que somos todos felizes súditos, que por voluntária submissão “escritológica” à Monarca do Blog, acabam, sem querer querendo, contaminados com o bom vírus da libertação literária eu acho, e claro, fico no meu lugar, que reine a Rainha, por dignidade.Valeu”:)OLha já tô entrando onde não deve srsrsrs , aqui é blog e não forum…como dizia o Clô, “perdoe-me minha rainha ” rsrssr

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  2. Já que você tocou no assunto…

    Uma leitora-fã?! Rs. Acredito que não! Acho que me enquadro na categoria de fã tímida, que acompanha seu blog há tempos, e nunca deixou um recadinho. Escrever não é meu forte, vai?! Mas se tivesse um livro seu não teria dúvidas, faria a fila e pegaria o autógrafo, com direito a “sou sua fã” no final e tudo! 😉

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    • Olha o ciúme branco pintando aqui gente rsrsrs, sei que ela vai te responder, eu só quero dizer que são sim, centenas que leem, e são admiradores dos belos textos da ( sotaque carioca)”Robééérta Simoni”,mas nem todos comentam, só os ousados mesmos rsrsrs, pois é, companheira Thaynara fã-0 ( zerinho antes do 1 tá ? )vamos esperar que ela faça por onde seja real esta fila de leitores brigando por ser o primeiro a ter o autográfo dela. Sou apenas uma “DAS” e sairia (ou sairei ?) daki do sertão pra está nesta fila com certeza. Fãs não brigam, se unem num fã-club. Abraço nordestino, doce como rapadura.

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  3. Se houver um fã-clube, podem incluir minha inscrição na categoria “fã tímido”, como a Thaynara.
    Roberta, como todos os leitores do seu blog, também espero um livro seu. Mas sem pressão, hein. Pode continuar escrevendo só por aqui, que enquanto isso a gente vai curtindo do mesmo jeito…

    Abraços!

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  4. Ah, esqueci de dizer: a Marynha Dantas fez o que muitos de nós, provavelmente, gostariam mas não tiveram coragem de fazer… Parabéns a ela.
    Mais do que fã apenas, ela demonstrou muito afeto mesmo.

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