Incondicionalmente

Fotografia genial do genial Elliott Erwitt

O Théo, meu cachorro, não sabe brincar de bola. Ele não entende o fundamento básico da brincadeira entre o cão e o homem que consiste em devolver a bola para o homem para que ele possa jogá-la para ele ir buscar. No mundo dele, a brincadeira funciona assim: a maior interessada em pegar a bola sou eu, e se eu quiser pegá-la, tenho que enfiar a mão dentro daquela bocarra cheia de dentes enormes e arrancar a bola toda babada de lá, na marra. E enquanto eu não fizer isso, ele não me deixa em paz.

Não é a coisa mais agradável do mundo, mas também não é a pior, é por isso que volta e meia a minha mão está dentro da boca do Théo, um labrador grande, gordo e lindo de quase 10 anos de idade que ainda se comporta como se tivesse 2 e que nunca-jamais-sob-hipótese-alguma tem a intenção de morder ninguém, mas que vez ou outra acaba me machucando na tentativa de me acordar com uma patada de “leve” na cara, pulando no meu colo para demonstrar o quanto está feliz com a minha chegada ou abocanhando a minha mão quando ela está segurando a sua bola. Ele não tem a menor noção do próprio tamanho, peso e força. Age como se tivesse o porte atlético de um pequinês ou de um porquinho da Índia.

Foi brincando assim que ontem ele arrancou a pele do meu dedo e eu dei um grito de susto e de dor – mais de susto do que de dor – e ele largou a bola na mesma hora e veio lamber a minha ferida. Até nisso os cães são mais nobres do que nós, eles não esperam a ferida se cicatrizar para tentarem se retratar conosco. Orgulho é só mais uma característica humana entre tantas que os cães desconhecem.

Ele me feriu e lambeu minha ferida em seguida. É quase como morder e assoprar, coisa que as pessoas fazem o tempo todo, inclusive com quem amam. A diferença é que alguns humanos só mordem. Alguns só assopram. E outros machucam sem usar os dentes.

Faz 10 anos que tento, inutilmente, ensinar ao Théo a maneira correta de brincar de bola. Faz 10 anos que explico para ele que a brincadeira não funciona desse jeito…

Às vezes penso que Théo é burro. E faz 10 anos que ele pensa exatamente a mesma coisa a meu respeito, mas não desiste de mim. Incondicionalmente.

Roberta Simoni

Eu também queria querer a lua!

“Tentei descobrir na alma alguma coisa mais profunda do que não saber nada sobre as coisas profundasConsegui não descobrir.” (Manoel de Barros)

Meu afilhado estica os bracinhos para o céu e tenta pegar a lua. Quando ele sai à rua com minha irmã, já olha direto para o alto à procura dela, quando a localiza, pronto, enlouquece! Pula de colo em colo, escala todos os adultos que estiverem ao seu alcance na tentativa de chegar mais perto da lua, vidrado, com o dedinho apontado para cima, chamando a “ua” sem parar, jogando beijos e “namorando” com pisadas galanteadoras em direção ao céu. Quando é hora de voltar para dentro de casa, ele abre o berreiro.

Arthur tem 1 ano e 2 meses e, além de ser alvo do meu mais puro amor, é também alvo da minha mais profunda inveja. Ele está apaixonado pela lua! E, vejam, ele pensa que pode tê-la. Não é lindo isso? Tudo se resume a olhar, se encantar e desejar pra si. Só isso! Não tem que ter a mínima lógica, não precisa fazer sentido. E ninguém precisa dizer pra ele que o que ele está tentando fazer é um absurdo, até porque não vai adiantar, ele não sabe o que é o absurdo. Quando souber não vai gostar, ou talvez goste se puxar a tia, que apesar de saber o que significa, é dada a absurdos, tal como a epopeias.

E se eu invejo o meu pequeno é só porque ele ainda não sabe que não pode ter a lua, não imagina que ela é infinitamente maior do que ele e que está há uma distância tão grande que escalada a gigante nenhum pode aproximá-los. Ele simplesmente quer. Sabe-se lá o quanto deve ser incrível poder desejar q-u-a-l-q-u-e-r coisa? Eu adoraria saber. Já soube um dia, mas já não me recordo…

Em teoria, quanto mais conhecimento você adquire, mais capacitado você se torna para crescer na vida. Na prática, quanto menos você sabe, mais você se sente capaz de alcançar a lua.

A mim resta sentar, observar e admirar minha criança querendo tirar a lua do céu e levar para casa. E isso é melhor até do que poesia do Manoel de Barros.

Roberta Simoni