Abstração no jardim abstrato

Já faz mais de duas semanas que eu fui atropelada e alguns dias que fiz aniversário e eu gostaria imensamente de escrever sobre como me sinto após esses dois acidentes, mas hoje eu só consigo escutar Janis Joplin e Nina Simone sem parar, só pensando em não pensar.

Em pensar que um dia eu já fui uma garota à frente do meu tempo… agora eu ando me sentindo mais viva ouvindo a voz de mulheres que já morreram.

Por enquanto eu me aproveito de umas costelas afundadas para passar as noites em claro porque não encontro posição para dormir. Mas depois que as costelas voltarem para o lugar, eu voltarei a ser a mesma estranha de sempre, com os mesmos motivos errados para me manterem acordada, tentando dormir angústias que me acordam, mas nunca me tiram o sono.

Tenho sono de todas as minhas angústias, tão antigas e previsíveis quanto as missas de domingo, que eu posso passar mais vinte e tantos anos sem ir, sem nunca esquecer cada oração. Sei a hora exata em que cada angústia minha vai sentar, levantar, me fazer ajoelhar e por fim, dizer amém.

Oremos.

Um poeta me disse que uma pessoa sem angústias deixa de ser interessante. Na mesma hora me senti “a atraente”, como se eu fosse, de alguma forma, diferente. Não sou. Todo mundo vive angustiado por algum motivo, e, partindo desse princípio, todo mundo é atraente. Mas entendo o raciocínio. Entendo e compartilho. Parece que quanto mais angustiada uma pessoa se sente, mais ela se esforça para parecer radiante, especialmente se ela tiver uma rede social para usar de palco para sua encenação. Preguiça.

Preguiça é a palavra. Tenho um corpo de quase 30 e o cansaço de quase 300. Trezentos anos. Trezentas pessoas. Já vi tanta coisa repetida, tanta gente parecida. Já vejo onde tudo vai terminar e é inevitável sentir uma profunda preguiça de começar. E então bocejo longo e gostoso, sem pressa de acabar, pensando seriamente em devolver o ingresso na bilheteria.

E só agora, no inverno, eu soube que quase perdi um amigo na primavera passada. Logo ele que eu não tenho preguiça de assistir. Ele que sabe que não pode morrer. Ele que me disse que não vai, que não vamos, que somos imortais. Eu com minhas costelas de aço e ele com seus olhos azuis que amarelo nenhum pode roubar.

Eu tenho visitado mais hospitais e cemitérios do que gostaria. Mas perto deles tem um pátio bonito onde a gente se encontra de vez em quando e ri solto. As flores são de plástico, mas nem parece, ou parece, mas a gente finge que não acha porque ainda sente alguma preguiça de cultivar girassóis.

Roberta Simoni