Enquanto você não vem…

Graças a Deus começou a chover de novo. A chuva lava a culpa que eu sinto por ter passado o dia inteiro procrastinando e, veja só, logo agora que me obriguei a botar a cara na rua, chove de novo. Você sabe, São Pedro é meu camarada.

Eu tenho câimbra nos pés toda vez que eles ficam gelados, no coração também. Mas, por sua causa, de uns tempos pra cá, fico com câimbra só nos pés, e só quando você não está por perto.

Eu deveria ter vergonha de andar por aí assim, com meus quatro pneus arriados, e deveria ter medo de parecer idiota quando fico te olhando desse jeito, e de dormir com a porta aberta… mas se eu trancá-la, como você vai continuar entrando aqui de madrugada, trazendo ovos e me pedindo para fritá-los às 2h da manhã pra gente comer com pão?

Ainda agora senti uma vontade súbita de comer arroz-doce. O arroz-doce que vovó Verinha sempre preparava. O mais estranho desse desejo é que eu nunca fui fã de arroz-doce. Tá, eu comia, beliscava, mas não amava. Acho que o que eu amava mesmo era saber que na casa dela sempre haveria arroz-doce. Mas não há mais arroz, nem doce. Aí eu já não sei se meu desejo procede ou se é só necessidade de sentir o gosto daquela época na boca de novo. Só sei de uma coisa: detesto, com todas as minhas forças, o fato de eu ser tão nostálgica.

Laura, minha depressão, me mandou um torpedo essa semana, avisando que está bem. Pois, veja você… o médico disse que tenho depressão, essa estranha, a quem eu decidi batizar de Laura. Acho chique, um nome forte, misterioso, mais ou menos como essa doença que eu ainda não entendo direito e que eu sempre achei que fosse coisa só de gente fina, elegante e sincera. Tá, sincera eu sou mas, francamente, fina e elegante?

Trabalhei feito um ser humano nos últimos meses e demorei esse tempo todo para escrever porque, juro, pensei que eu não sabia mais como fazê-lo. Mas, como pode ver, cá estou, de um jeito ou de outro, te dizendo essas bobagens todas.

Você acha graça do fato de eu saber assobiar. O que mais você sabe fazer, menina? – você me pergunta, impressionado com as minhas aptidões extra-curriculares relevantíssimas. Também consigo estralar os dedos dos pés com meus próprios pés. Sei ficar vesga, abrir bem minhas narinas e dobrar minha língua, quer ver?

Eu bem que podia ser menos engraçada e mais sexy, mas é tão divertido te ver perdendo o fôlego de tanto rir de mim, como naquele dia que a resistência do chuveiro desarmou e você, na porta do banheiro, precisou sentar no chão para suportar suas gargalhadas ao me ver pulando feito uma perereca debaixo daquela água gelada. Ou quando, no meio de uma tentativa frustrada de fazer caras e bocas para te seduzir, ouvi você dizendo: “Deus, como você é engraçada!”

Eu deveria te incentivar a parar de fumar, mas adoro a forma como você traga o seu cigarro e a maneira como você me traga. Na verdade, a culpa é minha. Se você fuma é porque eu quis assim. Você é um personagem que eu criei e – seus pulmões que me perdoem! – mas na minha imaginação você é fumante… e tem mãos enormes, uma voz grossa e uma cabeça tão, tão linda. E você acha esquisito o fato de eu achar a sua cabeça bonita, diz que nunca achou que receberia um elogio tão estranho. Mas você também não achou que pudesse ser amado por alguém tão estranha, que adora a sua cabeça com tudo isso que ela tem dentro, e veja só.

Você fica com os olhos cerrados quando está triste e cinzentos quando está irritado, e quando você se aborrece, sua boca, língua e voz perdem completamente a funcionalidade. E quando sou eu quem provoca qualquer uma dessas suas reações, fico igual ao meu cachorro quando faz besteira: te olhando com cara de piedade, te rodeando, dando a patinha pra ganhar carinho e roçando nas suas pernas, tentando me desculpar com você, mas, diferente do meu cachorro, eu não consigo te convencer a fazer carinho na minha barriga, pelo menos não nas primeiras 24 horas. Você é duro na queda.

Você oxigena antes de falar e eu acho lindo. E dilacerante. Fico te olhando feito espectadora, paralisada diante da tela do cinema na cena final do filme. Quando você fala, chego no clímax e quando você só suspira, eu fico balbuciando coisas sem sentido pra ver se adivinho o que você está tentando me dizer. Eu falo demais, culpa dessa minha verborragia incorrigível, você sabe… o meu mal é ter o cérebro muito perto da boca.

Queria passar o restante do dia aqui, escrevendo impropérios, criando metáforas, sendo redundante enquanto digo o quanto te amo e te contar pela milésima vez como eu te quis desde a primeira vez que te vi, mas não posso, parou de chover de novo, isso significa que eu preciso fingir que sou um ser humano normal, com atividades normais. Tenho que ir ao banco, depois ao supermercado, ligar para minha avó que não faz mais arroz-doce, fazer as unhas, revisar um texto, levar o carro no borracheiro para consertar os pneus arriados, esperar você chegar… essas coisas de gente ocupada demais, diferente desses escritores que passam o dia tomando água com gotas de limão enquanto se dedicam só a criar. Esses, sabe? Esses que eu queria ser…

Não demora muito pra chegar, tá? E faz o favor de trazer a chuva de volta com você quando vier.

Roberta Simoni

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4 comentários sobre “Enquanto você não vem…

  1. Beta, que lindo texto…
    Hj eu acordei com crises de saudade aguda… ou crônica… ou prosa… ou poesia.
    Seu texto talvez tenha me ajudado a identificar o motivo…

    Beijo grande!

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