Ah… a vida alheia…

Tenho experimentado bastante essa coisa de viver. Ao acaso, é claro, porque eu quase não sei viver de outra forma. De todas as outras formas, cheias de normas e fórmulas, eu até sei, mas gosto de fingir que não sei.

Sei que vivendo, eu vejo mais coisas do que gostaria de ver. E me vejo em mais situações do que gostaria de estar e, por consequência, acabo voltando para casa todos os dias com uma reflexão nova, dessas que a gente leva junto pro banho, pra cama…

Então cá estamos mais uma vez: eu, vocês e meus devaneios… que dessa vez me transportaram para uma situação que vivi não faz muito tempo: eu estava numa festa onde a Cissa Guimarães também estava. Logo que ela chegou, surgiu atrás de mim, feito assombração, uma senhora que eu nunca vi mais gorda e que, sem rodeios, começou a me encher o saco de perguntas:

– Essa daí não é aquela atriz?

– É.

– Cissa Guimarães o nome dela, não é?

– É.

– Não foi o filho dela que morreu?

– Foi.

– Nossa! Ela parece tão feliz para quem perdeu um filho há tão pouco tempo, né?

– …

Lancei um olhar tão indignado para a velha que não sei como não perfurou aquela boca que ela anda usando de forma tão infeliz. Depois, comecei a explicar num tom hostil que, para começar, o acidente com o filho dela já tinha acontecido há uns dois anos e, além disso, ela não poderia passar a vida inteira trancada em casa, chorando. Depois, no meio do meu discurso revoltado, me dei conta do tempo e da saliva que eu estava desperdiçando, dei as costas e saí, deixando a mulher, no mínimo, arrependida de ter aberto a boca.

Parece óbvio que as pessoas só enxerguem aquilo que os olhos vêem mas, pra mim, o óbvio é que estamos falando de gente limitadíssima, que tem que ver pra crer. Gente que precisa ver dor em exposição, pendurada numa moldura bonita na parede.

Mas é claro que ela vai viver esse luto a vida inteira. Ela vai acordar todos os dias e vai pensar no filho, vai sentir um aperto no peito que medicina nenhuma nunca vai conseguir curar e não vai passar nenhum dia sequer sem sentir saudades dele. Mas, ainda que o luto seja eterno, ele tende a ser cada vez mais interno. Ela vai parar de usar o vestido preto, vai colocar um belo vestido florido e vai sair linda e colorida por aí, a garota que quebra o coco sem arrebentar a sapucaia.

E sempre vai ter um infeliz se ofendendo com a alegria alheia. Sempre.

Talvez mais detestável do que alguém que julga o seu estado te vendo em breves minutos, ignorando o que você passa e sente nas outras dezenas de horas com as quais os seus dias são preenchidos, só mesmo quem tenta te convencer do que você precisa superar ou de como deve se sentir ou reagir diante das suas dores e perdas.

Alguém que te empresta um ombro, te dá um lenço ou um rolo de papel higiênico pra você assoar o nariz quando tudo que você quer é chorar, ou que fica do seu lado no mais profundo silêncio quando palavra nenhuma é capaz de confortar, é infinitamente mais útil do que alguém que te diz que já está na hora de você superar, que você precisa sair dessa e blá blá blá Whiskas Sachê.

Ah… a vida alheia! Como é doce e terna a vida alheia, não é mesmo? Fácil de opinar e simples de resolver, ainda que ninguém seja capaz de imaginar ou mensurar.

Se eu abro o berreiro no meio da rua ou se choro baixinho no travesseiro, quando ninguém está vendo, não é porque a minha dor muda de tamanho, o que muda, na verdade, é o meu tamanho quando eu sinto dor. E se eu volto a ser criança toda vez que a vida me dói, isso é tão alheio aos outros quanto deve ser.

Roberta Simoni 

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6 comentários sobre “Ah… a vida alheia…

  1. Vou pegar emprestadas algumas partes de um poema de uma mulher que eu admiro demais. ( quem amamos, gostamos, admiramos, consideramos nunca morre).

    ” Se você é gentil,
    as pessoas podem acusá-lo de interesseiro.
    Seja gentil assim mesmo”

    Se você é um vencedor,
    terá alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros.
    Vença assim mesmo.

    O que você levou anos para construir,
    alguém pode destruir de uma hora para outra.
    Construa assim mesmo.

    Se você tem paz e é feliz,
    as pessoas podem sentir inveja.
    Seja feliz assim mesmo.” ( ASSIM MESMO – TEREZA DE CALCUTÁ)

    Querida Beta, vc tá certa, não adianta explicar coisas relevantes para pessoas irrelevantes, kda um sabe o que é importante a ser valorizado, por isto nos diz Tereza: faça, seja, construa, ame, curta, assim mesmo.

    abraço

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  2. É verdade Pepeco…é impressionante como “a vida alheia” excita e estimula certas (muitas) pessoas.
    A dor tem de estar na cara, para que elas acreditem… Se estar feliz incomoda, e a tristeza nunca é suficiente…
    Por isso que você é que está certa, vive sua vida sem se preocupar com terceiros,” dane-se…ninguém paga as minhas contas”.
    Parabéns!!!
    Beijos, saudade, amor…
    Mamy

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  3. O mais engraçado, é que poucos, só os especiais, realmente se importam em se tornarem sábios, que não vem com a velhice, mas com a contemplação. Que não passa até comer chocolate ou escrever.

    Continue se indignando.

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