Eu, Tamagotchi.

Roberta Simoni

Dorotéia, querida, como você está? Não me faça essa pergunta de volta porque eu não estou boa para responder perguntas difíceis em nenhum grau de complexidade hoje, sim? Agradecida.

Faz tempo que não te escrevo, eu sei. Gostaria que fosse por excesso de trabalho, mas não, é por falta de organização mesmo. Todos os dias sento em frente ao computador e penso: vou escrever para Doroty hoje, daí, o hoje vira daqui a pouquinho, que vira amanhã que não vira nada, como você deve ter notado pela ausência de e-mails meus na sua caixa de entrada nos últimos dias. Quer dizer… eu espero que você tenha notado e não se acostumado com a minha ausência.

Só faço isso porque você sempre me perdoa (pra você ver como eu sou uma péssima pessoa…). Você vai direto para o céu – sem escala – por ainda me amar e continuar abrindo meus e-mails, apesar de tudo.

Deixa eu te contar: hoje eu passei por uma loja de roupas e acessórios femininos que estava toda em liquidação, entrei e me interessei por uma bolsa baratinha, baratinha, mas lindinha… naquele estilo: pobre, mas limpinha, sabe?

Só que aí, quando eu fui pagar, percebi que o tecido da bolsinha-lindinha-baratinha, estava descascando todinho. Tem dó. Sou pobre, mas sou limpinha. Desisti de comprar, mas não sem antes me desculpar uma centena de vezes com a vendedora. Saí da loja e fiquei pensando: por que eu me desculpei tanto? Afinal, eu estava no meu direito de consumidora, além do mais, a vendedora foi super compreensível, apesar de ter tentado me convencer a levar a bolsinha-lindinha-baratinha-descascadinha com um desconto amigável. Não levei mesmo assim.

Lembrei daquilo que você me disse uma vez, sobre eu me sentir na obrigação de consumir tudo aquilo que me oferecem e, você sabe, eu adoraria estar falando de bolsas, sapatos e similares. Também não tô falando de drogas, já passei dessa fase, não se preocupe.

Depois esqueci da vendedora e fiquei pensando na bolsa. Espero que ela não tenha se sentido rejeitada (a bolsa, não a vendedora), porque eu sei bem como é se sentir assim por causa de um defeitozinho de nada. Estamos mesmo falando dos sentimentos de um objeto inanimado? Ok, eu estou. Parei.

Te contei da minha vizinha da janela da frente? É uma senhorinha bem idosa que fica sempre debruçada na janela. Peguei-a me observando com binóculos ontem, e não foi a primeira vez. Acenei pra ela, ela acenou de volta e sorrimos uma para outra. Hoje, a mesma coisa, mas ela não acenou de volta. Tentei de novo, e nada. Talvez ela não tenha me visto acenar, acho que estava bisbilhotando o apartamento ao lado. Mas quando foi que a minha vida deixou de ser interessante pra ela? E por que as pessoas acenam para você num dia e no outro dia te ignoram? E não, você não precisa me dizer que eu estou carente. Eu sei disso. Ainda há pouco me peguei fazendo auto-cafuné. Pois é. Veja a que ponto chegamos…

Acho que eu virei um tamagotchi, querida. Lembra do tamagotchi? Nós já tivemos um. Aquele joguinho que você precisa dar de comer para o bichinho, fazer carinho todos os dias, botar para dormir, etc.

Se ele me dá carinho, fico contente. Se me trata com frieza, fico doente. Se ele não me dá comida, morro de fome. Eu sou uma ridícula.

O Emerson diz que isso acontece porque eu passei tanto tempo sem amar e sem ser amada com alguma decência que tá dando pane no meu sistema. Acho que ele tem razão. Ninguém nunca me contou que amar requer muita, muita prática. Portanto, estou aprendendo na prática. Estou… não estou? Espero que haja solução para o meu caso. Mas, se não houver, você me adota?

Sabe o que eu acabei de perceber? Que estou te escrevendo porque, além da saudade que sinto de você todo o tempo, eu estou enrolando para não fazer a revisão de um livro que a editora me mandou hoje. Eu juro que estou grata por ter pintado trabalho, embora esse trabalho seja quase indecente. R$ 1,00 por página revisada, acredita? Pois creia, não é pegadinha. Em tempos de vacas desnutridas, até mesmo esses bicos têm me deixado contente.

Eu resolvi que quero ser rica, Dorotéia. Então decidi jogar na loteira, passei em frente à casa lotérica e tinha uma fila enorme, desisti. De jogar, não de ser rica. Assim fica difícil. Preciso conversar com meus pais e prepará-los para a realidade: eles têm uma filha que anda ganhando a vida por R$ 1,00 por página. Ainda não tive coragem de contar para eles.

Estou merecendo um castigo, querida. Acho que vou dormir na casinha do cachorro hoje.

Agora vou me despedir de você, já é tarde e eu ainda preciso sair para providenciar uma casinha. E um cachorro.

Amor, R.

Roberta Simoni

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