Oficina Literária

Terapia da Palavra - Janela de Cima

Amigos leitores e leitores amigos,

Tenho uma novidade bem bacana:

A partir do dia 18 de fevereiro, em parceria com a também jornalista e escritora (e idealizadora do projeto), Maria Rachel Oliveira, estarei oferecendo uma Oficina de Escrita Criativa – Crônica e Texto Livre, com o objetivo de colocar as emoções e as ideias pra fora. Nesse módulo, cada exercício foi pensado visando despertar o lado direito do cérebro para novas possibilidades.

Como as aulas e as tarefas serão realizadas virtualmente, qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo pode participar.

Para quem sente aquela vontade de escrever, mas se sente intimidado com as palavras e não sabe por onde começar, nós podemos ajudar com exercícios, dicas e orientações literárias.

É só entrar no site do Terapia da Palavra e se inscrever.

E então? Vamos escrever juntos?

Roberta Simoni

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O preço da independência feminina

Mulheres Independentes

A maioria das mulheres solteiras que eu conheço possuem uma característica em comum: são independentes. E isso é uma coisa que me intriga há muito tempo mas só agora resolvi trazer à tona. Não só porque é um assunto delicado, que mexe com o movimento feminista e toca na ferida dos machistas mas, porque, acima de tudo, eu demorei muito tempo para entender – eu disse entender, não aceitar – que mulheres independentes sofrem preconceitos reais.

Há poucos dias uma amiga veio me contar, indignada, que estava saindo com um sujeito que, depois de alguns encontros, virou-se pra ela e disse: “eu jamais namoraria você… não dá para controlar uma mulher tão livre e independente assim.”. Comigo o mesmo já aconteceu, só que de maneira mais sutil e menos franca. O rapaz aí em questão assumiu seu machismo, coisa que, nos dias de hoje, a maioria dos homens disfarça ou mascara e nós só vamos descobrir que o bom moço por quem nos apaixonamos é um tremendo machista enrustido tempos depois, quando a parte racional do nosso cérebro já está seriamente comprometida.

Minha mãe sempre me disse que eu assusto os homens e eu sempre me assustei com essa afirmação tão enfática dela. E inconformada, questionava, “mas, por que isso, mãe?”. A resposta é simples e mesmo assim, meia volta eu preciso que ela desenhe novamente para mim, especialmente quando saio frustada das minhas relações.

Aos 13 anos de idade comecei a trabalhar e a ganhar meu próprio dinheiro. Aos 18, saí de casa e fui morar em outra cidade, sozinha. Trabalhei, estudei, estagiei, viajei e paguei, sem a ajuda de ninguém, minha própria faculdade, minha carteira de motorista, meu aluguel e as calcinhas que visto. Em dez anos, morei em várias cidades, tive diversos endereços e atualmente moro sozinha num apartamento pequeno que cabe no meu orçamento de jornalista freelancer e, apesar de ainda ter um caminho longo a percorrer para realizar meus sonhos e objetivos, sou feliz na minha condição de mulher livre, contudo, hoje, perto de completar 30 anos, sinto o peso das minhas conquistas.

Isso mesmo, o peso. Nessa década de caminhada solitária em busca da minha realização pessoal e profissional me envolvi com homens que, em sua maioria, admiravam a minha postura mas que, no entanto, não seguraram o rojão de ter ao lado uma mulher que toma suas próprias decisões, que não pede permissão para ir ao bar com as amigas ou para viajar sozinha no fim de semana para se isolar e pensar um pouco na vida. Ao que parece, o fato de não sermos dependentes deles é um problema. Em contrapartida, nós, mulheres, não suportamos um companheiro emocionalmente dependente de nós, e isso não tem nada a ver com machismo ou feminismo, mas com amor, ou melhor, com a nossa forma de amar.

Mulheres independentes amam de forma diferente, amam de forma, digamos… independente. É como se, com as nossas atitudes, disséssemos assim para eles: “Olha, meu amor, eu te amo, mas precisar, precisar mesmo, eu preciso do meu trabalho, dos meus projetos, preciso me realizar, mas quero ter você ao meu lado em cada conquista. Você topa seguir de mãos dadas comigo?”. E eles entendem assim: “Querido, eu até gosto de você, mas como eu sou uma mulher livre e independente, eu saio por aí dando para quem eu quiser, tudo bem?”. E é claro, eles não aceitam, não entendem e se recusam a ter ao lado uma mulher cuja vida ela própria controla.

E o que temos é uma geração de mulheres bem-sucedidas, com carreiras cada vez mais sólidas e… sozinhas. Mulheres independentes dependentes de carinho, com um potencial surpreendente para amarem e serem amadas, mas que assustam tanto os homens com sua autossuficiência que acabam se vendo abrindo mão – não por escolha, mas por imposição subconsciente da sociedade – a não terem uma vida amorosa (só para esclarecer: eu tô falando de amor, não de sexo!) para continuarem conquistando seu espaço.

É claro que existem homens que não só não se importam como se orgulham e vibram por terem ao lado uma parceira com essas características mas eles estão em minoria. O machismo persiste e os homens ainda se sentem intimidados e inseguros com mulheres decididas e determinadas a serem, acima de tudo, plenas.

Da mesma forma que cabe a eles, cabe a nós também o desejo e a capacidade de desempenhar diversos papéis. Eu quero ser uma profissional reconhecida e bem remunerada, quero ser uma boa mãe e quero também ter um parceiro que não só compreenda como compartilhe dos mesmos desejos e vontades, inclusive da necessidade de distração e diversão nos intervalos disso tudo, seja individualmente ou em dupla. E, tenho certeza, não é querer demais.

Roberta Simoni

Horinhas de Descuido

“Felicidade se acha é em horinhas de descuido.” (Guimarães Rosa)

À Helena, Roberto e Alexandre.

Há quem diga que meus textos são densos. Como poderia ser diferente se eu sou densa? Pungente, intensa, dolorida. Não se deixem enganar pelo meu sorriso cheio de dentes. Também sei ser sorridente, engraçada, doce e gentil. Mas a vida me dói sempre, menos nos momentos de distração… menos naquelas horinhas de descuido quando a felicidade acontece.

Ontem eu ganhei um sorriso gratuito de um transeunte. E ganhei cafuné de mãe. Ganhei músicas de amigos e, de um deles, ganhei uma música que ele compôs e que, segundo ele, se parece comigo pelas minhas tristeza e doçura profundas. Chorei de emoção. E de alívio por perceber que a minha capacidade de emocionar-me continua intacta.

De outro amigo escutei a frase mais linda do dia: “Amo a impossibilidade de me enganar com você.”

Achei lindo e puro, embora lá no fundo, eu gostaria que ele estivesse equivocado. Gostaria que as pessoas pudessem se enganar comigo de quando em vez ou que, ao menos, se surpreendessem, mas a minha transparência impossibilita qualquer equívoco, pelo menos para aqueles que enxergam bem.

Ganhei um beijo do velho Chiquinho Ramalho. O vô que já não fala, não anda, tampouco distribui beijos. Sentei na varanda ao lado dele, sentado sobre sua cadeira de rodas, e assisti o meu velho segurando um cigarro imaginário (costume pelos muitos anos passados sentados na porta de casa fumando e observando a vizinhança).

Ele segurava o cigarro que não tinha nas mãos, levava até a boca, tragava, assoprava, jogava a guimba no chão e olhava para o horizonte. Com a outra mão, segurava a minha mão com muita, muita força. E eu perguntava: “vô, no que você tá pensando?”, e pedia: “vô, olha pra mim!”. Mas ele não olhava, não falava, não se movia, a não ser para fumar seu cigarro imaginário, e eu pensava no que ele ainda era capaz de sentir e se ele ainda era capaz de sentir alguma coisa. Ao final, como das outras vezes, pedi-lhe um beijo e, diferente das outras vezes, ele me deu. E o beijo calou as minhas dúvidas sobre os sentidos e os sentimentos dele. Foi a minha horinha de descuido do dia.

Pela manhã, recebi essa mensagem da Helena, minha menina acesa: “Justo quando a lagarta achou que o mundo ia acabar, ela virou uma borboleta”.  

“Não vejo a hora de virar borboleta”, respondi. “Quanto mais tempo dentro do casulo, maiores e mais belas as asas da borboleta”, me garantiu a menina acesa. Veremos…

Enquanto isso, faço como o velho Chico com seu cigarro: vivo meus amores imaginários, trago as minhas tragédias íntimas, assopro as minhas dores e escrevo com o que me restou de alma que, eu sei, é mais do que alguns têm de alma inteira.

Roberta Simoni

Dois pra lá. Dois pra cá.

By Vanessa Paxton

“Eu nunca mais vou amar de novo” tem o mesmo efeito que “eu nunca mais vou beber”. A gente bebe e fica de ressaca da mesma forma que ama e quebra a cara de novo, arrependido por ter quebrado a cara e a promessa feita da última vez, sob os efeitos causados por ambas as drogas.

Eu fui ao inferno e voltei. Encontrei Euridice de Orfeu no Mundo dos Mortos e não consegui trazê-la de volta à vida. Eu não consegui. Juro que tentei, mas não fui capaz. Nem eu voltei completamente viva de lá. Bem na verdade eu voltei para o lado de cá enfrentando todos os demônios que me seguiram até aqui. E o que eu aprendi com eles foi que o único lado bom da batalha contra a dor é perceber-se vivo, meio capenga das pernas, mas dançando conforme a música. Ou tentando. Dois pra lá. Dois pra cá.

A gente passa cada coisa nessa vida, viu? Se contar ninguém acredita. É por isso que ninguém conta e a gente vem pra cá desavisado e vai vivendo como pode, como consegue ou, como diria minha vó Norma: como Deus quer. Dois pra lá. Dois pra cá. Empurra com a barriga daqui, chuta um balde ou outro dali, chora feito bezerro desmamado numa hora, na outra gargalha feito hiena. Num dia tá bem, no outro tá na afundado na merda. Mas é sempre a dor que nos faz lembrar que estamos vivos, seja lá como for, mas estamos. Ainda estamos.

O trem está passando e eu estou sentada no banco da estação vendo-o partir sem conseguir mover minhas pernas. Aquele ali era o meu trem e eu acabei de perdê-lo. Já é o terceiro que eu perco hoje. “No próximo embarco”, é o que eu sempre penso quando tento sair do lugar, convencendo minhas pernas desobedientes a colaborarem. Levanto finalmente e começo não a andar, mas a dançar a música que está tocando na estação central do meu cérebro. Dois pra lá. Dois pra cá. Pouco me importa o que vão pensar. Foi esse o jeito que, por ora, eu arrumei de caminhar.

Entro no trem. Um moço aparece e me tira para dançar. Digo que não sei dançar e ele responde: “É fácil, é só você me acompanhar!”. Tento, mas, lá pelo décimo pisão no pé do rapaz, desisto. “Desculpa. Essa dança não é para mim, de qualquer forma, obrigada por ter feito parecer que era fácil, eu quase acreditei!”. Ele ruma ao próximo vagão, certamente em busca de uma dançarina mais eficiente. E eu sigo viagem no mesmo vagão, no mesmo ritmo, fazendo a mesma “dancinha da sobrevivência”. Dois pra lá. Dois pra cá. Sem parceiro para me conduzir, sem ter os pés e a leveza das bailarinas, sem o gingado e o rebolado das passistas das escolas de samba e sem a coordenação motora natural a quase todo ser humano.

Mas, persisto. Esse é o meu maior e melhor defeito. Eu persisto.

Dois pra lá. Dois pra cá. 

Roberta Simoni