O poder destrutivo dos fracos

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“Talvez eles tenham razão quando digam que não é justo chamar de falha de caráter o fato de a vida de alguém ter sido sempre mansa, com obstáculos mínimos” (Lionel Shriver – Precisamos Falar Sobre o Kevin)

Vejo nos fracos uma obstinação admirável, especialmente em continuarem na posição de fracos porque, afinal, dessa forma ninguém pode cobrar nada deles, já que todos os enxergam exatamente como eles se esforçam para serem vistos: seres frágeis, dependentes, incapazes, coitados e, portanto, injustiçados. Nessa ordem.

Os fracos são propensos, por natureza, à indignação. Se, em algum momento, passa por suas débeis cabecinhas que eles mesmos podem lutar pelo que quer que seja, bom… eles tratam de se livrarem dessa ideia tola imediatamente e optam por continuarem sustentando a teoria de que alguém precisa fazer isso por eles, simplesmente porque eles nasceram assim: fracos, sentindo profunda complacência por si próprios e imensa compaixão por sua condição, ainda que eles tenham todos os braços, todas as pernas perfeitamente saudáveis e, de quebra, um órgão fantástico em pleno funcionamento: seus cérebros. Dotados, inclusive, de esperteza e sagacidade suficientes para continuarem articulando nos seus “genitores de subsistência” a certeza de que não conseguem fazer absolutamente nada sem apoio, seja financeiro ou emocional. Ou, na pior das hipóteses, os dois.

Embora eu ainda não tenha filhos que dependam de mim, muito menos pais, visto que os meus só somam na minha vida, quando eu me vejo como genitora de filhos adultos que eu nunca pari, vejo também minha mais profunda indignação se manifestando. Caberia, nesses breves momentos de revolta, uma dose de aceitação com uma pitada de compreensão, partindo do princípio básico de que as pessoas são diferentes umas das outras, que umas são mais fracas, outras mais fortes e que não é porque eu sempre corro atrás (e até na frente) do que preciso e/ou quero que posso achar que todo mundo tem que ser igual.

Não se engane, não estou falando de auto-suficiência. Ninguém é 100% auto-suficiente, graças a Deus. O fato de precisar correr para o colo da minha mãe quando meu mundo cai, nos torna mais cúmplices, o fato de dividir o aluguel, a conta do restaurante e as angústias com o meu namorado, nos torna mais parceiros. O fato de gostar de ter uma mão amiga quando, porventura, enfrento um problema de saúde, me torna mais humana. Mas, o fato de ver alguém com as mesmas capacidades físicas e mentais que as minhas, a mesma idade, o mesmo conhecimento sobre o fundamento básico do capitalismo, a mesma noção de que dinheiro é fruto de suor e trabalho e, em contrapartida, a diferente disposição de meter a cara no mundo e se virar sem dizer que não consegue sem antes nem sequer ter tentado, me impressiona. É mais fácil e bem menos trabalhoso se escorar em quem tá aí, na batalha.

Dependentes físicos, emocionais e (temporariamente) financeiros eu já tive uns tantos, da mesma forma que também já fui. De modo que sei que ainda terei outros dependentes ao longo da vida e, com as voltas que o mundo dá, posso voltar a depender da ajuda de alguém a qualquer momento. Mas me recuso a cultivar dependentes da acomodação, da preguiça e da falta de vergonha na cara. E isso pode até não fazer de mim uma pessoa melhor mas, sem dúvidas, menos fraca. Aceitar manter sangue-sugas no meu pescoço de forma passiva não me torna lá muito diferente deles.

Não são só os ladrões os vilões e anti-heróis da sociedade, eles não são os únicos que nos roubam e sugam de nós até o que não temos. Os maiores e mais nocivos vampiros são os fracos, que sugam dos fortes (ou dos menos fracos) tudo o que podem. E eles sempre querem mais, como todo bom e velho vampiro. Quanto mais sangue suga, mais sede tem. E em nome do seu desejo, pouco importa que inocentes tenham que ser sacrificados.

O peso de um único fraco na vida da gente é maior do que a força de duzentos fortes. E eles se sentem inteiramente confortáveis em serem carregados nos nossos cangotes sem nunca, jamais, cogitarem a hipótese de colocarem seus pés no chão e caminharem sozinhos de vez em quando para, quem sabe, nos pouparem de uma grave escoliose que, inclusive, nos impedirá de continuar carregando o fardo de suas existências.

Não tenho certeza de como essa gente consegue lidar com dificuldades de verdade, depois de exercitar com tanta frequência seus plenos poderes de consternação com a vida. Aliás, também tenho minhas dúvidas sobre o que elas fazem com as responsabilidades que lhes são impostas, visto que sequer sabem o que fazer com suas próprias vidas, já que passam todo o tempo dependendo da boa (e da má) vontade, do suor e da dedicação de terceiros que fazem por elas o que nada nunca as impediu de terem feito por conta própria.

A fraqueza e a obstinação puras e simples são mais duráveis do que a força e a coragem, embora não sejam mais bonitas, tampouco mais dignas.

Roberta Simoni

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4 comentários sobre “O poder destrutivo dos fracos

  1. Achei fortes os pontos, bem fortes. O que a vida tem me ensinado, e comento apenas como um contra ponto para somar ao raciocínio, é que as coisas da relações são duais. Há um ganho para os “fortões”, algo talvez que lhes confirme a força e os diferencie. Não estou aqui defendendo nada, apenas comentando que existem contratos invisíveis, assinados por pelo menos dois. Como os fantasmas fortes e fracos, acordos invisíveis são mais difíceis de combater do que escoliose permitida.

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  2. Esse tá entre os textos mais irretocáveis que li nos últimos anos. SÓ ISSO.

    E não é só em termos de construção das frases, mas também e principalmente das ideias.

    Se eu ficar com um pouquinho só e “invejinha branca”, você me perdoa, ok? (Pô… Perdoa aí… A CULPA É TUA!)

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  3. Pepeco, brilhante texto! Amei!

    Você foi vítima de alguns vampiros ao longo de sua caminhada, aliás, todos somos, e como é trabalhoso nos livrarmos deles (temporariamente) é a vida.
    Quando o brilho é forte, eles logo se aproximam, não tem jeito. Com o tempo vamos criando estratégias para fugir deles.
    Beijos com amor e saudades…
    Mamy

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  4. Ai, como essas pessoas têm estado por perto! Dos meus fortes prediletos, principalmente…acho uma pobreza deitarem-se nos braços dos bons, mas acredito também que isso é parte da projeção de Deus, que deve estar calculando um aprimoramento da força, ou desafiando nossa humanidade e nossa sabedoria, pra nos fazermos melhores. Pelo menos gosto de pensar que é assim.
    Gostei daqui =) muito prazer.

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