Eu, multidão.

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Eu sou essa gente que anda contra o fluxo, que nada contra a maré. Eu sou o livro esquecido e empoeirado na prateleira de livros ainda por ler. Sou ausência sentida. Eu sou o rapaz que finge dormir no trem para não dar lugar à velhinha que acabou de entrar no vagão. Sou a puta que te pariu. Eu sou o acento que ficou faltando, a vírgula no lugar errado. Sou a verborragia nossa de cada dia. Sou as suas reticências. Eu sou a sua melhor ilusão. Eu sou o cigarro que você traga, a fumaça que você assopra. Eu sou o choro estridente do bebê dentro do avião que constrange os pais e faz os demais passageiros revirarem os olhos. Eu sou o homem que perdeu a fé. Sou a criança que não queria sair da infância. Sou loucura, excesso, intensidade, dúvida, medo. Sou a personagem real da história distorcida que alguém vai contar numa mesa de bar. Sou a mentira confortável, a verdade inconveniente. Sou saudade inventada. Sou lembrança amarga. Sou a ideia errada que fizeram de mim.

Eu sou essa gente que anda a favor do fluxo, que se deixa levar pela correnteza. Eu sou o livro de cabeceira lido pela metade. Eu sou presença ausente. Eu sou a velhinha que fica em pé no trem ao lado de quem está sentado, esperando que lhe cedam o lugar. Sou o filho da puta. Eu sou a ortografia impecável naquela carta escrita à mão. Eu sou o seu ponto de interrogação. Eu sou só uma projeção. Sou o efisema no seu pulmão, a tosse que você disfarça. Sou o sorriso amarelo da aeromoça para a mãe do bebê choroso. Eu sou a mulher que não perde a esperança. Sou a criança que tinha pressa em virar adulta. Eu sou sensatez, falta, suavidade, certeza, coragem. Sou a personagem fictícia da história real que alguém vai viver um dia. Eu sou aquela que desata a falar porque não suporta cair nos buracos de silêncios repentinos numa conversa. Sou a mentira inventada, a verdade camuflada. Eu sou saudade sufocada. Sou lembrança agridoce. Sou a segunda impressão que tiveram de mim.

Eu sou um pontinho na multidão, eu sou uma multidão inteira. Eu sou o livro devorado de uma só vez. Sou a ausência mais presente. Eu sou a moça que se levanta imediatamente para ceder lugar à velhinha no trem. Eu sou a mãe que pariu solidão. Sou o acento que foi extinto da ideia e expulso da plateia. Eu sou silêncio repentino. Eu sou o seu ponto final. Eu sou a sua realidade. Sou o ar puro que você respira com dificuldade. Eu sou o constrangimento que impede o passageiro de pedir à aeromoça para trocar de lugar. Eu sou o homem que acabou de descobrir do que é feita a fé. Sou a criança que não acreditava em Papai Noel, que virou a adulta que, genuinamente, insiste em acreditar no ser humano. Eu sou a personagem sem nome da história secreta e que, portanto, nunca vai ser contada. Eu sou aquela que prefere a falta de assunto absoluta porque cansou de tentar argumentar com portas falantes. Sou a mentira mal contada, a verdade despida. Eu sou a saudade desmedida. Sou total esquecimento. Sou o oposto de tudo o que pensaram a meu respeito até aqui.

Roberta Simoni

Os dias andam tristonhos

Dias tristonhos

Os dias estão tristes, os dias estão tristes. Os dias estão se recusando a sorrir.

Minha mãe liga para avisar que meu avô foi entubado, já não respira sem a ajuda dos aparelhos. Olho para a janela e penso que hoje deveria ser um dia de chuva. Hoje, especialmente, eu gostaria de ver minha janela chorando, solidária. Mas ela permanece seca, intrépida.

O telefone toca de novo, dessa vez é minha tia. Minha tia preferida, vale ressaltar. Tia Eza anda tendo fortes dores na coluna. Cuida do meu outro avô que ainda não precisa dos aparelhos para respirar. Mas precisa dela. E ela respira ele todo o tempo e ainda me diz – sem a menor desconfiança do tamanho do disparate – que é pra eu ir pra lá pra ela cuidar de mim também. Agradeço, mas não vou, claro. Me comovo profundamente com pessoas como a minha tia.

Já é madrugada. Eu não sei o que é dormir direito faz algumas semanas. Não haveria de dormir agora, depois de passar dois dias no hospital por conta de uma reação alérgica violenta no meu rosto e, principalmente, depois de sentir de forma tão clara o prelúdio da partida do meu avô preferido.

O meu amor se deita ao meu lado e me faz um carinho no rosto. Dormimos abraçados, enlaçados. Porque a dor, eu descobri agora há pouco, é uma forma poderosa de unir duas pessoas. Antes de pegar no sono, ele diz que dói me ver sentir dor. Depois me pergunta quando as coisas vão, finalmente, começar a dar certo. Eu também quero saber, meu bem, eu também quero saber…

Eu gostaria de entender que mal é esse que afeta os meus prediletos.

Os dias estão tristonhos. Os dias se recusam a sorrir e o que é ainda pior: se recusam a chorar. Faz tempo que não chove no Rio de Janeiro e o noticiário avisa que hoje é o dia mais quente do inverno.

Os aparelhos dele ainda estão ligados, mas minha mãe confessa, como quem fala cochichando para não ouvir o som da própria voz, que a casa dos seus pais já começa a ter um cheiro diferente, uma atmosfera estranha. Ela sabe o que vem a seguir, eu sei, todos sabemos, mas nem por isso dói menos.

Recebo mensagens de condolência de uma prima querida da Itália pelo estado do meu avô. Meus olhos ficam marejados de emoção enquanto leio, menos pelo teor das mensagens e mais pelas palavras escritas em italiano. Lembro do meu avô me ajudando a falar sua língua e das histórias que ele me contava de lá. Depois sorrio com o gosto doce da lembrança da nossa última conversa por telefone:

– Ô Nono, como você tá?

– Tô bem, tenho 3 namoradas. Sua avó e as duas enfermeiras.

– Mas, vô, é muita mulher pra você dar conta sozinho!

– E você?

– O que tem eu?

– Por que não se junta a elas?

– Mas eu sou sua neta!

– Não tem problema. Se você quiser ser a minha namorada, eu deixo você ser a principal delas.

E eu, a namorada principal do meu avô, evito escrever quando os dias estão tristes porque sou, naturalmente, influenciada por eles. Não quero que você aí, do outro lado, termine de ler esse texto com vontade de cortar os pulsos. Mas, convenhamos… o que seria do escritor e do leitor sem uma dose de realidade?

Já é tarde quando chega a chuva fina junto com a notícia da morte de uma amiga muito, muito querida. É o céu chorando, penso. E paro de escrever. Me permito, enfim, largar meu corpo à beira da cama, abaixar a cabeça e chorar de soluçar.

O discurso do pastor ao lado do corpo da minha amiga não me comove, pessoas com bíblias embaixo do braço oferecendo consolo em frascos de orações escandalosas não me consolam. Me afasto dos outros e passeio sozinha pelo maior cemitério que já vi na vida. Diante de centenas de túmulos de desconhecidos não sinto nenhum medo, nenhum estranhamento, não sinto nada. Estou vazia.

Minha amiga morreu no dia do próprio aniversário. É a primeira vez que eu vejo alguém morrer no mesmo dia que nasceu. Ela sofreu e adoeceu por amor e o amor por lá nem apareceu para um último adeus. Descubro mais uma coisa nesses dias doloridos: não tenho medo de gente morta, tenho medo de gente viva.

Os dias estão tristes. Os dias estão tristes. E eu tenho visitado bem mais hospitais e cemitérios do que gostaria.

Roberta Simoni