Sai do armário, escritora!

Saindo do Armário

Escritora, cadê você que não escreve mais nada? Digo, nada além de textos enfadonhos para seus superiores que te recompensam com alguns cobres. Nem no seu caderno você escreve mais, escritora!

Curioso esse talento que a gente tem de não cuidar do talento da gente, né? Essa mania que temos de abandonar o que possuímos de mais precioso – e urgente! – com o pretexto da falta de tempo, de oportunidade e outras desculpas esfarrapadas que inventamos para deixar de inventar a nossa própria história.

Fernando Pessoa dizia que a Literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. Agora entendo bem.

Ando lendo para não me perder completamente. Lendo, eu diria, compulsivamente. Até bula de remédio. Uma vez que a escritora anda enrustida, melindrada e tímida, não perco a leitora de vista. E essa, quanto mais lê, mais provoca e atiça a escritora a sair do armário.

Mas a escritora não anda lá muito dada à provocações, tampouco à reação alguma quando atiçada. E não é só a escritora que anda recolhida, a faladora também está um tanto calada. Não via esse raro fenômeno acontecer desde os meus 18 anos, quando me submeti à cirurgia de retirada das minhas amígdalas.

Embora eu tenha consciência de que não há cura para minha verborragia, não posso negar que estou curtindo esse hiato silencioso.

Silencioso, mas nem tanto. Ainda tenho pensamentos que falam alto demais. Outros, no entanto, nem chegam a se verbalizar, tampouco ganham voz. Mantêm-se na forma original. E, dessa forma, certamente me evitam meia dúzia de dores de cabeça. Quem dera ser sempre assim, uma diva prudente, calada, contida. Mas eu tenho um espírito escandaloso que mora num corpo desajeitado, que grita através de gestos, olhares e silêncios.

A verdade é que eu só estou aproveitando esse breve recreio para deitar e rolar nas palavras que eu não tenho dito nem escrito. Só nas que leio. Nas que eu escuto, nem todas, ou nenhuma, a depender de por quem são ditas.

Deixo as palavras de mais difícil digestão para quando a escritora quiser sair do armário, enfim, rasgar os verbos e, se sentir vontade, os sujeitos também.

Enquanto isso, ela arruma a bagunça das suas gavetas e pendura os seus anseios e receios, um a um, em cabides coloridos.

Roberta Simoni

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Um comentário sobre “Sai do armário, escritora!

  1. Que ótimo Beta!! rsrs, nestes tempos de sai-sai , parece até nome de enredo fora de época, este texto e esta imagem dizem tudo sem palavras, no caso, para não haver confusão de quem sai e pra que sai, umas letrinhas saindo junto da escritora oculta seria legal rsrsrs. Bem, vamos envelhecer , nós ,seus fãs explícitos, esperando “o livro” desta escritora oculta é ? sai do armário BETA ! Porque ter quem te leia tu tens menina. Inté.

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