As definições de autossabotagem foram atualizadas com sucesso

É com muito pesar que venho através desta crônica contar que descobri mais um defeito meu de fabricação. É uma lástima, mas a garantia já venceu há tantas décadas que não tem nem onde se queixar, não tem ouvidoria pra ligar ou loja pra ir e tentar trocar. Tarde demais. Me devolver eu também não vou, então o jeito é ir tentando fazer uns reparos aqui e ali e pra tentar ficar minimamente funcional.

Se você tá pensando que eu tô aqui falando sem parar pra enrolar e não contar o meu defeito recém-descoberto, você deve estar sentindo calor, pois está coberto de razão.

Eu descobri uma técnica minha de autossabotagem muito antiga e, pro meu desespero, muito eficiente. Funciona assim: eu tenho uma coisa pra fazer, mas essa coisa pode esperar, tipo lavar a louça, aí eu vou adiando, porque embora me incomode, não incomoda o bastante pra eu resolver logo. Mas aí, quando aparece uma coisa importante pra fazer, que pede prioridade, instantaneamente a limpeza da louça se torna urgente.

As coisas que merecem atenção de verdade, recebem uma atenção desatenciosa. É como se eu desviasse atenção daquilo que realmente importa pra eu não me apavorar com a importância de executá-la. Aí eu vou ali e pá, lavo uma louça, dou uma varridinha na casa, arrumo a escrivaninha, organizo o estante de livros por cores pra ter a sensação de que eu tô preparando o terreno pra fazer “a grande tarefa”. Ou, pior: faço as pequenas tarefas pra ter a sensação de que pelo menos eu consegui fazer alguma coisa, caso eu não consiga executar a grande tarefa. Ou, pior ainda: faço as pequenas tarefas primeiro pra ter o argumento de que não estou conseguindo fazer a grande tarefa porque estou abarrotada de pequenas tarefas pra fazer, ou seja, crio uma desculpa concreta pra convencer a mim mesma de que não tinha mesmo como fazer.

Quando se trata de um trabalho remunerado, a ordem é inversa. Priorizo sempre as urgências de forma prática e automática. Quando alguém / alguma empresa tá me pagando pra fazer uma coisa, entendo que se eu não for eficiente, vou prejudicar quem está confiando uma missão a mim. Nem me esforço, vou lá e faço sem pestanejar. É tipo gago tentando falar sem gaguejar, daí quando sobe num palco e começa a cantar, não gagueja, como quem vira uma chavinha. Na hora de trabalhar pros outros, eu funciono instantaneamente, e na hora de fazer qualquer coisa pro meu próprio benefício, eu desfunciono.

Exemplos práticos de prioridades que não priorizo: estudar inglês, preparar meu portfólio, me exercitar, escrever o próximo capítulo do meu livro e por aí vai. Todos esses estão na pasta das “Grandes Tarefas”, que é uma subpasta da pasta “Adiáveis”.

Não que a lavagem da louça não seja importante. É, mas tudo bem se ficar pra depois porque isso não vai causar nenhum grande impacto no meu futuro. Já o portfólio que eu deixo de fazer, por exemplo, vai influenciar diretamente no meu futuro, quando alguém pedir meu portfólio pra avaliar meu trabalho e eu não tiver ou quando pintar uma vaga incrível que exija inglês fluente e eu ainda não souber falar. Esse último é um clássico na minha vida. Se eu estivesse dando exemplos hipotéticos já seria deprimente, mas imagine você que esses são só alguns relatos.

Esse texto é só um lembrete pra mim mesma de que sou eu quem cria os maiores obstáculos da minha vida, de como eu sou a causadora dos meus maiores problemas e, por consequência, sou a única que pode criar estratégias para se livrar deles. E se esse texto caiu no seu colo assim, do nada, desculpa o tapa na cara, mas alguém precisava te acordar pra vida também, meu anjo.

(Ah… é possível que este texto tenha saído porque eu tinha alguma coisa mais importante pra fazer? É, sim.)

Roberta Simoni

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