Sobre render-se completamente ao universo

As coisas só começam a melhorar (ou a parecer menos piores) quando a gente se rende completamente ao universo – excelente frase de efeito pra ser usada em legenda de selfie fazendo biquinho ou no espelho da academia, mas, óh… pra pôr em prática complica um cadim, e não tem filtro bonitinho que dê jeito.

Eu tô aí tentando entender por que custo tanto a me render. Acho que tem a ver com gênero. Mulher é resistência purinha, do dedo mindinho ao último fio de cabelo. Resistir é nosso instinto natural. Deve ser por isso que mesmo em situações que pedem rendição instantânea, a gente não se entrega fácil, não.

“Mãos ao alto, isso é incontrolável” – grita Descontrole, um temido bandido não procurado, que exige: “passa tudo, madame”, me obrigando a entregar as minhas certezas banhadas a ouro, as convicções de prata, as pérolas de planos e as expectativas de 256 gigabytes e 12 megapixels que eu ainda tô pagando prestações à perder de vista. “Perdeu, perdeu!”

Ainda tento reagir e argumentar com o bandido. “Moço, deixa eu salvar pelo menos as certezas? Elas têm valor afetivo pra mim!” – eu imploro, mas ele arranca tudo da minha mão e sai correndo. Escapa por um beco escuro que dá na Rua dos Bobos, nº 0, uma casa muito engraçada, que não tem teto, não tem nada, nem parede, chão ou penico, mas que foi feita com muito esmero pelo Seu Controle, engenheiro renomado no ramo da construção civil.

Ele projeta casas tipo aquelas de revista de decoração, que ninguém tem, mas que todo mundo sonha em morar. “Tudo ilusão”, papai diz entre os dentes, e eu sei que ele não tá se referindo à casa toda chiquetosa, mas ao controle sobre as coisas. Papai é envolvido com tráfico de verdades, trabalha pro chefe lá da boca, Zé Realidade.

Papai acha que esse trabalho fez ele se render completamente ao universo, mas na realidade não é tão-tão completamente assim, não. Talvez ninguém consiga se render por inteiro a tudo, sempre tem aquela situaçãozinha desconfortável, aquele serzinho miserável que a gente ainda fica tentando aprender como lidar, até sentenciar: eu me rendo, não sei mais o que fazer com isso, cuida aí universo (ou deus, deusa, como você gostar de chamar aquele para quem você entrega tudo aquilo que não consegue gerenciar).

Veja bem, eu tô falando de render-se, não de desistir. São coisas parecidas, mas destintas.

Ok também se desistir, geralmente não é demérito nenhum e requer muita coragem, mais até do que insistir. Mas render-se exige mais do que coragem, exige uma confiança sobre-humana numa energia que você nem sequer pode ver, tipo deus, que funciona como uma espécie de gerenciador de problemas que não são da sua alçada.

(Dica rápida: se o causo for material, tem um mecanismo simplesinho pra conseguir render-se: entendendo que não tem renda suficiente, ou lembrando do imposto de renda. Nesse caso, o lance de “mãos ao alto” não é figurativo.)

“Dá aqui que eu cuido disso” – frase muito usada por mães e esposas, que é mais ou menos o que o universo diz quando estamos tentando fazer uma parada que não temos a MENOR aptidão pra fazer. Pior: que muitas vezes não temos que ter porque não é da nossa conta, por mais que envolva os “nossos” problemas, essa interferência só atrasa o rolê.

O negócio é o seguinte: tentou de um jeito, tentou de outro, falou com o deus e o mundo, fez o diabo a quatro e a coisa não rolou ou continua rolando, é hora de abrir os braços, fechar os olhos e se atirar no colo do universo. Niqui a gente finalmente chega ao ponto de se jogar, quando abre os olhos, percebe que caiu numa rede. O alívio é tão grande que começa até a se balançar pra sentir a brisa. E, olha, eu tô pra experimentar vento mais suavão que aquele que bate no sul da sensação de ter feito tudo que podia.

Roberta Simoni

 

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”

(Clarice Lispector)

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5 comentários sobre “Sobre render-se completamente ao universo

    • Estava pensando em me render, mas… Bem lá no fundo, sei que eu realmente não quero isso. Vou continuar persistindo. Controlar todas as variáveis é impossível, mas um bocadim delas já me faz sentir poderosa o bastante. =P Talvez eu esteja me dirigindo a Rua dos Bobos, sendo uma verdadeira zero à esquerda… Mas eu vou tentar conduzir minha vida sem me lançar, não quero uma rede pra me sustentar, ainda que tal pensamento pudesse ser tranquilizador. Vamos, assim, vivendo neuroticamente, tentando e falhando em controlar o leme de nossas vidas.

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