As trivialidades (nada banais) nossas de cada dia

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Clau, que saudade! Faz uns dias que eu tô pra te escrever, mas cadê que arrumo tempo? Tanta coisa pra gente conversar, né? Mas vamos por ordem de prioridade: você conhece o besouro rola-bosta? Eu não conhecia, Clau, como é que eu nunca tinha ouvido falar desse bicho? É uma espécie de besouro que vai acumulando bosta de outros animais até formar uma bola grandona de merda que ele sai rolando até o ninho, onde enterra os ovinhos e também usa como fonte de alimento pra família toda durante o inverno. Esse besourinho consegue empurrar uma bola de estrume até dez vezes maior e mais pesada que ele.

Sabe qual a semelhança e a diferença entre nós e o besouro rola-bosta? É que a gente carrega muita bosta também, mas não sabe usar nem como adubo pra florescer. Uma vida empurrando bosta pra nada é muito triste, Clau, ainda por cima quando a gente tá carregando a bosta dos outros.

Às vezes, eu fico pensando numas coisas muito aleatórias, sabe? Por exemplo, quando vejo no noticiário que outra mulher sofreu feminicídio, fico pensando que se acontecer comigo qualquer dia desses, quais fotos será que os jornalistas vão escolher para ilustrar a notícia? Torço para que eles sejam generosos e escolham uma que eu passe alguma credibilidade. Se bem que eu não sei se tenho fotos assim. Mas mesmo se eu tiver, não vão ser as que eles vão usar, certeza. Além disso, se eu me preocupo menos do que deveria com a imagem que eu passo viva, qual a diferença que vai fazer quando eu estiver morta, não é mesmo?

Semana passada eu fui assistir ao espetáculo de um amigo que, graças às deusas, tá sendo reconhecido pelo seu talento e ficou famoso. Mas desde que isso aconteceu, não tivemos mais nenhum momento só nosso, como aqueles que gente vivia inventando uns anos atrás, por qualquer pretexto. Quando você tem um amigo que fica famoso, você só tem uma opção: se ajustar à agenda dele, e sem fazer mimimi. Pra uma canceriana como eu, você sabe que isso requer algum esforço. No final da peça, tinha uma multidão em volta dele. Fiquei quietinha no fim da fila esperando a minha vez. Quando chegou, ele estava tão atordoado que, ao invés de me abraçar, passou o braço em cima do meu ombro e fez pose pra alguém tirar uma foto nossa. Mas não tinha ninguém, eu fui sozinha pra lá. Foi até engraçado. Sucede que ele tem tirado tanta foto com os fãs que já tá fazendo isso no automático. O bichinho suava, estava esbaforido, nem se tocou. Eu puxei ele pra perto, abracei forte, segurei o rosto dele e dei um selinho, como a gente sempre fez. Não demorou mais do que um minuto até que alguém puxasse ele pra fazer um story pro Instagram. Mas deu tempo de ele me agradecer e dizer que não esqueceu de tudo que passamos juntos e que eu fazia parte do sucesso dele. Gratidão é uma palavra que, tragicamente, se banalizou, mas quando ela se manifesta assim, despida na sua frente, é coisa linda de se ver, Clau. Chorei até.

Eu cheguei num estágio da adultice que tenho amigos que já compraram a casa própria, tem noção? Amigos casados e com filhos todo mundo da nossa idade tem. Mas amigos que estão pagando a prestação da casa própria enquanto você só tem a caixa velha do banco imobiliário faltando um monte de pecinhas, é ligeiramente assustador, cê num acha? Eu tô com 35 e comprar uma casa continua sendo uma das ideias mais distantes da minha vida, provavelmente a que mora mais longe da minha casa alugada.

Quando eu me imagino com grana, eu tô sempre viajando e comendo bem. Na cena de riqueza que eu projeto, nunca tô acumulando bens, no máximo, reservas pra poder me divertir mais. Se eu morrer hoje, deixo um legado de livros não lidos e uma coleção de cadernos com ideias e desabafos impublicáveis, de forma que, se eu me tornar uma escritora famosa algum dia, tenho que encontrar um destino pros meus cadernos. 

Preocupada com isso, liguei pra mamãe. Falei com ela que se der ruim e eu for antes dela, só ela pode ficar com meus cadernos, mas se a vida seguir sua ordem natural e ela for primeiro, é contigo que eu vou ter que deixar, Clau. Sinto muito… posso até te ver revirando os olhos, mas foda-se. Não adianta me dizer pra usar o celular, tu sabe que eu não abro mão de escrever à mão.

Da última vez que a gente se falou, você me perguntou sobre as minhas angústias, eu fiquei pensando em como te responder isso. Você sempre faz umas perguntas de vestibular que eu levo séculos pra elaborar uma resposta (por isso também a demora em te escrever). Funciona assim com as minhas angústias: eu faço com elas a mesma coisa que os adultos fazem com crianças pequenas quando precisam encontrar uma distração rápida: “olha ali, Angústia, que bonitinho o passarinho…”

Ela olha, se encanta, dá certo por alguns minutos, até que ela lembra e começa a chorar de novo. É só o tempo de eu pensar em outra forma de entretê-la enquanto ainda não consigo encontrar uma solução. E assim os dias vão passando. Quando a gente vê, já é outono de novo, Angústia cresceu e se tornou uma moça. Sabe lá o que é ter uma Angústia adolescente em casa? É claro que você sabe. Eu conheci umas bem senis quando estive aí.

Agora, falando de constrangimentos, pra variar. Sabe uma coisa que acho fascinante nos filmes e séries? Quando as pessoas têm alguma conversa desagradável num restaurante, uma delas se levanta e vai embora. Na vida real, a gente janta o constrangimento e ainda divide a conta. 

Um tempo atrás, conversando com uma amiga com quem eu não estava conseguindo estabelecer uma conexão nem por internet discada depois da meia noite, entre todas as hipóteses que levantamos pra desvendar o problema da nossa recente falta de conexão, questionei que “eu só queria uma relação de leveza”, mas antes mesmo de terminar a frase, eu me flagrei colocando um peso enorme nas costas dela por insinuar que era ela quem devia ser mais leve. Consegui engolir a frase antes de cuspi-la. Cobrar leveza de uma mulher que está carregando o mundo nas costas é leviandade. Não sei se ela percebeu que eu ia dizer isso, mas eu fiquei constrangida mesmo assim, tanto que tô até hoje pensando nisso. Mas é bom até, porque as coisas que merecem a nossa atenção, normalmente recebem uma atenção desatenciosa. Não dessa vez.

Aliás, me faz um favor? Se eu voltar a me comportar assim, você me avisa?

Eu vou ter que me despedir agora, Clau, porque ainda tenho que levar a Wilma ao veterinário, passar no cartório pra reconhecer firma, enfim… todas essas coisas odiosas da vida de adulto da qual tentamos tanto escapar e, no entanto, estamos aí, sobrevivendo. A gente sobreviveu à bala soft, aos cigarrinhos de chocolate, à brasília lotada sem cinto de segurança, ao Fofão, ao disco da Xuxa ao contrário, aos piolhos e até à loira do banheiro, não é uma burocracia ou outra que vai nos amofinar, certo?

Ah, antes de ir, só mais uma coisa: voltando da minha última viagem, percebi que existem dois tipos de pessoas: aquelas que não se importam de fazer as pessoas se levantarem no avião pra elas irem fazer xixi várias vezes durante o voo e as que passam a viagem inteira apertadas com medo de incomodar. Você e eu sabemos a qual grupo nós pertencemos.

Até quando, hein, Clau?

Um beijo, com amor e provocação,

Tua,

R.S.

4 comentários sobre “As trivialidades (nada banais) nossas de cada dia

  1. Pingback: Banalidades nossas de cada dia — Janela de Cima | THE DARK SIDE OF THE MOON...

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