Donas das Divinas Tetas

“(…) Derrama o leite bom na minha cara

E o leite mau na cara dos caretas”

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A primeira vez que eu vi mulheres com os seios de fora nos blocos de rua do Rio de Janeiro foi em 2017. Não faz muito tempo. E eu estava com a Ana, essa morena maravilhosa que aparece do meu lado esquerdo na foto. Nesse mesmo ano, eu conheci a Maria, essa deusa, louca e feiticeira, que está do meu lado direto. Na foto e na vida.

Naquele carnaval, tínhamos recém sofrido o golpe e gritávamos “Fora Temer”. Os protestantes já invadiam o Senado. Mesmo assim, ainda não imaginávamos que o pior estava por vir. Eu olhava admirada para as mulheres com os seios à mostra nas ruas do centro da cidade e me emocionava ao achar que estávamos progredindo. Errei feio, errei rude. O resto da história vocês já conhecem: de lá pra cá, regredimos tanto que, em 2020, sair assim no carnaval passou a ser um ato ainda mais revolucionário e de afronta.

Em tempos sombrios como os de agora, a sensação de liberdade de bancar essa atitude, mesmo que não passasse de uma sensação efêmera, foi maravilhosa. Homem nenhum nunca vai entender isso. De direitos de uso do próprio corpo adquiridos na base da afronta, entendemos nós.

E entendemos tanto que admiramos quando nos deparamos com uma mulher que se banca, se aceita e se liberta de travas, regras e tabus. Foi com essa admiração que nós fomos acolhidas por outras mulheres, nas redes sociais e nas ruas. Nos paravam pra dizer que estávamos lindas, que admiravam a nossa atitude. Algumas vinham nos abraçar e nos agradecer. Isso foi de uma beleza sem igual.

Sair com as nossas divinas tetas à mostra, num ato “socialmente profano”, foi também resultado de uma força crescente e uma consciência que foi tomando forma paulatinamente graças ao movimento feminista, que nos provoca a questionar e a dizer: “peraí, não somos nós que temos que esconder nossos corpos pra não atiçar o instinto sexual dos homens. São eles que precisam se controlar.”

Eu sinto atração por homens e nem por isso saio agarrando eles na rua.

Eu não tô mais disposta a me esconder com medo deles. Eu não admito mais achar que meu corpo ou a quantidade de pano que me cobre são gatilhos pra estuprador. Eu não aceito mais ter vergonha das minhas divinas tetas, estando elas de fora ou simplesmente com os mamilos marcando na camisa. E é por isso que agora eu entendo que, de fato, o que a gente fez foi um ato de coragem. Aqui ou em Olinda, protestando com centenas de mulheres de peitos de fora no bloco da Vaca Profana, ou fazendo nossa manifestação singela num bloco no Rio.

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Como disse (sabiamente – as usual) a minha amiga Oksana: botar os peitos de fora e sair na rua não é prova de estar 100% resolvida com tudo e não ter nem um pingo de receio das consequências. É encarar mesmo com receio. Coragem não é ausência de medo (isso é imprudência), coragem é ir com medo mesmo.

“Você acha que essa é uma forma legal de se expressar sobre o feminismo, Roberta?” – dentre as críticas que recebemos, as cobranças surpreendentes que sofremos, uma de nós por parte da família, outra por parte do parceiro ou dos colegas, essa foi uma das perguntas que me fizeram. E eu respondo: acho que é UMA DAS, sim. Homem tentando invalidar o conhecimento de causa da mulher é puro Mansplaining.

“Vocês estão sendo muito radicais” – outra acusação clássica! Agora somos feministas radicais e raivosas porque usamos nossos corpos como forma de expressão e manifestação. A quem estamos ofendendo? Então, se é pra servir de entretenimento pra homem, tudo bem colocar os peitos pra fora, mas se é por um ato político ou simplesmente porque sentimos vontade de mostrar as peita, não pode? Não tem cabimento.

Assim como não tem lógica reduzir a causa feminista a botar as tetas pra fora num bloco de carnaval. A gente tá aí há séculos lutando pela igualdade em todos os campos da vida, pela equidade salarial, pela liberdade de escolha e sexual, pelo direito de ir e vir sem ser assassinada no caminho, pura e simplesmente por ser mulher. A nossa luta é grande, a lista é imensa e infelizmente a batalha tá só começando. Não vem reduzir nosso ato de coragem e autoaceitação à simples necessidade de exibição, porque nossa atitude também diz respeito à tentativa insistente de dar um basta na objetificação do nosso corpo, que nos leva a sofrer 90% dos abusos e desigualdades citadas no começo deste parágrafo.

O que você vê nessa foto são só corpos de mulheres LIVRES. Não classifica crime de “atentado ao pudor”. Não gostou? Não olha!

Essa atitude, aparentemente inofensiva, mexeu com as minhas estruturas de um jeito surpreendente. Eu devo muito ao movimento feminista, que se mostra presente e atuante até mesmo quando eu acho que tô distraída. Eu nunca tô, na verdade. Basta olhar pro meu lado: as mulheres que caminham comigo não estão ali por obra do acaso. Eu escolho quem me fortalece, e elas me escolhem pelo mesmo motivo.

Junte-se às mulheres que já despertaram. Nós somos a revolução. Nós seguimos promovendo a transformação que as bruxas das nossas bisavós começaram lá atrás para que, quem sabe, as nossas bisnetas possam gozar da liberdade que perseguimos.

Roberta Simoni

“(…) Deusa de assombrosas tetas

Gota de leite bom na minha cara 

Chuva do mesmo bom sobre os caretas”