Uma carta ao passado

Querida Beta,

298150_2285997230761_3669485_n

Você está com 11 anos agora. Ainda não sabe, mas esse braço quebrado aí vai te trazer mais dores além daquela que você sentiu quando sua mãe, tio Carlinhos e os enfermeiros tiverem que te segurar pro médico colocar seu osso exposto no lugar. Foi um dia horrível, né? Mas preciso te preparar para o que ainda está por vir: o osso não vai colar e você vai precisar fazer cirurgias, fisioterapia e aprender a escrever e a limpar a bunda com a mão esquerda.

Sorte nossa ter uma família tão incrível, que vai nos ajudar a passar por tudo isso. Na escola, os meninos vão se referir a você como “a baixinha-gordinha-de-braço-quebrado” e isso vai te aborrecer, mas não liga, não. Daqui a uns três anos você vai ficar tão gata que esses mesmos meninos vão fazer de tudo pra te conquistar. E você, é claro, vai dar o toco em todos eles.

Aos 13, você vai começar a trabalhar e nunca mais vai parar. Vai conseguir juntar um trocado e sairá de Cabo Frio aos 18. Lembra quando você brincava de casinha e sonhava em morar sozinha na cidade grande? Você vai conseguir, garota! Aliás, você vai viajar bastante e morar em muitos lugares. Ao longo desses 35 anos você vai se mudar 21 vezes. Não é incrível? Cansativo também, eu sei, mas imagina só quantos lares você vai poder decorar?!

Você vai virar jornalista. Depois, fotógrafa. Vai ter uma máquina só sua e vai fazer trabalhos lindos, mas vai cansar dessa profissão depois de alguns anos e vai estudar pra ser roteirista. Sabe o que é isso? É uma pessoa que escreve histórias. Isso mesmo, você vai poder criar vários mundos através das palavras. Vai lançar um livro, vai trabalhar na rádio, no jornal e na TV e vai virar dramaturga… aquela pessoa que escreve peças de teatro, sabe? Mas não se empolga muito, porque você não vai ser famosa e só vai ganhar dinheiro suficiente pra se sustentar, o que já é uma baita conquista.

Eu sei que isso pode te chocar, mas até hoje eu não tenho um carro, nem uma casa. Ah, e eu não casei, só morei junto, mas foi uma derrota. Fica tranquila, porque eu ainda não tive um filho. Mas eu tenho uma cã linda chamada Wilma. Sim, o mesmo nome da nossa tia-avó. É uma homenagem a ela, que vai partir daqui a uns 15 anos, mais ou menos. Aproveita e enche ela de beijos enquanto ainda pode.

Você vai se apaixonar muitas vezes, vai ter seu coração partido e colado com durepox, mas vai sobreviver, calma. E vai viver momentos extraordinários e fazer amizades inacreditáveis de tão maravilhosas. Vai beijar meninos e meninas, tipo na música do Renato Russo que você adora. Daqui a 20 anos você vai viajar sozinha, primeiro pra Itália, depois pra um monte de outros países. Aliás, preciso te pedir um favor: não mata as aulas de inglês! Você não imagina quanta vergonha vai me poupar de passar se você se dedicar a aprender essa língua. Eu já fiquei perdida numa estação de trem na Bélgica gritando “Help, I’m lost!”, daí os belgas vieram me socorrer e eu não consegui explicar pra onde estava tentando ir… tá rindo, né? Parece engraçado agora, mas na hora deu até caganeira de tanto nervoso.

Você vai descobrir que tem depressão lá pelos 28 anos, e por mais difícil que seja, toda essa angústia e melancolia que você sente vão passar a fazer sentido depois desse diagnóstico. Sim, a gente toma remédio controlado todos os dias pra suportar viver nesse mundo. Mas são coisas da vida, meu bem. Não fica triste.

Ah, você não é adotiva, tá? Não acredita? Eu posso provar. Chega perto de papai agora e olha os pés dele. Olhou? São idênticos aos nossos, viu? Os dedos completamente tortos. Mas, pensa: eles funcionam, é isso que importa! Para de ficar se escondendo em calçados fechados. Aliás, o quanto antes você aceitar suas imperfeições e se livrar de tudo que te aperta ou te cobre demais, melhor. Você vai chegar até a perder a dignidade numa noite de bebedeira, mas a barriga, nunca.

Se eu te contar que mesmo assim você vai pedalar pelada numa manifestação nas ruas do Rio de Janeiro, você acredita? Hahahaha! Menina, eu fiz isso pra poder contar pros nossos netos um dia, mas como ainda não tivemos filhos, tô adorando poder contar pra você. Queria ver a sua cara agora!

Eu tenho tanta, mas tanta coisa pra te contar. Vou tentar te escrever todo ano, tá bem? Essa primeira carta está chegando agora graças aos meus alunos, que me inspiraram (demais a gente ter alunos, né, Betinha?). Eu os ajudo a escreverem textos criativos e eles me ajudaram a lembrar de você.

Agora, vá brincar com a sua irmã e suas primas. Pode entrar no rio com saco plástico no braço sem medo. Vai molhar de qualquer jeito, mas não importa, porque esse gesso não vai resolver nada mesmo.

Aproveita Sana por mim. Mesmo depois de tantos anos, esse continua sendo um dos nossos lugares favoritos no mundo todinho. A próxima vez que você estiver aí, já vai ter energia elétrica, sabia? Então larga o minigame e vá olhar as estrelas. Ah, e pede pra tio Paulinho tocar Vander Lee no violão. Ele não vai entender nada agora, mas um dia vai achar que você tem o dom de prever o futuro. E você tem mesmo. Mas não conta pra ninguém. Segredo nosso, tá bom?

Quanto à fratura exposta no braço, tenha em mente que ela não é nada perto das fraturas que você vai sofrer nos próximos anos, só que na alma. Mas eu estarei contigo, prometo. E o nosso anjo da guarda também. Te falo dele numa próxima carta. Estamos nos conhecendo melhor agora, mas já te adianto que ele é um cara fenomenal e ele te adora e te acha uma menina fantástica, e você é mesmo, apesar de todo o trabalho que dá pra ele.

Até breve, amor da minha vida!

Roberta Simoni

A Refinada Sutileza do Ser

Eu não sou sutil. Mas gostaria de ser. Eu nunca tenho uma história para contar onde eu sutilmente disse alguma verdade a alguém. Ou onde eu sutilmente conquistei alguma coisa. Aqui é tudo no suor ou na objetividade. Eu não deixo a entender. Esclareço, e transpareço.

Tem uma franqueza desconcertante imbuída de uma certa agressividade nesse comportamento que me incomoda. Se você tem intimidade comigo e está lendo isso agora, certamente tá concordando com a cabeça. Talvez você releve porque enxerga outras qualidades em mim, ou porque me ama. De todo modo, é nobre da sua parte.

Papai nunca foi de cobrar que eu tirasse as melhores notas na escola, no entanto, exigia que eu fosse muito educada na vida. Ele não me ensinou a me comportar como uma lady (embora tenha tentado isso também, claramente sem sucesso), mas me ensinou a cumprimentar o motorista do ônibus, o moço da portaria, a agradecer às pessoas que me servem qualquer coisa, inclusive quando estão sendo pagas pelo serviço. Ah… e a pedir desculpas, até quando não há culpados.

Se ele não tivesse sido tão rigoroso, eu poderia ter me tornado uma pessoa pouco agradável. Mamãe já me confessou que eu tinha um gênio tão ruim (dizer que meu gênio era “forte” seria apenas um eufemismo), que ela morria de medo de eu me tornar uma adulta insuportável. Acho que me tornei só irritante.

Gratidão, pai e mãe, por todos os castigos (sem direito a gibi da Turma da Mônica quando a malcriação era feia). Vocês poderiam ter sido os primeiros a desistirem de mim, mas não foram. Depois veio mais gente que relevou e ficou. Sempre há de se relevar alguma coisa nas pessoas se a gente não quiser que elas montem residência fixa no nosso passado.

Se eu estiver inclinada a deixar alguém se mudar pro meu passado, não vou acomodá-lo num cômodo escuro, sem saber o motivo. Eu não sou do tipo que provoca aquela sensação angustiante de “mas o que eu fiz?”. Tem isso de bom! Sou mais do tipo impiedosa que deixa o outro se perguntando: “o que eu faço com isso que ela me disse agora?”. Tem isso de ruim.

Como é ser sutil? Uma pessoa, pra ser sutil, precisa confiar muito na capacidade intelectual e cognitiva do seu interlocutor, caso contrário, como ela dorme à noite sem saber se transmitiu seu recado com clareza?

Sutileza é diferente de sensibilidade, essa eu tenho em porções exageradas, como a minha tia viciada em comprar amaciante mesmo com a dispensa lotada. Sutileza tem mais a ver com gentileza. Ser sutil no trato é uma forma de ser gentil. A sutileza é uma característica de pessoas macias. Eu adoro pessoas macias. Elas sabem como e quando falar, são ponderadas e pegam leve. São indispensáveis como os amaciantes pra lavagem de roupa suja. Eu tô mais pra sabão em pó.

A vida não me ensinou a ser sutil. Mas eu quero aprender. Tem tanta coisa que eu aprendi de um jeito e depois descobri que era melhor fazer de outro: embreagem depois do freio, pílula antes do sexo, admitir o erro antes de ser acusada… até intercalar água com bebida alcoólica eu aprendi, como é que eu não vou aprender a arte da sutileza?

Tenho, inclusive, notado uma melhora bem sutil no meu comportamento com a adição de um ingrediente muito básico, porém escasso: a empatia. Se você não tiver em casa, não tem problema. Pode substituir por compaixão, me disseram as pessoas macias. E tudo isso – pasme! – sem dizer nada.

Roberta Simoni