A Refinada Sutileza do Ser

Eu não sou sutil. Mas gostaria de ser. Eu nunca tenho uma história para contar onde eu sutilmente disse alguma verdade a alguém. Ou onde eu sutilmente conquistei alguma coisa. Aqui é tudo no suor ou na objetividade. Eu não deixo a entender. Esclareço, e transpareço.

Tem uma franqueza desconcertante imbuída de uma certa agressividade nesse comportamento que me incomoda. Se você tem intimidade comigo e está lendo isso agora, certamente tá concordando com a cabeça. Talvez você releve porque enxerga outras qualidades em mim, ou porque me ama. De todo modo, é nobre da sua parte.

Papai nunca foi de cobrar que eu tirasse as melhores notas na escola, no entanto, exigia que eu fosse muito educada na vida. Ele não me ensinou a me comportar como uma lady (embora tenha tentado isso também, claramente sem sucesso), mas me ensinou a cumprimentar o motorista do ônibus, o moço da portaria, a agradecer às pessoas que me servem qualquer coisa, inclusive quando estão sendo pagas pelo serviço. Ah… e a pedir desculpas, até quando não há culpados.

Se ele não tivesse sido tão rigoroso, eu poderia ter me tornado uma pessoa pouco agradável. Mamãe já me confessou que eu tinha um gênio tão ruim (dizer que meu gênio era “forte” seria apenas um eufemismo), que ela morria de medo de eu me tornar uma adulta insuportável. Acho que me tornei só irritante.

Gratidão, pai e mãe, por todos os castigos (sem direito a gibi da Turma da Mônica quando a malcriação era feia). Vocês poderiam ter sido os primeiros a desistirem de mim, mas não foram. Depois veio mais gente que relevou e ficou. Sempre há de se relevar alguma coisa nas pessoas se a gente não quiser que elas montem residência fixa no nosso passado.

Se eu estiver inclinada a deixar alguém se mudar pro meu passado, não vou acomodá-lo num cômodo escuro, sem saber o motivo. Eu não sou do tipo que provoca aquela sensação angustiante de “mas o que eu fiz?”. Tem isso de bom! Sou mais do tipo impiedosa que deixa o outro se perguntando: “o que eu faço com isso que ela me disse agora?”. Tem isso de ruim.

Como é ser sutil? Uma pessoa, pra ser sutil, precisa confiar muito na capacidade intelectual e cognitiva do seu interlocutor, caso contrário, como ela dorme à noite sem saber se transmitiu seu recado com clareza?

Sutileza é diferente de sensibilidade, essa eu tenho em porções exageradas, como a minha tia viciada em comprar amaciante mesmo com a dispensa lotada. Sutileza tem mais a ver com gentileza. Ser sutil no trato é uma forma de ser gentil. A sutileza é uma característica de pessoas macias. Eu adoro pessoas macias. Elas sabem como e quando falar, são ponderadas e pegam leve. São indispensáveis como os amaciantes pra lavagem de roupa suja. Eu tô mais pra sabão em pó.

A vida não me ensinou a ser sutil. Mas eu quero aprender. Tem tanta coisa que eu aprendi de um jeito e depois descobri que era melhor fazer de outro: embreagem depois do freio, pílula antes do sexo, admitir o erro antes de ser acusada… até intercalar água com bebida alcoólica eu aprendi, como é que eu não vou aprender a arte da sutileza?

Tenho, inclusive, notado uma melhora bem sutil no meu comportamento com a adição de um ingrediente muito básico, porém escasso: a empatia. Se você não tiver em casa, não tem problema. Pode substituir por compaixão, me disseram as pessoas macias. E tudo isso – pasme! – sem dizer nada.

Roberta Simoni