Uma carta ao passado

Querida Beta,

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Você está com 11 anos agora. Ainda não sabe, mas esse braço quebrado aí vai te trazer mais dores além daquela que você sentiu quando sua mãe, tio Carlinhos e os enfermeiros tiverem que te segurar pro médico colocar seu osso exposto no lugar. Foi um dia horrível, né? Mas preciso te preparar para o que ainda está por vir: o osso não vai colar e você vai precisar fazer cirurgias, fisioterapia e aprender a escrever e a limpar a bunda com a mão esquerda.

Sorte nossa ter uma família tão incrível, que vai nos ajudar a passar por tudo isso. Na escola, os meninos vão se referir a você como “a baixinha-gordinha-de-braço-quebrado” e isso vai te aborrecer, mas não liga, não. Daqui a uns três anos você vai ficar tão gata que esses mesmos meninos vão fazer de tudo pra te conquistar. E você, é claro, vai dar o toco em todos eles.

Aos 13, você vai começar a trabalhar e nunca mais vai parar. Vai conseguir juntar um trocado e sairá de Cabo Frio aos 18. Lembra quando você brincava de casinha e sonhava em morar sozinha na cidade grande? Você vai conseguir, garota! Aliás, você vai viajar bastante e morar em muitos lugares. Ao longo desses 35 anos você vai se mudar 21 vezes. Não é incrível? Cansativo também, eu sei, mas imagina só quantos lares você vai poder decorar?!

Você vai virar jornalista. Depois, fotógrafa. Vai ter uma máquina só sua e vai fazer trabalhos lindos, mas vai cansar dessa profissão depois de alguns anos e vai estudar pra ser roteirista. Sabe o que é isso? É uma pessoa que escreve histórias. Isso mesmo, você vai poder criar vários mundos através das palavras. Vai lançar um livro, vai trabalhar na rádio, no jornal e na TV e vai virar dramaturga… aquela pessoa que escreve peças de teatro, sabe? Mas não se empolga muito, porque você não vai ser famosa e só vai ganhar dinheiro suficiente pra se sustentar, o que já é uma baita conquista.

Eu sei que isso pode te chocar, mas até hoje eu não tenho um carro, nem uma casa. Ah, e eu não casei, só morei junto, mas foi uma derrota. Fica tranquila, porque eu ainda não tive um filho. Mas eu tenho uma cã linda chamada Wilma. Sim, o mesmo nome da nossa tia-avó. É uma homenagem a ela, que vai partir daqui a uns 15 anos, mais ou menos. Aproveita e enche ela de beijos enquanto ainda pode.

Você vai se apaixonar muitas vezes, vai ter seu coração partido e colado com durepox, mas vai sobreviver, calma. E vai viver momentos extraordinários e fazer amizades inacreditáveis de tão maravilhosas. Vai beijar meninos e meninas, tipo na música do Renato Russo que você adora. Daqui a 20 anos você vai viajar sozinha, primeiro pra Itália, depois pra um monte de outros países. Aliás, preciso te pedir um favor: não mata as aulas de inglês! Você não imagina quanta vergonha vai me poupar de passar se você se dedicar a aprender essa língua. Eu já fiquei perdida numa estação de trem na Bélgica gritando “Help, I’m lost!”, daí os belgas vieram me socorrer e eu não consegui explicar pra onde estava tentando ir… tá rindo, né? Parece engraçado agora, mas na hora deu até caganeira de tanto nervoso.

Você vai descobrir que tem depressão lá pelos 28 anos, e por mais difícil que seja, toda essa angústia e melancolia que você sente vão passar a fazer sentido depois desse diagnóstico. Sim, a gente toma remédio controlado todos os dias pra suportar viver nesse mundo. Mas são coisas da vida, meu bem. Não fica triste.

Ah, você não é adotiva, tá? Não acredita? Eu posso provar. Chega perto de papai agora e olha os pés dele. Olhou? São idênticos aos nossos, viu? Os dedos completamente tortos. Mas, pensa: eles funcionam, é isso que importa! Para de ficar se escondendo em calçados fechados. Aliás, o quanto antes você aceitar suas imperfeições e se livrar de tudo que te aperta ou te cobre demais, melhor. Você vai chegar até a perder a dignidade numa noite de bebedeira, mas a barriga, nunca.

Se eu te contar que mesmo assim você vai pedalar pelada numa manifestação nas ruas do Rio de Janeiro, você acredita? Hahahaha! Menina, eu fiz isso pra poder contar pros nossos netos um dia, mas como ainda não tivemos filhos, tô adorando poder contar pra você. Queria ver a sua cara agora!

Eu tenho tanta, mas tanta coisa pra te contar. Vou tentar te escrever todo ano, tá bem? Essa primeira carta está chegando agora graças aos meus alunos, que me inspiraram (demais a gente ter alunos, né, Betinha?). Eu os ajudo a escreverem textos criativos e eles me ajudaram a lembrar de você.

Agora, vá brincar com a sua irmã e suas primas. Pode entrar no rio com saco plástico no braço sem medo. Vai molhar de qualquer jeito, mas não importa, porque esse gesso não vai resolver nada mesmo.

Aproveita Sana por mim. Mesmo depois de tantos anos, esse continua sendo um dos nossos lugares favoritos no mundo todinho. A próxima vez que você estiver aí, já vai ter energia elétrica, sabia? Então larga o minigame e vá olhar as estrelas. Ah, e pede pra tio Paulinho tocar Vander Lee no violão. Ele não vai entender nada agora, mas um dia vai achar que você tem o dom de prever o futuro. E você tem mesmo. Mas não conta pra ninguém. Segredo nosso, tá bom?

Quanto à fratura exposta no braço, tenha em mente que ela não é nada perto das fraturas que você vai sofrer nos próximos anos, só que na alma. Mas eu estarei contigo, prometo. E o nosso anjo da guarda também. Te falo dele numa próxima carta. Estamos nos conhecendo melhor agora, mas já te adianto que ele é um cara fenomenal e ele te adora e te acha uma menina fantástica, e você é mesmo, apesar de todo o trabalho que dá pra ele.

Até breve, amor da minha vida!

Roberta Simoni

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