Eu queria ser do tipo que berra!

Carminha Épica

Às vezes eu queria ser do tipo que berra. Que quebra as coisas, se descabela. Que atira pratos contra a parede quando contrariada. Queria ser tipo aquelas mulheres que a gente vê nos filmes e nas novelas. Acho essas cenas épicas. São de um histerismo libertador, mas só olho admirada porque existe uma televisão entre mim e os atores que estão compondo a cena. Quando é ao vivo e a cores, além de eu não ter coragem de quebrar nem um copo de requeijão, também fico tremendamente perturbada se alguém começar a fazer isso comigo ou com outra pessoa na minha presença.

Ou seja, eu queria ser do tipo que berra, mas sou do tipo que chora. Que treme e que procura um lugar para se esconder. Não bastando me comportar de maneira tão irritantemente frágil quando alguém começa a gritar comigo, se sou eu quem está tomada pela cólera, pela revolta ou pela mágoa, eu também choro, no lugar de gritar ou de jogar um utensílio ou outro contra a parede para aliviar a tensão.

Muitas vezes, tudo o que eu queria era não pensar em nada na hora da raiva. Mas penso. Quando sinto vontade de gritar, me preocupo em perturbar a paz dos vizinhos. Quando tenho o impulso de quebrar alguma coisa, penso no trabalho que vai dar para limpar tudo depois. Pior ainda se for alguma coisa de valor, penso logo no prejuízo que vou ter.

No momento, estou numa relação complicada com meu computador. Já me imaginei mil vezes pisoteando-o até que ele perca a forma de um notebook e não se aproveite dele mais nem uma tecla. Mas é claro que não o faço, porque além de ter custado para pagar todas as prestações, ele é o único que tenho e preciso desse cretino para trabalhar. Aí penso: talvez quando eu comprar um novo, eu possa ter o prazer de destruir esse daqui. Mas aí, desisto logo em seguida, porque quando ele não servir mais pra mim, ainda poderá servir pra outra pessoa.

Um dia, quando eu ainda morava com meus pais, acordei com um barulho estranho vindo do quintal. Quando fui ver o que era, dei de cara com meu pai ajoelhado sobre umas folhas de jornal, martelando uma garrafa térmica. Quis saber o que a garrafa tinha feito de tão mal a ele para ter um fim tão trágico. Não sobrou nada da pobre coitada.

Passado o momento de raiva, ele me contou que todo santo dia pedia para minha mãe não travar a garrafa porque ele tem o costume de beber café o dia inteiro e toda hora que ia se servir, tinha que destravar a garrafa. Custava ela deixar destravada? Não custava, obviamente. E ela não fazia para provocar, mas, por hábito, não conseguia evitar. Até que nesse dia ele acordou determinado. Foi à loja e comprou um modelo diferente, desses que não tem trava, basta apertar. Colocou a garrafa térmica nova na cozinha, foi lá fora, cobriu o chão com papel de jornal velho para não ter que catar os estilhaços depois, nem correr o risco de alguém pisar e se machucar e usou o martelo para acabar com a bandida (Coronel Mostarda matou a Garrafa com um Martelo no Quintal – quem se lembra do jogo Detetive?)

Na época eu ri e considerei aquela mais uma maluquice do meu pai. Hoje eu o compreendo perfeitamente. Ele fez com a garrafa, muito provavelmente, o que sentia vontade de fazer com a minha mãe toda vez que ele encontrava a garrafa travada. Mas antes de acabar com a garrafa, ele planejou sua morte minunciosamente, sem causar danos a ninguém e sem que o prejuízo de comprar uma nova sobrasse para outra pessoa. Final feliz pra todo mundo. Ele parou de reclamar com minha mãe por causa da maldita garrafa, ela parou de ter que se justificar toda hora por uma coisa aparentemente banal e ninguém se machucou. Só a garrafa (in memoriam).

Outra cena memorável foi a luta que ele travou contra um sorvete enquanto assistíamos tevê. A gente adorava ver filme no quarto deles, minha irmã, eu e meus pais ficávamos aninhados na mesma cama. Meu pai estava recostado na parede tomando sorvete quando uma colherada caiu no seu peito, ele levantou resmungando e se limpou. Voltou, continuou tomando o sorvete e derrubou de novo e, com a própria colher, tirou o excesso do peito. Na terceira vez que caiu, ele virou o pote todinho de sorvete em cima dele e continuou assistindo o filme como se nada estivesse acontecendo. A essa altura, a gente já estava às gargalhadas e minha mãe mandando ele ir se limpar para não sujar os lençóis. Ele se levantou satisfeito dizendo: “ganhei do sorvete”. O fato de ter ficado todo lambuzado, pouco importou pra ele que, afinal, venceu a batalha contra um sorvete fugitivo.

Apesar de eu achar essas anedotas hilárias quando se tratam de objetos inanimados, o mesmo não se aplica a conflitos humanos. Se você não sabe o que é ter vontade de gritar, socar a cara de alguém ou de esfrega-la no asfalto, nunca entenderá essa aflição.

Quando eu tô muito, muito puta, eu grito contra o travesseiro que é pra não incomodar ninguém. E de preferência, choro no banheiro que é pra ninguém ver. Mas se a vida fosse um cenário de novela, eu me aproveitaria disso para quebrar o estúdio inteiro quando estivesse furiosa.

“Perdi o controle” é uma frase justificativa quase bonita. Não que eu ache bacana quem perca a cabeça por qualquer coisa. Na verdade, eu não acho nada admirável alguém que perde o controle, faz escândalo, cria barraco… embora pareça que é isso que estou dizendo desde o começo deste texto. O que quero dizer com isso tudo é que pessoas que agem dessa maneira reprovável, mesmo causando estragos materiais em grandes proporções, se libertam. Extravasam, não reprimem seu ódio, colocam pra fora de algum jeito. Enquanto eu sigo me esforçando para controlar as minhas emoções nocivas.

Além disso, pessoas que se comportam de maneira explosiva vivem em sociedade sob uma certa vantagem. Quem convive ou conhece pessoas que reagem assim, já vive sobreaviso. Precisam ter mais cautela com o que dizem – e como dizem – para alguém que se descontrola facilmente, porque sabe que corre o risco de ter que tapar os ouvidos para os gritos que eventualmente ouvirá e fechar os olhos para não ver os objetos que, muito possivelmente, começarão a voar sobre suas cabeças. Nem vou entrar no mérito da violência física, pois a considero reprovável em qualquer circunstância e não é disso que estamos falando aqui.

Quem lida com pessoas histéricas vive eternamente pisando em ovos, é uma vida difícil. Já para os histéricos, suponho que a vida seja mais fácil porque, além de não reprimirem suas emoções, não são eles que precisam lidar com sua própria histeria. Sempre sobra pra quem tá mais perto e que, além de tudo, precisa relevar e entender que “ela(e) é assim mesmo”.

Contrariando tudo que eu disse até aqui, faço terapia exatamente para aprender a lidar com as minhas emoções e não desejo ser conhecida por qualquer tipo de escândalo ou barraco. Eu fujo dos conflitos como o meu cachorro foge do banho. Mas guardo minhas desconfianças de que talvez eu pudesse ser mais feliz se perdesse o controle de quando em vez.

Bom, nesse caso, talvez fosse preciso que eu esquecesse a educação que meus pais me deram (sim, porque meu pai é um lorde, acredite. Ele é a educação e gentileza em pessoa. A verdade é que ele não passa de um assassino de garrafas térmicas). E para conseguir isso, acho que só morrendo e nascendo de novo. Ou mudando de profissão, entrando no ramo das artes cênicas e torcendo para conseguir um papel dramático de mulher histérica à beira de um ataque de nervos. Porque só assim para receber aplausos no final desse tipo de cena.

Roberta Simoni

Um café com gelo, por favor?

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– Um café com uma pedra de gelo, por favor.

– Desculpa?

– Quero café e gelo, por favor.

– Minha senhora… nós não servimos café com gelo aqui.

– Não?

– Não. As opções que temos para acompanhar o café são: leite, açúcar ou adoçante.

– Vou querer açúcar… e gelo.

– Mas, minha senhora…

– Ok. Vamos começar de novo. Vocês servem café aqui, certo?

– Certo.

– E servem bebidas com gelo também, certo?

– Certo.

– Então por que eu não posso querer meu café com gelo?

– Porque não faz sentido.

– Sentido? Se você tem o café e tem o gelo e eu quero os dois juntos, qual o sentido de você não me servir?

– Não prefere um café gelado?

– Não. Gostaria muito mesmo de tomar um café bem quente… com uma pedra de gelo.

– Tudo bem, como quiser. Já trago.

O garçom se afasta para preparar o café de Laura. Por detrás do balcão, ela o vê cochichando com a garçonete, que olha na sua direção e dá uma risadinha sem graça quando percebe que ela os observa.  Alguns minutos depois, ele volta com seu pedido. Laura bebe seu café sob olhares de desconfiança e estranheza, coisa que não a incomoda nem um pouco. Já faz tempo que Laura deixou de se importar em fazer papel de louca.

– A conta, por favor.

– A senhora deseja mais alguma coisa?

Desejo. Na verdade, o café com gelo não funcionou como eu esperava. Eu preciso que você me arrume alguma coisa bem quente para me aquecer por dentro e outra bem gelada para esfriar a minha cabeça, você consegue? Daquelas que fazem o cérebro doer de tão congelantes, sabe? Só que eu preciso das duas coisas ao mesmo tempo: aquecer meu coração e esfriar a minha cabeça. – é o que Laura sente vontade de responder mas, na verdade, só diz:

– Não, obrigada.

– Posso incluir os 10%?

– Claro! Aproveita e inclui o café com gelo no cardápio de vocês. – brinca.

– Farei o possível senhora, afinal, o cliente tem sempre razão, não é?

– Olha, ter razão faz tanto sentido pra mim quanto o café com gelo faz para você.

Laura paga a conta e vai embora pensando sobre o quanto gostaria de trocar todo aquele monte de razões que vem acumulando a vida toda por um bocado da tranquilidade daqueles que desconhecem o peso do certo e errado. Laura não quer ser a mulher que faz a coisa certa, a cliente que tem razão. Laura quer cometer erros fantásticos e ter a cabeça fria e o coração aquecido. Mas sabe que isso é tipo café com gelo: simplesmente não funciona.  

Roberta Simoni

Eu, multidão.

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Eu sou essa gente que anda contra o fluxo, que nada contra a maré. Eu sou o livro esquecido e empoeirado na prateleira de livros ainda por ler. Sou ausência sentida. Eu sou o rapaz que finge dormir no trem para não dar lugar à velhinha que acabou de entrar no vagão. Sou a puta que te pariu. Eu sou o acento que ficou faltando, a vírgula no lugar errado. Sou a verborragia nossa de cada dia. Sou as suas reticências. Eu sou a sua melhor ilusão. Eu sou o cigarro que você traga, a fumaça que você assopra. Eu sou o choro estridente do bebê dentro do avião que constrange os pais e faz os demais passageiros revirarem os olhos. Eu sou o homem que perdeu a fé. Sou a criança que não queria sair da infância. Sou loucura, excesso, intensidade, dúvida, medo. Sou a personagem real da história distorcida que alguém vai contar numa mesa de bar. Sou a mentira confortável, a verdade inconveniente. Sou saudade inventada. Sou lembrança amarga. Sou a ideia errada que fizeram de mim.

Eu sou essa gente que anda a favor do fluxo, que se deixa levar pela correnteza. Eu sou o livro de cabeceira lido pela metade. Eu sou presença ausente. Eu sou a velhinha que fica em pé no trem ao lado de quem está sentado, esperando que lhe cedam o lugar. Sou o filho da puta. Eu sou a ortografia impecável naquela carta escrita à mão. Eu sou o seu ponto de interrogação. Eu sou só uma projeção. Sou o efisema no seu pulmão, a tosse que você disfarça. Sou o sorriso amarelo da aeromoça para a mãe do bebê choroso. Eu sou a mulher que não perde a esperança. Sou a criança que tinha pressa em virar adulta. Eu sou sensatez, falta, suavidade, certeza, coragem. Sou a personagem fictícia da história real que alguém vai viver um dia. Eu sou aquela que desata a falar porque não suporta cair nos buracos de silêncios repentinos numa conversa. Sou a mentira inventada, a verdade camuflada. Eu sou saudade sufocada. Sou lembrança agridoce. Sou a segunda impressão que tiveram de mim.

Eu sou um pontinho na multidão, eu sou uma multidão inteira. Eu sou o livro devorado de uma só vez. Sou a ausência mais presente. Eu sou a moça que se levanta imediatamente para ceder lugar à velhinha no trem. Eu sou a mãe que pariu solidão. Sou o acento que foi extinto da ideia e expulso da plateia. Eu sou silêncio repentino. Eu sou o seu ponto final. Eu sou a sua realidade. Sou o ar puro que você respira com dificuldade. Eu sou o constrangimento que impede o passageiro de pedir à aeromoça para trocar de lugar. Eu sou o homem que acabou de descobrir do que é feita a fé. Sou a criança que não acreditava em Papai Noel, que virou a adulta que, genuinamente, insiste em acreditar no ser humano. Eu sou a personagem sem nome da história secreta e que, portanto, nunca vai ser contada. Eu sou aquela que prefere a falta de assunto absoluta porque cansou de tentar argumentar com portas falantes. Sou a mentira mal contada, a verdade despida. Eu sou a saudade desmedida. Sou total esquecimento. Sou o oposto de tudo o que pensaram a meu respeito até aqui.

Roberta Simoni

Encosto de Saramago

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Eu, que já acordei tantas vezes com encosto de Beauvoir, Cortázar, Lispector, entre outros, dessa vez despertei com frases prontas do Saramago na cabeça e, depois de um longo e tenebroso verão, sem a interferência dos raios de sol, voltei a usar meus olhos para enxergar, de fato, os fatos.

“Olhar, ver e reparar são maneiras distintas de usar o órgão da vista. Só o reparar, no entanto, pode chegar a ser visão plena.” (José Saramago)

Reparei, então, que mesmo mergulhada no meu pessimismo mais profundo e genuíno, ainda alimento esperanças absurdamente inconvenientes que me impulsionam a buscar um pouco de fôlego na superfície para, só então, com os pulmões cheios de qualquer coisa parecida com vida, voltar a nadar na realidade dos dias.

“Há esperanças que é loucura ter. Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida.” (José Saramago)

Roberta Simoni

Eu não tenho um plano

Zeitgeist Photography

Aquele momento em que você para diante da página em branco do Word e espera para ver o que os seus personagens têm a dizer e o que querem fazer…

O relógio marca 3:36 e faz pelo menos 30 minutos que estou parada diante da tela do computador esperando que eles digam alguma coisa, mas eles simplesmente não falam nada. A essa hora devem estar dormindo. Eu também deveria estar.

Alguém, a essa hora, também pode estar diante da página em branco da minha vida, esperando que eu diga alguma coisa. E eu, do lado de cá, esperando que alguém me diga o que fazer. Acho que o roteirista da série que eu protagonizo tirou férias. Deve estar no Havaí deitado numa rede, debaixo de uma bela sombra, diante de um mar azul, tomando um bom drink, decidido a voltar a pensar na minha personagem só no próximo mês, quando voltar de viagem.

Se eu sou uma personagem criada por alguém que inventou a minha vida, esse cara que me escreveu certamente anda indisposto a pensar na minha trama. Talvez esteja cansado dos meus dramas e, com preguiça dos meus dilemas, resolveu tirar férias de mim. Ou não. Talvez esteja apenas sem saber o que escrever, tal como eu com os meus personagens.

Pode ser que, nesse exato momento, ele esteja acordado, diante da tela do seu computador, fumando um cigarro atrás do outro, esperando que eu diga alguma coisa, enquanto tudo que eu faço é tomar coca-cola na minha xícara de café, sem ter a mínima noção do que fazer com o meu dia de amanhã, com a minha semana, com meu ano e com o resto da minha vida. A verdade é que eu não tenho um plano.

Pode ser também que ele esteja escrevendo que eu estou escrevendo agora e, se for esse o caso, gostaria que ele escrevesse que eu estou escrevendo a minha peça, sabendo exatamente o que fazer no terceiro ato, quando um dos personagens simplesmente resolve desaparecer e me deixa sem saber como explicar seu sumiço repentino para os demais personagens.

Não adianta. Hoje é domingo de carnaval, ele tá embriagado em algum boteco na Lapa e, definitivamente, não está em condições de me explicar como devo continuar o espetáculo.

Deixa pra lá, Word. Hoje não vai sair nada. Além do mais, acabei de ler aqui no meu roteiro que agora é a hora que eu começo a sentir sono, desisto de escrever e vou dormir.

Roberta Simoni

Dois pra lá. Dois pra cá.

By Vanessa Paxton

“Eu nunca mais vou amar de novo” tem o mesmo efeito que “eu nunca mais vou beber”. A gente bebe e fica de ressaca da mesma forma que ama e quebra a cara de novo, arrependido por ter quebrado a cara e a promessa feita da última vez, sob os efeitos causados por ambas as drogas.

Eu fui ao inferno e voltei. Encontrei Euridice de Orfeu no Mundo dos Mortos e não consegui trazê-la de volta à vida. Eu não consegui. Juro que tentei, mas não fui capaz. Nem eu voltei completamente viva de lá. Bem na verdade eu voltei para o lado de cá enfrentando todos os demônios que me seguiram até aqui. E o que eu aprendi com eles foi que o único lado bom da batalha contra a dor é perceber-se vivo, meio capenga das pernas, mas dançando conforme a música. Ou tentando. Dois pra lá. Dois pra cá.

A gente passa cada coisa nessa vida, viu? Se contar ninguém acredita. É por isso que ninguém conta e a gente vem pra cá desavisado e vai vivendo como pode, como consegue ou, como diria minha vó Norma: como Deus quer. Dois pra lá. Dois pra cá. Empurra com a barriga daqui, chuta um balde ou outro dali, chora feito bezerro desmamado numa hora, na outra gargalha feito hiena. Num dia tá bem, no outro tá na afundado na merda. Mas é sempre a dor que nos faz lembrar que estamos vivos, seja lá como for, mas estamos. Ainda estamos.

O trem está passando e eu estou sentada no banco da estação vendo-o partir sem conseguir mover minhas pernas. Aquele ali era o meu trem e eu acabei de perdê-lo. Já é o terceiro que eu perco hoje. “No próximo embarco”, é o que eu sempre penso quando tento sair do lugar, convencendo minhas pernas desobedientes a colaborarem. Levanto finalmente e começo não a andar, mas a dançar a música que está tocando na estação central do meu cérebro. Dois pra lá. Dois pra cá. Pouco me importa o que vão pensar. Foi esse o jeito que, por ora, eu arrumei de caminhar.

Entro no trem. Um moço aparece e me tira para dançar. Digo que não sei dançar e ele responde: “É fácil, é só você me acompanhar!”. Tento, mas, lá pelo décimo pisão no pé do rapaz, desisto. “Desculpa. Essa dança não é para mim, de qualquer forma, obrigada por ter feito parecer que era fácil, eu quase acreditei!”. Ele ruma ao próximo vagão, certamente em busca de uma dançarina mais eficiente. E eu sigo viagem no mesmo vagão, no mesmo ritmo, fazendo a mesma “dancinha da sobrevivência”. Dois pra lá. Dois pra cá. Sem parceiro para me conduzir, sem ter os pés e a leveza das bailarinas, sem o gingado e o rebolado das passistas das escolas de samba e sem a coordenação motora natural a quase todo ser humano.

Mas, persisto. Esse é o meu maior e melhor defeito. Eu persisto.

Dois pra lá. Dois pra cá. 

Roberta Simoni

Isto não é uma crônica!

Hein?

Aviso aos navegantes: esse post é, sobretudo, sobre nada. Mas a vontade de escrever foi maior do que a minha habitual falta de foco e a minha recente (e passageira) falta de objetividade. Portanto, em caso de sensação de perda de tempo ao fim desta leitura (caso você queira prosseguir), lembre-se: eu avisei. 

Três espinhas inflamadas no meu queixo, as quais eu batizei de Três Marias: Maria Ordinária, Maria Cretina e Maria Bruaca. Essa última, a Bruaca, é a mais dolorida e é tão feia quanto a Cretina e a Ordinária, mas é pior do que todas juntas, não só pelo fato de ser a mais dolorida, mas por ser a única que me incomoda quando sorrio.

Sorrir não tá difícil hoje só por causa da Maria Bruaca, mas porque eu acordei acompanhada de uma melancolia sorrateira, que me abraçou de conchinha pela manhã logo que abri os olhos, assustada com o telefonema que algum infeliz fez para o meu celular às 8h da madrugada num dia em que eu podia ficar na cama até mais tarde. Alguém que, do outro lado da linha, provavelmente discava o meu número por engano e que, ao ouvir minha voz, desligou o telefone, me deixando acordada com essa melancolia sem lógica. Se ainda fosse mau humor faria algum sentido.

Cada vez mais tenho a certeza de que eu vivo numa realidade paralela quando estou dormindo e que essa vivencia influencia na vida que eu levo acordada. E a vida que eu levo acordada tem sido a mais linda das vidas que eu vivi nos últimos dias. – Sim, porque eu vivo uma vida diferente a cada dia, ou várias. – Linda, sim. Cheia de sonhos, esperanças e até aquele sentimento do qual eu sempre andei tão desprovida: fé.

É que eu aprendi a falar baixinho quando eu sinto qualquer coisa parecida com felicidade.

O céu da minha boca tá arranhado, a minha língua tá queimada, engordei três quilos em duas semanas, ainda não sei como vou pagar meu aluguel no mês que vem, carrego três espinhas inflamadas no meu rosto e, mesmo assim, pasmem!, estou bem. Mesmo quando acordo e sou surpreendida com uma melancolia deitada ao meu lado na cama.

Essa semana eu quebrei um porta-retrato, um copo, um termômetro e um cinzeiro. Sorte minha não ser de vidro, embora eu também seja altamente quebrável. Eu sou uma mistura ensandecida de sentimentos e sensações. E quem não é? A diferença é que eu presto muita atenção em tudo o que sinto, talvez por isso eu escreva, já que eu abandonei a terapia porque a minha terapeuta parecia ser mais frágil do que eu e todos os objetos que andei quebrando juntos.

Eu venho sentindo a passagem dos dias nos últimos tempos (ou do tempo nos últimos dias) com uma intensidade quase brutal. Ansiedade: efeito colateral de todo Dezembro, só que esse Dezembro em especial, por ter tanta coisa em jogo. E não, eu não tô falando do fim do mundo, apesar de saber que não seria mau negócio se ele acabasse, mas não agora que eu tô sonhando com Janeiro. Não agora que eu voltei a sonhar…

Roberta Simoni

Dos transeuntes corações partidos

Desilusão

Eu não sei quantas vezes e em quantos pedaços o meu coração já se partiu. Mas garanto que foram muitas vezes e em muitas partes. O irônico é que ninguém supõe. Quem me vê andando na rua de vestido colorido, com meus fones de ouvido, balançando a cabeça e cantarolando, pensa que eu carrego um coração intacto no peito. Quem diria que, muitas das vezes, ando carregando meu coração no bolso?

Ontem foi um dia difícil, desses em que tudo que se quer é ficar na cama, chorar baixinho no travesseiro ou abrir o berreiro em frente ao espelho para se compadecer da própria imagem sofrível. Ontem não foi a primeira vez que me senti assim, nem a última, suponho. Ontem foi só mais um dia muito, muito difícil de encarar a vida, mesmo assim eu encarei. Levantei da cama, fui até o banheiro, ajeitei meu cabelo diante do espelho, fiz um rabo de cavalo, não tive vontade alguma de me maquiar ou disfarçar as olheiras, só me dei ao trabalho de me esconder atrás dos meus óculos escuros enormes, coloquei meu coração no bolso e saí à rua.

E no momento em que atravessei a portaria do meu prédio, algo inusitado e insólito me aconteceu.

Eu não sei o que teria sido de mim se eu estivesse sem meus óculos escuros para disfarçar a minha cara de espanto ao perceber que, ao passar pelas pessoas na rua, eu podia enxergar seus corações. Eu sei que parece loucura, insanidade total, e não deixa de ser. Mas eu não tenho culpa se, de uma hora pra outra, as pessoas começaram a aparecer com suas almas despidas diante de mim. Olhar para elas daquele jeito foi tão inevitável quanto se estivessem andando nuas na minha frente.

E o que eu vi foram muitos, muitos corações partidos, alguns menos despedaçados do que outros, mas a grande maioria cheia de ranhuras, remendas e rachaduras. Alguns me pareceram secos, murchos. Eram poucos os que tinham uma aparência razoavelmente saudável. Mas todos, no entanto, tinham a mesma característica: ainda pulsavam.

O moço da banca de jornais que se esqueceu como é sorrir, tinha um dos corações mais áridos que eu já vi na vida. O rapaz passeando distraído com seu cachorro me pareceu jovem demais para ter um coração tão remendado. A senhorinha falante na fila do caixa do supermercado tinha o coração tão, tão apertado que parecia uma ervilha. A menina que passou por mim sem me ver, mexendo freneticamente no celular tinha um olhar tão assustado quanto seu coração, que pude escutar pulsando antes de virar a esquina. A moça que me atendeu na cafeteria tinha um coração tão frágil quanto suas pernas, que davam passos trôpegos. O homem de cabelos grisalhos que atravessou a rua do meu lado, secando na camisa as lágrimas que insistiam em cair, tentava a todo custo engolir de volta o coração que estava prestes a sair pela boca.

Passei também por uma minoria de corações que me intrigaram: eles estavam quase intactos, e não coincidentemente pertenciam aqueles que tinham o semblante mais triste que vi ao longo do dia. Mas, com corações tão bonitos, não deveria ser o contrário? Não. Afinal, se o coração está inteiro é porque foi pouco usado. Só corações em desuso estão livres das ranhuras. Se eles não usam, não gastam. E se não gastam é porque não vivem. De duas, uma: ou eles ainda não começaram a viver ou já morreram e ainda não sabem.

O que eu descobri depois de um dia inteiro passando por todos esses corações transeuntes foi que todo mundo já sofreu por amor pelo menos uma vez na vida e quem ainda não sofreu, está prestes a sofrer a qualquer momento (e não, isso não é uma maldição).

A verdade é que a grande maioria das pessoas anda por aí de coração partido. E o mais impressionante é que, mesmo assim, elas andam, falam, dormem, acordam, comem, sorriem, levam o cãozinho para passear, vão ao supermercado, trabalham, falam ao celular, vão ao cinema, ao teatro, andam de metrô, sentam numa mesa de bar e brindam à vida. Essa mesma vida que segue, sem querer saber se a gente tá ou não com o coração em frangalhos.

Porque é aquilo, né? O coração continua batendo…

Roberta Simoni

Ah… a vida alheia…

Tenho experimentado bastante essa coisa de viver. Ao acaso, é claro, porque eu quase não sei viver de outra forma. De todas as outras formas, cheias de normas e fórmulas, eu até sei, mas gosto de fingir que não sei.

Sei que vivendo, eu vejo mais coisas do que gostaria de ver. E me vejo em mais situações do que gostaria de estar e, por consequência, acabo voltando para casa todos os dias com uma reflexão nova, dessas que a gente leva junto pro banho, pra cama…

Então cá estamos mais uma vez: eu, vocês e meus devaneios… que dessa vez me transportaram para uma situação que vivi não faz muito tempo: eu estava numa festa onde a Cissa Guimarães também estava. Logo que ela chegou, surgiu atrás de mim, feito assombração, uma senhora que eu “nunca vi mais gorda” e que, sem rodeios, começou a me encher de perguntas:

– Essa não é aquela atriz?

– É.

– Cissa Guimarães o nome dela, não é?

– É.

– Não foi o filho dela que morreu?

– Foi.

– Nossa! Ela parece tão feliz para quem perdeu um filho há tão pouco tempo, né?

– …

Lancei um olhar tão indignado para a maldita que não sei como não perfurou aquela boca que ela anda usando de forma tão infeliz. Depois, comecei a explicar num tom hostil que, para começar, o acidente com o filho dela já tinha acontecido há uns dois anos e, além disso, ela não poderia passar a vida inteira trancada em casa, chorando. Depois, no meio do meu discurso revoltado, me dei conta do tempo e da saliva que eu estava desperdiçando, dei as costas e saí, deixando a mulher, no mínimo, arrependida de ter aberto a boca.

Parece óbvio que as pessoas só enxerguem aquilo que os olhos vêem mas, pra mim, o óbvio é que estamos falando de gente limitadíssima, que tem que ver pra crer. Gente que precisa ver dor em exposição, pendurada numa moldura bonita na parede.

Mas é claro que ela vai viver esse luto a vida inteira. Ela vai acordar todos os dias e vai pensar no filho, vai sentir um aperto no peito que medicina nenhuma nunca vai conseguir curar e não vai passar nenhum dia sequer sem sentir saudades dele. Mas, ainda que o luto seja eterno, ele tende a ser cada vez mais interno. Ela vai parar de usar o vestido preto, vai colocar um belo vestido florido e vai sair linda e colorida por aí, a garota que quebra o coco sem arrebentar a sapucaia.

E sempre vai ter um infeliz se ofendendo com a alegria alheia. Sempre.

Talvez mais detestável do que alguém que julga o seu estado te vendo em breves minutos, ignorando o que você passa e sente nas outras dezenas de horas com as quais os seus dias são preenchidos, só mesmo quem tenta te convencer do que você precisa superar ou de como deve se sentir ou reagir diante das suas dores e perdas.

Alguém que te empresta um ombro, te dá um lenço ou um rolo de papel higiênico pra você assoar o nariz quando tudo que você quer é chorar, ou que fica do seu lado no mais profundo silêncio quando palavra nenhuma é capaz de confortar, é infinitamente mais útil do que alguém que te diz que já está na hora de você superar, que você precisa sair dessa e blá blá blá Whiskas Sachê.

Ah… a vida alheia! Como é doce e terna a vida alheia, não é mesmo? Fácil de opinar e simples de resolver, ainda que ninguém seja capaz de imaginar ou mensurar.

Se eu abro o berreiro no meio da rua ou se choro baixinho no travesseiro quando ninguém está vendo, não é porque a minha dor muda de tamanho, o que muda, na verdade, é o meu tamanho quando eu sinto dor. E se eu volto a ser criança toda vez que a vida me dói, isso é tão alheio aos outros quanto deve ser.

Roberta Simoni 

Encosto de Beauvoir

Simone de Beauvoir, fotografada por Art Shay – 1952

Acordei hoje pensando em Simone de Beauvoir… atrasada, é claro. Dois segundos depois já tinha me esquecido dela porque fiquei calculando o tempo que levaria para tomar banho, escovar os dentes, me arrumar, engolir o café, estender a roupa no varal e sair correndo. Fiz tudo isso com uma agilidade impressionante, a mesma que eu gostaria de ter quando não estou atrasada.

Mas antes de entrar no banho, parei em frente ao espelho do banheiro e fiquei ali, nua, me olhando enquanto eu prendia o cabelo. Lembrei de Beauvoir de novo, na verdade lembrei da foto enigmática tirada pelo fotógrafo Art Shayem Chicago, na década de 50. Art era amigo do escritor Nelson Algren, o amante de Simone na época. O fotógrafo viu a escritora nua pela porta entreaberta do banheiro, sacou a máquina do bolso e fez as fotos sem Simone ver. Quando ela escutou os cliques, só disse: “Você é um rapaz malvado!” e continuou se arrumando, sem se importar. Na época, Simone tinha 42 anos e ainda não era a filósofa hoje reconhecida mundialmente. Para o fotógrafo, ela era apenas a amante clandestina do seu amigo.

Duvido que Beauvoir enquanto amante, escritora, filosofa ou feminista se importaria com sua nudez exposta. Duvido também que estivesse levantando qualquer bandeira com aquele ato. Ela apenas estava ali, sendo mulher, sendo ela. Sendo a mulher atípica que era para a época que vivia. A mulher que tinha um relacionamento aberto com o também filósofo Jean-Paul Sartre e escandalizava a sociedade por rejeitar os rótulos e optar por ser livre, inclusive da condição de esposa e mãe de família.

Mas, não… não é só por admiração que eu estou escrevendo sobre Beauvoir, nem é por ter ou querer ter um estilo de vida parecido com o dela. É exatamente por não fazer a menor ideia que eu estou escrevendo, pra ver se eu entendo porque eu estou com o encosto de Beauvoir hoje, lembrando e pensando nela como se fôssemos amigas de longas datas…

Talvez muito do que eu viva hoje com naturalidade seja graças à mulheres como Simone foram um dia, talvez isso explique meus pensamentos insistentes nela, talvez seja hora de conhecer melhor sua obra. Talvez, talvez… talvez seja só essa minha vontade antiga de ser, e só ser, que me defrontou no espelho hoje de manhã, diante de Simone me desafiando: “Do que você tem medo?”

Tenho medo que os meus seios caiam antes do amor da minha vida aparecer na porta do banheiro me contando como foi o seu dia. E de passar a vida escrevendo um monte de besteiras. E de continuar sem tempo para telefonar para a minha mãe. De parar de achar graça de mim quando eu erro. De envelhecer cometendo os mesmos erros tolos e repetindo os mesmos discursos enfadonhos. Mas não são os meus medos que me incomodam agora, Simone… de tudo, o pior é continuar transgredindo. Eu pensei que, perto dos trinta, eu pararia com essa mania. Mas parece que estou ficando cada vez mais parecida com você e, sinceramente, não sei se gosto disso.

Você foi o maior símbolo da classe feminista e o seu relacionamento com Sartre é, até hoje, referenciado como amor ideal. Não pra mim, desculpa. Tá, eu acho legal essa coisa de verdade e liberdade a todo custo, mas acho um saco também essa coisa toda de ideal. Amor ideal. Relacionamento ideal. Mulher ideal. Vida ideal. Você também achava, eu sei. Certa vez você declarou que se irritava com a aprovação ou a censura das relações que você estabelecia na sua vida. Pois, acredite, até hoje isso ainda acontece e também me aborrece.

Se Sartre e Beauvoir eram poligâmicos, revolucionários, libertários ou libertinos, não me importa. Se Simone intercalava amantes enquanto se relacionava com Sartre, me importa menos ainda. De verdade, no momento eu não estou interessada no que Simone foi ou deixou de ser. Descobrir por que ela anda me assombrando me deixaria satisfeita por ora.

Setembro começou com mais questionamentos, mais pressa e mais trabalho do que deveria, menos tempo e sexo do que eu gostaria. E, pra piorar, Simone aqui no meu cangote, dizendo que tudo bem se eu passar o resto da vida assim, morando de aluguel numa quitinete, escrevendo projetos e livros (e projetos de livros), e que tá tudo certo em não ter relacionamentos estáveis, nem com o meu cachorro, que da próxima vez que me vir, provavelmente não vai mais me reconhecer. Tudo bem eu trabalhar feito uma desesperada, já que, afinal, não tenho marido, filhos, gatos ou plantas precisando dos meus cuidados em casa. Claro, claro…

Intelectualóide de quitinete. Escritora esfomeada. Ghost writer. Repórter de botequim. Jornalista de beira de estrada. Filha desaparecida. Solteirona não convicta. Tia coruja. Feminista cansada. Degustadora de cheeseburger e bolinho Ana Maria. Dona de casa rebelde. Amiga imaginária. Mulher-independente-dependente-de-carinho. Cadê o glamour, Beauvoir? Cadê?

Roberta Simoni