Não tô vendo elefante nenhum

Era uma vez uma menina que sonhava em conhecer o zoológico. Um dia, seus pais realizaram seu desejo e ela ficou muito feliz. Fim.

Se tivesse sido assim, essa história – que aconteceu há 30 anos – não teria graça nenhuma. Nem teria história pra contar. Seria apenas mais um episódio de mais uma família que foi ao zoológico, viu uns bichinhos lá e pronto, acabou. Mas o que aconteceu, na verdade, foi uma odisseia que merece ser contada.

Pra começar, o zoológico mais próximo da cidade onde eu nasci fica a mais de 160 km de distância. Minha irmã, Elisa, tinha seis anos e vivia pedindo pros nossos pais levarem-na lá. Ela sonhava em ver os bichos de perto, especialmente o elefante.  Eles resolveram realizar o sonho da primogênita, planejaram a viagem com antecedência, pensaram em todos os detalhes (ou quase todos). Eu, no alto dos meus três anos de idade, não dava conta de muita coisa. Onde quer que me levassem eu só queria correr e subir onde não podia pra fazer o que não devia, feito uma criança hiperativa, só que naquele tempo chamavam crianças assim de levadas ou arteiras. Enfim. Prossigamos, pois não estamos aqui pra falar de mim.

Era o ano de 1987, meu pai tinha uma brasília vermelha mágica. Isso mesmo, mágica, porque só magia explica o fato misterioso de oito seres humanos terem conseguido viajar dentro dela, saindo de Cabo Frio com destino à Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro (mas se vocês perguntarem pros meus pais, eles vão garantir que o destino foi o inferno mesmo).

Era verão, fazia um calor senegalês, uma brasília (sem ar-condicionado, naturalmente) transportava quatro adultos e quatro crianças – de três a sete anos. Eu, minha irmã e dois meninos, filhos dos amigos dos meus pais, um casal que era muito próximo deles naquela época, tão próximo a ponto de achar super normal se enfiar dentro de uma brasília com eles, todas as crianças juntas e cair na estrada pra levar seus filhos pra ver um monte de animais enjaulados e entediados, coitados (dos animais e desses pais).

Abre parêntese: quando comecei a escrever esse texto, fui confirmar com minha mãe se isso realmente aconteceu ou se foi fruto da minha imaginação. Mas não foi, realmente aconteceu. Minha irmã e eu fomos criadas por adultos que nos colocavam pra viajar dentro de brasílias (de duas portas!!!) superlotadas. Isso explica muita coisa.

Outro parêntese: coloquei a brasília no plural porque acho que soa mais traumático numa reconstituição dramática. Fecha parêntese.

Voltando à odisseia: lá fomos nós para a cidade grande conhecer o grande elefante. No caminho, minha irmã, sonolenta, já se queixava da demora, do calor, da vontade de fazer xixi. Eu me ocupava brigando por espaço com o menino que tinha a minha idade e que também queria sentar bem no meio, onde eu fazia questão de anunciar que era o MEU lugar, pois o carro era do MEU pai. Tá?

Uma mulher já nasce com poder de argumentação maior que o dos homens. Assunto encerrado, o meio era meu pra eu me apoiar nos dois bancos da frente, olhar a estrada e perguntar a cada dois minutos se faltava muito pra chegar. Quanto ao cinto de segurança, parece que isso não era tendência nos anos oitenta. Cadeira pra transportar criança então, nem pensar. Acho que nem tinham inventado ainda. Se tinham, não chegou em Cabo Frio.

Chegamos no zoológico e lembro de ter escutado duas frases muitas vezes, com algumas variações: “Elisa, olha ali o macaquinho (o coelhinho, o jacaré, o passarinho, etc)” e “desce daí Roberta, não encosta aí Roberta, volta aqui, Roberta…

Na minha família, a regra é clara: só me chamam de Roberta quando tô fazendo merda. Na “maior parte” do tempo, sou Beta. E não me lembro de ter sido chamada de Beta nenhuma vez naquele dia.

Meus pais se esforçavam pra Elisa se interessar pelos outros bichos enquanto a ala do elefante ainda estava distante. Mas ela estava determinada a ignorar todos os animais. E os nossos pais. Eu, no caso, estava ocupada fazendo o que sempre foi minha especialidade: ocupar os dois.

Conforme o passeio foi avançando, Elisa resolveu trocar o interesse obsessivo pelo elefante pelo desejo incontrolável de comer e descansar. E minha irmã possui dois traços muito marcantes na sua personalidade: a determinação e o mau humor quando está: 1- com fome, 2- com sono e 3-cansada de andar.

“Mas a gente já tá quase chegando no elefante, Elisa. Só mais um pouquinho.” (ah, é… essa frase também foi muito usada naquele dia!)

Eis que finalmente, alcançamos o tão esperado-desejado-sonhado-salve-salve elefante, e…

“Não tô vendo elefante nenhum!”

Eles insistiram: “Filha, olha o elefante, que lindo!”

“Não-tô-vendo-elefante-nenhum!”, ela sustentou, até o fim, se recusando a olhar pro animal.

Não teve jeito, àquela altura, minha irmã não estava vendo mais nada. Elefante, ou girafa… nada era maior do que sua fome. Ela seria capaz de comer um elefante, mas de vê-lo, jamais.

Imagino a frustração do pai e da mãe, a vontade jamais verbalizada de pegar aquela criança e jogar na jaula dos leões.

Elefante devidamente desprezado, fomos lanchar. Minha irmã recuperou o vigor. E o pedido insistente da vez (das quatro crianças) era: “quero ir no museu, me leva no museu? vamos no museu, por favor!” (eu gostaria de saber como as crianças são capazes de fazer tantos pedidos, de sentirem tantas vontades urgentes que, se não forem realizadas imediatamente, parece que não vão sobreviver. Ou, o que é mais provável, não deixarão que seus pais sobrevivam).

Corta para: dentro do museu, eu no colo da minha mãe e Elisa no colo do meu pai. As duas dormindo o sono dos justos. O outro casal na mesma situação. Quatro adultos carregando suas respectivas crias completamente apagadas, que entraram e saíram do museu sem ver nada, tal qual o elefante.

Na hora de voltar pra casa, na saída do zoológico, um cachorro leproso que passava por ali, fez as duas meninas se derreterem. “Olha pai, olha mãe, que cachorrinho lindo!”. Os pais das meninas se olharam e caíram na gargalhada. Era isso ou chorar. Não restava muito mais o que fazer.

Moral da história: não faça as vontades dos seus filhos… brincadeira! Na verdade, não tem nenhuma mensagem moral aqui, mas tem uma história muito boa, que cresci ouvindo meus pais contando, às gargalhadas. Mais do que isso: tem uma piada interna maravilhosa, que merece ser compartilhada com o mundo. E usada, por que não? “Tejem” à vontade. 

Na minha família, toda vez que estamos em alguma situação desagradável, num lugar com pessoas chatas, ouvimos alguma coisa que não tem a mínima graça, estamos cansados ou de saco cheio, falamos: “não tô vendo elefante nenhum”.

Algumas vezes usamos como um código secreto: “Tá vendo algum elefante?”, “Não”, “Nem eu”, “Vamos embora?”, “Agora!”

Só mais tarde, minha irmã descobriria que, na vida adulta, ver elefantes seria bem mais penoso do que foi naquele dia. Eu também não demorei a perceber isso. E vejo cada vez menos. Parece que estão em extinção, os pobrezinhos. Uma lástima!

Nessa foto se vê: 1- duas crianças derrotadas, que não estão vendo elefante nenhum. 2- uma menina sem modos que só queria andar sem camisa. 3- Freddie Mercury sentado bem na frente dessa menina (e ela não pediu um autógrafo!!! Céus!)

Roberta Simoni

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Você tá precisando transar

Ok

Numa bela manhã, mandei uma mensagem para o WhatsApp da minha mãe contando que eu havia marcado um horário pra ir naquela consulta médica que ela estava insistindo tanto pra eu marcar, também tinha conseguido agendar a renovação da minha habilitação e, de quebra, dado entrada numa documentação burocrática que eu andava postergando. Era uma manhã atípica. Eu estava orgulhosíssima de mim, mostrando meu feito pra minha mãe como eu fazia quando era criança, na época que eu estava aprendendo a nadar. Cada vez que pulava na piscina sem as boias nos braços, eu gritava: “Olha, mãe!”, ela parava o que estivesse fazendo para me olhar. Quando eu voltava à superfície, procurava o olhar de aprovação dela, que sempre vinha seguido de alguma exclamação do tipo “Muito bem!” ou “Que linda! Já sabe nadar sozinha!”

Perceba que, com meus trinta anos, continuo agindo da mesma maneira. Os anos vão passar e, enquanto eu continuar tendo a minha mãe, muito provavelmente vou continuar me sentindo no direito de agir como filha. E ela vai continuar gostando de agir como mãe. Pra minha sorte ela é incansavelmente maternal.

A única diferença é que, com o passar dos anos, minha mãe virou minha amiga. A melhor. Dessas que apoiam na hora que tem que apoiar e sacaneiam (no melhor sentido) quando o momento é apropriado.

Assim que mandei a mensagem pra ela contando todas as coisas que eu tinha conseguido agilizar naquela manhã, ela respondeu: “Não tô acreditando. Aposto que você andou transando!”

O que dizer? Eu tinha mesmo feito sexo na madrugada que antecedeu aquela manhã gloriosa de resoluções. Depois que consegui parar de gargalhar com a constatação precisa dela, perguntei: “Como foi que você adivinhou?”

Ela não precisou responder o óbvio. Minha disposição para resolver todas aquelas coisas chatíssimas só podia mesmo ter a ver com uma energia vital, que ela prontamente deduziu como energia sexual, embora eu não tivesse ligado os pontos até que ela começasse a me sacanear. Agora, toda vez que uma de nós fica mal-humorada, dizemos uma pra outra: “Você tá precisando transar”. É o nosso código para “você tá muito chata e precisa fazer alguma coisa prazerosa pra mudar seu humor”. Pulamos a parte de tentar encontrar alguma atividade prazerosa e sugerimos logo sexo. Obviamente existem outras formas de sentir prazer e de espantar o mau humor, mas a primeira que nosso cérebro processa é a que encabeça a lista de “atividades prazerosas”.

Num mundo perfeito, sair por aí sugerindo que as pessoas façam sexo não seria considerado ofensa e sim um excelente conselho. Mas o mundo infelizmente não se resume a relações tão espontâneas assim.

Na semana passada o jornalista Ricardo Boechat mandou o pastor Silas Malafaia procurar uma rola. Muita gente considerou a frase extremamente grosseira e ofensiva. Eu entendi como um conselho valiosíssimo, que se aplica ao malfadado Malafaia e à grande parte da humanidade. Em outras palavras, o que ele estava dizendo era: vá procurar uma atividade prazerosa – como, por exemplo, se divertir com uma rola – no lugar de ficar disseminando o mal e se preocupando com o cu alheio.

Que tal lançarmos a campanha “Você tá precisando transar”? Podemos começar dizendo isso para aqueles amigos com quem temos mais intimidade, até que o conselho se estenda a quem somos obrigados a conviver e que está precisando transar urgentemente e se ocupar em alcançar e proporcionar orgasmos, seja para se reconciliar com o lado prazeroso da vida ou para melhorar o humor e a disposição e, com isso, tornar-se mais funcional e menos intragável.

Isso não significa que o aconselhado vá aceitar a sugestão, mas talvez faça com que perceba que está desperdiçando energias poderosas em coisas, lugares e pessoas erradas. A lógica é simples: pessoas sexualmente ativas são mais felizes e pessoas felizes enchem menos o saco dos outros.

Por um mundo onde as pessoas façam mais sexo e menos mimimi.

Roberta Simoni

Passando pela janela…

Não passo por aqui há um tempo por motivos de: estou escrevendo. A-há! Achou que eu fosse dizer que estou sem tempo, atarefada com o trabalho ou com preguiça, etc… aquela minha mesma ladainha de sempre, né? Mas a verdade é que – pasme! – eu ando mesmo escrevendo. Só não tenho publicado quase nada do que escrevo porque, bom… logo logo eu conto. Prometo! 😉

Na semana passada escrevi um artigo para o site Amor Crônico (onde sou uma das autoras colaboradoras), e pensei em compartilhar aqui na Janela de Cima, de onde ando tão sumida e pra onde sempre volto, por mais que demore um pouquinho, porque vivo saudosa desse cantinho.

Então, chega de conversa e vamos ao texto, que você logo vai descobrir que continuará sendo uma longa e divertida conversa. Vem comigo que no caminho eu te explico!

[…]

O amor é lindo. Às vezes.

Via Amor Crônico

O amor tem cara de bicho

Oi, Leitor. Vou te chamar assim, de Leitor, com essa maiúscula aí na primeira letra porque não sei o seu nome próprio, então vou te batizar de Leitor até que eu descubra seu nome. Isto é, caso você queira se identificar ao final deste texto. Fique absolutamente à vontade quanto a isso, pois eu estou totalmente confortável aqui, falando e você aí, lendo, mesmo sem talvez a gente ainda nem se conhecer.

Então, Leitor, eu não sei quantas vezes você já acessou esse blog, quantos textos já leu, não sei qual é o seu perfil, qual o seu estilo preferido de narrativa, não sei o que você espera encontrar quando você entra num site chamado “amor crônico”, mas, me colocando no lugar de alguém que entra aqui pela primeira vez, suponho que espere encontrar textos falando sobre amores crônicos. Viajei? Ou para você, a palavra crônica é só uma alusão ao gênero de narração?

Fato é que andei lendo nossos textos (incluindo os meus) mais criticamente – e agora corro o risco de ir para o paredão das escritoras e ser eliminada deste espaço crônico pelas minhas parceiras autoras – e notei que andamos falando mais do amor em sua beleza e plenitude do que propriamente em sua essência crônica e aguda. O que me levou a pensar: o amor sempre é belo, a vida sempre é bela, nós somos todas belas ou andamos floreando um cadinho a vida pra ela ficar mais agridoce?

É claro que todas nós temos vidas distintas e vivemos momentos distintos. De modo que vivenciamos o amor de forma absolutamente diferente umas das outras a julgar pelo momento que atravessamos. O mesmo vale para você, Leitor, que pode se identificar ou não com o que você está lendo dependendo da fase que você está atravessando agora, certo? Certo.

Sendo assim, caro Leitor, deixo aqui um aviso para que você decida prosseguir ou não adentrando comigo por entre essas linhas retas repletas de raciocínios tortos: este texto é sobre o amor num estilo mais próximo ao de Miguel Esteves Cardoso em “O Amor é Fodido” ou ao de Charles Bukowski em “O Amor é um Cão dos Diabos”. Obviamente não me comparando a nenhum desses dois gênios literários, apenas fazendo uma singela menção a abordagem de amor feita por eles nesses clássicos. Não se preocupe, pois você não precisa ter lido nenhum desses livros para saber que não estamos falando aqui do amor na sua forma mais poética e romantizada, uma vez que os títulos são totalmente autoexplicativos, não é mesmo?

Eu, que já falei do amor tantas vezes, eu, que sou criatura assumidamente sentimental e passional, eu, que acho o amor uma coisa tão linda, essencial, esplêndida, maravilhosa (e creia-me: não existe qualquer vestígio de ironia nessa afirmação), eu, que preciso de amor para viver, eu, que acredito em toda forma de amor, eu, que aposto todas as minhas fichas no amor, devo assumir: o amor, muitas vezes, é mesmo um cão dos diabos.

Você, Leitor, que ainda continua aí, não se sinta mal por achar que o amor, às vezes, passa longe de ser divino. Você não está sozinho. Alguma vez você sofreu por amor, Leitor? Sofreu, né? E quando isso aconteceu, alguém deve ter dito a você que se fosse amor de verdade, não te traria sofrimento, não é? Pois é. Mas isso não é verdade! O amor quase nunca é um mar de rosas. Que o amor é fogo (que arde e não se ver e blá blá blá…) todo mundo sabe, mas se ele vai aquecer o seu coração ou se vai incendiar a sua casa, nunca se sabe. Algumas vezes ele vai te levar ao céu. Outras vezes, direto para o inferno, sem escalas. Amor é coisa de matar e morrer, de fazer muita gente sã perder o juízo, a cabeça e até o famigerado amor próprio.

Têm dias que amar é o maior desafio de todos, têm dias que amar é um verdadeiro ato de coragem.“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Beleza. Bora amar o próximo, mas dá pra não ficar tão próximo assim, por favor? Imagine-se amando aquele seu “colega” filho da puta lá da firma, aquele cretino que te deu uma fechada no trânsito hoje mais cedo ou aquele safado que se aproveitou para te dar aquela roçada básica no ônibus lotado hoje de manhã. Pois é.

Nem precisamos ir tão longe, né Leitor? Às vezes é difícil amar até mesmo quem a gente ama muito, muito mesmo. Quem normalmente a gente ama genuinamente, sem precisar fazer qualquer esforço. Você me entende, Leitor? Sabe aqueles dias que amar o seu próximo mais próximo vira uma verdadeira missão? Amar seu filho lindo quando ele esgota toda a sua paciência. Amar sua mulher incrível quando ela está no auge da TPM. Amar seu maridão quando ele faz aquela grosseria gostosa e gratuita com você. Amar a sua simpática sogra ou a sua adorável mãe quando elas se intrometem desenfreadamente na sua vida. Amar o seu cãozinho fofo quando ele faz cocô no seu tapete persa. Amar o seu gatinho quando ele destrói o seu sofá novinho.

Entenda uma coisa, Leitor: amar é uma arte. Agora, entenda outra coisa: não é todos os dias que acordamos artistas. Ou vai me dizer que você se sente sempre inspirado, Leitor? Que todos os dias seu coração está cheio de amor pela vida e por todos os seres vivos? Bom, então vou para de te chamar de Leitor e vou passar a te chamar de “E.T.” a partir de agora, pode ser? Corta essa! Só estamos eu e você aqui, não tem ninguém olhando, não precisa fazer cena!

O amor costuma exigir sacrifícios enormes e eventualmente ele vai deixar o seu coração partido, em frangalhos. O amor não vai ser lindo todos os dias. Eu aposto que você sabe disso, Leitor, mas se você ainda não sabe, eu, que já criei certa afinidade contigo depois de todas essas linhas, me sinto na obrigação de te alertar: têm dias que o amor vai ser fodido, amaldiçoado, dolorido, feio e vai ter cara de bicho.

Ele vai te meter medo, vai te assustar e te fazer sentir dores em partes do seu corpo que você nem supunha que existiam. Mas sabe o que é mais louco nisso tudo, Leitor? É que essa porra de amor continua sendo a coisa mais alucinante, maravilhosa e intensa que eu, você e qualquer ser humano já chegou perto ou vai chegar de sentir na vida. No fim das contas, Leitor, o amor é o que faz da gente parte de um mesmo todo, é que nos aproxima e me faz estar aqui escrevendo e você aí, lendo. É o que faz a gente começar tudo de novo, todos os dias, apesar de tudo, apesar de todos, apesar de mim e de você.

Vai entender, Leitor, vai entender…

Roberta Simoni

Da ausência de lógica

Quando eu contei para a Renata o que fiz, o comentário que ela teceu a respeito do ocorrido foi o seguinte: “isso merece duas coisas: terapia e um texto no blog.”

Enquanto não começo com a terapia, vira texto, o que não deixa de ser terapêutico. Então, senta que lá vem história…

Fui almoçar em Niterói, na casa da querida Thaty, a quem chamo carinhosamente de sogrinha, pois estamos seriamente desconfiadas que o seu filho Bernardo, de 5 anos de idade, está vivenciando aquela coisa de paixonite infantil pela tia Roberta aqui, uma graça… e uma honra, visto que ele é uma das poucas crianças que considero realmente adorável e que consigo ficar por perto durante muito tempo sem querer fugir do recinto.

Pois bem, depois de pedir o Bê em namoro oficialmente aos pais dele, que fizeram gosto do relacionamento promissor, ao contrário do próprio, que me respondeu com um “vou pensar, tá?” (o que me fez perceber que os homens já começam a apresentar defeitos desde novinhos), e depois de me deleitar com a lasanha divina da Thaty e com a conversa fiada de melhor qualidade, resolvi voltar para casa. Já era noite quando tomei meu ônibus de volta pro Rio.

Eu, criança de quase trinta que sou, basta entrar em qualquer transporte que balance um pouco para cair em sono profundo (sim, uma turbulenciazinha durante um vôo é sonífero!). Eis que uma hora depois acordei num lugar estranho. Custei a entender que eu estava longe de casa. Onde? Na Avenida Brasil, entrando na Linha Vermelha. O ônibus semi-vazio que peguei em Niterói, àquela altura, já estava lotado, e as pessoas não tinham uma aparência exatamente amigável e eu não me senti segura de pedir uma ajuda, uma informação ou mesmo uma bússola emprestada. O que eu fiz? Coloquei meus fones de volta nos ouvidos, pus minhas musiquinhas para tocar e agi naturalmente, como se eu estivesse onde eu queria estar.

Enquanto o ônibus se afastava cada vez mais da Zona Sul e me levava pra lá da Zona Norte, eu tentava raciocinar. Já eram quase dez da noite e eu estava sozinha, com a minha máquina fotográfica na bolsa. Correr o risco de perder meu equipamento de trabalho não era algo considerável, por isso, decidi que descer do ônibus seria pior do que seguir nele e ver até onde ele me levaria. E ele me levou para Ilha do Governador, no Galeão, o ponto final.

Lá estava eu, em pleno sábado à noite, perambulando num aeroporto, sem nenhuma mala na mão, sem eira, nem beira. Nem chegando, nem partindo pra lugar algum. Só estava lá, por algum acaso, eu estava lá.

Ok. É o que temos pra hoje, pensei. Então tá. Só me restava tentar entender o que me fez chegar até ali, além da minha total distração ao pegar o ônibus errado e dormir feito uma pedra durante trajeto, tinha que ter uma razão maior, uma boa justificativa para aquilo tudo. Sei lá, de repente eu poderia encontrar uma passagem promocional para Bangladesh, ou talvez revisse um amigo de longas datas que andava sumido ou, quem sabe, me depararia com o homem da minha vida???

Nada. Nada. Nada. Nenhum sinal de coisa nenhuma.

A única coisa com a qual me deparei foi com o ônibus para a Zona Sul saindo no instante em que eu cheguei. Corri, mas não deu para alcançá-lo. Mais 40 minutos de espera até o próximo chegar e quase três horas depois da hora que saí de Niterói eu estava em casa, sã e salva. Mais salva do que sã, como consta o relato.

Até agora não descobri o que eu fui fazer num aeroporto do outro lado da cidade em pleno sábado à noite sem ter ido viajar e tendo voltado para casa sem nenhuma história boa pra contar, nem nunca vou saber. Esse é o tipo de resposta que a vida nunca dá pra gente, é quase como ligar para a sua operadora de celular para cancelar um serviço, a ligação “cair” e você ficar esperando que um vendedor de telemarketing retorne a ligação.

Nem ao menos eu dei de cara com a Astrid Fontenelle gravando o programa Chegadas e Partidas para dar o meu relato, no mínimo, inusitado…

Se foi apenas um teste de autocomplacência, dessa vez eu passei com excelência. Se há alguns anos alguém me dissesse que eu cometeria tamanha estupidez e nem sequer esbravejaria ou ficaria furiosa por isso, eu custaria a acreditar. Devo estar ficando mais generosa comigo, ou então já nem me surpreendo mais.

De um jeito ou de outro, fica a impressão de que a vida, às vezes, brinca com a gente, joga pra lá, pra cá, faz como se fôssemos bonecos num teatro de marionetes. Coloca um monte de pontos de interrogação para apimentar a brincadeira e raramente responde às nossas perguntas. Poucas vezes faz algum sentido, mas até que é divertida.

E mesmo sem entender direito, quero continuar vivendo aqui por mais algum tempo, aqui onde está sempre amanhecendo.

Roberta Simoni

Admirador à Nova Moda

Procura-se Admirador à Moda Antiga!

Hoje fui surpreendia por um “e-mail anônimo” de um suposto “admirador secreto” que se intitula como Mr. Big. Lembrei da primeira carta de amor que recebi na vida que, por sinal, também foi anônima. Tenho guardada até hoje, sem saber ao certo quem foi o remetente que desenhou aquele coração com dois pombinhos se beijando (bicando?) e escreveu um “Eu te amo” tremido do outro lado da folha. Brega. Mas meigo. Eu tinha 10 anos, e aquela carta me deixou furiosa. Depois vieram outras que só não me aborreceram mais graças à sabedoria da minha mãe que, vendo minha aflição diante daquelas ingênuas demonstrações de amor, me chamou para uma conversa séria, de mulher para “mulher”.

É muito bom ser amada, filha, não há nenhum mal nisso. E, acredite, um dia você vai desejar que isso aconteça com toda a sua força.” E acrescentou, cuidadosamente: “você precisa começar a aceitar que os meninos te admirem ao invés de chutá-los quando eles te elogiam, tá bom?” Tá bom. Já tem alguns anos que eu parei de bater neles, mamãe. Você já pode ficar orgulhosa da sua caçula! Mas e nos tarados, mamãe, eu posso bater? Só de leve… posso? Deixa, deixa…

Segue o e-mail do misterioso Mr. Big, com minhas observações em vermelho. Divirtam-se. 😉

“Eu não tenho blog. Na verdade tenho, mas só pra escrever bobeiras e ninguém lê (por isso ninguém lê…). Leio pouquíssimos blogs, pra não dizer que não leio nenhum. Escrevo há algum tempo e, essa informação vai ser importante, adoro mulheres que escrevem. Mas, assim como todo homem, gosto mais de mulher gostosa. E foi assim que cheguei até você. (devo me sentir lisonjeada?) Um amigo me mostrou uma foto sua no Facebook (tempos modernos, sinto saudades das cartas com com pombinhos bregas, corações mal desenhados e grafia ruim). E antes que me pergunte (acredite, eu teria medo de perguntar), meu amigo é seu amigo, e vi através do Facebook dele.

Depois de olhar suas fotos por alguns minutos, vasculhei e encontrei mais fotos e um blog. Pelas fotos descobri que você é mais gostosa do que eu pensava (essa é a parte em que eu deveria me sentir ainda mais lisonjeada, é? ah, ok…). E pelo blog, puta que pariu (ops, o rapaz se empolgou!), pelo blog descobri que você é a mulher da minha vida (ooooooooi???). Sem exageros, floreios ou galanteios (Aham Cláudia, senta lá…), até porque criei este email só pra te mandar este texto, e você não sabe quem eu sou (certeza?).

Você escreve maravilhosamente bem, mas é mais que isso. Você escreve com a alma (é, tenho mesmo esse péssimo hábito). Sei que é meio gay falar isso (é homofóbico o menino?), mas mesmo sabendo que é ficção, eu imagino você escrevendo. Dá pra ler você, dá pra conhecer você intimamente pelos seus textos (vai nessa…). E, quando você está lá, dentro de você (no bom sentido), vem você e desfila toda sua sensualidade nos textos. Você quer matar a gente? (eu não tenho intenção de matar ninguém, moço, só escrevo o que é natural pra mim, o que, para outras pessoas, dependendo de quem lê e de como lê, pode soar como provocação erótica… não me culpe por pensamentos pecaminosos alheios!)

Para um homem normal, digo, que gosta de mulher, não dá pra não imaginar você seminua escrevendo (ahhh, dá sim… pergunta só pro meu pai, que é um dos meus principais leitores!). Imaginar você contra a luz, só de blusinha, matando a gente pouco a pouco (Beta, A Assassina de Leitores Indefesos). Até porque, foto gostosa + textos sensuais é algo que nenhum homem consegue dissociar (a verdade é que vocês homens precisam de muito pouco ou nada para associarem tudo com sexo). Descobri depois que você é fotógrafa. Juro que não consegui não sonhar com você um dia sequer depois disso. Nem umzinho. (a hora do pesadelo 1, 2, 3, …)

Mas, ao mesmo tempo, percebi uma coisa nos seus textos: você é, na maioria das vezes, uma pessoa melancólica. Mesmo sendo “ficção”, dá pra perceber isso (sim, sim… praticamente uma maníaca-depressiva, me ajuda?). Uma mulher lindíssima, gostosíssima, que escreve sensacionalmente bem, fotografa igualmente bem, e por que não é a pessoa mais feliz do mundo? (Óhhhh mundo cruel!) Por que você não tem o homem que você quiser? Por que? Que homem em sã consciência não ia querer estar com você em qualquer momento? Na cama, escrevendo, fotografando, andando pela rua, sei lá. Que homem não ia querer isso? (Por que os dinossauros foram extintos da Terra? Por que Eva mordeu a maldita maçã? Por que eu nasci brasileira e pobre? Por que? Por que? “Óh vida, óh céus, óh azar!”)

Bem, Beta (com o perdão da intimidade), é isso. Só mandei este e-mail porque te achei meio triste nos últimos textos e quis que você soubesse que aqui, onde quer que seja, tem um cara que daria um braço para ter você, exatamente assim como você é. Exatamente. (Óuuun… isso foi bonitinho, de verdade!) E é sério. Então, continue escrevendo, continue fotografando, continue sendo gostosa (aí você tá pedindo demais, ô Seu Admirador, essa é a parte mais difícil e é a que os homens mais esperam de nós…) e continue sendo você. Que eu vou continuar sendo seu maior admirador – e acredite, I mean it. Beijos e me desculpe a intromissão.

p.s.: A parte de que eu daria um braço por você não é licença poética, DE VERDADE. Um dia espero que você possa descobrir que isso é verdade.” (Eu espero que não, Seu Mr. Big, pelo-amor-de-deus! Se um dia eu descubro que alguém perdeu um braço por minha causa, me jogo da ponte Rio-Niterói, e nós não queremos isso, certo? Então, agradeço por me oferecer seu braço, acredito na utilidade dele, mas acho que ele terá maior funcionalidade continuando exatamente onde está, ok?)

…Eis que eu me pego melancólica – como bem definiu o Seu Mr. Big – e nostálgica, sentindo saudades dos meninos de 12 anos que me mandavam cartinhas bregas de amor, me davam frascos de perfumes pela metade de presente (provavelmente roubados da mãe), bichinhos de pelúcia feiosos, que pegavam naquelas maquinas de jogos, como troféus dedicados à namoradinha. Deu saudade do primeiro pedido de namoro, logo depois do primeiro beijo às escondidas atrás da igreja, após a missa. Saudade dos amores puros e não idealizados em estereótipos.

Manhêêêê, sabe aquele dia que você falou? Chegou!

Roberta Simoni

Filha de peixe…

Acordo hoje com o seguinte e-mail enviado pelo meu pai:

Depois de alguns minutos com o celular colado ao ouvido e ouvindo aquela musiquinha básica, sem contar que antes tive que prestar atenção numa série de números, para “ver” qual eu deveria “apertar”, uma moça me atendeu: “Boa tarde ! Elizabeth falando. Com quem eu falo ?”


__ Paulo Cardoso… Tudo bem com você, Elizabeth ? A família “tá” boa ?
__ Tudo bem, senhor… Em que posso ajudar ?
__ Elizabeth, por favor, me confirma uma coisa: é verdade que eu tenho o direito de pedir uma cópia da gravação dessa nossa conversa ?
__ Sim, senhor !
__ E o que é necessário ? (Aí ela falou uma série de documentos e procedimentos).
__ Elizabeth, essa gravação alguém ouve, como por exemplo, um diretor ou presidente da Vivo ?
__ Sim, senhor… O nosso… (não me lembro quem ela falou que ouvia).
__ Tá bom…
__ Em que posso estar ajudando, senhor ? (detesto gerundismo: estar falando, estar providenciando, e uma cacetada de “estar”).
__ É que eu quero mandar a vivo pra merda… (daí, ela não parava de rir, tentando se conter, mas rindo muito).
__ Só isso, senhor ? Mais alguma coisa em que eu possa estar sendo útil ?
__ Por enquanto, não… Vou pensar direitinho, e da próxima vez, eu mando pra outro lugar, tá bom ? Obrigado pela atenção. Você é muito simpática. Fica com Deus. Jesus te ama !”

 

Sei que é ridículo mas fiquei contente, pois disse tudo com muito amor, carinho e educação…”

Faltou só ele dizer: “(…) disse tudo com muito amor, carinho, educação e ironia…” especialmente na parte do “Jesus te ama” porque o meu pai é o menos religioso dos seres.

Eu compreendo perfeitamente a elegante satisfação dele. O problema continua e mandá-lo a merda (com tamanha classe ou não) não vai resolver nada, mas o efeito que surte é impagável: alivia a alma.

Aí me pus a pensar: como eu poderia querer ser diferente se a herança genética se faz presente? O mundo faz todo o sentido, afinal.

Roberta Simoni

Todo enfermo fica carente

Você não mora com seus pais, nem com parentes, amigos ou filhos, também não mora com seu(a) namorado(a). Não gosta de dar satisfações da sua vida, adora não ter hora pra voltar. Sente uma alegria enorme em encontrar suas coisas do jeito que as deixou antes de sair, ainda que a sua casa esteja uma zona.

Às vezes sente falta de chegar em casa e ter alguém que pergunte como foi o seu dia, sente uma pontada de inveja quando vem aquele cheirinho de comida caseira da casa ao lado, mas rapidamente supera aquele aroma quando pensa que não precisa fazer comida se não quiser, que não tem obrigação de limpar a casa hoje, nem amanhã, nem depois. E que a louça suja pode esperar a manhã seguinte…

Você bebe água da geladeira no gargalo e chega a sentir um prazer secreto ao pensar em como sua mãe reclamaria se presenciasse essa cena. Você escuta música, liga a televisão e mexe no computador, tudo ao mesmo tempo, sem que ninguém reclame. Começa a desenvolver o hábito estranho de falar sozinho, com as paredes ou com as suas coisas e acha graça da sua sandice, até que…

… Você fica doente !!!

E agora? Não tem ninguém para ir até a farmácia comprar um remédio para você, ninguém para tirar a sua temperatura, nem para fazer um suco de laranja e te obrigar a tomar, alegando que você precisa de Vitamina C.

Você gostaria de ter coragem de bater à porta da casa vizinha e perguntar se pode se sentar à mesa com eles. Odeia com todas as forças o cheiro de feijão fresquinho que vem de lá. Chega a fantasiar sua mãe na sua cozinha preparando a sua comidinha favorita e te dizendo que você não pode ficar sem comer, filhinho(a)!

Deseja veementemente encontrar aquela cartelinha de novalgina que está perdida no meio da bagunça que é a sua vida. Se sente a criatura mais carente do mundo. Não sabe se espirra ou se chora, acaba fazendo os dois, e fica com o nariz completamente entupido.

Começa a entender, finalmente, que está só. Você mora sozinho, queridinho(a)! Não tem ninguém para se comover com a sua fraqueza, para se preocupar com as suas tosses excessivas, para te mandar procurar um médico ou para te carregar à força para o hospital.

Calma! Você só está gripado(a)… mas, eu sei, você tem a impressão de que vai cair em depressão profunda a qualquer momento. Mas aí, você reage. Se arrasta até o banheiro como um “sobrevivente gripal” e toma banho encostado na parede do box, porque não têm forças para ficar de pé. Se sente melhor, mas não ao ponto de conseguir pentear os cabelos.

E falando em cabelos, você se olha no espelho e vê que os seus estão todos embaraçados e que você está com uma aparência horrível de… doente. Mas tudo o que você queria agora nem era estar bonito(a), tampouco te preocupam suas olheiras, pois só o que você precisa é de alguém que esteja pouco se importando com a sua aparência, desde que não se importe em lhe fazer um cafuné.

Sim, isso é um apelo !!! 🙂

Manhêêêêê… eu sei que você lê o meu blog !!!

Roberta Simoni

Filtro da sinceridade escangalhado

Desde cedo a vida começou a me mostrar que sinceridade não é uma coisa bonita. Mesmo assim, eu venho resistindo à essa ideia e, sem querer ser pleonástica (mas já sendo), a verdade é que, muitas vezes, a verdade é mesmo feia.

Na minha adolescência teve uma moda de “Caderno de Perguntas”, que circulava por todo o colégio. A brincadeira funcionava assim: cada um respondia a todas as perguntas feitas pelo dono do caderno, e depois passava adiante.

As perguntas variavam entre bobas e idiotas: “Qual a sua cor preferida? Quem você levaria para uma ilha deserta? Quais suas qualidades e defeitos?” e por aí vai…

Um dia, um caderno desses veio parar na minha mão. Comecei a responder… até que me deparei com uma pergunta um tanto quanto complexa: “Com quantos anos você deu o seu primeiro beijo?”

Bom, eu tinha 14 anos e nunca havia sido beijada. Olhei para as respostas dos outros, e o mais atrasado tinha beijado pela primeira vez aos 12 anos, mas isso não foi suficiente para me intimidar. Respondi sem pestanejar: “Ainda não beijei na boca.”

O caderno continuou circulando pelo colégio e, no dia seguinte, eu assistia à aula quando um grupo de alunos de outras turmas se amontoava do lado de fora da janela da minha sala. Eles apontavam lá pra dentro e riam. Aquela movimentação toda dispersou a aula e logo todos  fomos tomados por uma enorme curiosidade. A professora parou a aula, abriu a janela e perguntou a um dos meninos o que estava acontecendo…

O garoto respondeu com outra pergunta, às gargalhadas, apontando pra mim: “Professora, aquela ali que é a Roberta?”. Ela, ainda confusa, fez que sim com a cabeça, e o grupo começou a gritar, em coro: “BV, BV, BV, BV…” (pra quem não sabe, B.V. é abreviação para “Boca Virgem”.)

Pois é… a “coisa” que causou aquele reboliço todo, era eu. E tudo isso por causa de um beijo… um beijo que eu nunca havia dado.

A professora fechou a janela e tentou retomar a aula, mas aí já era tarde, porque o “vuco vuco” agora era dentro da sala. “Beta, isso é verdade?”, “Meu Deus, você nunca beijou na boca mesmo? Mas, por que, menina?”

Finalmente conseguiram me intimidar. Naquele momento eu era o próprio “ET”, que acabara de ser descoberto infiltrado entre os seres humanos !!! 😀

Episódios parecidos com esse eram frequentes, por razões diferentes, mas todos provocados pelo meu excesso de sinceridade, sempre.

A primeira vez que eu me lembro de ter achado a sinceridade feia foi quando ganhei um monte de roupas de presente de aniversário de uma amiga rica da minha avó, da qual eu esperava ganhar o melhor brinquedo, considerando seu poder aquisitivo. Eu rasguei a embalagem ávida e quando vi o que era, falei instantaneamente: “poxa, mas roupa não é presente!”

Minha mãe, envergonhadíssima, me repreendeu e me fez agradecer o presente. “Mas, mãe, eu não gostei!”, eu insisti. Só me lembro da tia dizendo: “Não tem problema, criança é assim mesmo!”.

Depois minha mãe me explicou que não é sempre que podemos dizer o que estamos pensando ou sentindo, porque isso pode desencadear numa série de problemas e pode, inclusive, magoar as pessoas, mas parece que eu não aprendi muito bem, até hoje… e comprovei isso ontem à noite.

Entrei no ônibus tensa, porque já era tarde e eu estava sozinha. Escolhi um dos muitos lugares vazios e me sentei. Dois minutos depois, um homem sentou-se ao meu lado. E ele não apenas sentou como quase se jogou em cima de mim, eu dei um pulo e falei sem pensar duas vezes: “Ei, precisa encostar tanto?”

O rapaz ficou surpreso e se defendeu: “Eu tô no limite do meu banco, moça!”

Eu rebati: “Ahhh, não está não!”

“Calma, eu não quero te assaltar não!” – ele falou, tentando descontrair.

“Tem certeza?” – perguntei e prossegui antes que ele pudesse voltar a falar – “Só não entendo porque você se sentou ao meu lado se o ônibus está vazio e, me desculpa, mas continuo achando que você está encostando muito em mim, moço!”

Normalmente, eu teria ficado incomodada, mas teria ficado quieta. Ou teria, no máximo, trocado de lugar, se o meu “filtro da sinceridade” não estivesse com defeito ontem.

Depois eu observei o rapaz e vi que ele tinha cara de “bom menino”, mesmo assim, aquela coisa toda de quase sentar no meu colo não foi legal, e se aquilo foi uma espécie de investida, ele precisa aprender a fazer uma abordagem mais inteligente. Mesmo assim, confesso que depois morri de vergonha pelo fora que dei no menino!

O que acontece comigo é que, às vezes, eu não consigo filtrar nem uma vírgula que sai do meu cérebro até chegar à minha boca e deixo passar tudinho o que penso. Acho que a minha válvula responsável por pensar antes de falar entra em curto constantemente e depois haja colhão para aguentar as consequências. Além do mais hoje ninguém vai poder dizer: “Ah, ela é só uma criança!”, até porque eu consigo disfarçar muito bem que sou adulta.

Hoje em dia, se eu fosse responder um Caderno de Perguntas, quando chegasse naquela parte de “Qual é o seu maior defeito?”, eu responderia: “Cuidado, eu sou sincera!”

(adoro essa foto, tinha que ser o Almodóvar, né?)

Roberta Simoni

Bonequinha antiga

Barbie Idosa

Eu precisava enviar um trabalho por e-mail com uma certa urgência, e na falta de internet, fui ao cyber mais próximo. Sentei na única cadeira disponível, porque todas as outras estavam ocupadas por adolescentes que jogavam algum jogo na rede, gritavam e pulavam de excitação. De repente, o computador que eu usava travou. Já estava indo chamar o rapaz da recepção para liberá-lo pra mim, quando o moleque sentado ao meu lado, fala: “É só clicar aqui, tia!”

É nesse exato instante que você percebe que está ficando velha: quando um adolescente que tem o dobro do seu tamanho te chama de tia! T-i-a… como assim, gente?

Aliás, abrindo um breve parêntese – adolescentes deveriam viver em isolamento até alcançarem a idade adulta. Eu sei que é uma forma egoísta e obscura de pensar, mas eu não tenho domínio sobre meus pensamentos e vontades. E eu sei também que eu já fui um deles um dia. Ninguém precisa me lembrar disso, até porque eu não me esqueceria, mesmo que me esforçasse muito! – Pronto, fecha parêntese.

Você desconfia que está ficando velha quando liga para seus amigos e os convida para ir a um café, de preferência dentro de uma livraria. Ou quando prefere sentar num bar a ir numa boate lotada, preferencialmente um bar com uma música não muito alta para conseguir conversar à vontade.

Percebe que está ficando ultrapassada quando começa a usar demais os termos “no meu tempo”, “naquela época”, “antigamente”…

E se o galã que já te arrancou suspiros na sua adolescência e te fez assistir o mesmo filme 198.214.678.334.154 vezes agora está envelhecido, significa que você está indo para o mesmo caminho, minha amiga!

Patrick Swayze

Se ele for Patrick Swayze, que te fez assistir Dirty Dancing 18 vezes (contadas a dedo!), morre aos 57 anos, e te deixa órfã, chorando sozinha, de boca aberta em frente à televisão depois de receber a notícia, pode ser mais grave ainda: além de velha, você está ficando dramática.

Quando você começa a ir a inúmeras festas de casamentos dos seus amigos ou quando eles começam a virar papais e mamães, e você ainda está longe de querer fazer qualquer uma das duas coisas, cuidado: você pode estar ficando para titia.

Quando você encontra aquela mini-saia no fundo do armário, perdida há anos, olha pra ela e pensa: “adoro essa saia, mas eu ficaria ridícula nela hoje em dia (até porque, provavelmente, ela nem caberia!).” Bingo! Esse é o tipo de senso crítico que se encaixa perfeitamente à mulher madura!

Pois é, a boneca aqui já não é mais a mesma… separou a mini-saia para a doação; ainda não se conformou com a morte do galã preferido;  já é “tia” de marmanjo; coleciona gírias antigas; não troca um café numa livraria por nenhuma “baladinha”, mas veja a Barbie, por exemplo, é antiga, mas nunca sai de moda, portanto, nem tudo está perdido… tia!

E é claro que eu não ia perder a oportunidade de rever com vocês (mais algumas vezes, só algumas…) uma das minhas cenas favoritas de Dirty Dancing, né? Ai, que delícia!

Roberta Simoni