Ninguém sabe. De coisa alguma.

A gente é um emaranhado de coisas. As pessoas que cruzam ou convivem com a gente não sabem da missa a metade. Ainda bem, pois se soubessem da missa inteira, contestariam, fugiriam ou dormiriam no meio. Melhor assim.

Ninguém precisa saber que você chorou escondido no banheiro do trabalho porque no meio da tarde foi assaltado por uma lembrança ou uma saudade aguda.

Exceto se eu quiser contar, ninguém precisa saber que eu gosto de tomar banho no escuro ouvindo música todas as noites quando chego em casa. E que, às vezes, eu choro. Por nada, e por tudo.

Você não precisa admitir que tem ficado até tarde trabalhando porque não sente mais prazer de voltar pra casa. A gente nota, mas não fala nada.

Deixe que suponham. Deixe que deduzam, que digam. Eles não podem fazer isso o tempo todo. Em algum momento serão obrigados a se voltarem pra suas próprias vidas e enfrentarem seus próprios dilemas.

Ninguém sabe quem você leva pra cama e se alguém leva pra cama a preocupação de com quem você tem ido pra cama, certamente é porque gostaria de ir pra cama com você ou porque não anda lá muito contente com quem tem levado pra cama.

A preocupação com as atividades sexuais alheias é algo que eu talvez precise de mais algumas encarnações pra compreender. Não sou boa com questões lógicas, mas essa me parece bem simples: se uma pessoa se ocupa de investigar com quem você escolhe passar suas noites se deitando (ou sentando, que seja), ela está desperdiçando o tempo que deveria estar se ocupando de fazer o mesmo.

Triste, não é? Pois é, mas eu descobri que acontece o tempo todo e por toda parte (habitada por seres humanos).

Ninguém sabe que você tem pensado o tempo todo em se separar, se mudar pra outro país e ir trabalhar na praia pra ajudar o povo de humanas a fazer miçanga.  E que, com a mesma frequência, você pensa que isso é um disparate. E que seu cérebro passa dia após dia vivendo esse dilema enquanto consegue te fazer continuar agindo normalmente. E você forja uma normalidade que pode chegar a suportar por anos.

Ninguém sabe que você tem medo de tomar tarjas pretas porque, no fundo, se acostumou a viver dentro do seu caos e não saberia o que fazer sem suas angústias já domesticadas. Mas eles insistiram e você procurou um médico, que te disse que você tem uma dessas síndromes contemporâneas. Mas você é démodé e não quer se medicar porque acha que a vida vai ficar ainda mais insuportável se suas dores ficarem dormentes.

Tem gente que não sabe que você toma tarjas pretas justamente pra conseguir suportar gente assim.

Ninguém sabe que a gente tem se frequentado e que não tem frequentado quem a gente vê com frequência. Somos improváveis demais pra nos cogitarem frequentando o universo um do outro.

Eles não sabem quantas coisas na sua vida acabaram antes mesmo de terem começado. Nem quantos projetos você começou e não conseguiu acabar. Nem quantas vezes você chorou porque acabou o que você queria que tivesse continuado e continua com o que queria que já tivesse acabado.

Você não precisa contar pra ninguém que está com raiva, infeliz ou amargurado. Se disser isso em voz alta, capaz de contar pra última pessoa que deveria saber: você.

Uma vez constatado, você vai precisar fazer algo a respeito disso. E você tá cansado demais pra conversar, pra gastar energia (se) debatendo. Tá muito acomodado pra sair do lugar, pra cogitar viver numa outra realidade onde suas tristezas e insatisfações não cabem, pois elas vêm acompanhadas de benefícios espaçosos. Tá na merda, mas tá quentinho.

Ninguém sabe de quem você lembra na hora de dormir e quem é a primeira pessoa que você pensa na hora que acorda. Nem você sabe quem pensa em você.

Ninguém sabe do que você tem medo, o que te paralisa e como foi assustadora a última vez que você teve uma crise de ansiedade ou de pânico. A quem você recorre quando os outros não sabem de nada, mas agem como se soubessem de tudo?

Ninguém sabe que, às vezes, você tá com alguém quando queria estar com outro alguém. Nem imagina o que te dá prazer quando não tem ninguém olhando. E o que te dá tesão quando tem alguém olhando.

Ninguém sabe que você não é o que parece. E que parece o que não é. Mas você não tem culpa se o ser humano é dado a deduções simplórias e rasas. Mergulhar no outro dá trabalho. Sem falar no medo de se afogar. Você nunca sabe o que vai encontrar lá no fundo. Todos nós somos buracos negros.

Ninguém sabe que o que você é hoje é fruto de erros fantásticos, de equívocos abençoados, de pecados inconfessáveis, de litros de suor e lágrimas que ninguém viu escorrer.

Poucas pessoas sabem o que te faz se escangalhar de rir, as idiotices que te arrancam gargalhadas escandalosas. E menos pessoas ainda sabem as pequenas coisas que te provocam as maiores alegrias. E, ao longo da sua vida, serão poucas as que vão saber.

Ninguém sabe o esforço que você tá fazendo pra sorrir e conversar. Quem te vê trabalhando, malhando, estudando, não imagina o drama que tem sido pra você se levantar da cama todas as manhãs. Eles não sabem que você tem preguiça de existir quase todos os dias, algumas vezes por dia, e que respirar já foi mais fácil. Um dia.

Eu não sei o que tá acontecendo na vida da moça que me atendeu com má vontade. Ou na vida do moço que foi grosseiro comigo sem motivo aparente. Mesmo assim, não raro eu desejo do fundo do meu coração que eles se fodam, até me lembrar que eles são também um emaranhado de coisas que não estão aparentes, dificultando que a minha empatia imediata se estabeleça.

Às vezes, a gente não sabe nem as batalhas pessoais que as pessoas mais próximas da gente estão travando.

Ninguém sabe as aflições que passei escrevendo cada parágrafo daquilo que é só um pedacinho das aflições da gente. E eu não vou contar.

Roberta Simoni

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Boneca que anda, fala e xinga

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Uma dúvida universal: o que leva os homens a acharem que podem seguir uma mulher na rua e falar um monte de sacanagens pra ela?

Estava à caminho do trabalho quando um sujeito dentro de um carro começou a me seguir e me chamar de gostosa e outras palavras chulas, acompanhadas de gestos também chulos. Eu, na tentativa de ignorá-lo, atravessei a rua. Ele, não satisfeito, se deslocou para o lado da calçada que eu estava e continuou com os impropérios.

Eu apertei o passo e ele seguiu com as provocações porque quanto mais eu fugia, mais ele parecia gostar da brincadeira. Depois de falar o que queria fazer e deixar de fazer comigo na cama, ele completou dizendo que eu era linda e que parecia uma bonequinha que anda.

Finalmente parei de andar, virei na direção dele e respondi: “Olha só, a bonequinha também fala! Por que você não vai tomar no seu (a partir daqui vou substituir os palavrões porque vocês não são obrigados) orifício anal, seu filho de uma meretriz?” Falei tudo isso, é claro, num tom de voz compatível com a minha indignação e, para dar ênfase à minha educada frase, me pus a mostrar meu dedo do meio pra ele.

Ele, que deve estar acostumado a fazer isso diariamente com várias mulheres que, assim como eu, ficam constrangidas e inicialmente sem saber como agir, diante daquela nova reação, me olhou assustado, acelerou o carro e sumiu do meu campo de visão. E eu fiquei ali, com aquele dedo em riste, cuspindo palavrões.

Quando dei por mim, estava fazendo tudo isso bem na entrada do jornal onde trabalho e que, para a minha infelicidade, estava repleto de funcionários na portaria, que me olhavam confusos, tentando entender meu comportamento, enquanto eu os desejava um bom dia sorridente, como de costume.

Pois vejam só, a bonequinha sempre tão educada está xingando e mostrando o dedo feio para o moço, porque ela não é, nem de longe:

1 – obrigada

2 – objeto sexual

3 – uma lady

4 – uma boneca (tampouco inflável)

Homens, apenas PAREM.

Roberta Simoni

Diferente, mas igual.

Iguais

Fui abordada por uma moradora de rua que já vi algumas vezes ali pela Glória. Uma mulher negra, alta, que deve beirar seus trinta e poucos anos e que tá sempre falando alto e mexendo com todo mundo que passa por ela na rua. Hoje foi a minha vez:

“Olha, você me parece uma moça bem informada e inteligente, por isso, vou direto ao ponto: sou moradora de rua, mendiga mesmo, e tô com fome, não tenho nada para te oferecer, mas se você tiver algum trocado aí pra me dar...”

Não costumo dar dinheiro a pedintes, quando posso – e quando eles aceitam – pago um lanche na lanchonete mais próxima, mas estava com pressa e tinha uns trocados no bolso. Enquanto contava as moedas para dividir com ela e com a passagem que usaria para pegar o metrô, observei que ela usava uns pedaços de pano que fez de mini-saia e top para se cobrir e brinquei: “gostei do visual”. Ela foi logo se desculpando pela forma como estava vestida. “Não, não… você não tá entendendo, eu realmente gostei da sua roupa, especialmente com o calor que tá fazendo hoje, é de se invejar!” Ela riu e ficou me olhando contar as moedas misturadas com algumas notas de R$ 2,00 amassadas. Expliquei: “sou jornalista”.

Quanto terminei a contagem daquela pequena fortuna que (supostamente) pagaria o almoço dela e a minha passagem de volta para casa, perguntei seu nome. Ela ficou me olhando por um longo tempo e, por fim, disse: “você é diferente”.

“Eu sei, me sinto assim o tempo todo.”

“É, eu também.”

Ficamos nos encarando por segundos quase longos, como dois E.T.s que se reconhecem na multidão, até ela se virar, ir embora e, dois passos a seguir, parar novamente, olhar para trás e, com as moedas numa mão e a outra apoiada na cintura, me encarar mais uma vez, com uma expressão irônica, e dizer: “Afff… sabia que você me fez ficar pensativa?”

“É, você também.”

Sempre penso no que pode ter acontecido na vida de uma pessoa que acabou indo morar nas ruas. E sempre, sempre penso que a vida, no fim das contas, é uma tacada de sorte ou azar. Dependendo de onde se nasce e sendo filho de quem se é, qualquer um pode parar no mesmo lugar que ela. Qualquer um mesmo, com talentos, aptidões, personalidades e sonhos semelhantes, mas chances diferentes. É o que alguns chamam de destino.

E ela ainda começou a conversa dizendo que não tinha nada a me oferecer…

Roberta Simoni

Quem disse que hidratante não dá jeito?

Eu achei que não fosse conseguir, depois de três semanas consecutivas e interruptas de espirros, fechadas com chave de ouro com as chuvas geladas do fim de outono, graças a minha indigesta teimosia em querer ir ao cinema debaixo de uma tempestade torrencial para assistir “O Segredo dos Seus Olhos”, porque achei inadmissível ver esta obra prima em outro lugar que não fosse numa sala de cinema, como manda o figurino de todo filme excepcional (e, de fato, se trata de um!), ignorei a dor de garganta, os espirros, o estado febril, o dilúvio e escambau, decidida a não perder a última semana do filme em cartaz, nada nem ninguém me seguraria em casa naquele dia, pois bem… o resultado? Hospital no dia seguinte: crise de sinusite. Um dia inteiro de trabalhos urgentíssimos jogados no lixo, ou melhor, na cama, debaixo do cobertor comigo.

Com a ajuda de antibióticos “levanta defunto” cheguei viva no trabalho no dia seguinte, sobrevivi ao dia puxado, consegui me arrastar até o curso de italiano mais tarde, “ma non parlare niente…” a aula toda, pois só tossia, tossia e tossia… depois tinha uma reunião às 21h. “Duvido que você consiga ir” me autodesafiei. “Ah é?” Entrei no metrô e fui. E foi a caminho do meu destino que eu recebi a lição do dia.

Estação de Copacabana, eu em pé, de frente para uma das portas do vagão, um entra e saí danado de gente, de repente, um grito, seguido de outros gritos de susto que provocaram outros tantos, agora de pavor. “Pára, pára, não deixem o trem seguir… páááára!” (é, eu sei que o acento do “pára” caiu no novo acordo ortográfico, mas, nesse caso, preciso muito dele para enfatizar melhor!), e eu gritando junto, ajudando a fazer barulho, tentando alertar o maquinista. Gritaria bem sucedida, o trem parou com as portas abertas, mas o moço continuava lá, com uma das pernas presas no vão entre o trem e a plataforma, bem na minha frente.

Ninguém sabia direito o que fazer e, como de costume em situações como essa, todo mundo esquece que muito ajuda quem pouco atrapalha. Formou-se uma verdadeira multidão em volta do homem, tornando o resgate ainda mais difícil. Um puxava daqui, o outro dali e nada do homem sair.  Alguém falou em óleo para ajudar a soltar, pensei rápido: “alguém tem hidratante aí?”. Imediatamente surgiram vários das bolsas das mulheres, e vejam vocês, com um pouco de jeito e muito creme hidratante, conseguiram desprender a perna do moço, que saiu bem, carregado por um dos seguranças do metrô, um pouco ferido e muito assustado, claro. Mas em pensar que poderia ser beeeem pior… 

A moça do meu lado chorava de nervoso, e ela foi a primeira a oferecer seu hidratante, eu queria acalmá-la, mas já estava ficando nervosa junto sem saber como. Depois que passou o susto e seguimos viagem, acho que consegui encontrar as palavras adequadas: 

“Da próxima vez que te disserem que mulher só carrega coisa inútil na bolsa, conte a eles o que aconteceu hoje. Duvido que continuem duvidando da utilidade das coisas que carregamos na bolsa depois que souberem que um hidratante salvou uma vida, não é mesmo?!?”

Enfim, ela sorriu, aparentemente mais relaxada.

E eu voltei para casa decidida a parar de renegar os hidratantes que minha mãe e minha irmã vivem me dando de presente ou me convencendo a comprar, garantindo que já passei da fase de cuidar da minha pele e ser mais vaidosa, porque já estou no estágio de me preocupar, pois com a idade chegando e eu descuidada desse jeito, tsc, tsc, tsc… já sabe, né? 

Os hidratantes prometem deixar sua aparência vinte anos mais jovem… sei não… eu continuo olhando torto para eles e duvidando de sua eficácia estética, mas, pode até ser que não te deixem mais bonito(a), mas eu parei de duvidar do “segredo dos seus óleos“. 🙂

Nesse sentido, eu confesso que tenho mesmo uma dificuldade desproporcional de diferenciar o que é futilidade do que é essencial mas, o que eu sei é que depois do episódio no metrô eu estou revendo todos os meus conceitos, e corri para pôr em uso os meus hidratantes que estão quase perdendo a validade. E se eu ainda não consigo me disciplinar a hidratar minha pele diariamente, ao menos, levo um hidratante comigo na bolsa. Nunca se sabe quando ele poderá se tornar o herói do dia…

Roberta Simoni