Os Imortais

Imortais

Havia anos que eu não passava dias mais longos com meus pais. Minhas visitas aconteciam num intervalo de dois ou três meses, sempre nos fins de semana, que passavam voando entre a casa deles, da minha irmã e da minha avó, roteiro que eu seguia à risca todas as vezes que visitava a cidade. Normalmente não sobrava tempo para andar distraída por aí, para ver o mar que eu mergulho desde menina ou para ficar num bar até mais tarde jogando conversa fora com amigos de uma vida inteira.

No verão deste ano eu fui para passar mais dias e, sem aquela pressa costumeira das minhas visitas de médica, mais do que passar, eu passeei pela cidade como não fazia há muito tempo. Ou talvez como eu nunca tenha feito enquanto morava lá. Eu caminhava até a praia todos os dias, escolhia os cantos menos badalados e ficava por lá até a hora que me desse vontade, depois pegava o caminho mais longo e ia passando por vários bairros (que me remetiam a muitas situações memoráveis que vivi) até chegar na casa dos meus pais, que até hoje chamo de “lá em casa”.

Sou de Cabo Frio, uma pequena cidade litorânea no estado do Rio, onde a maior parte da minha família vive até hoje e onde vivi por 19 anos. Poderiam ter sido 30 se eu não tivesse teimado em ir embora na primeira oportunidade que tive, ou melhor, na primeira oportunidade que criei, verdade seja dita. Mais do que o desejo de fazer a faculdade de jornalismo, eu estava determinada a viver uma outra vida. Acabei vivendo várias. Algumas boas, outras nem tanto. Mas todas absolutamente diferentes daquela que eu tinha, que não era nada mau, era apenas previsível, o pesadelo de toda alma inquieta.

A questão é que não importa o quão longe você vá e o quão boas ou ruins sejam as lembranças do lugar de onde você veio, em algum momento você acaba se esbarrando com elas numa dessas esquinas da vida. E, considerando o tamanho da cidade onde nasci e cresci, eu devia saber que a probabilidade de eu dar de cara com as minhas em algum momento era bem grande.

Donde se presume que esses belos dias que passei em Cabo Frio não se resumiram só a experiências prazerosas. Numa tarde de segunda-feira, quando acompanhava minha mãe numa ida ao banco, dei de cara com dois fantasmas de carne e osso. O primeiro estava bem na esquina da agência bancária e atende pelo nome de “Professor Marcelo”, meu terror durante quatro longos anos da minha infância, meu professor de natação, com quem eu tinha encontros marcados todas as terças e quintas-feiras, pontualmente às sete da manhã, fizesse sol ou chuva.

Foi graças a ele que descobri que eu era barriguda. Característica física, inclusive, que possuo até hoje, só que em maior proporção. Como esquecer do jeito singelo como o professor Marcelo me fez notar minha barriga proeminente? “Vamo lá, Robertinha, vamo perder essa barriguinha!”. Eu enrolava toda vida para fazer os exercícios abdominais antes de começar o treino e ele não deixava barato: “Ô Roberta, que preguiça é essa? Assim você vai ficar barrigudinha pra sempre. Mais 20 abdominais para deixar de ser mole”. Ele falava isso alto o suficiente para eu sentir sua saliva espirrando na minha cara enquanto ele segurava meus pés até que eu terminasse o exercício. Eu queria morrer e matá-lo mas, no lugar disso, só sentia raiva mesmo, embora eu tenha plena consciência que se eu tivesse alguém como ele, me fazendo lembrar todos os dias que estou barriguda, muito provavelmente eu estaria mais satisfeita com a minha forma física hoje.

Minha irmã Elisa e eu com nossos professores de natação. Eu sou aquela ali, com os braços cruzados, tentando esconder a barriguinha, ao lado do professor Marcelo.

Minha irmã Elisa e eu com nossos professores de natação. Eu sou aquela ali, com os braços cruzados, tentando esconder a barriga, ao lado do professor Marcelo.

E Marcelo não só estava na esquina como também fez questão de me abraçar e me beijar. E quando eu perguntei se ele se lembrava de mim, ele garantiu que sim, com aquela risada inconfundível dele, que me fez ter a certeza de que não estava blefando.

Atravessando a rua, lá estava o segundo fantasma: tia Olinda. A dentista que colaborou muitíssimo para transformar o medo das minhas idas ao consultório odontológico em pânico absoluto por toda uma vida. Minha mãe e ela se cumprimentaram alegremente, tia Olinda olhou para mim e perguntou para minha mãe: “Essa é a sua caçula?”. Ela nem sequer se lembrava de mim, enquanto eu jamais esqueceria dela: a dentista que não tinha o menor jeito e paciência com criancinhas assustadas que fugiam de seu consultório e saiam correndo pelo corredor aos berros, fazendo uma pirraça fenomenal, como se estivessem sendo condenadas à morte na cadeira elétrica, quando tudo que ela tentava fazer era tratar de uma cárie. Obviamente, esse não era o tipo de coisa que uma menina comportada e boazinha como eu fosse capaz de fazer. Foi apenas uma história que ouvi por aí.

Esses dois encontros no espaço de três minutos e de um único quarteirão me fizeram pensar em como certas experiências determinam o rumo de uma vida inteira e de como as pessoas se eternizam na nossa memória de maneira inabalável.

Tanto ele quanto ela são muitas outras coisas além de professor e dentista, possuem qualidades e defeitos que eu desconheço e, muito provavelmente, são pessoas diferentes daquelas que conheci. Em mais de vinte anos eles devem ter se transformado um monte de vezes e se eu os conhecesse hoje, certamente os enxergaria de outro jeito, talvez até gostasse deles. Acontece que suas passagens pela minha vida os tornaram – nas minhas lembranças – figuras distorcidas de quem são na realidade.

Coincidentemente (ou não), eu li recentemente A Imortalidade, do Milan Kundera (livro que recomendo fortemente) e passei a compreender a imortalidade de um jeito completamente novo e que vem de encontro com esses dois personagens que esbarrei naquele dia: imortal não é aquele ou aquilo que vive para sempre, mas a maneira como cada pessoa ou experiência se eterniza na nossa memória.

Digamos que o Professor Marcelo e a Tia Olinda não tenham se eternizado da maneira mais legal de todas na minha memória mas, de certo, se imortalizaram. Convenhamos que não é todo mundo que passa pelo nosso caminho que se imortaliza, portanto, o mérito é inteiramente deles.

Trago comigo uma multidão de imortais magníficos também, que vão viver enquanto eu estiver viva, ou enquanto continuarem lendo as coisas que escrevi sobre eles.

E como uma reflexão sempre me leva à dezenas de outras, estou aqui a pensar de que maneira eu ando me imortalizando por aí. Não tenho a ilusão de ser lembrada com carinho por todo mundo cujas vidas eu participei de algum jeito em algum momento, nem sequer tenho a ilusão de nunca ser esquecida, tenho, inclusive, a consciência de que posso ser a “tia Olinda” de alguém, e mesmo assim tô achando um bocado bonito e divertido essa possibilidade de existir de várias formas.

A Imortalidade, Milan Kundera

Roberta Simoni

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História Íntima da Leitura

Amigos e leitores paulistanos (e não paulistanos que estejam em São Paulo) no dia 16 de Setembro (próximo domingo), estarei na Casa das Rosas (Av. Paulista, 37), das 14h às 18h para lançar a minha primeira publicação em livro, junto com os demais autores do tão sonhado “História Íntima da Leitura”.

Façam o favor de darem o ar de suas graças por lá, sim?!? 😉

Para quem quiser adquirir o livro e/ou saber mais detalhes sobre o projeto, é só entrar no site da Editora Vagamundo.  Além do livro, foi produzido um documentário com os autores da coletânea, óh só que bacana:

Roberta Simoni

O admirador e o admirado

Percebi que minhas mãos suavam enquanto eu imaginava o que poderia dizer quando estivesse a menos de um metro dele. Mas a fila estava enorme, dava voltas na livraria. E eu, logo eu, que tenho verdadeiro pavor de filas, fiquei ali, esperando resignada.

É bem verdade que grande parte dos escritores que admiro já morreu há um tempo considerável, logo, estar diante de um em plena forma literária é um privilégio. O autor português, Valter Hugo Mãe, esteve lançando seu novo livro no Rio essa semana. Eu, tiete que sou, fui ao lançamento, comprei o livro, levei outro mais antigo, enfrentei a fila quilométrica e esperei minha vez de ganhar meu autógrafo.

Quando finalmente minha vez chegou, entreguei os livros a ele e me vi paralisada, sem ação, até me escutar dizendo a frase mais criativa e original do mundo: “sou sua fã”. Aposto que ele nunca ouviu isso de ninguém. Sou um gênio, só que ao contrário. Pedi para tirar uma foto, agradeci a atenção dispensada e tomei de volta meus livros agora autografados. Pena as dedicatórias serem quase ilegíveis. Desconfio que além de escritor, o Mãe seja médico.

Saí da livraria me sentindo a criatura mais boba do universo mas, nem por isso, envergonhada. “Ah tá… então é assim que se sentem os fãs diante dos artistas da novela” – pensei. Sempre que saio à rua com algum amigo não-anônimo e vejo ele sendo abordado por algum fã, fico tentando entender como é isso de ficar emocionado diante de alguém que só se conhece “de vista” pela televisão ou internet. Agora eu sei. No meu caso, foi através de livros, mas a sensação, acredito, é a mesma.

Na mesma semana que descobri como é essa coisa toda de ser fã, tamanha foi a minha surpresa ao descobrir que tenho uma “leitora-fã” e acabei, sem querer, experimentando como é a sensação de estar do lado de lá também. Se é que posso chamá-la assim, né Marynha Dantas? Acho que classificar como fã acaba distanciando o admirador do admirado.

Recebi um monte de presentes lindos e mais do que especiais que a Maryinha me mandou pelo correio, diretamente de Sergipe. Tive a sensação dela ter enviado tudo que estava ao seu alcance para me fazer sentir querida e isso, de todos os presentes, foi o que mais me comoveu e emocionou.

Dentro da caixa de sedex, vários livros (alguns autografados pelos autores), produtos de beleza (minha boca, inclusive, nesse exato momento, está mutíssimo agradecida pelo hidratante labial), doces nordestinos de-li-ci-o-sos, uma toalha lindíssima, com meu nome e minha foto bordados com o maior capricho do mundo, lembrancinhas para o meu pai e minha mãe (que ficaram também muito agradecidos), e o presente mais caro de todos: um livro montado à mão, especialmente para mim. Nas primeiras páginas da edição exclusiva, o seguinte aviso:

“Atenção: todos os textos e fotos foram retirados do blog Janela de Cima, da escritora Roberta Simoni. Este trabalho manual e arcaico não pode ser copiado (pois você desiste pelo trabalho que dá). Não tente desgrudar as folhas e ver o que há por trás, pois um livro foi dilacerado para em cima das belas folhas coloridas se fazer este trabalho, o qual se chama ‘O dia que se perdeu a tesoura e tudo foi cortado a dedos’. É só para ‘remember’ e ratificar que há uma galera considerável esperando um livro (nem que seja de bolso, em papel reciclado) desta escritora, jornalista e viajante do e no tempo, ainda não tão famosa a nível global, mas querida por todos que amam o que é escrito com sensibilidade e talento. Aguardamos.” (Marynha Dantas)

Agora, me digam, quando eu poderia imaginar que enquanto eu estava aqui, levando minha vidinha insana e distraída, havia alguém lá no Nordeste do país preparando uma surpresa tão linda assim pra mim?

Isso de admirar e ser admirado por quem a gente nunca olhou nos olhos é uma coisa mágica. Obrigada, Marynha, por me provocar a sensação de estar no caminho certo numa semana onde a estrada me pareceu tão sinuosa, escura e perigosa, me fazendo pensar, diversas vezes, em voltar e procurar outro caminho menos arriscado.

Roberta Simoni

Namore uma garota que lê

Não foi à toa que, no post anterior, eu disse que tenho amigos-heróis, que me salvam algumas vezes, inclusive, de mim mesma. Agora a Gabs me aparece com esse texto divino – da Rosemary Urquico, traduzido e adaptado por ela, Gabriela Venturasalvando meu dia outra vez!

Quem acompanha meu blog sabe que não tenho o costume de publicar nada além dos devaneios de minha própria autoria, mas esse texto exige uma pequena quebra de protocolo. Precisava compartilhar com vocês, pois sei que vão gostar tanto quanto eu gostei…

Namore uma garota que lê

(De Rosemary Urquico. Tradução e Adaptação de Gabriela Ventura)

Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.

Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.

Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criado pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro.

Compre para ela outra xícara de café.
Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gostaria ou gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.

É que ela tem que arriscar, de alguma forma.
Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.

Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas  garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.

Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.

Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até  porque, durante algum tempo, são mesmo.

Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.

Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.

Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que  pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe  monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.

Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.

Texto original: Date a girl who reads – Rosemary Urquico

Os entretantos menosprezados

“(…) As vezes apareciam raparigas. Oportunidades. Bem intencionadas. Dispostas a esquecer que eu já tinha vivido o meu ‘grande amor’ – como chamam ingenuamente ao amor da nossa vida. Bonitas. E colaboradoras. Se o amor não chamava por mim, chamavam elas. Aos gritos, se fosse preciso. Umas diziam ‘Ama-me’, outras ‘Nem que seja só um bocadinho’ e havia algumas, muito boas raparigas, que facilitavam mais ainda: ‘Não me importo se não me amas. Deixa-me é eu amar-te.’ Foge. Essas eram as piores.

As figuras que eu fiz. Até ficar azul de lhes explicar que, se eu ficava parado, sem saber por onde andar, era por estar preso a um passado que nunca mais chegaria ao fim. E elas, logo: ‘E entretanto?’

Era uma boa pergunta. ‘Bem, entrentanto…’

Às vezes julgo que, de todos os tempos que temos, os entretantos são os mais menosprezados.”

(O Amor é Fodido – Miguel Esteves Cardoso)

Ok, eu paro!

Cheguei em casa hoje na mesma ligeireza de quase todos os dias, da qual pressinto que o porteiro noturno do meu prédio jamais se acostumará – “Que isso, meu-deus-do-céu?” – foi o que ele exclamou, depois de me ver entrar e sair pela portaria pela terceira vez num espaço de poucos minutos. Primeiro entrei correndo, tentando me equilibrar naqueles odiáveis saltos altos dos quais eu também acho que jamais me acostumarei, assim como o porteiro, com a minha habitual correria. Entrei no elevador, subi recuperando o fôlego, abri a porta, sequer cumprimentei a minha casa (como faço de costume) e espero que ela não tenha ficado ofendida, pois assim como eu desejo várias vezes por dia chegar e encontrá-la à minha espera, eu imagino que ela se sinta vazia e silenciosa demais até que eu chegue me espalhando, contando os meus “causos” diários e colocando música para ouvirmos juntas para espantar a solidão que vive à espreita.

Felizmente o elevador ainda estava no meu andar, parecia me esperar. Tomei-o de volta, desci para encontrar o meu colega de profissão que, mais uma vez, me emprestou uma câmera fotográfica para cobrir meu último trabalho (pois é, Nikita continua em coma!), e ele ainda fez a gentileza de vir ao meu encontro para pegá-la de volta comigo. O porteiro soltou um “Mas, já?”, surpreso quando me viu passar pela portaria outra vez. Não tive tempo de responder. Detesto deixar as pessoas me esperando. Simplesmente detesto. Devolvi a câmera e falamos rapidamente sobre o trabalho, pois ele estava com pressa, como de costume. Talvez tenhamos escolhido a profissão errada… ou não. Pensando bem, até que fazemos bem o “tipo jornalista”, sempre acelerados. Se quiséssemos ter uma vida tranqüila, teríamos optado pelo surf, ou talvez estaríamos pescando ou, quem sabe, não teríamos nos profissionalizado em futebol de botão?

Voltei, ainda no mesmo ritmo. “Ué?” – o porteiro, outra vez, com pontos de interrogações quase visíveis saltitando de sua cabeça. Prometi que seria a última vez que ele me veria por hoje e desejei boa noite. A pressa agora era por conta das matérias que eu tinha me programado para escrever ainda hoje, essas mesmas que mandei para o meu e-mail do trabalho, com a intenção de terminá-las em casa. Mas – que maravilha! – fiquei sem internet. Ai ai… seres humanos e essa insistente mania de planejar as coisas. Tudo bem, olhei para o livro que estou me arrastando para terminar de ler há semanas, já até comecei a ler outros, mas este eu estava com uma dó enoooorme de acabar e preservei intactas as últimas páginas, coisa que não acontecia desde que eu li o livro da Fal – Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite (falo dele aqui oh!).

Vamos nessa! Mais cedo ou mais tarde isso teria de acontecer, não é mesmo? – falei com pesar, tentando convencer a mim mesma, enquanto olhava para “A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Babata”, da americana Mary Ann Shaffer – que morreu antes de ver o sucesso do romance, que foi escrito com apoio de sua sobrinha Annie Barrows.

Não posso dizer que tive um dia ruim, muito pelo contrário, apesar de cansativo, foi bom, mas nada, nada pode se comprar a sublimidade deste momento. Eu, agarrada ao meu livrinho, debaixo do cobertor, em meio à gargalhadas e encantamento puro. Que delícia de leitura,  já quero – e preciso – relê-lo. E, vejam vocês, toda essa estória de portaria, correria e porteiro só para contar isto.

Me perdoem, queridos leitores, se esperavam mais do desfecho chinfrim dessa estória que prometia um final surpreendente. Mas é que eu continuo me surpreendendo muito com quase nada – e quase nada com muita coisa.

E eu prometo que vou voltar a escrever na sessão “Beta Indica…” do blog, que não atualizo há muitos, muitos meses e lá darei detalhes sobre esse deleite de romance, contado inteirinho através de correspondências de dar água na boca, uma coisa! Tenho um listinha literária simplesmente tão deliciosa quanto eu imagino que seja essa torta de casca de batata.

Mais correria e menos literatura é o que  eu prevejo pelos dias seguintes, então,  foi mais do que merecido esse meu momento lírico cada vez mais raro, não é mesmo? E fica aí a dica literária da vez… enjoy! 😉

Roberta Simoni

A simplicidade de ser/estar viva!

E era simples. Bastava dar literatura a ela e lançá-la à beira-mar antes que o sol desse lugar à noite. De nada mais ela se queixava e até duvidava se você ousasse dizer que ela tinha problemas tantos a resolver. E corajoso do sujeito que tentasse lembrá-la de seus afazeres, que estivesse preparado para ser sumariamente ignorado ao alertá-la da casa e da vida bagunçadas para arrumar, o barulho das ondas quebrando era estrategicamente ensurdecedor.

E era paz. A moça tagarela se calava para ouvir, só assim. E tudo ao redor falava, o livro, o mar, a maresia, as conchas, os grãos minúsculos de areia quando a tocavam. Era o “Deus” dela que conversava quando a calmaria chegava. E ela se escutava. E confidenciava seus segredos ao pé do ouvido do vento, que soprava mansinho para ela não perceber que cochichava com as aves.

E era real. Tocava os pés na água salgada e fria e se encharcava da sensação  maravilhosa que era ter um corpo com sentidos. Sentia-se deleitamente viva e conectada com o mundo bom. E não se envergonhava do prazer exposto ao sol, quando a pele arrepiava seus pêlos com a brisa fria que o fim da tarde trazia e o sol ameno a envolvia num abraço que a aquecia em puro gozo. Depois sorria largo, sem se importar, sem direção, mas com todas as razões que lhe cabiam. E também ria solto pelo que desconhecia, mas sentia. E  ela bem sabia o que sentia.

Roberta Simoni

(Recebi essa foto do Marcelo, lá de Brasília, novo amigo que fiz bem aí, nessa praia, enquanto eu lia meu livrinho. Ele teve a feliz ideia de tirar essa fotografia antes mesmo de me conhecer, e depois teve a coragem de me contar seu feito arteiro, e agora, por fim, me mandou a foto de presente, que me encantou por ser um retrato espontaneamente poético. ;))

Olhos de ressaca? Vá, de ressaca.

“(…) Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.

A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno.

Este outro suplício escapou ao divino Dane; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe,- para dizer alguma coisa,- que era capaz de os pentear, se quisesse.

– Você?

– Eu mesmo.

– Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.

– Se embaraçar, você desembaraça depois.

– Vamos ver.

(Machado de Assis)

E não desembaraçaram ainda, nem os meus cabelos, nem meus pensamentos. E eu continuo de ressaca, mesmo sem ter ingerido uma gota de álcool sequer. Fui lá na praia, vi o mar revolto, testemunhei a altura que as ondas alcançaram, me certifiquei do exagero contado pelos outros, não chegaram a 10 metros, como disseram, mas talvez tenham tido a grandeza e a beleza devastadora de ondas de 5 metros de altura.

O mar e eu de ressaca, juntos. Parceiros de vida. E os surfistas se aproveitaram da fúria das águas da mesma forma que os pensamentos tortuosos se aproveitaram da minha embriaguez para deslizarem soltos, brincando de equilibristas. E por mais que eu balançasse a cabeça, eles não saiam, agarravam-se às partes vizinhas, orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos meus ombros.

E aí ficou tudo tão embaraçoso que, assim como o mar faz com as suas ondas, eu também deixei rolar, e me deixei ser levada pelo mar, e se a ressaca me embolou nas águas e não me deixou boiar, ela também não me deixou afogar, e não foi água salgada que eu bebi, foi inquietude necessária para tratar de viver, e me deixar puxar pra dentro, de mim e do mar.

E submersa, mesmo com toda a nossa volubilidade (minha e do mar), meus olhos de ressaca contemplaram o fluxo e o refluxo da maré cheia e eu me esvaziei de novo, para assim como a maré, me encher outra vez.

E eis que na minha frente, de repente, o que vejo? O pente, querendo me desembaraçar.

Fotos que meus olhos de ressaca registraram da Praia do Flamengo – RJ, também sob efeito do dia seguinte de embriaguez de chuva:

   

Roberta Simoni

Um livro e um cappuccino

… e um pouco de açúcar, por favor.

Porque açúcar e literatura nunca são demais.

E se eu troco programas por livros e minha casa passa a me ver muito mais que os meus amigos, “óquêi”, é hora de trocar a minha toca e a livraria por uma mesa de bar. Só um pouco, prá variar. Porque, Beta, vida social é essencial, sabia? “A-hã. Tô sabendo…”

O problema é que ninguém entende que eu tô envolvida emocionalmente com a literatura… e quando eu fico desse jeito, a paixão se entranha em todos os poros do meu corpo, e só dá vontade de viver pra ela, viver dela, viver com ela.

… É que eu ando fazendo excelentes escolhas literárias e como já é sabido pelos meus leitores, eu me apego fácil, fácil também a livros, autores, personagens…

E meu atual caso de amor, ou melhor, meuS atuaiS casoS de amor têm sido tão bem sucedidos que, quando eu saio, acabo indo ao encontro de “certos amigos” que querem me manter apaixonada, e me indicam Mary Ann Shafer e Annie Barrows com “A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata” para se juntarem a Gabriel Gárcia Márquez com a “Memória de Minhas Putas Tristes” e Julio Cortázar com “O Jogo da Amarelinha”. Sim, uma orgia literária de-li-ci-o-sa, pra ninguém botar defeito.

O Rio de Janeiro em estado de calamidade, as ruas alagadas e o medo – que nem mesmo todos os “chepéus negros” são capazes de espantar – nos assombrando a cada esquina também colaboram muito para que eu viva minha “clausura enamorada”.

E ainda pensando sobre o texto que escrevi anteriormente e nos comentários originados por ele é que surgiu “Um livro e um cappuccino” que escrevo agora.

É mesmo de uma beleza e uma grandeza sem tamanho ser feliz com tantas miudezas cotidianas como tantas vezes consigo ser. Uma xícara com café, leite, chocolate, um pouco de açúcar e um bom livro. Pronto, só isso, e por agora sou o ser humano mais feliz das redondezas.

Ah, como seria encantador ser sempre assim, tão feliz… mas não tem nada, não. A aula sobre felicidade plena eu assisti e aprendi. Fui boa aluna e tirei boa nota na prova. Felicidade plena é mito, a eterna então… essa é a maior de todas as lendas. Mas existem outras formas de estar feliz, e isso eu também acho que ando assimilando bem na escola da vida. Aquelas felicidades miudinhas, sabem? Aquelas de que a vida é repleta, mas que a gente precisa de dedicação e sensibilidade para conseguir começar a enxergar. Então… são elas que me colorem, e me fazem parecer uma idiota sem que isso me incomode, como muito bem descreveu Julio Cortázar e, melhor ainda, transcreveu a Gabi aqui no adorável Quinas e Cantos, o blog dela.

E aí que quando eu li sobre a idiotice do Cortázar ao se empolgar tanto com o que os outros consideram supérfluo, tolo e até desqualificado, eu dei pulos da cadeira, falando sozinha: “É isso, é isso… essa sou eu! É de mim que ele tá falando!”

Porque é com cara de idiota que eu fico quando eu falo sobre a beleza que existe das folhas secas do outono caindo das árvores e colorindo as calçadas e me ignoram deliberadamente. Ou quando comento, admirada, sobre o sorriso gratuito que eu acabei de ganhar da moça do caixa do supermercado e me olham com cara de “Hããã?”, como se todos os dias todas as pessoas do mundo fossem atendidas com educação e simpatia da mais fina qualidade, como eu fui, por uma funcionária que trabalha feito escrava num posto onde dificilmente as pessoas conseguem encontrar razão para exercitarem sua simpatia e elegância.

Ou quando falo da sensibilidade das sombras numa determinada fotografia e dizem que o fotógrafo que capturou àquela imagem – que considerei belíssima – não entende nada de luz. Bom, errr… isso quer dizer que eu também não entendo, ora pois. Que seja… a gente precisa ser “expert” numa determinada coisa para poder admirá-la?

Ou será que o segredo está em continuar sendo idiota para conseguir enxergar a sutileza que existe na beleza? Não, não estou vestindo a camisa da ignorância, tampouco fazendo campanha para enaltecer a idiotice, mas, se o conhecimento aprofundado sobre determinados assuntos nos brinda com um senso crítico afiado e intimista (que, algumas vezes, beira a intimidador), não seria possível fazê-lo sem poluir um olhar admirado? Aquele olhar que não ofusca a beleza sutil que está em tudo…

E nesse universo de coisas que eu desejo conhecer, que espero aprender um dia e que talvez eu venha a escolher me aprofundar, há certas coisas que prefiro continuar sendo a mesmíssima completa idiota de sempre, com uma altivez imaculada.

Quanto aos assuntos que não me permitem ser ignorante, tampouco distante, pois acontecem bem aqui, debaixo do meu nariz afiado – esses assuntos que não deixam nenhuma brechinha para fazer poesia, até porque qualquer tentativa poética, de todo jeito, vai descer por água abaixo -, tenho cuidado de me desfazer de certas extravagâncias acumuladas e de tentar me livrar de tudo que não é essencial, para dividir com quem anda precisando do básico com tanta urgência.

E, ainda há pouco, eu pude sentí-la de novo: ela… aquela breve felicidade deliciosa, ao imaginar o breve contentamento de alguém para quem algumas de minhas roupas (algumas nunca usadas) vão servir de algum consolo (também brevíssimo), diante das perdas irreparáveis provocadas por esse mar de chuva que saiu engolindo tudo por aqui.

Roupas não salvam a vida de ninguém, não consertam casas, não devolvem pessoas amadas, nem sequer servem para secar tanta coisa que ficou enxarcada, mas, deixo a pergunta: solidariedade não ajuda a aquecer e embelezar a alma de quem ajuda e de quem é ajudado?

E esse papo todo misturado de chuva, idiotice, beleza, caos, soliedaridade e subjetividade me deixaram com uma vontade bem objetiva de tomar o café da Arlequim. Isso, aquela livraria mesmo que me disseram que não é tão boa quanto eu acho, mas onde eu sempre encontro tudo que eu preciso, inclusive a paz para sentir a felicidade chegando sorrateira, acompanhada da xícara de cappuccino.

Roberta Simoni

Pinto no Lixo (ou Beta no Sebo)

O que é isso? Um pinto no lixo? Nãããão, é só a Beta no Sebo…

É desse jeitinho mesmo que eu estou me sentindo essa semana: um pinto no lixo! Não bastava estar contente por ter conseguido mudar de cidade (sim, outra vez!) e estar morando num cantinho muito agradável, ainda que temporário (como não poderia deixar de ser…), depois de passar quase 6 meses vivendo num lugar que eu aboninava, tamanha foi a minha felicidade ao descobrir que bem ao lado da minha nova toca tem um lugar mágico, também conhecido como Sebo!

Mas não é um sebo qualquer, é um lugar adorável, desses que você entra e não quer nunca mais sair. Eu moraria entre aqueles livros se não me cobrassem aluguel.

Mas, por hoje, o sebo já fechou e, a essa altura, algumas várias malas me aguardam, com algumas várias roupas dentro, que esperam ansiosas por viver dentro de um armário com algumas várias gavetas, depois de tanto tempo brigando por espaço dentro daquelas algumas várias malas. Pois é, eu ainda não tive coragem de avisá-las que o armário é temporário, deixo que curtam sem se preocuparem tanto com o amanhã. Eu e elas, todas feito pintinhos no lixo!

Para a euforia ficar completa, o que eu vejo da minha nova Janela de Cima ao acordar? O Corcovado, com um moço bonito, de braços abertos pra mim.

Impossível não me sentir abraçada por livros, armários e Cristos.

Roberta Simoni