A menina dos sapatinhos confortáveis

Uma vez você olhou pros meus pés e disse: você é a menina dos sapatinhos confortáveis. Meses antes você havia me dado pares de sapatos lindos, um deles, de salto alto. O mais lindo que tenho, e o que menos usei, pois deixa meus pés moídos. Aqueles que te dei, você disse, não te vejo usando, já essas sapatilhas, você nunca tira dos pés. Procurei algum sinal de mágoa na sua voz quando constatou minha preferência pelo conforto à estética. Não encontrei. Talvez, no começo, você tenha ficado chateado por quase nunca me ver usando os calçados que me deu, mas depois entendeu. Os que eu comprei são mais simples e baratos, mas não me apertam, não dão bolhas ou causam calos medonhos. Eu já me sinto desconfortável demais no mundo pra usar calçados que causam esse mesmo efeito.

Antes de ser a menina dos sapatos confortáveis, eu era a menina dos joelhos ralados. Tenho poucas lembranças da minha infância com os joelhos livres de mercúrio, merthiolate e casquinhas de feridas, constantemente renovadas. Aliada à minha distração, eu tenho pernas levemente tortas, defeito que poderia ter sido corrigido com palmilhas ortopédicas. Meus pais gastaram dinheiro com isso até notarem que era inútil. Não que elas não fossem eficientes, mas porque eu as tornava assim, já que a recomendação médica era de uso diário durante toda a fase de crescimento, que levaria alguns anos e eu passei a me recusar a usá-las depois de alguns meses, alegando que não faziam efeito. Desde aquela época já era possível identificar um dos traços mais problemáticos da minha personalidade: o imediatismo. Causado por uma ansiedade crônica, raramente sanada com maracugina ou ansiolíticos.

Eu não preciso de degraus ou buracos para tropeçar, faço isso sozinha, com meus próprios pés, sem o auxílio de sapatos de salto de qualquer estatura. Sou capaz de tropeçar descalça numa superfície plana e antiderrapante. Pode ser que o defeito na minha pisada (fatalmente não corrigido na infância) colabore com meus tombos – mais frequentes do que eu gostaria de admitir – mas o justo é dar os créditos à minha constante pressa. Eu ando correndo mesmo quando não estou atrasada, aliás, eu raramente me atraso. Pontualidade é outro traço crítico da minha personalidade, quase um desvio de caráter. Mas não seria se eu vivesse, por exemplo, na Inglaterra (cada vez encontro mais motivos pra me mudar pra lá).

No entanto, ser pontual não significa necessariamente ser organizada. Nesse quesito não estou tão apta assim a viver num país de primeiro mundo, mas não vamos focar nisso. A questão é que não preciso de antecedência pra me arrumar porque sou rápida e ótima otimizadora de tempo (com o perdão do trocadilho cretino, porém irresistível). Sabendo disso, faço em meia hora o que eu poderia fazer em duas, sem pressa alguma. Então, por hábito, mesmo quando não estou com o tempo estourando, estou correndo.

Mais devagar, você reclama ofegante quando caminhamos juntos. Ou pergunta sutilmente pra onde estamos indo com tanta pressa. Estou correndo outra vez, eu te pergunto e você ri, me dando a mão e me ajudando a desacelerar o passo. Quanto mais longe for o nosso destino, maior será a quantidade de vezes que você vai precisar fazer isso. E é por isso que eu uso sapatos macios e leves. Nem sempre bonitos como aqueles que você me deu, mas certamente mais confortáveis.

Meus dedos tortos também não ajudam, pois não é com qualquer calçado que ficam bem. E é por isso que, além de confortáveis, meus calçados são majoritariamente fechados, poupando o mundo de mais feiuras.

Já meus joelhos, embora cheios de cicatrizes, não me incomodam por viverem à mostra, quase sempre livres de calças e com vestidos e saias de comprimento insuficiente para encobri-los e protegê-los.

Mas não pense você que minhas pernas à mostra são pernas destemidas. Elas são, no máximo, sem vergonha. E continuam tortas, por consequência daquele mesmo imediatismo que você conheceu na noite que eu te disse, com os olhos marejados, que não ia te esperar porque isso podia levar tempo demais.

Então, você me desculpe se eu continuar a não usar o sapato de alto que me deu, mas é que, além do desconforto que ele me causa, o risco de eu cair com ele é bem maior e as cicatrizes que tenho nos joelhos não me deixam esquecer como aquelas feridas são doídas.

Além do mais, você não ia querer me ver machucada.

Ia?

Roberta Simoni

A cobra da minha avó

Cobra de Estimação

Dona Norma, minha avó paterna, nunca se encaixou no estereótipo da avó tradicional dos anos 80. Era uma senhora baixinha e gordinha, fora isso não tinha qualquer semelhança com a Dona Benta. Foi criada de maneira rígida e com rigidez criou os filhos. Não era lá muito maternal, tampouco sutil. Falava aos berros e vivia se queixando da vida. Os domingos de visita à sua casa entrariam para a lista dos mais entediantes nas minhas recordações.

Vovô Chiquinho – que ainda vive mas nem tanto, pois está acamado há muitos anos, em estado vegetativo – era quem conseguia tornar aqueles domingos menos torturantes, sobretudo quando o encontrávamos de péssimo humor. O mau humor era seu estado natural, mas havia dias em que nem ele se suportava e quando calhava disso acontecer num domingo era uma tremenda sorte nossa! O velho rabugento falava e gesticulava sem parar, sempre indignado com alguma coisa ou com alguém, do Presidente da República ao pernilongo, ele sempre tinha o que reclamar dizer.

Era ótimo assistir meu avô dando um espetáculo (ainda que fosse de ira) e meus pais gargalhando compulsivamente. Eu não decifrava muito bem o que eles diziam, mas entendia que estavam se divertindo e ver adultos se divertindo me deixava curiosa e animada. Não era todo dia que eu via um panda, assim como era raro ver um adulto feliz. Uma coisa exótica de tal maneira que eu parava o que estivesse fazendo para assistir.

Vovó Norma, entre uma queixa e outra, oferecia todo tipo de fruta que tinha em casa. E insistia. Insistia. E insistia de novo. Era o jeito dela de demonstrar carinho. Pena que eu só fui me dar conta disso quando já era tarde para aceitar um daqueles pedaços de melancia com afeto.

*Nota: até hoje quando eu fico muito insistente, papai só me olha e diz: “Não queeero, Norrrrrma”. Às vezes é só assim que eu entendo. Cada um tem a herança que merece, afinal.

Minha irmã e eu estávamos mal acostumadas com a nossa avó materna, com quem passávamos a maior parte do tempo. Ela preparava (e prepara até hoje) sobremesas incríveis e abastecia a dispensa com todo tipo de guloseima para receber a “netaiada” toda. Daí vinha a outra vó e oferecia fruta? “Não, não vó, brigada, a gente tá sem fome”. Quando ela se dava por vencida, falava entre os dentes: “ai, crianças chatas!”

Mas era quando ela insistia pra gente almoçar que o bicho pegava. Verdade seja dita, vovó não era boa cozinheira. Exceto meu pai, que jamais concordará comigo, pois tem um paladar nada exigente (além disso, estamos falando mal da mãe dele aqui), nós comíamos sem o menor prazer. Eu e meus primos, inclusive, tínhamos o péssimo habito de enterrar no quintal o que a gente não conseguia digerir. Era uma atitude pouco inteligente, mas achávamos que nunca seríamos descobertos…

Um dia vovó apareceu com uma novidade: foi regar as plantas e deu de cara com uma cobra enorme. E venenosa!

Costumávamos ser crianças destemidas, mas não a ponto de brincar num lugar onde havia uma cobra venenosa à solta, de modo que comecei a passar longe do quintal que – aos meus grandes olhos de menina pequena que enxergava imensidão em tudo – parecia uma floresta, repleta de plantas enormes, pé de tudo quanto era fruta, hortas e flores de várias cores. Era um jardim selvagem e caótico, mas tinha vida. Tudo ali respirava. Era o que fazia dele bonito. Pena que a presença de um bicho peçonhento fez minha pequena selva ganhar um tom sombrio.

By Christian Schloe

Eu, que já era curiosa antes mesmo de me entender como gente, todo domingo chegava lá ansiando por notícias da cobra. Vovó só faltava passar um relatório completo das aparições da bicha. “Hoje mesmo, um pouco antes de vocês chegarem, ela estava atrás daquele arbusto, mas a miserável fugiu quando seu avô foi atrás”. Minha irmã e eu ficávamos com os olhos arregalados, atentas a qualquer movimento rastejante. Por mais que ela garantisse que a cobra não entraria em casa, eu sempre me sentava sobre minhas pernas, temendo ser pega desprevenida e levar um bote.

Com o passar do tempo, a cobra foi ganhando um espaço no quintal e na vida da minha avó que nem ela poderia supor. “Hoje ela estava pendurada naquele abacateiro ali, né Chiquinho?” e meu avô só balançava a cabeça, concordante. Mamãe e papai não se manifestavam. Não alimentavam o medo que vovó tinha plantado na gente, mas também não podiam desmenti-la. Imagino o quão difícil tenha sido para o meu pai, que sofre de excessos, de sinceridade em especial, a ponto de ter nos poupado de lidar com a frustração da inexistência do Papai Noel, por exemplo. Ele nos oferecia a verdade pra variar, já que o mundo se encarrega de oferecer infinitas fomas de ilusão.

Mas a cobra era o espantalho contra netos da minha avó. O quintal era dela e isso lhe dava o direito de colocar um espantalho para cada neto se assim o quisesse. E quem se opusesse a isso teria dois trabalhos: o de confrontar a baixinha invocada e o de se conformar em perder o confronto.

Sei que eu não colocava meus pés miúdos naquele quintal nem por um decreto. Morria de medo. Antes disso uma cobra era só uma cobra, não uma ameaça. Eu gastava minha cota de medos como qualquer outra criança: com fantasmas, monstros e bruxas, embora meus pais tentassem me convencer de que eles não eram reais.  A cobra não. Ela existia. E eles não podiam negar.

E eu, que já tinha uma relação ambígua desde cedo com o medo, capaz de me paralisar e de me motivar, comecei a me desafiar a colocar um pé no quintal. Depois os dois. Depois a dar dez passos, tocar no pé de fruta do conde e voltar correndo. Um dia decidi desbravar o terreno à procura da cobra e quanto mais acelerado batia meu coração, mais excitada eu ficava. Tudo ia bem, eu ia vencendo os desafios criados por mim mesma paulatinamente, até vovó descobrir minha ousadia e no domingo seguinte me contar que a cobra deu cria.

Não sei por quantos anos vovó alimentou essa fantasia, também não sei por que ela sentia necessidade de inventar tantas histórias se uma só já bastava para nos manter afastados das suas plantas. Talvez ela tenha passado a acreditar na própria mentira depois de ter contado tantas vezes. A única certeza que tenho é que seu jardim se manteve conservado graças àquela mentira. Só quando estávamos mais crescidinhos e já não representávamos tanta ameaça ao seu quintal, ela contou que tinha encontrado a cobra morta. Cheguei a ficar de luto pela bicha e preocupada com as cobras órfãs.

Ao sentenciar a morte da peçonhenta, vovó matava sua mentira conveniente e a minha fantasia de encontrá-la. Ela só não matou o meu medo porque eu mesma já tinha tratado de dar fim nele algum tempo antes, mais ou menos na mesma época que perdi o interesse pelo seu quintal.

Passei boa parte da minha vida acreditando ingenuamente na existência daquela cobra por um simples motivo: eu não tinha razões para duvidar. Nunca passaria pela minha cabeça que alguém pudesse inventar uma mentira tão cabeluda quando podia simplesmente pedir, proibir ou me educar a não fazer determinada coisa. Era assim que meus pais costumavam agir comigo e isso era tudo o que eu conhecia sobre limites.

Anos mais tarde, quando meu primo contou (achando muito engraçado) que aquilo tudo não tinha passado de uma farsa, eu me senti uma tola. Vovó nunca soube que me magoou, mas se tivesse sido comunicada certamente teria me mandado deixar de ser chata, como fazia quando eu me negava a comer uma de suas suculentas frutas.

A sensação de ter sido enganada não foi a das mais agradáveis, mas não era a primeira vez que acontecia, nem seria a última. E passou longe de virar um trauma, pois não havia potencial para tanto. Dramaturgicamente falando seria até mais interessante se eu tivesse desenvolvido alguma fobia por serpentes ou rancor pela minha avó, mas fato é que nada disso aconteceu. Quando me tornei adulta, lembrava disso de um jeito cômico e com um certo saudosismo de uma fase livre de qualquer desconfiança. E agora, enquanto escrevo, percebo como o quintal e a cobra são simbólicos pra mim.

Quando eu fiz a disciplina de filosofia na faculdade e li sobre o Mito da Caverna de Platão fui automaticamente transportada ao quintal de Dona Norma. A grosso modo, o mito conta que prisioneiros passavam a vida inteira presos numa caverna, de frente para uma parede, onde sombras enormes eram projetadas através da luz da chama de uma fogueira. Eram apenas sombras de coisas que existiam e aconteciam do lado de fora, mas eles acreditavam que eram seres malignos e que se tentassem sair, seriam mortos por eles, dessa forma, o medo os mantinha presos. Quando um dos prisioneiros consegue sair da caverna, descobre a verdade e volta para contar aos outros, ninguém acredita nele e preferem continuar vivendo na caverna.

A base dessas duas histórias é a mesma: uma mentira sendo usada para gerar medo e manter alguém sob controle.

Eu não fui esperta o suficiente para descobrir sozinha que a cobra era um mito, mas fui corajosa a ponto de enfrentar o medo que eu sentia e isso diz muito sobre a pessoa que eu já dava indícios que me tornaria.

Vovó só antecipou um tipo de situação que eu voltaria a enfrentar muitas e muitas vezes no quintal da minha própria vida e na minhas cavernas particulares, algumas das quais eu já me libertei e outras onde ainda sou prisioneira porque nem sequer descobri que estou presa ou porque já descobri mas não encontrei um jeito de sair. E tem também aquelas cavernas onde permaneço porque não me dei conta de que a saída já está desobstruída.

No quintal dos outros há sempre o risco de ser habitado por cobras, então eu piso com cuidado. Algumas vezes eu nem piso, porque já pressinto a ameaça. Há ainda aqueles quintais com placas sinalizando perigo. Automaticamente eu acredito nas placas e não me aproximo, mas às vezes o quintal é tão lindo que eu entro pra conferir se não é como era o da minha avó. Pode acontecer de uma cobra me picar. E pode não acontecer também. Quando vale a pena, eu assumo o risco. Ou assumo que já fui bem mais destemida e não vou. Tem dias que qualquer minhoca me paralisa e não há nada no mundo que me faça encostar meu dedo mindinho num canteirinho.

Quando não há metáfora barata que me convença a sair da minha caverna ou a entrar no quintal do Papa é porque o cagaço tá mesmo grande. Aí eu faço como um sábio amigo me ensinou: vou de fraldas, mas vou mesmo assim.

Do quintal da minha avó só sobrou uma roseira que meu pai plantou lá em casa e colocou uma plaquinha onde se lê “Dona Norma”. Na primavera ela fica linda, apesar de papai raramente podá-la. Suspeito que ele goste de vê-la crescendo desordenada com seus espinhos afiados, arredia como sua mãe. Eu não me atrevia a mexer nela, mais intimidada pelo nome gravado na placa do que pelos espinhos. Até que um dia Arthur, meu sobrinho de cinco destemidos anos de vida, com a ajuda do avô, foi lá, tirou uma rosa e me ofereceu.

Tá bom, Dona Norma. Eu entendi.

Papai e Arthur

Arthur e a rosa da Dona Norma

Arthur e a rosa da Dona Norma

Roberta Simoni

Tá tudo bem

tatudobem

A virada desse ano foi simbólica pra mim, a começar pelo jeito e o local onde resolvi passar: sozinha, no quarto. Parece triste e solitário, mas é só o que parece. A cama estava aconchegante, minha playlist estava ótima e eu ainda consegui escrever e meditar.

No primeiro dia do ano fui a uma confraternização na casa de uns amigos e conheci um casal muito simpático com quem fiquei conversando. Eles contavam animados como tinha sido sua passagem de ano e, a certa altura, me perguntaram como foi a minha. Falei que passei sozinha, sem qualquer expressão de tristeza ou de euforia, como quem fala: “fui à padaria e comprei um pão”. Mesmo assim rolou um silêncio constrangedor. Eles se entreolharam e a moça comentou: “puxa, se tivéssemos te conhecido antes teríamos te convidado para passar com a gente”. Não, pera… calma, gente! Tentei explicar que passar a noite de ano novo sozinha foi uma escolha consciente, mas era tarde demais. Eles vão achar para sempre que sou uma coitada-carente-problemática-solitária. Tudo bem também. Uma coisa que venho tentando parar de fazer é ficar me explicando o tempo todo. “Deixa que digam, que pensem, que falem”, já cantava Jair… ah, deixa isso pra lá.

2015 foi um ano de introspecção pra mim. E eu não estou substituindo a palavra depressão por introspecção, embora eu tenha flertado com a Laura (nome de batismo da minha depressão, pra quem não sabe) muitas vezes e até me atracado com ela vez ou outra, não nego. Mas não posso culpá-la por toda a barra que eu enfrentei no ano passado. Seria injusto. Laura não me deixou apática, prostrada numa cama como fez anos atrás, quando eu ainda não sabia como lidar com ela. Agora eu sei, bitch!

tumblr_nbb5xkkWiF1tjydheo1_500

Eu até tive muitos momentos de aparente prostração e alguns até foram na cama, mas eu estive, durante todo aquele tempo, refletindo, questionando, buscando alcançar alguma compreensão sobre as coisas que eu estava passando, tentando entender o processo doloroso que eu estava vivendo e toda a responsabilidade que eu tinha por estar no meio dele, para, finalmente, passar de fase. Ufa, passei!

Não me permitir assumir o papel de vítima (nem de vilã) me deu bônus em vidas extras para conseguir sair daquela fase medonha e passar para uma bem mais serena e feliz.

A fase atual vai bem, obrigada. Os momentos de introspecção (ou de apagão na vida em sociedade) persistem, mas na hora do recreio não tem pra ninguém. Eu abro minha lancheira da Mulher Maravilha e de dentro dela saem biscoitos recheados e chocolates de todos os tipos, salgadinhos e todas as porcarias deliciosas do mundo, e eu me jogo nelas como se não houvesse amanhã. Brinco com as outras crianças e vou em todos os brinquedos do pátio como se o sinal anunciando o fim do recreio não fosse soar a qualquer momento.

Quando o sinal toca, eu volto para o meu mundinho e tudo bem. Às vezes eu durmo durante a aula porque brinquei demais no recreio, aí eu compenso passando o intervalo seguinte estudando e tá tudo bem também.

Tá tudo bem.

Tá tudo bem em não querer estar em festas regadas a champanhe no réveillon ou na praia de Copacabana, tropeçando em despachos, tomando banho de Sidra Cereser e sendo levada pelo arrastão. E tá tudo bem em querer também. Tá tudo bem em negar o convite para ir numa viagem ou para participar de uma confraternização só para os amigos mais chegados na casa da Marcela, que é na serra, no apartamento do Osmar, que é de frente para o mar ou no apartamento do Jairo, que é meu vizinho de bairro. Tá tudo bem em não querer sair do ar-condicionado, não comprar uma calcinha nova (ou não usar nenhuma) e ficar de camisola na noite de réveillon. Tá tudo certo. Tá tudo bem.

E tá melhor ainda não ter que explicar nada para ninguém no dia seguinte, quando eu sinto vontade de sair e encontrar os meus amigos que passaram a virada do ano na praia, na casa da Marcela, do Osmar ou do Jairo, porque ninguém ficou chateado comigo por eu ter escolhido ficar quieta no meu canto.

Dramatizar menos a vida também tem sido um exercício que eu venho tentando praticar. Ela já é suficientemente dramática sem a minha ajuda.

Orange-Is-The-New-Black-image-orange-is-the-new-black-36056674-500-250

Outro exercício que venho praticando é testar novas sensações diante de novas ou antigas situações, observar como eu me sinto quando faço algo fora do meu padrão de comportamento ou algo que todo-mundo-espera-que-todo-mundo-faça. E não é para ser diferente, porque já faz um tempinho que eu passei da fase de querer confete. Meus “testes” normalmente não fazem nenhum ruído, não contam com a colaboração alheia e não implicam em mudar a vida de ninguém, então passam despercebidos, e é assim que deve ser.

É para descobrir coisas novas a meu respeito que eu me testo. Estou muito interessada em conhecer essa pessoa que anda com meu corpo por aí e esse corpo que anda carregando as emoções que eu senti e as experiências que eu vivi.

Tem sido embaraçoso e esclarecedor. Divertido e assustador. Sobretudo, tem sido transformador.

Não suspeito aonde essas transformações vão me levar e prefiro não dar palpites por enquanto. É cedo, a caminhada é longa e eu tô numa estrada escura sem nenhuma placa de sinalização. Dá medo, mas é bom. O céu nunca esteve tão estrelado.

Roberta Simoni 

A mulher que restou

8058802c71d41effe9e9807e55964d54

Minha vida está num lugar onde já esteve outras vezes e ao mesmo tempo onde eu nunca estive na vida. Se por um lado eu tenho a sensação de estar me repetindo e me repetindo e me repetindo, por outro, tudo parece novo. Ou velho, mas diferente. Eu já conheço esse lugar, tudo me é familiar, exceto eu mesma.

Eu saí despedaçada de um longo relacionamento porque, ao que tudo indica, eu não consigo sair de outro jeito. Ou não conseguia. Ainda é cedo para dizer. Até hoje foi assim: eu me dando inteira, me partindo ao meio e depois catando os meus caquinhos pelo chão. Só que, dessa vez, eu não consegui juntar todos os cacos. Cheguei a tentar colar os pedaços que trouxe comigo um monte de vezes. Era o que eu sempre fazia. Me colava aqui, me costurava acolá, fazia uma emenda com os fios soltos e voilà, ficava razoavelmente funcional outra vez para amar.

Só que, dessa vez, os pedaços de mim que ficaram pelo caminho eram de tal forma essenciais que nada pôde ser feito. Ficou faltando um monte de cacos para colar, de retalhos para costurar e fios para ligar. Não teve como dar jeito. O que se perdeu em mim, se foi para sempre. Para nunca mais.

Deixei mobília, objetos pessoais, peças de roupas íntimas e o que eu era para trás. O homem que eu amei conheceu uma mulher que homem nenhum voltará a conhecer. Deixei ela lá, para ele continuar fazendo o que bem entender dela. Ferir. Amar. Maldizer. Possuir. Ela já era muito mais dele do que minha.

Como pude ter sido tanto de alguém e tão pouco minha? A parte que ficou de mim sempre questiona isso. Me indaga, magoada. Peço perdão a ela todos os dias. Ela ainda não aceita. Por enquanto só se ressente. A parte que ficou é mais intransigente do que eu gostaria que fosse. “É para o seu próprio bem” – ela se defende.

Os buracos que antes me doíam de maneira aguda, as lacunas que jamais voltarão a ser preenchidas, as feridas que ficaram abertas, me deixando febril e inflamada passaram a incomodar menos quando parei de urrar de dor. Quando silenciei, deixei de ouvir o eco que fazia o meu grito estridente no vazio que ficou. Ainda dói. Vai doer por mais algum tempo, mas eu aceitei a dor. Já desisti de ficar tentando juntar os cacos que me faltam. Eles sempre vão me faltar, mas não necessariamente vão me fazer falta para sempre. Fazem menos agora que desisti de me emendar.

E eu já não sei se tenho interesse em recuperar o que eu era. Prefiro deixar tudo pra ele, sem divisão de bens. O que eu era vai morrer com ele, a menos que ele decida doar para alguém. Não importa mais.

Uma vez eu disse a ele que não tinha heranças para deixar depois que eu partisse dessa para melhor. Eu estava enganada. Ainda não havia me dado conta do valor de tudo que ele herdaria. Ele ficou com tudo que eu perdi. E tinha também um bocado de coisa bonita e valiosa ali. Tinha a doçura das coisas frágeis. Tinha eu com tudo que até então eu conhecia sobre mim.

Depois que eu parti (e foi mesmo para melhor), ele quis saber se já havia um novo amor. Há, mas eu não disse. Ele não entenderia. Meu novo amor é essa mulher desfigurada que me encara diante do espelho. Uma quase estranha, que eu tenho me dedicado a conhecer, compreender, respeitar e a gostar. Isso, é claro, quando ela não fica me lembrando que eu fracassei de novo, quando não esfrega na minha cara as cicatrizes que ganhou por minha causa. É doloroso ter de olhar pra ela. Mesmo assim eu olho. Todos os dias.

Nos dias bons, quando eu coloco um olhar mais demorado sobre ela, vejo-a através das marcas e das perfurações impossíveis de retocar. Algumas vezes consigo até ver uma certa beleza nessa mulher que restou. Foi tanto o que ela perdeu que ficou mais leve. Mais simples. Mais ela.

Desde que eu fui embora, nunca mais estive inteira. Quando me olho no espelho só enxergo uma parte de mim, mas essa parte, a que ficou, eu amo profundamente.

Roberta Simoni

Adeus às juras de amor eterno trancadas sobre o Rio Sena

locks4

A Pont des Arts, em Paris, que ficou popularmente conhecida como “Ponte do Amor” por ter se tornado um santuário para casais apaixonados que procuravam imortalizar seu amor deixando um cadeado com suas iniciais preso às grades metálicas de proteção da ponte se tornou uma ameaça à segurança. Segundo a prefeitura de Paris, os cadeados estragam a estética da ponte, são estruturalmente ruins e podem provocar acidentes.

Depois de uma parte da grade ter entrado em colapso por causa do peso, representando um risco potencial para a navegação no rio Sena, as autoridades decidiram pela retirada dos milhares de cadeados, que representavam um peso de mais de 45 toneladas. As grades serão substituídas por painéis cobertos de arte de rua e, posteriormente, ganharão uma proteção de acrílico para impedir que o ritual romântico seja retomado.

Um casal de turistas, que saiu da América e viajou até a Europa com o intuito de eternizar seu amor em Paris declarou: “Nós viemos com a ideia de colocar um cadeado, mas descobrimos que está fechado e agora é ilegal, por isso nós vamos prendê-lo aqui no final da ponte para que ninguém possa ver.”

29164417694713_g-860x568

A partir da declaração do casal, na notícia que li no site do G1, construí a seguinte trama. Acompanhem:

Satisfeitos por terem conseguido prender o cadeado num cantinho escondido e menos cobiçado da ponte, marido e mulher recém-casados, voltaram para o hotel onde haviam acabado de se hospedar, trocaram mais juras de amor eterno e fizeram amor como nunca. Depois, com os corpos entrelaçados debaixo dos lençóis, com a respiração ainda ofegante, lembraram do feito ilegal mais cedo, na ponte, e riram. Tudo era motivo de riso, sobretudo porque estar em Paris já é motivo suficiente para alguém se sentir feliz, em especial para o casal, que planejou a viagem de lua-de-mel com tanta antecedência e guardou suas economias durante tanto tampo para tornar aquela viagem possível.

Sendo assim, o sonho de conhecer Paris não estaria completo se não conseguissem prender o cadeado que simboliza o amor eterno dos dois, mesmo que pra isso precisassem passar por cima da lei vigente que proíbe o feito. “Ninguém vai perceber”, pensaram.

No segundo dia em Paris, ele queria conhecer o Museu do Louvre, mas ela insistia em ir até a Torre Eiffel para tirar uma foto e postar no Facebook, afinal, estar em Paris e não tratar de ter logo um registro diante do maior símbolo da cidade era como se não estivessem lá. O dia amanheceu nublado e logo que saíram do hotel começou a chover fininho. Diante da temperatura climática pouco favorável, o marido fez de tudo para tentar convencer a mulher a abandonar a ideia de visitar a Torre Eiffel naquele dia. Mas nem a chuva nem o argumento de que ainda teriam uma semana para passear pela cidade fez a mulher mudar de ideia. Ela estava irredutível.

Aquela teimosia sem um propósito louvável, fez com que ele se irritasse profundamente a ponto de não pronunciar uma só palavra no trajeto até o local. E quanto mais ela perguntava o que estava acontecendo, mais ele se irritava. As fotos do casal diante da Torre foram, possivelmente, as piores de toda a viagem. Não porque a chuva tivesse atrapalhado ou porque a falta de luz por conta do céu cinzento tivesse prejudicado tanto assim mas, porque ele saiu de cara emburrada em todas as fotos. Ela acabou escolhendo a foto onde aparecia sozinha para publicar no Facebook. Na legenda, escreveu: “Nem mesmo esse tempo chuvoso é capaz de tornar Paris menos bonita, ainda mais na companhia do meu amor.”

Enquanto ele tentava traduzir o cardápio do restaurante para decidir o que pedir para o almoço, ela verificava o celular. Centenas de curtidas na foto. Quando ele começou a reclamar que ela não largava o telefone, ela finalmente o colocou sobre a mesa, mas toda vez que chegava uma notificação, ela tornava a pegá-lo para ver quem havia curtido a foto e o que haviam comentado. Ele só queria que eles decidissem o que iam pedir, pois estava faminto. Ela, no entanto, parecia plenamente satisfeita saciando sua vaidade.

Na manhã seguinte, ela acordou animada, foi até a janela, abriu a cortina e disse: “Bom dia, meu amor… está fazendo um dia lindo lá fora. Acorda! Vamos sair.” Ele olhou o relógio. Ainda nem eram oito da manhã. Colocou o travesseiro na cara para tentar se esconder da claridade e voltar a dormir. Ela sabia que ele não ia conseguir levantar tão cedo, então tratou de deixá-lo na cama por mais algum tempo enquanto tomava banho e se arrumava. Quando já estava pronta, tornou a acordá-lo. Ele custou alguns minutos para sair da cama, e custou ainda mais tempo para sair do banheiro e, quando saiu, ainda estava só de cueca. Ela tentou apressá-lo para não perderem o café da manhã do hotel. Ele argumentou que não sente fome de manhã, pediu que ela fosse sozinha e prometeu que quando voltasse, estaria pronto para saírem. Só que quando ela voltou, deu de cara com ele dormindo, do mesmo jeito que estava quando o deixou. Naquele dia, eles nem saíram do hotel, de tanto que brigaram.

No outro dia ela resolveu ceder e concordou em irem até o Louvre, embora preferisse infinitamente fazer compras. Ele ficou maravilhado com o museu, e aquilo a deixou feliz. Eles pareciam estar finalmente se entendendo. O que ela não supunha é que para conhecer o Louvre, eles precisariam percorrer o museu por muitas horas, talvez o dia inteiro. Logo a felicidade se transformou num tédio incontrolável, que refletiu em queixas de cansaço, fome e vontade de ir ao banheiro. Assim que alcançaram o salão onde fica exposto o quadro da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, ela o convenceu a irem embora. Ele saiu frustrado por não conseguir conhecer o museu todo.

Dali em diante, todos os passeios, por mais bonitos e ensolarados que estivessem os dias, foram chatos. Nem mesmo a grandiosidade da Catedral de Notre-Dame ou a beleza do Jardim de Luxemburgo os encantaram. E eles discutiam o tempo todo, por qualquer bobagem.

No último dia de viagem, depois de fazerem o check-out no hotel, tomaram um táxi para o aeroporto. No caminho, passaram pela Pont des Arts. Ela viu homens trabalhando e guindastes retirando as grades repletas de cadeados. Notou que até mesmo a última grade da ponte, onde haviam prendido o cadeado e feito juras de amor, tinha sido retirada. Suspirou, chateada.

Embora namorassem há algum tempo, aquela era a primeira viagem que faziam juntos. E acabaram descobrindo, da pior forma, que não eram parceiros ideais em viagens. O que levou ambos a questionarem se não eram, também, compatíveis na vida. Tão logo voltaram para casa e começaram a rotina de casados, se descobriram profundamente infelizes. Não demorou muitos meses até que optassem, de comum acordo, pela separação.

Ele decidiu que casamento não era coisa pra ele. Ela, até hoje, acha que a culpa é do cadeado, que deu azar.

BprhPPyCEAAd2Zu

O que aprendemos com a retirada das grades com os “cadeados de amor” da Pont des Arts na história sem final feliz do casal de turistas? 

Nada. No máximo, que uma coisa não tem nada a ver com a outra. O casamento pode não der dado certo por inúmeros motivos: porque eles não se empenharam tanto, porque não havia amor suficiente, porque eles não tinham nada em comum ou simplesmente porque não era pra ser. Mas o cadeado, coitado, nada tem a ver com o rumo dessa história.

A verdade é que nós adoramos rituais românticos ou, pelo menos, boa parte da humanidade gosta e, por isso, lamentamos o triste fim da “Ponte do Amor”, especialmente os casais que tinham seus cadeados presos à ela.

Agora, o que aprendemos com a retirada das grades com os “cadeados de amor” da Pont des Arts do ponto do vista metafórico?

Aprendemos que se nem uma ponte com grades de metal suporta o peso de tantos cadeados, o que dirá nós? Cadeados pesam. Também prendem e protegem mas, sobretudo, pesam.

Além do óbvio, que é senso comum, sobre juras de amor não serem eternas (e também o amor que, quase sempre, acaba tendo o mesmo fim que os cadeados presos às grades), estou usando a ponte descaradamente como metáfora para chegar a mais uma conclusão: a gente faz com os nossos relacionamentos algo bem semelhante àquilo que os casais apaixonados fizeram com a ponte francesa. Colocamos cadeados enormes e pesadíssimos nas nossas relações amorosas. Existem cadeados de vários formatos, cores, tamanhos e pesos, mas o maior e mais pesado deles é o cadeado da expectativa.

A gente sabe disso e, mesmo assim, entra e sai das relações insistindo nesse erro. Nós somos realmente muito bons nisso. Temos verdadeiros “criadouros de expectativas”. Então, se a gente decidir seguir em frente com isso, que, pelo menos, as chaves dos cadeados não sejam jogadas no rio, de onde é praticamente impossível recuperá-las mas, entregues nas mãos dos nossos parceiros, para que eles decidam o que fazer com elas: permanecer acorrentados aos cadeados, tentando suprir ou alcançar nossas expectativas, ou se libertar deles.

No melhor dos mundos a gente não chega nem a usar cadeados para, no fim, ninguém ter que decidir o que fazer com chave nenhuma.

Criar expectativas acerca do outro e/ou em torno da relação é quase tão inevitável quanto impedir que uma ponte repleta de cadeados desabe. Para evitar que alguém saia ferido de um possível acidente, a prefeitura de Paris está tomando providências. Sigamos o exemplo da Cidade Luz.

000_par8185325

Foto: Stephane De Sakutin/AFP

Roberta Simoni

Um café com gelo, por favor?

housewives-coffee-56-wmk

– Um café com uma pedra de gelo, por favor.

– Desculpa?

– Quero café e gelo, por favor.

– Minha senhora… nós não servimos café com gelo aqui.

– Não?

– Não. As opções que temos para acompanhar o café são: leite, açúcar ou adoçante.

– Vou querer açúcar… e gelo.

– Mas, minha senhora…

– Ok. Vamos começar de novo. Vocês servem café aqui, certo?

– Certo.

– E servem bebidas com gelo também, certo?

– Certo.

– Então por que eu não posso querer meu café com gelo?

– Porque não faz sentido.

– Sentido? Se você tem o café e tem o gelo e eu quero os dois juntos, qual o sentido de você não me servir?

– Não prefere um café gelado?

– Não. Gostaria muito mesmo de tomar um café bem quente… com uma pedra de gelo.

– Tudo bem, como quiser. Já trago.

O garçom se afasta para preparar o café de Laura. Por detrás do balcão, ela o vê cochichando com a garçonete, que olha na sua direção e dá uma risadinha sem graça quando percebe que ela os observa.  Alguns minutos depois, ele volta com seu pedido. Laura bebe seu café sob olhares de desconfiança e estranheza, coisa que não a incomoda nem um pouco. Já faz tempo que Laura deixou de se importar em fazer papel de louca.

– A conta, por favor.

– A senhora deseja mais alguma coisa?

Desejo. Na verdade, o café com gelo não funcionou como eu esperava. Eu preciso que você me arrume alguma coisa bem quente para me aquecer por dentro e outra bem gelada para esfriar a minha cabeça, você consegue? Daquelas que fazem o cérebro doer de tão congelantes, sabe? Só que eu preciso das duas coisas ao mesmo tempo: aquecer meu coração e esfriar a minha cabeça. – é o que Laura sente vontade de responder mas, na verdade, só diz:

– Não, obrigada.

– Posso incluir os 10%?

– Claro! Aproveita e inclui o café com gelo no cardápio de vocês. – brinca.

– Farei o possível senhora, afinal, o cliente tem sempre razão, não é?

– Olha, ter razão faz tanto sentido pra mim quanto o café com gelo faz para você.

Laura paga a conta e vai embora pensando sobre o quanto gostaria de trocar todo aquele monte de razões que vem acumulando a vida toda por um bocado da tranquilidade daqueles que desconhecem o peso do certo e errado. Laura não quer ser a mulher que faz a coisa certa, a cliente que tem razão. Laura quer cometer erros fantásticos e ter a cabeça fria e o coração aquecido. Mas sabe que isso é tipo café com gelo: simplesmente não funciona.  

Roberta Simoni

Sai do armário, escritora!

Saindo do Armário

Escritora, cadê você que não escreve mais nada? Digo, nada além de textos enfadonhos para seus superiores que te recompensam com alguns cobres. Nem no seu caderno você escreve mais, escritora!

Curioso esse talento que a gente tem de não cuidar do talento da gente, né? Essa mania que temos de abandonar o que possuímos de mais precioso – e urgente! – com o pretexto da falta de tempo, de oportunidade e outras desculpas esfarrapadas que inventamos para deixar de inventar a nossa própria história.

Fernando Pessoa dizia que a Literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. Agora entendo bem.

Ando lendo para não me perder completamente. Lendo, eu diria, compulsivamente. Até bula de remédio. Uma vez que a escritora anda enrustida, melindrada e tímida, não perco a leitora de vista. E essa, quanto mais lê, mais provoca e atiça a escritora a sair do armário.

Mas a escritora não anda lá muito dada à provocações, tampouco à reação alguma quando atiçada. E não é só a escritora que anda recolhida, a faladora também está um tanto calada. Não via esse raro fenômeno acontecer desde os meus 18 anos, quando me submeti à cirurgia de retirada das minhas amígdalas.

Embora eu tenha consciência de que não há cura para minha verborragia, não posso negar que estou curtindo esse hiato silencioso.

Silencioso, mas nem tanto. Ainda tenho pensamentos que falam alto demais. Outros, no entanto, nem chegam a se verbalizar, tampouco ganham voz. Mantêm-se na forma original. E, dessa forma, certamente me evitam meia dúzia de dores de cabeça. Quem dera ser sempre assim, uma diva prudente, calada, contida. Mas eu tenho um espírito escandaloso que mora num corpo desajeitado, que grita através de gestos, olhares e silêncios.

A verdade é que eu só estou aproveitando esse breve recreio para deitar e rolar nas palavras que eu não tenho dito nem escrito. Só nas que leio. Nas que eu escuto, nem todas, ou nenhuma, a depender de por quem são ditas.

Deixo as palavras de mais difícil digestão para quando a escritora quiser sair do armário, enfim, rasgar os verbos e, se sentir vontade, os sujeitos também.

Enquanto isso, ela arruma a bagunça das suas gavetas e pendura os seus anseios e receios, um a um, em cabides coloridos.

Roberta Simoni

Eu, multidão.

20130929-075114.jpg

Eu sou essa gente que anda contra o fluxo, que nada contra a maré. Eu sou o livro esquecido e empoeirado na prateleira de livros ainda por ler. Sou ausência sentida. Eu sou o rapaz que finge dormir no trem para não dar lugar à velhinha que acabou de entrar no vagão. Sou a puta que te pariu. Eu sou o acento que ficou faltando, a vírgula no lugar errado. Sou a verborragia nossa de cada dia. Sou as suas reticências. Eu sou a sua melhor ilusão. Eu sou o cigarro que você traga, a fumaça que você assopra. Eu sou o choro estridente do bebê dentro do avião que constrange os pais e faz os demais passageiros revirarem os olhos. Eu sou o homem que perdeu a fé. Sou a criança que não queria sair da infância. Sou loucura, excesso, intensidade, dúvida, medo. Sou a personagem real da história distorcida que alguém vai contar numa mesa de bar. Sou a mentira confortável, a verdade inconveniente. Sou saudade inventada. Sou lembrança amarga. Sou a ideia errada que fizeram de mim.

Eu sou essa gente que anda a favor do fluxo, que se deixa levar pela correnteza. Eu sou o livro de cabeceira lido pela metade. Eu sou presença ausente. Eu sou a velhinha que fica em pé no trem ao lado de quem está sentado, esperando que lhe cedam o lugar. Sou o filho da puta. Eu sou a ortografia impecável naquela carta escrita à mão. Eu sou o seu ponto de interrogação. Eu sou só uma projeção. Sou o efisema no seu pulmão, a tosse que você disfarça. Sou o sorriso amarelo da aeromoça para a mãe do bebê choroso. Eu sou a mulher que não perde a esperança. Sou a criança que tinha pressa em virar adulta. Eu sou sensatez, falta, suavidade, certeza, coragem. Sou a personagem fictícia da história real que alguém vai viver um dia. Eu sou aquela que desata a falar porque não suporta cair nos buracos de silêncios repentinos numa conversa. Sou a mentira inventada, a verdade camuflada. Eu sou saudade sufocada. Sou lembrança agridoce. Sou a segunda impressão que tiveram de mim.

Eu sou um pontinho na multidão, eu sou uma multidão inteira. Eu sou o livro devorado de uma só vez. Sou a ausência mais presente. Eu sou a moça que se levanta imediatamente para ceder lugar à velhinha no trem. Eu sou a mãe que pariu solidão. Sou o acento que foi extinto da ideia e expulso da plateia. Eu sou silêncio repentino. Eu sou o seu ponto final. Eu sou a sua realidade. Sou o ar puro que você respira com dificuldade. Eu sou o constrangimento que impede o passageiro de pedir à aeromoça para trocar de lugar. Eu sou o homem que acabou de descobrir do que é feita a fé. Sou a criança que não acreditava em Papai Noel, que virou a adulta que, genuinamente, insiste em acreditar no ser humano. Eu sou a personagem sem nome da história secreta e que, portanto, nunca vai ser contada. Eu sou aquela que prefere a falta de assunto absoluta porque cansou de tentar argumentar com portas falantes. Sou a mentira mal contada, a verdade despida. Eu sou a saudade desmedida. Sou total esquecimento. Sou o oposto de tudo o que pensaram a meu respeito até aqui.

Roberta Simoni

É, Robison, não tá fácil pra ninguém!

Robison e Renata

Houve um tempo em que eu me vangloriava por ser extremamente sincera e, portanto, me sentia diferente da maioria das pessoas. Esse tempo, naturalmente, passou. Ninguém consegue manter vanglória alguma por muito tempo. Não demora muito e toda essa arrogância vai pro ralo. Pois bem, passada essa fase, outra se iniciou: a questionadora e lamentadora: “por que eu sou assim?”; “Por que não consigo evitar?”; “Por que as pessoas não são sinceras comigo como sou com elas?”; “Óh Deus, como sofro por não conseguir dissimular…”. Em suma: enfrentei a fase dramática e vitimista ou, como eu gosto de chamar de “Ai-que-dó-de-mim-por-ser-assim”.

Mas, nada como levar uns tabefes da vida para me situar e tratar de sair da confortável posição de vítima. A gente é o que é e ponto final. Por sorte, somos também seres mutáveis, passíveis de transformações constantes, provocadas pela vida ou forçadas por nós mesmos. Uma vez compreendendo isso, consegui controlar um pouco mais o meu “instinto sincero” e hoje posso até afirmar que existem pessoas que nem sequer imaginam o que penso a respeito delas. Poucas… bem poucas, é verdade, mas existem.

Para que isso fosse possível, fiz um exercício infinitamente mais difícil do que séries sequenciais de abdominais invertidas: comecei a escutar mais e falar menos. Afinal, não é por acaso que temos dois ouvidos e uma boca só.

“Com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado.” (Millôr Fernandes)

Talvez seja porque eu ainda não tenha chegado aos quarenta ou porque, como ser humano comum e limitado, eu demore bem mais tempo para alcançar a sabedoria de alguém como Millôr ou, na pior das hipóteses, talvez não haja mesmo jeito para mim. O que sei é que, por mais que eu tenha evoluído alguma coisinha ao longo dos meus quase 30 anos de vida, a tentativa de ficar calada nem sempre funciona. Tive – e ainda tenho – meus dias de recaída. O último, inclusive, faz poucas semanas, quando caí numa cilada ao aceitar um trabalho sem supor que estava comprando gato por lebre. Fui contratada para fazer um serviço específico e, quando fui realizá-lo, descobri que era outro, infinitamente mais complexo e trabalhoso do que a proposta original, que omitia as informações reais para baratear minha mão de obra. Bacana, né? Fiquei perplexa, achando que alguém fosse surgir na minha frente a qualquer momento pulando e gritando “Rá! Pegadinha do Malandro!”

Mas não era pegadinha, era só malandragem mesmo!

Como manter a passividade do meu animal sincero nessa hora? Impossível. Retomei à velha forma e não terminei o trabalho sem antes despejar tudo que eu pensava a respeito daquela atitude, no mínimo, desonesta. Descartei o filtro da sinceridade e andei algumas casinhas para trás… acontece nas melhores famílias.

Hoje, no entanto, percebo que os meus maiores deslizes não tem sido cometidos com os outros, por ser excessivamente franca ou por deixar de ser, por falar ou por calar, por dar ou omitir minha opinião. Não… o maior deslize que ando cometendo é contra mim mesma, por tentar suportar todas as minhas próprias verdades de uma só vez, empurrando-as goela abaixo, como se estar ciente e lúcida de tudo pudesse me salvar, enquanto todos nós sabemos que a verdade, muitas vezes, condena.

E aí, cansada de bancar a “Renata ingrata” (e deveras sincera), pichando no muro da minha própria consciência, dizendo que ainda me amo, mas que perdi o tesão por mim mesma, eu vou lá e banco o Robison e, magoada e ressentida com tal declaração, apago o recado lá no meu muro e tendo fingir que nada aconteceu, que nada foi revelado, torcendo para que aquele “Adeus” da Renata seja, de fato, definitivo. Mas nunca é.

Ela sempre volta para sambar na cara da sociedade que nada nem ninguém vão impedí-la de escrachar a verdade, doa a quem doer, suje a quem sujar, pois ainda há muitos muros brancos para ela pichar com suas verdades indecentes e dolorosas.

– Mas, Renata, nem todas as verdades são para todos os ouvidos.

– Mas, Robison, nem todas as mentiras são para todas as bocas.

Roberta Simoni

Dois pra lá. Dois pra cá.

By Vanessa Paxton

“Eu nunca mais vou amar de novo” tem o mesmo efeito que “eu nunca mais vou beber”. A gente bebe e fica de ressaca da mesma forma que ama e quebra a cara de novo, arrependido por ter quebrado a cara e a promessa feita da última vez, sob os efeitos causados por ambas as drogas.

Eu fui ao inferno e voltei. Encontrei Euridice de Orfeu no Mundo dos Mortos e não consegui trazê-la de volta à vida. Eu não consegui. Juro que tentei, mas não fui capaz. Nem eu voltei completamente viva de lá. Bem na verdade eu voltei para o lado de cá enfrentando todos os demônios que me seguiram até aqui. E o que eu aprendi com eles foi que o único lado bom da batalha contra a dor é perceber-se vivo, meio capenga das pernas, mas dançando conforme a música. Ou tentando. Dois pra lá. Dois pra cá.

A gente passa cada coisa nessa vida, viu? Se contar ninguém acredita. É por isso que ninguém conta e a gente vem pra cá desavisado e vai vivendo como pode, como consegue ou, como diria minha vó Norma: como Deus quer. Dois pra lá. Dois pra cá. Empurra com a barriga daqui, chuta um balde ou outro dali, chora feito bezerro desmamado numa hora, na outra gargalha feito hiena. Num dia tá bem, no outro tá na afundado na merda. Mas é sempre a dor que nos faz lembrar que estamos vivos, seja lá como for, mas estamos. Ainda estamos.

O trem está passando e eu estou sentada no banco da estação vendo-o partir sem conseguir mover minhas pernas. Aquele ali era o meu trem e eu acabei de perdê-lo. Já é o terceiro que eu perco hoje. “No próximo embarco”, é o que eu sempre penso quando tento sair do lugar, convencendo minhas pernas desobedientes a colaborarem. Levanto finalmente e começo não a andar, mas a dançar a música que está tocando na estação central do meu cérebro. Dois pra lá. Dois pra cá. Pouco me importa o que vão pensar. Foi esse o jeito que, por ora, eu arrumei de caminhar.

Entro no trem. Um moço aparece e me tira para dançar. Digo que não sei dançar e ele responde: “É fácil, é só você me acompanhar!”. Tento, mas, lá pelo décimo pisão no pé do rapaz, desisto. “Desculpa. Essa dança não é para mim, de qualquer forma, obrigada por ter feito parecer que era fácil, eu quase acreditei!”. Ele ruma ao próximo vagão, certamente em busca de uma dançarina mais eficiente. E eu sigo viagem no mesmo vagão, no mesmo ritmo, fazendo a mesma “dancinha da sobrevivência”. Dois pra lá. Dois pra cá. Sem parceiro para me conduzir, sem ter os pés e a leveza das bailarinas, sem o gingado e o rebolado das passistas das escolas de samba e sem a coordenação motora natural a quase todo ser humano.

Mas, persisto. Esse é o meu maior e melhor defeito. Eu persisto.

Dois pra lá. Dois pra cá. 

Roberta Simoni