(Des)construção

Imagine que você está vivenciando aqueles instantes de “quase morte” e me diga: no que você acha que pensaria?

Quem já passou por isso e ficou só no quase, sempre volta com alguma história para contar. Há quem diga que viu uma luz, um anjo, Jesus… outros contam que viram o filme de suas vidas passando diante dos seus olhos. Foi mais ou menos assim que aconteceu comigo da primeira vez, quando meu equipamento de mergulho pifou há 22 metros de profundidade e eu fiquei lá, no fundo do mar, sem ar, durante segundos que pareceram horas, assistindo aquele filme sem lógica. Parecia até obra do David Lynch: era bom, mas difícil de acompanhar.

Dessa vez foi diferente… também não vi a luz ou Jesus, mas nem tive a chance de assistir filme surrealista como antes.

Quando você vê seu corpo voando feito um cartoon, não imagina em quantos pedaços ele se partirá ao encontrar o chão novamente, mas torce para que o estrago seja o menor possível. Tudo acontece tão rápido que seu cérebro não consegue acompanhar a velocidade do impacto provocado pela colisão, ele fica flutuando até reencontrar seu corpo e voltar pra ele, te devolvendo os sentidos, o que é bom por um lado, porque significa que sua cabeça não foi atingida, mas é péssimo por outro, porque junto com os sentidos, você recupera a noção de tudo: tempo, espaço, situação e, principalmente, dor.

E aí você se vê atirada no chão, rodeada por curiosos anônimos se perguntando: ela tá viva? quebrou o que? tá sangrando? bateu a cabeça?

90% daquelas pessoas querem saber o que aconteceu com você para chegarem em casa contando sobre o acidente que presenciaram, e – sendo bem otimista com a humanidade – 10% está ali porque realmente quer ajudar de alguma forma.

Um moço apareceu gritando para ninguém mexer em mim e ficou segurando a minha mão até a ambulância chegar. Se é desses anjos que as pessoas se referem, então eu também vi um.

Uma mulher insistia para que eu desse o número de algum parente para ela poder ligar e avisar. E eu insistia em negar. Imaginava meus pais recebendo a notícia, coitados… capaz de eu sobreviver ao acidente e eles morrerem de susto. Nem pensar! Como eu não bati com a cabeça, continuei teimosa como sempre. Só avisaria a alguém caso eu tivesse que ser internada.

Saí de casa para pedalar e, de repente, me vi protagonizando uma cena que sempre me apavorou: atropelamento com direito a platéia lotada. Penso que se, um dia, um público tão interessado quanto aquele que me assistiu agonizar no meio da rua, lotar minhas peças de teatro, eu ficarei muito lisonjeada. Não naquela hora, quando tudo que senti foi medo e vontade de levantar e sair andando normalmente.

Mas não consegui, a pancada foi forte, tive que esperar a ambulância e passar a noite inteira no Miguel Couto em cima de uma maca, tirando chapa até da alma e, à certa altura, assistindo um diálogo insólito entre dois jovens Doutores:

– O que aconteceu com essa moça?

– Atropelamento. Pernas, lombar e costelas atingidas.

– Putz! Logo agora no final do meu plantão!

– É sempre assim… os piores casos chegam quando a gente tá doido pra ir embora.

Me percebendo assustada, enfim, um deles perguntou:

– E aí, moça, tudo bem?

Não contive o sarcasmo:

– Ah, tudo ótimo. Só vim aqui ver o movimento mesmo…

Mais tarde, na sala da radiografia, ainda conseguindo preservar algum senso de humor, apesar da dor, outros dois sujeitos discutiam sobre o que deveriam fazer comigo, reclamando da calça que eu estava vestindo. Resolvi me pronunciar:

– Oi. Eu tô aqui. É só vocês me perguntarem se eu não me importo de vocês abrirem a minha calça. E, não, eu não me importo.

– A senhora não tem um acompanhante?

– Não. Mas eu estou consciente e estou dizendo que tá tudo bem, podem abrir!

– É que o botão e o ziper da calça jeans atrapalham na radiografia…

– Eu entendo e juro que se eu soubesse que me acidentaria ao sair de casa, teria colocado um vestido para facilitar o trabalho de vocês…

Por fim, de volta ao corredor do hospital, depois de 5 longas horas, enquanto eu esperava para receber alta, um bandido algemado e esfaqueado esperava para ser atendido na maca ao lado, um rapaz espancado durante uma briga acabava de chegar desacordado (bem que o plantonista disse…) e o motorista que ultrapassou o sinal vermelho e me atingiu, aparecia se desculpando e perguntando se podia fazer alguma coisa por mim. Deixei que me trouxesse para casa.

Resumo da ópera: nenhuma fratura, uma costela deslocada, uma banda da bunda roxa, um joelho que não quer dobrar, minha lombar que não me deixa dormir, nem sentar ou respirar sem sentir dor há quase uma semana, um corpo inteiro dolorido, revelando regiões que eu sequer sabia que existiam, uma chance de renascer às vésperas do meu aniversário e uma música que não sai da minha cabeça desde então…

Pois. No instante em que fui atingida por um carro, bem na hora do rush, no meio de uma avenida movimentada de uma grande cidade, eu não pensei nas pessoas que amo, no meu cachorro, nas coisas que deixei de fazer e dizer, nos lugares que não tive tempo de conhecer, em Deus, no céu ou no inferno, eu me peguei pensando no Chico cantando: “(…) morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. 

É, eu sou estranha. Quase dissonante até na hora de quase morrer.

Teria sido, no mínimo, frustrante se, além de tudo que não vivi, eu tivesse morrido atrapalhando um monte de gente que ficou presa no trânsito, deixando também de viver um monte de coisa. Além de morta, inconveniente. Francamente…

“(…) E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego.” (Chico Buarque)

Roberta Simoni

Anúncios

Sabor de fruta mordida (ou calcinha da sorte!)

Já é dezembro e outra vez a gente se pega pensando: mas, já?

O ano tá acabando de novo, e sempre rola um “momento retrospectiva” nessa época. Me lembro de, ao final da retrospectiva 2009 chegar a uma drástica – porém real – conclusão: tive um ano ruim. Ponto. Arrisco dizer que um dos mais difíceis da minha vida. Logo, as expectativas para 2010 não poderiam ser melhores, com perspectivas mais promissoras: eu simplesmente não esperava nada além de um ano melhor do que aquele que estava acabando. Moleza, né?

Não teve festa na virada, só uma longa caminhada na praia, sem pular as sete ondinhas, sem pedidos nem promessas, sem paixão, apreensão ou qualquer sentimento latente, sem indícios de alegria, nem vestígios de mim, usando aquela velha e confortável calcinha bege. Minha despedida daquela versão então triste, sem vida, sem graça, cor-de-pele-desbotada. Meu luto conformado, repleto de uma serenidade que só a maturidade sabe.

Aí veio 2010 e eu nem ouso contar a quantidade de coisas e de vezes que a minha vida e eu mudamos em um ano. Tem gente que diz que a minha vida daria um livro, acredito. Duvido que seria um Best-seller, mas diria que só o capítulo dos últimos meses daria uma enciclopédia, só que divertida, especialmente se resumida aos melhores e menos prováveis fatos, sublinhados de amarelo fluorescente nas minhas páginas favoritas.

2010 não foi um ano, foram 10 em um só. Exagerada? Quase nada… é que eu ando mesmo “meio Cazuza”, inventando amores para me distrair, (des)inventando ausências para me iludir, transformando o tédio em melodia, cansada de tanta babaquice, tanta caretice, dessa eterna falta do que falar, me cobrindo de sonhos numa tarde branca, interessada em mentiras sinceras, contando meus segredos de liquidificador às orelhas frias dos sete ventos, jogada aos pés da mais intensa paixão da última semana, mulher sem razão, de coração viciado em amar errado, sua flor, seu bebê…

Achando a vida muito louca, muito breve, forrando as paredes do meu quarto com as misérias das manchetes, pra lembrar que nada é tão sério, nadando contra a corrente só para exercitar, tentando algum trocado pra dar garantia, tomando meu trem para as estrelas, sendo artista no nosso convívio, pelo inferno e céu de todo dia, provando do meu próprio veneno antimonotonia que não me deixa pregar os olhos noite e dia, só na batida, no embalo da rede, matando a sede na saliva com aquele gosto bom de fruta mordida… doutra saliva já tão conhecida, do doce sabor amargo dessa famosa desconhecida tão cobiçada: a sorte de um amor tranquilo…

E em meio a todo o amor que há nessa vida, me aparece aquela que eu não quero levar para a festa, logo ela, bem no centro do meu universo: uma espinha gigante no meu rosto, que mais parece um segundo nariz, ou um terceiro olho. E só o que me resta é levá-la para dançar comigo, ou não ir à festa… vou dormir com a cara toda trabalhada na pomada, aí ele me olha e diz assim: “que coisa mais linda!”, com uma sinceridade quase comovente. Procuro minuciosamente em todos os cantos, mas não vejo nenhum sinal de ironia nele.

A senhora calcinha bege tão pouco formosa pode não ser milagrosa, mas tem lá o seu valor. E 2011 já vem chegando, vai que… 😉

Roberta Simoni

Não dormi e acordei poesia.

Sabe quando você vive um momento especial, na hora nem desconfia da grandeza daquele instante e só muito tempo depois é que se dá conta do quão foi feliz? Eu não. Eu não sei como é ter essa sensação. Tenho a exata noção da proporção da felicidade que tenho nas mãos enquanto a tenho, antes que ela se dissolva e escorra entre os meus dedos finos.

Eu era feliz e sabia. Sempre soube, desde sempre. E escondia os meus seios dentro de uma camiseta larga, tentando camuflar a evidência de que virava mulher. Queria me agarrar àquela infância que eu já sabia doce, e não queria me mudar da casa pequena porque gostava de não caber dentro de tanta alegria infantil. Eu queria prolongar viagens, passeios, o sabor do chocolate, e os dias, as horas… Queria que a felicidade ficasse um pouco mais, que o dia não amanhecesse agora. Queria que você não fosse embora. Sabia que fecharia os olhos no dia seguinte para te ver nas lembranças mais lindas e te encontraria na minha saudade.

Não ensinaram a gente a ser feliz porque não tem como aprender. Não existe ser, mas eu sei quando estou, eu sinto, farejo no ar, como o anúncio da chuva de verão que vem e vai embora tal qual, depressa, ainda que eu a deseje eterna. A gente aprende, ao menos, a identificar quando ela vem, cheia de graça, sinuosa ou articuladamente, invadindo o ambiente, encharcando a gente, ou pingando de pouquinho, molhando só aqui dentro, me fazendo chuva no céu de sol que brilha, aliviando o corpo do calor, matando a sede da alma.

Solto o cabelo, passo perfume e me enfeito toda para me molhar. Tem dia novo nascendo. Tem gente acordando e a gente ainda nem pensa em dormir. Tem pássaro assoviando ao fundo, tem sol saindo de dentro do mar, tem voz cantando, tem acorde de violão tocando, tem melodia encantando, tem amigos sorrindo… olha lá… tem gente se emocionando… é a felicidade chegando, sentando na nossa roda e cantando afinada, fazendo coro com a nossa alegria de estar… com ela.

Não durmo há dias e acordo pura poesia, encharcada do bom da vida.

(… e era isso que cantávamos com o Kiari, virando chuva com ele… obrigada, querido, por molhar a gente!)

Roberta Simoni

Das vantagens de não ter tempo

Não, eu não morri, não fui sequestrada, nem abduzida… (agradeço aos queridos leitores preocupados de plantão!)

Cá estou, novamente, acelerada, como minha natureza exige que eu seja, ainda que eu relute com frequência. E trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, e depois, trabalho mais um pouquinho. E torço pro fim de semana chegar e quando ele chega, tenho o disparate de ficar feliz quando pinta algum trabalho freela. E lá vamos nós (Nikita e eu) para mais uma jornada. Tudo bem, a gente aguenta! – é o que sempre dizemos uma para a outra, mas, meus pés fazem questão de dizer o contrário depois de horas seguidas se equilibrando num detestável par de saltos altos. No fim do dia, eles que já não são belos, exibem bolhas nada sexy e calos nem um pouco atraentes. E a Nikita, bom… depois de não-sei-quantas-mil-fotos pediu arrego e me deixou a ver navios e o mar, tudo isso sem poder fotografar.

Tudo bem, sem desespero. Felizmente eu estou na fase “copo cheio”… e vocês bem sabem como eu sou quando teimo em enxergar o copo vazio, né? Não dá tempo pra lamentar muito por nada, maravilha! Então, agilidade, neguinha, agilidade!

Manda máquina para autorizada em São Paulo, corre atrás de máquina nova para comprar. Separa a roupa suja para levar na lavanderia mais próxima, sonha em se mudar pra um apartamento com área de serviço, mas não dá tempo de sonhar, compra o jornal, fuça os classificados, não acha nada que preste, fica mais um mês onde está. Torce para as roupas secarem logo porque acaba de saber que precisa arrumar as malas para viajar a trabalho nas próximas horas. Deseja escrever no blog, mas precisa escrever matérias, roteiros e uma peça de teatro. E trabalha, trabalha e trabalha. E estuda, ou tenta estudar, porque descobre que o italiano é bem mais fodone do que se pode imaginar, bambina!

Mas o copo tá lá, visivelmente cheio, sem espaço para o tempo. E o tempo que falta é ocupado e espaçoso, não deixa brechas para pensar muito em nada, e acaba tornando o peso de alguns problemas, que são do tamanho de um elefante, parecerem mais leves e menores do que uma formiga… não uma qualquer, mas aquela formiga de fogo, miudinha, avermelhada, cuja ferroada é dolorosa. E se vacilar, ela constrói um enorme formigueiro bem debaixo do seu nariz, dividindo espaço com as suas prioridades. Mas, ainda assim, formigas são menores que elefantes.

Das vantagens de não ter tempo, a maior é perceber que todo minuto se torna tão mais precioso e adorável que perdê-lo com lamentações se torna uma tremenda ofensa. E a poesia do cotidiano ainda está aqui, desfilando cheia de graça diante dos meus olhos, me fazendo criar rascunhos mentais que, qualquer dia desses, eu volto aqui para compartilhar…

Agora eu preciso mesmo correr, nao contra o tempo, mas a favor dele, tentando acompanhar o rítmo da música que ele tá botando para tocar agora. E dançamos juntos… dançamos, dançamos…

Volto… juro!

“Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio…

Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final.”

Roberta Simoni

Vou de vestido preto!

No escuro de novo. Agora é assim, pelo menos uma vez por semana isso acontece por aqui, geralmente nos dias que eu mais preciso de eletricidade, obviamente.

Depois de horas na escuridão calorenta do veraneio carioca, teve até torcida gritando quando a luz voltou. E eu juro que quase pude escutar Renato Russo cantando “Eu era um Lobisomem Juvenil” ao pé do meu ouvido:

“Luz e sentido e palavra
Palavra é!
Que o coração não pensa
Ontem faltou água
Anteontem faltou luz
Teve torcida gritando
Quando a luz voltou…”

E lá estava eu de novo, me transportando à adolescência. Embalada pelo som de Legião Urbana, foi até difícil me achar no meio de tantos planos milaborantes, sonhos escalafobéticos e dores nada fundamentadas. Mas lá estava eu, diante de mim mesma outra vez, parada, me olhando com uma certa desconfiança, sentindo uma curiosidade inquieta e uma compaixão quase maternal por mim.

– Ei, garota! Qual o problema?

– Tô preocupada…

– Pois não deveria. Seus planos não vão dar certo mesmo.

– Ahhh tá… agora sim, eu fiquei beeeem mais tranquila. Isso foi muuuito animador !

– Engraçado, eu não lembrava de você irônica assim desde tão nova.

– E eu não imaginava você tão pessimista.

– Não é pessimismo, é só a realidade. Sabe esses planos todos que você tá fazendo? Então… eles vão se concretizar, mas de forma absolutamente diferente de como você imagina agora.

Ahhhhh, mas então eles vão acontecer?

– Vão, mas você não vai nem sentir, porque eles não acontecerão de maneira óbvia, muito menos dentro do tempo que você espera, e você vai julgar que eles não te servirão mais, e eles acabarão não servindo mesmo. Tipo aquele vestido que você ganhou de presente no seu aniversário de 15 anos que você veste para desfilar em frente ao espelho, enquanto espera pela festa perfeita para finalmente usá-lo, sabe?

– Sei, claro… aquele preto que minha tia me deu! Você já usou?

– Não. Ficou curto, não cabe mais. Nós fomos à festas maravilhosas, mas não usamos o vestido esperando “a festa perfeita”, que nunca aconteceu. E eu achei por bem doar o vestido novo… com cheiro de mofo.

– Não acredito que você deu o meu vestido !!!

Você deu. Um dia você se olhou no espelho com ele e se achou ridícula e –  preciso dizer – você estava mesmo ridícula e… cafona. Seu vestido saiu de moda, mocinha !

– Você tá me dizendo que é isso que eu faço com os meus… com os nossos sonhos?

Booooa, garota! É isso! Você não degusta. Ou a fome é muita e você come cru ou você gosta tanto que guarda pro final, e come frio.

– É quase como se não tivesse acontecido, né?

– Exato. Por isso, não se preocupe se vai acontecer, se concentre em como vai acontecer, mas não agora. E não se frustre se, na hora agá, você estiver usando a sua calça jeans mais surrada, ou aquela camiseta velha, pois é exatamente assim que vai ser.

“Beeeeeeeeeeeta, tá na sua vez de comprar pão !!!

Tô iiiiiindo, mãe!”

Nossa conversa foi interrompida por causa do pão fresco do lanche da tarde.

E eu fui e voltei da padaria sob os olhos de estranheza da minha mãe, do padeiro, e de todo mundo que passou por mim na rua. Ninguém jamais entenderia o que aquela garota fazia ali, usando aquele vestido preto sofisticado àquela hora do dia.

Era só uma menina vestindo um sonho que não podia ficar pendurado para sempre no cabide, ora!

E hoje, que eu julguei ser o dia ideal para fazer o meu trabalho, voltei pra casa mais cedo e “puffff”: fiquei no escuro. E aí eu pensei na conversa que não aconteceu ontem, na viagem que eu cancelei no mês passado, na mudança que eu adiei para esse ano e lembrei do vestido preto que eu poderia ter usado antes…

“E daí, de hoje em diante
Todo dia vai ser
O dia mais importante…”

Roberta Simoni

Quando o sol se despede…

“Não dou muita bola pra essa coisa de natureza, prefiro rua, casas, gente andando nas calçadas para lá e para cá, carros trafegando no asfalto, mas tem duas coisas que eu gosto: árvore e pôr do sol. Nascer do sol também. Mas o problema do nascer do sol é que ele só é interessante durante poucos momentos. Minha mãe gostava de ópera, um dos seus cantores favoritos era o Enrico Caruso e ela gostava particularmente da matinata L’Aurora di Bianco Vestita, de Leoncavallo. Nesta música está dito o problema da aurora. Ela só é agradável de contemplar quando o sol, uma rutilante esfera vermelha, vai surgindo no horizonte, isso dura poucos minutos, logo em seguida a bola vermelha se torna uma brutal fonte de luz branca, apoteótica, impossível de contemplar. É isso: quando a aurora se apresenta de bianco vestita ela fica muito bonita na música de Leoncavallo e na voz de Caruso, mas na vida real fica insuportável. Ao contrário, o pôr do sol vai ganhando beleza continuamente, como aquela beleza que eu estava contemplando, o pôr do sol que nunca agride, a menos que considere uma forma de agressão a melancolia que invade você na hora em que o crepúsculo se instala no mundo antecedendo a noite.”

(O Seminarista – Rubem Fonseca)

Eis que eu caio nas graças do Rubem outra vez… apaixonada. Lendo com voracidade as deliciosas histórias sujas que só ele sabe contar. Dessa vez, um matador profissional que gosta de poesia. Um personagem que não tem escrúpulo, mas sabe admirar o crepúsculo.

Este trecho do livro me fez questionar: quantas vezes eu vi o sol nascendo? Tão poucas que dá para contar nos dedos, todas, porém, em casos excepcionais ou especiais. A verdade é que quando o sol está nascendo, eu estou longe de sentir vontade de estar acordada e se não for por uma viagem, durante um vôo, numa estrada ou por uma noite virada, eu sempre chego depois que o espetáculo termina. Mas o pôr do sol não… esse, se for necessário, eu compro ingresso para assistir de camarote.

O melhor a gente sempre deixa pro final, e talvez o sol saiba disso e faça igual, porque é quando está se despedindo que ele reserva o seu melhor espetáculo. E ainda que seja incrível ao nascer, ele consegue ser ainda mais perfeito quando morre. E contrapondo o que eu disse aqui dias desses, nem toda morte precisa ser, necessariamente, feia ou triste. 

Eu sou noturna, sempre fui, ainda que eu ache as luzes, cores e sabores do dia fantásticos e que eu saiba que algumas atividades são exclusivamente diurnas, os meus dias normalmente são ocupados pela rotina do trabalho, repletos de obrigações que me restringem ao contato com paredes frias e a me contentar – descontente – a ver as cores do dia da janela de algum prédio comercial.

É quando o sol dorme que eu acordo, e o pôr do sol é uma bela maneira de celebrar o começo do meu “dia”. O crepúsculo talvez seja o presságio de uma boa noite. E já que belezas que cegam e agridem não me interessam, eu fico com melancolia de mais uma despedida, que são menos breves.

(sim… sou eu na foto lá em cima, sozinha na platéia do meu show favorito!)

Roberta Simoni

A alegria do pecado

Foi Eva quem começou, comendo aquela bendita maçã, e desde então nunca mais pararam de fazer sexo por aí, e não sou eu quem vai dar fim a uma atividade clássica, histórica – e até bíblica – como essa. Então, só me resta dar continuidade com o máximo de afinco que me cabe.

Mas, eu preciso dizer que essa noite eu me superei! Não, eu não passei a noite fazendo sexo, ainda que esse tipo de programa não me cause qualquer contrariedade, eu fui dormir sozinha. Mas tive uma noite de orgias…

Seria normal se eu tivesse sonhado com alguém ou com algum fetiche, mas não… no meu sonho, eu sequer sabia com quem eu estava transando, eu simplesmente queria gozar, e gozar, e gozar… simples assim.

Na vida real sexo pra mim tem nome, RG, CPF e tudo mais que um ser humano costuma ter para se apresentar perante a sociedade, e orgia não é a minha praia. Pelo menos não enquanto estou acordada…

Como esses sonhos são recorrentes, começo a desconfiar que possa ser uma espécie de “tarada enrustida na calada da noite”.

Eu também sonho constantemente que estou batendo em algumas pessoas. E essa é outra prática que não faz parte da minha rotina, por mais que eu sinta vontade de praticá-la diversas vezes, principalmente quando estou na TPM.

Aqui temos dois exemplos clássicos de “pecados”: sexo e violência. E se vocês me perguntarem se eu acordo me sentindo mal quando tenho um desses sonhos, a resposta é não. Não, não e não.

“Uau, que isso, garota?!?” – isso é tudo o que eu consigo pensar! Well well… não posso me culpar pelos sonhos que tenho, afinal.

Dizem que os sonhos são reflexos da realidade, ou de desejos guardados no subconsciente, não se sabe… eu só sei que já aceitei a condição humana de pecadora faz tempo, e se não bastam os pecados que cometo acordada, eu ainda insisto em pecar enquanto durmo, que seja… como impedir?

Se bater em alguém que atiça os meus instintos mais selvagens for tão bom quanto é nos meus sonhos, que, pelo menos, eu possa aproveitar enquanto durmo, já que na vida real eu sou covarde demais para levantar a mão para alguém.

E gozar, bom… gozar não tem como ser uma coisa ruim sob qualquer circunstância, com ou sem distinção, sonhando ou acordada, e já que dormindo eu me revelo essa  mulher promíscua da qual eu não tenho o menor controle, benditos sejam esses “orgasmos sonhadores”.

Eu deixo que a alegria do pecado tome conta de mim… porque, às vezes é muito bom não ser divina!

“Alegria do pecado às vezes toma conta de mim
E é tão bom não ser divina
Me cobrir de humanidade me fascina
E me aproxima do céu

E eu gosto de estar na terra cada vez mais
Minha boca se abre e espera
O direito ainda que profano
Do mundo ser sempre mais humano

Perfeição demais me agita os instintos
Quem se diz muito perfeito
Na certa encontrou um jeito insosso
Pra não ser de carne e osso, pra não ser carne e osso.”

(Carne e Osso – Zélia Duncan e Moska)

Roberta Simoni 

Temporada das Flores

 Sou Flor

Hoje o dia amanheceu chorando. Ele chora porque se despedir nunca é fácil. E a despedida do inverno não poderia ser de outra forma, senão chuvosa.

Eu aproveitei a chuva e também me despedi, com lágrimas que se misturaram e se perderam propositalmente entre as gotas de chuva que escorriam pelo meu rosto. E era do inverno que eu também me despedia, do frio que fazia lá fora, e aqui dentro… de mim. Porque até os dias frios deixam saudades, ainda que este inverno tenha sido o mais impetuoso que me lembro ter enfrentado. Naqueles dias em que casaco nenhum me aquecia, este inverno me pareceu ainda mais longo e rigoroso. E foi.

Apesar do excesso de chuvas, das nuvens cinzas, do sol que mal aquece – quando aparece -, eu gosto do inverno. Nessa estação que, por algum motivo, eu cheguei ao mundo, o frio aproxima, facilita e sugestiona o calor humano. Mesmo assim, eu esperei ansiosa a chegada da primavera este ano…

E hoje eu decidi: essa será a minha primavera mais linda !!!

Quero flores pela casa, pelas árvores, nas ruas, espalhando pétalas pelo chão do mundo, colorindo a vida. Quero cheiro de jasmim, tulipas nas janelas, sol de girassol, jardins de lírios e delírios, mar de violetas, “copos de leite” pela manhã, rosas vermelhas para eu me apaixonar todos os dias e orquídeas pra me lembrar que apesar de rara e frágil, é também cheia de beleza essa vida.

É ela, a temporada das flores, que me faz querer guardar os agasalhos no fundo do armário, despir a alma mais uma vez, vestir-me de flores, num vestido rodado, bem colorido, de estampa florida e sair por aí, destribuindo cor, graça e o meu melhor sorriso. 

E se me colocarem num vaso, serei o enfeite mais orgulhoso do ambiente, ou ainda, se me plantarem num jardim e em mim pousarem, me alegrarei em ser néctar que alimenta e adoça outras vidas…

Ontem eu fui chuva, hoje eu sou flor de primavera.

“Que saudade!
Agora me aguardem
Chegaram as tardes de sol a pino
Pelas ruas flores e amigos
Me encontram vestindo
Meu melhor sorriso.

Eu passei um tempo
Andando no escuro
Procurando não achar as respostas
Eu era a causa e a saída de tudo
E eu cavei como um túnel
Meu caminho de volta.

Me espera, amor
Que eu estou chegando
Depois do inverno
É a vida em cores
Espera, amor
Nossa temporada das flores…”

Roberta Simoni

Hoje eu acordei assim, meio Bossa Nova, sabe?

Música

Eu adoro ouvir a minha mãe cantarolando, não importa a canção, nem o tom. É a voz dela e o efeito que ela causa em mim.

Nessas manhãs em que eu acordo com receio de abrir os olhos e encarar as horas que se seguirão pelo resto do dia, ouví-la cantar tem sido como ouvir o assobio alegre dos pássaros na minha janela numa manhã ensolarada, ainda que a cortina esteja fechada e o quarto esteja escuro e melancólico, cheio de desânimo e preguiça, feixes de luz conseguem penetrar através da cortina, enquanto os pássaros saúdam o dia, fazendo o meu medo de despertar se dissipar no meio da melodia…

Nesses dias poucas coisas têm feito sentido, mas nenhuma delas têm pouco sentido. Meus sentidos estão todos apurados, os anseios tão inflamados e as feridas tão expostas que tentar camuflagem é puro desperdício de energia, e ludibriar a dor com palavras bonitas e consoladoras não tem nada de poético. Chega a ser patético.

E eu penso na menina de outrora e acho graça porque lembro que sempre fui mesmo muito melancólica, como as manhãs de agora.

Nessas manhãs eu acordo assim, meio “Bossa Nova”, sabe? Ouvindo Bebel Gilberto precisando dizer que te ama, vendo o barquinho do Bôscoli deslizando no azul do mar, a garota desfilando na praia de Ipanema do Tom e do Vinícius e fazendo coro com eles, cantando “chega de saudade”…

Contando vil metal como os nossos pais e os da Elis, lembrando de coisas nossas do Noel Rosa e das tardes bucólicas e preguiçosas em Itapuã com Toquinho e Vinícius… e aí dá vontade de pegar aquela velha viola e tocar Bossa Nova, com o perdão dos desafinados de Tom e João Gilberto, para acompanhar as cantorias na voz doce da minha mãe.

Isso, é claro, se eu soubesse tocar violão…

Ruas de Outono

Outono

Andei sumida, eu sei… juntou viagem no feriado, com carro quebrado na estrada, no meio da madrugada – e no meio do nada – , debaixo de muita chuva e frio. Eu e minhas roupas ensopadas tentando empurrar o carro, depois congeladas e cheias de lama, esperando o reboque chegar, batendo o queixo.

É claro que não podia dar em outra: voltei completamente “gribada”. O que eu não contava era receber aquela visita mensal uma semana antes do esperado. Já não basta ser desagradável, ela também faz questão de ser inconveniente, porque nunca vem sozinha, está sempre acompanhada de muita cólica e um tiquinho de mau-humor… um tiquinho só, claro!

E esse frio que tem feito? Gente… carioca não está acostumado a sentir frio de verdade, não! Carioca nem sabe o que é inverno direito, e sabe menos ainda o que é inverno em pleno outono! Apesar de gostar mais do verão, eu não desgosto do inverno ou, pelo menos, não desgostava. Confesso que ultimamente não tenho curtido, só faço espirrar da hora que levanto até a hora que vou dormir. E tenho tido tempo demais para sentir frio e pensar…

E eu tenho pensado muito nesses tempos frios, tanto que talvez os meus pensamentos estejam tão gelados a ponto de resfriarem não só a mim, mas ao meu coração. Não é só o corpo que nunca se sente suficientemente aquecido, independente da quantidade de pano que eu vista, o coração também anda precisando de um aquecimento mais eficaz.

Nessa época do ano eu ando pelas ruas mais distraída do que o normal, observando o alto das árvores com enormes galhos vazios e as calçadas que mais parecem um tapete de folhas secas. Acho lindo. O outono tem uma tristeza poética que me fascina: o céu melancólico, com seus tons de cinza, sem a companhia das graciosas nuvens, soprando um vento frio, espalhando folhas mortas pelas ruas, despindo os galhos das árvores, assoviando o silêncio…

Mas eu, graveto que sou, sinto falta das minhas folhas verdes, das minhas flores coloridas. Elas que me aqueceram e me enfeitaram durante todas as outras estações, agora estão caídas pelo chão, esperando o vento frio assoprá-las para longe de mim. Eu, nostálgica que sou, queria poder me desgrudar dessa árvore e resgatar as folhas de volta pra mim, mesmo secas, mesmo mortas. Eu, medrosa que sou, queria me esconder do frio atrás delas como fazia antes. E eu, esquecida que também sou, preciso do outono para me fazer lembrar que as folhas não são eternas, e que precisam morrer para dar lugar às folhas novas.

O outono tem a difícil tarefa de “limpar a casa”. Ele sai varrendo tudo, jogando tudo fora, deixando a casa vazia e tão espaçosa a ponto de sobrar espaço para a solidão. Pega as flores que marcharam e as folhas ressecadas que ainda estavam presas ao galho, e arranca uma por uma. E os galhos sentem, lamentam porque já estavam apegados, mas sobrevivem… mesmo no frio.

Eu venho preparando meus galhos para uma nova folhagem, o frio é só uma parte desse processo… e é nas “ruas de outono que os meus passos vão ficar…”

Roberta Simoni