Paredes falantes

Paredes Falantes

Ele quis pintar a parede do quarto dela de camurça. Ela não deixou. Era a mesma cor que ele havia escolhido para pintar a sala da casa dele. Se fosse para mudar alguma coisa, que o colorido fosse diferente. “Além do mais, camurça não é nem nome de cor, é nome de tecido. E tecido cafona.” Ele nunca entendeu a lógica dela, ou a falta total de lógica, mas não precisava entender, o beijo dela costumava calar as dúvidas dele.

As paredes da casa dela contavam histórias de aventuras, viagens, amores e desamores e ele não entendia como cabiam tantas coisas num espaço tão curto – de apartamento e de vida. E se uma parte dele admirava aquela intensidade insana de dez mulheres numa só, a outra gritava de horror por não ter começado a escrever aquelas páginas todas com ela há mais tempo e por ainda não estar nas fotos das paredes da casa dela.

As paredes contam muito sobre as pessoas, especialmente aquelas que não dizem absolutamente nada. Paredes brancas. Nuas. Silenciosas. Paredes que não dialogam, que não interagem, que calam por preguiça, por falta de criatividade, de tempo ou de medo de passarem a vida pendurando prateleiras com enfeites, servindo de encosto para livros, gravuras, quadros e pistas importantes de traços das personalidades dos seus habitantes.

Há paredes que falam, falam e não dizem nada, que ocupam espaços sem preencher, só para disfarçar um buraco aqui, uma rachadura acolá. Paredes infiéis e dissimuladas, completamente descompromissadas com a verdade.

Ela gostava mais das paredes que sussurravam qualquer mistério. Não precisavam ser finas, não. Melhor até que fossem espessas, porque o que os vizinhos falam, escutam e assistem costuma ser bem mais tedioso e irritante do que propriamente interessante. Paredes que sussurram são aquelas que querem contar histórias, segredos… que deixam manchas, digitais, marcas de quadros e móveis à mostra. Sinais que, para ela, eram fios condutores para sua imaginação.

Quem vive aqui? Quem teria vivido? O que teriam vivido? Se essas paredes pudessem falar, o que elas me diriam?

Para ele, paredes coloridas causavam sensações diversas. Talvez por isso ele quisesse pintar a parede da casa dela da mesma cor que pintou a parede da casa dele. Pode ser que ele só quisesse que a casa dela fosse uma extensão da casa dele, ou talvez achasse que faltava colorido na casa dela, ou nela, já que a decoração da casa dela era preta e branca, o que, afinal, dizia muito sobre ela.

Ela não conseguia ficar por muito tempo em ambientes inóspitos, com paredes que tentavam a todo custo convencê-la da credibilidade de quem as decorou, por isso, todo tempo de espera, por menor que fosse, em laboratórios, consultórios e escritórios, tornava-se uma verdadeira tortura.

Ele não gostava de paredes mal pintadas ou mal cuidadas, nem de geladeiras vazias, o que também dizia muito a respeito dele. E bem na verdade, ele nem gostava tanto assim da cor camurça, mas adorava implicar com ela.

– Nós vamos ter bastante quadros e estantes com muitos livros na nossa casa, não vamos?

– Só se você deixar eu pintar nossa parede de camurça.

– É, acho que nós temos um acordo.

Roberta Simoni

Vai que…

Esse post você não vai ler aqui, mas aqui.

Trata-se do conto “Jogo do Surpreende” que escrevi para o concurso literário “Eu Amo Escrever”. É só ir até lá, ler, votar e caso goste do conto, recomendar aos coleguinhas, e caso não goste também. 😉

Eu sei que se depender do meu talento para política, minha estória nunca vai virar livro, porque parte da seleção é feita pela soma dos votos recebidos e o concurso já está nos últimos dias (vai até 02 de setembro) e eu quase me esqueci de pedir votos por aqui, mas vai que… né?

Roberta Simoni

Penso, logo…

Enquanto isso, através dessa parede fina, eu ouço em alto e bom tom os dois duelando verbalmente e não consigo decidir qual deles tem mais razão, nem quem tem maior dom de persuasão…

– (…) Mas, por que perdeu o sentido?

– Porque perdeu.

– Vai me dizer que perdeu a graça também?

– É. Perdeu. A graça. O sentido. A razão de existir…

– Não dá para perder o que nunca se teve.

– O que eu nunca tive? Graça? Sentido? Razão de existir?

– Razão de existir, talvez. Essa sua mania de querer encontrar sentido em tudo é esquizofrenia, sabia?

– Não me diga? Virou psiquiatra agora? Então me diga, “doutor psiquê”: você nunca questiona o sentido de nada?

– Não precisa fazer sentido sempre.

– Existir basta?

– Quase. Viver é o suficiente.

– E qual a razão de existir quando não há nenhum sentido?

– Se eu me fizesse essa pergunta seria como você, viveria buscando a lógica da vida e esqueceria de viver.

– Não é verdade!!! É verdade??? Ok. É verdade.

– Você pensa demais…

– Você sente demais…

– Não se ocupe tanto procurando sentido pro que eu sinto!

– Eu faria isso se não fosse o seu cérebro. E você deveria agradecer e aproveitar que tem um para usar.

– Eu usaria e agradeceria depois, nessa ordem, se você fosse mais eficiente…

– Eu seria, se você me deixasse pensar melhor…

– Eu deixaria, se você não me impedisse de viver.

– Penso, logo existo. E quanto a você?

– Eu não penso, logo vivo.

– Ou vive tanto que, logo, não pensa…

– Ou isso.

(… e agora? Quem poderá me defender de um coração e um cérebro igualmente persuasivos?)

Roberta Simoni

Mando notícias do lado de cá…

Aqui onde eu estou o inverno já se anuncia, mas eu não saberia o que é frio de verdade se nunca tivesse saído do lugar. O bom é que eu descobri que eu gosto mesmo é do frio que faz bem aqui, porque não me congela, mas me aconchega e torna cada vez maior o meu amor pela minha cama, tanto que meu edredom e eu nunca estivemos tão bem como agora. Vou demorar para sentir saudades do verão desta vez, na verdade, já não sinto mais saudades das estações, aproveito o que cada uma tem de bom e convivo com a maravilhosa certeza de que elas voltarão no próximo ano. Não posso dizer o mesmo da saudade dos amigos que uma estação me trouxe e e outra levou. Esses eu nunca sei quando – e se – voltarão, e cada vez menos consigo conviver com a incerteza de findar uma ausência ou de sanar uma saudade.

Você tem razão. É sempre saudável mudar a perspectiva. Eu queria poder viajar mais à procura de novos ângulos, não só para fotografar, mas para enxergar a vida. Ah… como seria bom viver na Europa, por exemplo. Um bilhete de trem e pronto, você está num país diferente, alimentando o olhar de comida boa! Mas aqui não há trens para países vizinhos, não há um mês que me sobre algum cobre para comprar passagens aéreas, minhas jóias são de plástico e embora minhas bijuterias se pareçam cada vez mais com cobre, não servem como moeda de barganha, infelizmente.

Estando tudo custando os olhos da cara, pus os meus a admirarem a nova-velha vizinhança e por ora eles têm se dado por satisfeitos. O mais interessante é que mesmo morando nesse bairro pela terceira vez, a cada dia descubro coisas novas. Achei um sapateiro ótimo na esquina da minha casa e quase não acreditei quando, ao perguntar há quanto tempo a loja existia, o dono – um senhor muito simpático – me respondeu que o negócio já tinha mais de 30 anos. E eu, durante todo esse tempo, jogando fora meus sapatos escangalhados. Parece que alguém aqui andou distraída e esquecendo que para quase tudo há conserto…

Tenho aproveitado o parque mais do que nunca, especialmente agora no outono, quando há mais folhas secas espalhadas pelo gramado. Te garanto que você nunca conhecerá alguém que sinta mais prazer de pisar em folhas secas do que eu.

A vida, como te falei, não anda lá muito leve. Mas quem disse que ia ser fácil, não é? Se eu quisesse moleza, sentava no pudim, mas isso sujaria toda a minha roupa e eu estou sem máquina de lavar, além do mais, eu acabaria por comer o pudim todo, como você já deve calcular depois de ter tido aqueles chandelles desaparecidos da sua geladeira quanto te fiz uma sorrateira visita.

Aquelas antigas metas das quais conversamos tantas vezes permanecem na forma original: ainda não passam de metas. E o pior é que eu aumentei a minha coleção de sonhos nesse meio tempo, eu não tomo jeito… você, canceriano como eu, será que conseguiria me ajudar a resolver essa equação: como idealizar menos e realizar mais? Se você já tiver descoberto a solução pra isso, por favor, me ensina. Posso te pagar com aquelas minhas bijuterias, caso você ainda não tenha comprado o presente de Dia dos Namorados para sua namorada…

No mais, eu tenho pensado bastante sobre auto-conhecimento, e como você sabe, pensar não significa necessariamente realizar, especialmente quando estamos falando de mim. Mas eu juro que tô tentando. Tenho me observado na tentativa de me conhecer melhor ou de me conhecer outra vez. Eu, termômetro que sou, mudo conforme o clima e a temperatura. Mudo tanto quanto a previsão do tempo e o próprio tempo que esfria e esquenta e não me ajuda a decidir se devo levar o guarda-chuva, que roupa devo usar ou que humor vestir… mas se o tempo fecha, luto contra o Muttley que existe dentro de mim e não resmungo pela falta de sol ou reclamo pela chuva fora de hora que, provavelmente, foi coisa do Dick Vigarista. Eu compreendo as condições climáticas como um amigo entende o outro. Eu termômetro, aceito a temperatura que vier.

E a temperatura de agora é apropriada para tomar “uns bons drink” (como faz a formidável Luisa Marilac!) e eu confesso que tenho tomado mais vinho do que o Ministério da Saúde recomenda. No dia que você resolver aparecer, por favor, traga uma garrafa. E se não quiser beber num copo de requeijão, traga também a taça.

Um beijo,

B.

Roberta Simoni

Mais uma tragada…

Fuma pra mim?

Como é?

Fuma pra mim! (e o que antes era um pedido, virou uma ordem e aquilo a excitou como se ele tivesse pedido para ela gozar pra ele, exatamente como ele havia feito, minutos antes…)

Você sabe que eu tô tentando parar, inclusive porque você reclamava que...

Eu sei… só fuma. Eu não tô te pedindo que me ame, mas que acenda um cigarro.

Ela levantou da cama, caminhou lentamente até a mesinha ao lado da janela, abriu a bolsa, pegou o maço de cigarro e o isqueiro. Sentou na ponta da cadeira, com o dorso ereto, o quadril empinado, e acendeu aquele cigarro barato que ele tanto detestava. Ficou ali, nua, muda, na penumbra do quarto, contra-luz, fumando, sem olhar pra ele. Fingindo indiferença, mas consciente da sensualidade de cada movimento minuciosamente observado, de cada tragada, da fumaça que assoprava lentamente.

Ele não tinha cinzeiro em casa. As cinzas do cigarro caiam no chão e ela não se importava. Nem ele.

Foda-se o teu tapete branco.

Por que você se pinta tanto?

– Por que, diabos, você tem um tapete branco no seu quarto?

– Pelo mesmo motivo que você se pinta…

– Se isso te irrita tanto, por que você me pediu que viesse?

– Eu não pedi que você viesse maquiada, nem com as unhas e os cabelos pintados de vermelho…

– Mas me pediu pra fumar pra você…

Ela descruzou as pernas, apoiou o cigarro na ponta da mesa, bem na direção do tapete branco. De propósito, obviamente. A fumaça subia e escapava pela janela, junto com os pensamentos dele. Enquanto ele acompanhava o caminho da fumaça, ela o encarava, ao passo que ele, ao perceber o desafio, devolveu o olhar com outra pergunta:

– Por que você veio?

Ela riu.

Pra ter certeza de que você se arrependeu, pra te ver agonizar silenciosamente, bem assim, do jeitinho que você tá fazendo agora…

– Sádica.

– E quanto a você? Por que me chamou?

– Pra lembrar…

Com o tempo, a memória falha. E como se não bastasse falhar, sabota. Ele só lembrava do sorriso dela, da pele lisa, do corpo lindo, do jeito irreverente e falador, das noites em claro fazendo amor. Precisava lembrar dos vícios, ver as vísceras dos defeitos de novo, bem de perto, pra ter certeza de que ela não era mulher pra ele, com aquelas roupas justas, o sutiã que nunca combinava com a calcinha, o cabelo multicolorido, a maquiagem exagerada, as unhas mal pintadas de vermelho aberto, roídas nas pontas, o cigarro fedorento que ela fumava com um charme quase insultante, deixando a marca do batom vermelho de péssimo gosto.

O cigarro durou a eternidade do silêncio, com diálogos espaçados. E ela ainda haveria de fumar outros tantos pra ele lembrar do que precisava esquecer…

Isso se ela não o tragasse antes, entre um cigarro e outro.

(K.: a música que você postou na madrugada caiu como uma luva, veja só… )

Roberta Simoni

Soninha de Verdade

Soninha não queria sair da cama. Menos pela preguiça matinal e mais pela vontade de fazer sexo. De novo. Olhou pro lado e Ricardo dormia profundamente, ressaqueado da noite anterior. Acabou pegando no sono outra vez e não se deu conta do lapso de tempo entre o momento em que decidiu voltar a dormir até a hora em que foi acordada por Ricardo encostando seu corpo no dela, abraçando-a por trás e roçando sua ereção entre as suas pernas. Ela considerava aquele o melhor jeito que um homem poderia encontrar de desejar “bom dia” a uma mulher. Acordaram devorando-se como há tanto tempo não faziam.

Ela só saiu do quarto mais tarde para ir até a cozinha buscar o número do delivery no imã da geladeira. Ele só vestiu um short para receber o entregador de pizza. Até ao banheiro foram juntos, tomaram banho no box apertado entre risadas, shampoo, sabonete e beijos molhados. Transaram no chuveiro. De novo.

Ricardo insistiu para Soninha ficar até segunda-feira de manhã. Poderiam passar outra noite juntos, sairiam no mesmo horário para trabalhar no dia seguinte. Soninha não quis, tinha outro compromisso. Mentira! O único compromisso que tinha era com o medo. Temia se deixar levar e acabar voltando para Ricardo. Ainda gostava dele. Menos do que antes, mas gostava. E era exatamente por isso que não podia ficar.

Passaram-se meses, talvez um ano ou mais, desde que se separaram. Ela saiu com outras pessoas. Ensaiou novos amores, mas ficou só no ensaio. Um dia resolveu ceder às incontáveis e incansáveis investidas de Ricardo. Saíram para jantar. Ele levou flores. Ela levou um escudo invisível. Por trás do escudo, um vestido vermelho impecavelmente lindo.

Era óbvio que ele ainda a amava. Todo mundo sabia. Sempre falava nela e não escondia de ninguém o que sentia, se relacionou superficialmente com outras mulheres e nem delas fez questão de esconder Soninha debaixo da cama ou atrás da cortina.

Como é típico, de longe Soninha voltou a ser a personificação da perfeição para Ricardo. “É a mulher da minha vida!”

Soninha sabia disso. Instintivamente sabia. Por isso, impôs limites à essa “nova-antiga” relação. Usou fitas de isolamento imaginárias. Seria só a Soninha de Mentirinha dele. Ele ficaria com o melhor dela e só nos dias propícios, e ela ficaria com o que de mais maravilhoso ele podia oferecer à Soninha de Mentirinha. Era um plano perfeito… teoricamente.

O que ela – nem ninguém – imaginava era que ele fosse sentir saudades da Soninha de Verdade. Mas ele sentiu. Mais do que isso: a desejou. Quis ficar com ela quando ela teve a primeira crise de TPM, quis acordar ao lado dela também nas segundas-feiras mal-humoradas, sentiu saudades de ouvi-la reclamando do banheiro molhado e dos copos sujos na pia da cozinha. Teve o impulso de buscá-la no trabalho quando falaram ao telefone e sentiu que ela estava num dia ruim. Virou homenzinho. Se tardiamente ou não, só nossa Soninha poderia responder.

O problema é que a Soninha de Verdade temia ser outra além da Soninha de Mentirinha com Ricardo. Por ora estava satisfeita em mergulhar no raso, sentia-se segura e confortável. Talvez, quando sentisse vontade de fazer apnéia numa profundidade maior, desse uma chance a um novo homem ou, quem sabe, uma nova chance a Ricardo? O que sabia era que agora só se sentia capaz de ser a Soninha que ele merecia: a de mentirinha, dentro do seu impecável vestido vermelho. Aquela Soninha que, afinal, ele tanto quis um dia.

Roberta Simoni

Soninha de Mentirinha

Ali Michael por Sofia Sanchez e Mauro Mongiello

À Gabs, por estimular continuamente minha inspiração.

Soninha chegou em casa sem a alma e sem os sapatos. Não sabia ao certo onde tinha deixado sua alma, mas os sapatos, pelo menos, ela trazia nas mãos, em segurança. Bebeu, mas não estava bêbada. Apesar de ter se esforçado a noite inteira para não ficar sóbria, a adrenalina causada pela briga atrapalhou seus planos de diversão. Se negou a entrar no carro de Ricardo na hora de ir embora, apesar da insistência dele por saber que àquela altura da madrugada ela não conseguiria pegar nenhum táxi de volta para casa, mas Soninha é uma amostra dessas mulheres que começaram a pipocar aos montes entre meados da década de setenta e oitenta. Essas que hoje estão entre os vinte e tanto e trinta e poucos anos, independentes, modernas, loucas por sexo, que não perdem tempo com picuinhas e ciúmes bobos e são auto-suficientes, isto é, até a primeira crise de carência aguda.

“Volto a pé, mas não volto com ele, nem que seja descalça porque essa desgraça de sapato me dá um calo terrível, mas é lindo e eu ainda tô pagando…”

Soninha é do tipo de mulher que à primeira vista chama a atenção pela beleza, e à segunda vista chama mais ainda pelo jeito cativante, extrovertido e com um intelecto pra ninguém colocar defeito, apesar dos cabelos loiros aparentemente denunciarem outra coisa. Cabelos naturalmente loiros, longos e lisos, diga-se de passagem. O sonho de toda patricinha que gasta rios de dinheiro com a mesma tintura que a Ana Hickman usa, chapinha de última geração e escova de tudo quanto é nacionalidade. Ela joga o cabelo de um lado pro outro, amarra, solta, faz coques sem o menor esforço nem intenção de fazer charme, o que torna cada movimento despretencioso ainda mais sensual e também insultante para as demais mulheres. Seu corpo não é sarado porque, como ela mesma anuncia aos quatro ventos, prefere gastar seu tempo e dinheiro exercitando seu cérebro a seu bumbum, mas, ainda assim, ele está visivelmente em cima. Não é do tipo de parar o trânsito, mas já fez um sujeito cair da bicicleta ao se perder no decote que deixava parte dos seus seios à mostra, seios que, por sinal, não são de silicone.

A mãe queria que ela fosse médica, o pai, advogada, mas ela saiu de casa com outra ideia na cabeça. Queria ser publicitária, e foi. Mudou de cidade, arrumou trabalho e pagou a faculdade sozinha, depois o aluguel do apartamento, a prestação do carro, e se acha no direito de dividir a conta do restaurante com o namorado quando necessário. Não era o caso de Ricardo. Eles estavam juntos há dois anos e ele nunca deixara ela pôr a mão na carteira, o que ela aceitava de bom grado porque sabia que não era nenhum sacrifício pra ele.

Se conheceram quando Ricardo, que ocupa um cargo de importância numa concessionária, contratou a agência onde Soninha trabalha para fazer a próxima campanha publicitária da empresa. Era ela quem estava à frente do projeto, a ideia tinha sido dela e o processo de criação do produto também. Ricardo não conseguia se decidir se ela era linda, competente, criativa ou gostosa. Na verdade, ela era tudo isso e mais um pouco, coisa que ele foi descobrindo a cada novo encontro profissional e, mais tarde, íntimo. Desnecessário falar que ele se apaixonou perdidamente.

Na verdade, é fácil se apaixonar por Soninha, Ricardo não era o primeiro e nem seria o último. Ela tem qualquer coisa genuína de menina, qualquer coisa avassaladora de mulher e essa mistura dá samba, inclusive na cama.

Ela acreditou mesmo que com Ricardo ia ser diferente. Bem na verdade ela assustava os caras e não era pra menos, sempre com uma resposta afiada na ponta da língua, indomável quando contrariada, destemida e determinada. Teimosa feito uma mula e toda trabalhada no discurso de que não precisa de homem para ser feliz, como se a gente acreditasse. Mas Ricardo gostava do jeito arredio da moça, soava como um constante desafio pra ele, que tinha um jeitinho todo especial de amolecer o coração dela. Quando Soninha se dava conta, estava fazendo tudo o que o Ricardo queria, e com o maior gosto do mundo.

Mas aí, veio a primeira briga boba, a segunda e depois a terceira. Ricardo descobriu que a Soninha perfeita era de mentirinha, a Soninha real sofria de TPM, acordava mortalmente mal-humorada e era tão densa e frágil às vezes. Soninha ficava altamente quebrável quando se sentia carente, coisa que a princípio Ricardo tirava de letra, mas depois de constatar que sua namorada não era tão diferente assim das outras mulheres, foi deixando sua paciência se esvair aos poucos. Até que o episódio do bar, onde discutiram por nada, ou por tudo, tornou tudo muito óbvio: Ricardo até gostava de Soninha, mas nunca esteve apaixonado por ela, mas pela ideia que tinha dela.

Na verdade, é muito mais fácil se apaixonar por uma ideia do que por uma pessoa. E, no mundo de Ricardo, só existia a Soninha segura, feliz, a publicitária que ele tanto admirava. Não estava preparado para lidar com a Soninha insegura, passando por uma crise na carreira e frágil daquele jeito. Não sabia como agir com a namorada e, sem perceber, começou a negligenciar o relacionamento.

Soninha sentiu vontade de chorar, mas não conseguiu, ou queria ter vontade de chorar, mas nem isso teve. Não estava muito longe de casa quando se deu conta de que estava repetindo padrões, namorando caras que, involuntariamente se apaixonavam por um ideal de mulher no qual ela parecia se encaixar perfeitamente, até demonstrar as primeiras falhas ou ficar inoperante em determinados dias. E isso fazia com eles perdessem total ou parcialmente o interesse por ela, coisa que, quando ela detectava, era fatal.

Quando estava entrando em casa, Ricardo ligou preocupado, ela disse que estava bem e que só precisava de um tempo para pensar na vida. Sabia que se separariam, senão amanhã, dali a algum tempo, mas terminou com ele no dia seguinte. Já estava acostumada a ver seus relacionamentos acabando assim, podia até começar diferente, mas sempre terminava do mesmo jeito, achou que não fosse chorar, porque já estava acostumada a sentir aquela dor, mas chorou – e de soluçar. Lá estava sua alma de volta, enfim.

Se olhou no espelho com aquelas olheiras enormes, os olhos vermelhos, a cara inchada, o cabelo embaraçado e desejou que alguém pudesse vê-la naquele instante e se apaixonar por ela bem daquele jeito.

Roberta Simoni

Quando os fantasmas se telefonam

Eu não sei se quem começou primeiro foi ela ou ele, mas eu também não sei se quem nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, nem nunca vou saber, ainda que existam tantas teorias, na prática, ninguém sabe. Eu arrisco dizer que foi o pinto, mas… vai saber?

Só o que eu sei é que um dia se apaixonaram. Namoraram de perto e de longe. Resistiram a distância dele vivendo um ano em Londres. Depois dela em Nova York. Se amaram nos lugares menos prováveis do mundo. Ficaram três dias trancados num quarto de hotel em Portugal, e acreditariam se qualquer um chegasse e dissesse pra eles que estavam, na verdade, em São Paulo ou em Bangladesh.

Sei também que um dia brigaram. Um não, vários. O amor que tinham era doce e se acabou. Ou, pelo menos, foi o que pensaram. Se separaram partilhando lembranças amargas. Tanta mágoa em vão. Não sabiam que o tempo tem memória seletiva e faz questão de guardar só o que foi bom.

Ela lembrou da bagagem que teve extraviada em Lisboa e achou graça vendo suas fotos da viagem, sempre vestida com a mesma roupa. Ele se pegou rindo, lembrando dela usando a camiseta dele por três dias seguidos. Ela sentiu saudades de acordar fazendo amor com ele. Ele se flagrou, de novo, comparando-a com as outras depois dela. Seres nostálgicos. Me disseram que eles se telefonam de vez em quando e assumem a saudade. Como se precisasse…

Sei que ele a esconde no fundo do armário. E dizem que ela o guarda até hoje na gaveta da cabeceira. Nunca se trancaram lá dentro, e fizeram questão de perder as chaves.

Roberta Simoni

Foi (des)propósito

Ela saiu de casa contrariada para comprar absorventes. Ele se arrastou para descer e ir comprar um efervescente para curar a ressaca. Eram vizinhos. Não sabiam. Se esbarraram na farmácia da esquina. Ele cedeu a vez a ela na fila do caixa. Ela agradeceu. Ele desejou que não estivesse com a ressaca estampada na cara. Mas estava. Ela desejou não estar vestindo o seu moletom mais surrado e sua havaiana-rosa-choque-velha-de-guerra. Mas estava. O caixa ao lado desocupou. “Próximo!”. Pagaram ao mesmo tempo. Saíram juntos da loja. Ela foi andando um pouco mais a frente e apostou consigo mesma que ele estava olhando para sua bunda. Ele estava, e até que gostou. Ela também, de ser desejada. Só não gostou mais porque estava vestindo aquele moletom, logo aquele…

Ele acelerou o passo. Ela desacelerou. Ele se ofereceu para carregar sua sacola. Ela recusou. Mas sorriu. “Não precisa, tá leve!”. Ele sorriu de volta com algum esforço, sentindo náuseas. Ela percebeu, achou melhor não perguntar nada. Ele se adiantou: “Gastrite”. Mentira, era o fígado reclamando da noite passada. Ela contou que só ficou boa do estômago com muito chá de boldo. Ele se fingiu interessado. “É mesmo?”. Ela fingiu acreditar no interesse dele. Viraram a esquina. Pararam na portaria do mesmo prédio. “Coincidência!”. Entraram.

Ele abriu a porta do elevador. Ela entrou. Apertou o 8. “Fico aqui”. Ele perguntou se talvez ela não teria folha de boldo em casa. Ela disse que não. Ele se odiou um segundo depois de ter perguntado. “Mas posso ver se consigo pra você…” – ela acrescentou antes de sair, se odiando por ter negado no segundo anterior.

Sorriram sem conseguir disfarçar que o boldo era só disfarce.

E foi com tamanho despropósito que eles começaram a revezar as noites nas camas um do outro. Ela andava desejando um novo amor não era de hoje. Ele andava cansado das noites vazias, de acordar solitário e com a impressão de ter um elefante sentado acomodadamente na sua cabeça. Ela pensou que encontraria alguém interessante numa galeria de arte, no teatro, talvez… Ele ficaria mais contente se ela fosse loira, e um pouco menos magra, talvez… Ele apareceu com olhos fundos de ressaca, mas até que era bem bonitinho, cedeu seu lugar na fila, ofereceu de carregar a sacola dela e abriu a porta do elevador para ela entrar primeiro. “É o homem da minha vida!”. Ela não tinha uma bunda exatamente redonda, mas era bonita, além disso, sua blusa marcava seios rijos e lindos. “Preciso levar essa mulher pra cama!”

Ela descobriu que ele não só era gentil e educado, como sabia cozinhar, era inteligente, bem dotado e bom de cama, sabia fazê-la rir como nenhum outro a fez antes, e – muito importante – não era casado. Ele descobriu que ela não tinha só peitos durinhos, mas até que transava bem direitinho, tinha uma bela tatuagem na virilha, não era dessas mulheres frescas das quais ele andava cansado, era bastante culta, gostava dos mesmos livros que ele e não era uma ciumenta neurótica como as outras. Apaixonaram-se.

Não foi de propósito e mesmo assim – e por isso mesmo – foi lindo. O acaso ignora os planos e as metas, ele ri da cara dos propósitos. O acaso é o sarcasmo em pessoa, fantasiado de coincidência, irônicamente vestido à caráter.

Até foi quase propositalmente que se apaixonaram, quando fizeram a soma de qualidades + vontades, mas foi o despropósito que tratou de esbarrá-los na esquina de casa. E o despropósito estava de havaianas rosa choque, com uma tremenda ressaca, dessas que faz o sujeito prometer que nunca mais vai beber na vida, tinha um pacote de absorvente nas mãos, vestia o seu moletom mais surrado, aquele, sabe…? Que é também o mais confortável e aconchegante de todo o guarda-roupas…

… parecido com o amor que nem sempre aparenta vestir bem, não costuma andar na moda, mas, se duvidar, é a malha mais gostosa de todas e caí bem em você como nenhuma outra.

Roberta Simoni

O Beijo de Melancia

– Quer?

– Oi? Ah… não, obrigada!

– Tem certeza? É de melancia.

– Hummm, ahhh… tá bom, eu aceito. Adoro trident de melancia! É o meu preferido.

– O meu também! Viu? Já temos uma coisa em comum!

– Sei… e você é o…?

– Gustavo. E você?

– Regina.

– E então, Regina, você vem sempre aqui?

– Sempre. E você sempre anda com chicletes no bolso para se aproximar das mulheres?

– Na verdade, não. Só me sinto seguro de fazer isso quando o sabor do chiclete é de melancia. Sempre funciona.

– Infalível mesmo é quando eu digo que “seja-lá-qual-for” o sabor do chiclete que me oferecem é o meu preferido. Para falar a verdade, eu nem gosto de melancia.

– Bom, então posso ousar achar que você queria que eu me aproximasse?

– Ouse.

E foi assim, com gosto de melancia, o nosso primeiro beijo. Afinal, o que mais me restaria fazer a não ser beijar aquela mulher ali, diante de mim, me olhando dentro dos olhos e me dizendo “ouse”. Ousei.

Mas agora, pensando friamente, não sei se fui ousado ou covarde. A verdade – uma das quais nós, homens, nunca assumimos – é que mulheres que nos olham dentro dos olhos assim, num primeiro contato, parecem ser tão seguras que nos intimidam. A gente vive dizendo que não suporta mais se relacionar com mulher insegura, que gostaria que as nossas mulheres fossem mais independentes, que não aguenta mais os joguinhos e as frescuras do universo feminino, que gostaria de ter uma mulher decidida ao lado, e aí, quando ela aparece a gente simplesmente não sabe como agir. Virei garoto, garoto bobo, que não consegue controlar as próprias pernas bambas.

E antes que ela olhasse para baixo e visse os meus pés sambando, eu a beijei. Beijei porque não resisti àquela boca me induzindo a ousar, e porque eu não sabia o que fazer, e também porque tive medo de ser engolido por aqueles grandes olhos negros e não saber nadar tão fundo e tão escuro. Eu sempre tive medo de mergulhar no mar à noite. E ela era mar, e era noite.

Ledo engano acreditar que beijando-a eu estaria nadando no raso. Mergulhei nela. E mergulhamos fundo um no outro, num beijo que durou quase meia hora. A meia hora de silêncio mais barulhenta que eu já experimentei, de suspiros profundos, de palpitações fortes e batimentos cardíacos acelerados, findada com as nossas respirações ofegantes. É… parecia sexo, mas foi melhor: era beijo apaixonado.

E como quem não tivesse me dito – meia hora antes – que não gostava de melancia, ela tirou da bolsa um envelope de trident – adivinhem!!! – de melancia.

E, apesar de termos trocado olhares por dias seguidos antes que eu tomasse coragem de me aproximar dela com o meu chiclete tolo, eu juro, reparei tanto em cada detalhe dela, que não sobrou tempo nem espaço para observar se ela mascava chiclete ou não, quanto mais se era de melancia, menta, hortelã ou tuti-fruti. Mas aí, meus amigos, já era! Não importava o que eu dissesse, ela é mulher, e vai morrer achando que eu planejei tudo. Logo eu, que morria de medo de mergulhos noturnos…

– Mas, espera aí… você não gosta de melancia, esqueceu?

– Esqueci… quer?

– O que? Você ou o chiclete?

– Os dois. Juntos.

E aí vieram outros beijos, vários. Todos sem chicletes como pretextos, alguns com chicletes e sem pretextos, outros sem chicletes e sem pretextos.

… E eu ainda consigo sentir o sabor de melancia do primeiro beijo.

Roberta Simoni