Dane-se o transtorno, precisamos falar sobre separação

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Já faz um ano que falei para o meu ex-marido que eu não queria mais estar casada com ele. A dor dessa decisão, que já vinha crescendo antes desse dia, se esticou por mais alguns, quando, de fato, consegui ter forças para sair de casa. Foi uma dor larga, longa e profunda e, apesar disso, é uma dor que eu recomendo para casos de infelicidades largas, longas e profundas, porque quando ela passa…  quando passa é substituída por uma paz tão boa e generosa, que faz a gente pisar mais leve no mundo, que antes pesava tanto nas nossas costas.

Hoje, quando acordei sozinha, lembrei que faz mais de um ano que acordo sozinha e não doeu. Já não dói há muito tempo. Lembrei de todas as manhãs que eu acordava sozinha porque ele estava dormindo na sala pela milésima vez por causa de alguma birra sem sentido. Eu olhava pra ele, dormindo todo espremido naquele sofá que eu detestava – e tinha deixado que ele escolhesse pra não gerar mais uma briga inútil – e pensava no desperdício. De tempo, de energia, de vida. E de lençóis de casal, que só eu usava pra tentar cobrir minhas angústias, que cresceram até ficarem descobertas, com os pés de fora.

O sofá ficou. Eu fui embora.

É claro que nós tivemos momentos felizes ao longo dos anos que passamos juntos. E nos agarrávamos a eles porque foram reais e tínhamos a esperança de que voltassem a ser. Alguns ficaram registrados em fotos, vídeos, textos. E era através desses registros que a maioria das pessoas nos enxergava, como se fôssemos tão permanentes quanto imagens congeladas numa fotografia. “Mas vocês pareciam tão felizes…” É claro que parecíamos, pois estávamos. Naquele momento. Mas momentos se dissolvem, e evaporam. Só quem tem o privilégio de revivê-los sempre que quiser é a memória.

Ninguém tira fotos durante uma discussão ou enquanto chora no banheiro sem saber o que fazer com os planos incríveis que se tornaram falíveis e com as mágoas que vão se entulhando por todos os cantos da casa enquanto o amor, o tesão e a admiração estão ficando empoeirados no quartinho dos fundos.

Uma das coisas mais dolorosas que se enfrenta ao romper uma relação amorosa é ter que romper com os sonhos sonhados juntos, com a rotina que foi construída e principalmente com a ideia do que poderia ter sido, mas não foi.

Eu descobri que muito mais difícil do que me desapegar da nossa vida, era conseguir me desapegar daquilo que ela poderia ter sido.

Eu não quero dizer com isso que descobrindo ficou mais fácil, tampouco estou dizendo que separação é um processo tranquilo. Nãããão! É um troço medonho. Acaba com as nossas energias. E com nossas economias. Faz a vida da gente virar do avesso. Mas é aí que tá: o avesso pode se revelar surpreendentemente interessante.

Ninguém entra numa relação porque não tem nada melhor pra fazer (ou não deveria entrar). O investimento é alto, em todos os sentidos, e o prejuízo é bem maior do que o de alguém que aposta uma grana alta no cavalo errado. E é por isso que muitos relacionamentos duram bem mais do que deveriam e vão se estendendo até que se encontre um jeito de amenizar os traumas e os desgastes que virão com o rompimento.

Talvez você não esteja preparado para ler isso, então, me perdoe de antemão se eu estiver matando o seu Papai Noel. A golpes de facada. Na sua frente. Mas sabe aqueles casais de velhinhos que você vê juntos e acha muito fofinhos? Então… ELES NÃO ESTÃO FELIZES (afinal, quem é que tá? Já é tempo de parar de superestimar a felicidade, inclusive a conjugal).

Eles podem ter envelhecido juntos por escolha, porque se amam? Podem, claro. Mas pode ser também que eles simplesmente não tenham encontrado um jeito de separar suas vidas e pela força das circunstâncias tenham continuado juntos. Podem ter se acomodado apesar do amor ter acabado. Um dos dois pode ter continuado porque teve medo de partir, ou porque sentiu culpa, compaixão. Ou porque era conveniente. Talvez eles tenham esperado os filhos crescerem, mas aí as crianças viraram adultos, os anos se passaram e eles perderam o timing. As possibilidades são infinitas. Não se iluda achando que uniões duradouras são sinônimos de uniões bem sucedidas.

Separações também não significam que a relação tenha sido um fracasso. Deu certo até parar de dar.

Esse ano teve Jolie deixando Brad, Fátima ficando sem Bonner. Teve Du Moscovis voltando pra pista. Teve Fernanda Gentil(mente) explicando pra gente que se separou do marido porque eles não estavam felizes e mereciam buscar a felicidade em outros lugares. E teve muita, muita gente dizendo que desistiu de acreditar no amor depois de ver que até “casais perfeitos” como esses se separam.

Primeiro engano: não existe casal perfeito, nem casamento. Segundo: separações não deveriam nos levar a perder, mas a recuperar a fé no amor. Casais famosos e anônimos se separam todos os dias justamente porque se atrevem a acreditar que podem voltar a amar e serem amados.

Pessoas permanecem juntas porque apostam no amor tanto quanto pessoas se separam porque não desistem dele. No fundo, tá todo mundo tentando ser feliz, de um jeito ou de outro.

As coisas acabam. E recomeçam. E tá tudo certo. O que não tá certo é se prender àquilo que já se soltou.

E o mundo continua girando.

Roberta Simoni

Preconceito está em um relacionamento sério com Ignorância

Ironia

“Ele é homossexual mas é um cara inteligente”. Li essa frase no Facebook de alguém que não se julga de maneira alguma preconceituoso.

Não foi a primeira vez que li ou ouvi isso por aí. E não consigo enxergar esse comentário por outra perspectiva senão a do preconceito. Pra mim é como dizer, por exemplo, que alguém “é pobre, mas é limpinho”, como se o fato de ser pobre anulasse a possibilidade dessa mesma pessoa possuir a qualidade de limpa, porque é contraditória à sua característica destacada, no caso, a pobreza.

Ser pobre ou homossexual não é defeito, tampouco escolha. Imagine alguém dizendo “ah, meu sonho é ser pobre” ou “a partir de agora quero ser gay porque acho cool”. Além disso, apontar essas características (ou condições) seguidas de qualidades torna tudo ainda mais sofrível. Na verdade, o que está sendo dito é: “ele é gay, mas para compensar essa enorme falha, ao menos é inteligente.”

Quando alguém diz que fulano é gay, mas é inteligente parece que a qualidade não está presente no adjetivo. Ele é gay, portanto está implícito que não é inteligente. Como se a inteligência fosse uma característica exclusiva de heterossexuais e aquele cara ali – que se relaciona com pessoas do mesmo sexo e apesar disso é não é burro – é apenas uma exceção à regra.

O mesmo exemplo se aplica para qualquer outra qualidade que vem depois da conjunção adversativa MAS, que indica clara oposição entre ideias.

“Ele é gay, mas tem um coração enorme”, “ela é lésbica, mas é gente boa”. Os exemplos são inesgotáveis, tais como os absurdos que as pessoas verbalizam, muitas vezes sem se darem conta do preconceito embutido nessas afirmações.

É como se o fato de homossexuais possuírem qualidades fosse um grande consolo para esse tremendo deslize, não de caráter, mas de orientação sexual.

O mais lamentável é alguém achar que está elogiando ou enaltecendo a qualidade do outro desse jeito sem perceber que o preconceito está presente ali, inerente ao adjetivo.

Ninguém se refere aos heterossexuais dessa maneira, mesmo porque se um homem faz sexo com uma mulher e vice-versa, são consideradas pessoas normais. É senso comum. Mas se homens transam com homens e mulheres transam com mulheres… bom, aí tem alguma coisa muito errada, a começar pela anatomia humana, que não foi projetada para esses fins, isso sem entrar no mérito religioso, que julga relacionamentos homossexuais como algo que vai absolutamente contra as leis divinas.

Leis? Meu corpo, minhas regras. Seu corpo, suas regras.

Divinas? Todas as manifestações de amor são.

Refira-se a um homossexual como você se refere a um hetero. Apenas diga o que ele é, sem precisar destacar sua sexualidade como sua caraterística proeminente, sobretudo esqueça o que ele faz ou deixa de fazer entre quatro paredes, isso não te diz respeito, muito menos influencia na personalidade nem nas ações dele enquanto indivíduo. Ou então arrume um defeito de verdade para identificá-lo. Homossexualidade não é desvio de caráter, não é problema, não é doença e passa muito, muito longe de ser um defeito.

Mais do que superar seus preconceitos, você precisa se livrar da sua ignorância.

Roberta Simoni

Procura-se Sentido


Amelie Poulain

Os sábios dizem que a gente veio ao mundo para aprender. Os religiosos defendem a ideia de que viemos ao mundo para evoluir. Os espiritualizados dizem que reencarnamos para queimar carmas. Os cabalistas acreditam que estamos aqui para receber e compartilhar luz. Há, ainda, quem garanta que pedimos para nascer, que escolhemos estar aqui e passar por tudo o que passamos. Não sei a resposta, mas todas essas alternativas fazem muito sentido pra mim, embora a vida, boa parte do tempo, não me pareça ter o menor sentido.

Na minha inocência infantil, eu passei muito tempo achando que eu tinha vindo parar aqui para ser feliz, quando, por fim, notei que felicidade é coisa que dá e passa, assim como os sentimentos de todos os gêneros. Mas então, peraí… a gente tá aqui para sofrer? É isso? Também não. Mas para ser feliz, garanto que não é. Se fosse, felicidade seria uma conquista ou um direito de todos, seria como na música do Chico: “(…) e pela minha lei, a gente era obrigado a ser feliz.” Somos obrigados a fazer uma lista infinita de coisas, muitas em nome da lei, mas cadê a lei que obriga a gente a ser feliz. Cadê?

Vai daí que um belo dia você acorda e descobre que tudo é cíclico. O que é bom por um lado, pois ganha a compreensão de que não há mal que seja eterno, e ruim por outro lado, pois entende também que não há bem que dure para sempre. Ok, entendi, vida. Mas e quando a gente cansa dessa gangorra interminável que é você? Eu, inutilmente, por vezes peço para o mundo parar porque eu quero, desesperadamente, descer. Mas o mundo continua ali, me ignorando e rodando, me ignorando e rodando. Porque, né, eu tô longe de ser o centro do universo.

Uma vez, no parque de diversões, eu fiz um brinquedo parar para eu descer. Aos berros e prantos, sem me importar com a vergonha de expôr o meu medo diante de todo mundo, esgoelando a minha coragem, firmada com tanto afinco após tantas subidas em grandes árvores e escaladas de altos muros, sem me importar com a chacota das outras crianças, eu não dei outra alternativa ao maquinista senão parar a geringonça que me jogava para o alto e para baixo, de um lado para o outro sem parar. Quem dera a vida fosse um parque de diversões. Mas aqui não tem pirraça que faça mudar o curso natural das coisas, não há maquinista que se sensibilize com meus singelos apelos.

Aí a gente acorda, come, toma banho, trabalha, estuda, toma banho, come, dorme e no dia seguinte faz tudo de novo e depois e depois. Tudo isso sem sequer parar para pensar no sentido de cada ação. Nesse intervalo, a gente ri, chora, se sente feliz, triste, animado, frustrado, excitado, angustiado, eufórico, indisposto. Vazio de tudo, cheio de nada, vazio de nada, cheio de tudo.

De repente, um sorriso muda tudo, um beijo, um olhar de cumplicidade, um pôr-do-sol, uma palavra, uma noite bem dormida, uma boa notícia, um orgasmo. Um único gesto traz de volta o sentido de tudo e outro, lá na frente, rouba o sentido das coisas novamente. Um acontecimento ou um não acontecimento. Gangorra acima, gangorra abaixo. Sobe e desce. Vai e volta. Perde e ganha. Cai e levanta. Até o fatídico dia em que a gente não levanta mais. Tudo vira pó, açúcar, nuvem. Lembrança e saudade pra quem fica aqui, de pé.

Vida, essa sucessão de batalhas físicas e psicológicas das quais enfrentamos sem compreendermos nem a metade. Esse mistério que eu nunca vou conseguir desvendar, mas não sem protestar por uma pausa, uma descida do balanço, um tempo da gangorra, um bocado de dignidade e algumas porções (mesmo que venham em pequenos frascos) de qualquer coisa parecida com equilíbrio.

Ah… e o sentido? Bom, acho que só tem um: pra frente.

Roberta Simoni

O poder destrutivo dos fracos

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“Talvez eles tenham razão quando digam que não é justo chamar de falha de caráter o fato de a vida de alguém ter sido sempre mansa, com obstáculos mínimos” (Lionel Shriver – Precisamos Falar Sobre o Kevin)

Vejo nos fracos uma obstinação admirável, especialmente em continuarem na posição de fracos porque, afinal, dessa forma ninguém pode cobrar nada deles, já que todos os enxergam exatamente como eles se esforçam para serem vistos: seres frágeis, dependentes, incapazes, coitados e, portanto, injustiçados. Nessa ordem.

Os fracos são propensos, por natureza, à indignação. Se, em algum momento, passa por suas débeis cabecinhas que eles mesmos podem lutar pelo que quer que seja, bom… eles tratam de se livrarem dessa ideia tola imediatamente e optam por continuarem sustentando a teoria de que alguém precisa fazer isso por eles, simplesmente porque eles nasceram assim: fracos, sentindo profunda complacência por si próprios e imensa compaixão por sua condição, ainda que eles tenham todos os braços, todas as pernas perfeitamente saudáveis e, de quebra, um órgão fantástico em pleno funcionamento: seus cérebros. Dotados, inclusive, de esperteza e sagacidade suficientes para continuarem articulando nos seus “genitores de subsistência” a certeza de que não conseguem fazer absolutamente nada sem apoio, seja financeiro ou emocional. Ou, na pior das hipóteses, os dois.

Embora eu ainda não tenha filhos que dependam de mim, muito menos pais, visto que os meus só somam na minha vida, quando eu me vejo como genitora de filhos adultos que eu nunca pari, vejo também minha mais profunda indignação se manifestando. Caberia, nesses breves momentos de revolta, uma dose de aceitação com uma pitada de compreensão, partindo do princípio básico de que as pessoas são diferentes umas das outras, que umas são mais fracas, outras mais fortes e que não é porque eu sempre corro atrás (e até na frente) do que preciso e/ou quero que posso achar que todo mundo tem que ser igual.

Não se engane, não estou falando de auto-suficiência. Ninguém é 100% auto-suficiente, graças a Deus. O fato de precisar correr para o colo da minha mãe quando meu mundo cai, nos torna mais cúmplices, o fato de dividir o aluguel, a conta do restaurante e as angústias com o meu namorado, nos torna mais parceiros. O fato de gostar de ter uma mão amiga quando, porventura, enfrento um problema de saúde, me torna mais humana. Mas, o fato de ver alguém com as mesmas capacidades físicas e mentais que as minhas, a mesma idade, o mesmo conhecimento sobre o fundamento básico do capitalismo, a mesma noção de que dinheiro é fruto de suor e trabalho e, em contrapartida, a diferente disposição de meter a cara no mundo e se virar sem dizer que não consegue sem antes nem sequer ter tentado, me impressiona. É mais fácil e bem menos trabalhoso se escorar em quem tá aí, na batalha.

Dependentes físicos, emocionais e (temporariamente) financeiros eu já tive uns tantos, da mesma forma que também já fui. De modo que sei que ainda terei outros dependentes ao longo da vida e, com as voltas que o mundo dá, posso voltar a depender da ajuda de alguém a qualquer momento. Mas me recuso a cultivar dependentes da acomodação, da preguiça e da falta de vergonha na cara. E isso pode até não fazer de mim uma pessoa melhor mas, sem dúvidas, menos fraca. Aceitar manter sangue-sugas no meu pescoço de forma passiva não me torna lá muito diferente deles.

Não são só os ladrões os vilões e anti-heróis da sociedade, eles não são os únicos que nos roubam e sugam de nós até o que não temos. Os maiores e mais nocivos vampiros são os fracos, que sugam dos fortes (ou dos menos fracos) tudo o que podem. E eles sempre querem mais, como todo bom e velho vampiro. Quanto mais sangue suga, mais sede tem. E em nome do seu desejo, pouco importa que inocentes tenham que ser sacrificados.

O peso de um único fraco na vida da gente é maior do que a força de duzentos fortes. E eles se sentem inteiramente confortáveis em serem carregados nos nossos cangotes sem nunca, jamais, cogitarem a hipótese de colocarem seus pés no chão e caminharem sozinhos de vez em quando para, quem sabe, nos pouparem de uma grave escoliose que, inclusive, nos impedirá de continuar carregando o fardo de suas existências.

Não tenho certeza de como essa gente consegue lidar com dificuldades de verdade, depois de exercitar com tanta frequência seus plenos poderes de consternação com a vida. Aliás, também tenho minhas dúvidas sobre o que elas fazem com as responsabilidades que lhes são impostas, visto que sequer sabem o que fazer com suas próprias vidas, já que passam todo o tempo dependendo da boa (e da má) vontade, do suor e da dedicação de terceiros que fazem por elas o que nada nunca as impediu de terem feito por conta própria.

A fraqueza e a obstinação puras e simples são mais duráveis do que a força e a coragem, embora não sejam mais bonitas, tampouco mais dignas.

Roberta Simoni

É, Robison, não tá fácil pra ninguém!

Robison e Renata

Houve um tempo em que eu me vangloriava por ser extremamente sincera e, portanto, me sentia diferente da maioria das pessoas. Esse tempo, naturalmente, passou. Ninguém consegue manter vanglória alguma por muito tempo. Não demora muito e toda essa arrogância vai pro ralo. Pois bem, passada essa fase, outra se iniciou: a questionadora e lamentadora: “por que eu sou assim?”; “Por que não consigo evitar?”; “Por que as pessoas não são sinceras comigo como sou com elas?”; “Óh Deus, como sofro por não conseguir dissimular…”. Em suma: enfrentei a fase dramática e vitimista ou, como eu gosto de chamar de “Ai-que-dó-de-mim-por-ser-assim”.

Mas, nada como levar uns tabefes da vida para me situar e tratar de sair da confortável posição de vítima. A gente é o que é e ponto final. Por sorte, somos também seres mutáveis, passíveis de transformações constantes, provocadas pela vida ou forçadas por nós mesmos. Uma vez compreendendo isso, consegui controlar um pouco mais o meu “instinto sincero” e hoje posso até afirmar que existem pessoas que nem sequer imaginam o que penso a respeito delas. Poucas… bem poucas, é verdade, mas existem.

Para que isso fosse possível, fiz um exercício infinitamente mais difícil do que séries sequenciais de abdominais invertidas: comecei a escutar mais e falar menos. Afinal, não é por acaso que temos dois ouvidos e uma boca só.

“Com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado.” (Millôr Fernandes)

Talvez seja porque eu ainda não tenha chegado aos quarenta ou porque, como ser humano comum e limitado, eu demore bem mais tempo para alcançar a sabedoria de alguém como Millôr ou, na pior das hipóteses, talvez não haja mesmo jeito para mim. O que sei é que, por mais que eu tenha evoluído alguma coisinha ao longo dos meus quase 30 anos de vida, a tentativa de ficar calada nem sempre funciona. Tive – e ainda tenho – meus dias de recaída. O último, inclusive, faz poucas semanas, quando caí numa cilada ao aceitar um trabalho sem supor que estava comprando gato por lebre. Fui contratada para fazer um serviço específico e, quando fui realizá-lo, descobri que era outro, infinitamente mais complexo e trabalhoso do que a proposta original, que omitia as informações reais para baratear minha mão de obra. Bacana, né? Fiquei perplexa, achando que alguém fosse surgir na minha frente a qualquer momento pulando e gritando “Rá! Pegadinha do Malandro!”

Mas não era pegadinha, era só malandragem mesmo!

Como manter a passividade do meu animal sincero nessa hora? Impossível. Retomei à velha forma e não terminei o trabalho sem antes despejar tudo que eu pensava a respeito daquela atitude, no mínimo, desonesta. Descartei o filtro da sinceridade e andei algumas casinhas para trás… acontece nas melhores famílias.

Hoje, no entanto, percebo que os meus maiores deslizes não tem sido cometidos com os outros, por ser excessivamente franca ou por deixar de ser, por falar ou por calar, por dar ou omitir minha opinião. Não… o maior deslize que ando cometendo é contra mim mesma, por tentar suportar todas as minhas próprias verdades de uma só vez, empurrando-as goela abaixo, como se estar ciente e lúcida de tudo pudesse me salvar, enquanto todos nós sabemos que a verdade, muitas vezes, condena.

E aí, cansada de bancar a “Renata ingrata” (e deveras sincera), pichando no muro da minha própria consciência, dizendo que ainda me amo, mas que perdi o tesão por mim mesma, eu vou lá e banco o Robison e, magoada e ressentida com tal declaração, apago o recado lá no meu muro e tendo fingir que nada aconteceu, que nada foi revelado, torcendo para que aquele “Adeus” da Renata seja, de fato, definitivo. Mas nunca é.

Ela sempre volta para sambar na cara da sociedade que nada nem ninguém vão impedí-la de escrachar a verdade, doa a quem doer, suje a quem sujar, pois ainda há muitos muros brancos para ela pichar com suas verdades indecentes e dolorosas.

– Mas, Renata, nem todas as verdades são para todos os ouvidos.

– Mas, Robison, nem todas as mentiras são para todas as bocas.

Roberta Simoni

O preço da independência feminina

Mulheres Independentes

A maioria das mulheres solteiras que eu conheço possuem uma característica em comum: são independentes. E isso é uma coisa que me intriga há muito tempo mas só agora resolvi trazer à tona. Não só porque é um assunto delicado, que mexe com o movimento feminista e toca na ferida dos machistas mas, porque, acima de tudo, eu demorei muito tempo para entender – eu disse entender, não aceitar – que mulheres independentes sofrem preconceitos reais.

Há poucos dias uma amiga veio me contar, indignada, que estava saindo com um sujeito que, depois de alguns encontros, virou-se pra ela e disse: “eu jamais namoraria você… não dá para controlar uma mulher tão livre e independente assim.”. Comigo o mesmo já aconteceu, só que de maneira mais sutil e menos franca. O rapaz aí em questão assumiu seu machismo, coisa que, nos dias de hoje, a maioria dos homens disfarça ou mascara e nós só vamos descobrir que o bom moço por quem nos apaixonamos é um tremendo machista enrustido tempos depois, quando a parte racional do nosso cérebro já está seriamente comprometida.

Minha mãe sempre me disse que eu assusto os homens e eu sempre me assustei com essa afirmação tão enfática dela. E inconformada, questionava, “mas, por que isso, mãe?”. A resposta é simples e mesmo assim, meia volta eu preciso que ela desenhe novamente para mim, especialmente quando saio frustada das minhas relações.

Aos 13 anos de idade comecei a trabalhar e a ganhar meu próprio dinheiro. Aos 18, saí de casa e fui morar em outra cidade, sozinha. Trabalhei, estudei, estagiei, viajei e paguei, sem a ajuda de ninguém, minha própria faculdade, minha carteira de motorista, meu aluguel e as calcinhas que visto. Em dez anos, morei em várias cidades, tive diversos endereços e atualmente moro sozinha num apartamento pequeno que cabe no meu orçamento de jornalista freelancer e, apesar de ainda ter um caminho longo a percorrer para realizar meus sonhos e objetivos, sou feliz na minha condição de mulher livre, contudo, hoje, perto de completar 30 anos, sinto o peso das minhas conquistas.

Isso mesmo, o peso. Nessa década de caminhada solitária em busca da minha realização pessoal e profissional me envolvi com homens que, em sua maioria, admiravam a minha postura mas que, no entanto, não seguraram o rojão de ter ao lado uma mulher que toma suas próprias decisões, que não pede permissão para ir ao bar com as amigas ou para viajar sozinha no fim de semana para se isolar e pensar um pouco na vida. Ao que parece, o fato de não sermos dependentes deles é um problema. Em contrapartida, nós, mulheres, não suportamos um companheiro emocionalmente dependente de nós, e isso não tem nada a ver com machismo ou feminismo, mas com amor, ou melhor, com a nossa forma de amar.

Mulheres independentes amam de forma diferente, amam de forma, digamos… independente. É como se, com as nossas atitudes, disséssemos assim para eles: “Olha, meu amor, eu te amo, mas precisar, precisar mesmo, eu preciso do meu trabalho, dos meus projetos, preciso me realizar, mas quero ter você ao meu lado em cada conquista. Você topa seguir de mãos dadas comigo?”. E eles entendem assim: “Querido, eu até gosto de você, mas como eu sou uma mulher livre e independente, eu saio por aí dando para quem eu quiser, tudo bem?”. E é claro, eles não aceitam, não entendem e se recusam a ter ao lado uma mulher cuja vida ela própria controla.

E o que temos é uma geração de mulheres bem-sucedidas, com carreiras cada vez mais sólidas e… sozinhas. Mulheres independentes dependentes de carinho, com um potencial surpreendente para amarem e serem amadas, mas que assustam tanto os homens com sua autossuficiência que acabam se vendo abrindo mão – não por escolha, mas por imposição subconsciente da sociedade – a não terem uma vida amorosa (só para esclarecer: eu tô falando de amor, não de sexo!) para continuarem conquistando seu espaço.

É claro que existem homens que não só não se importam como se orgulham e vibram por terem ao lado uma parceira com essas características mas eles estão em minoria. O machismo persiste e os homens ainda se sentem intimidados e inseguros com mulheres decididas e determinadas a serem, acima de tudo, plenas.

Da mesma forma que cabe a eles, cabe a nós também o desejo e a capacidade de desempenhar diversos papéis. Eu quero ser uma profissional reconhecida e bem remunerada, quero ser uma boa mãe e quero também ter um parceiro que não só compreenda como compartilhe dos mesmos desejos e vontades, inclusive da necessidade de distração e diversão nos intervalos disso tudo, seja individualmente ou em dupla. E, tenho certeza, não é querer demais.

Roberta Simoni

E se…?

Eu não posso dizer que estou curada, ainda é cedo para fazer tal afirmação. Sou como uma paciente em pleno tratamento que, frequentemente, têm recaídas. Mas garanto que já estive pior.

Já fui do tipo que não passava uma só hora do dia sem me questionar, começando sempre com a mesmíssima introdução barata e previsível: “mas, e se…”. E se eu tivesse ido, e se eu tivesse ficado, e se eu disser, e se eu calar…???

Ainda coloco “e se” em um monte de lugares e situações onde, definitivamente, eles não deveriam estar. Só que, hoje em dia, faço isso numa escala muito menor do que eu fazia antigamente. E se vocês estão esperando que eu diga que eu passei a olhar para frente, que eu aprendi com meus erros ou que eu evolui enquanto ser humano, sinto muito, estimados leitores, mas eu simplesmente fiquei mais preguiçosa.

Pensar sempre no que – e como – poderia ter sido se eu tivesse feito tal coisa de forma diferente, se eu tivesse escolhido ir por ali e não por aqui e coisa e tal, é mais exaustivo do que correr uma maratona. Tá certo que eu nunca corri nem sequer meia maratona, 5km foi a distância máxima que eu já alcancei (e morri de orgulho por isso!), mas posso afirmar que nada, nada demanda tanto gasto de energia quanto ficar remoendo o passado e temendo o futuro, como se fosse possível interferir em qualquer um dos dois.

Muito mal tenho algum domínio sobre o meu presente, o que dirá sobre o passado ou o futuro, mesmo assim ainda perco um tempo precioso tentando descobrir como teria sido  se eu não tivesse entrado naquele avião, se eu tivesse passado naquele concurso, se eu tivesse feito aquela outra faculdade, se eu não tivesse pedido demissão daquele emprego, se eu não tivesse me mudado, se eu tivesse ido embora, se eu tivesse dito sim e se tivesse dito não…

A gente tá sempre escolhendo, seja entre tomar sorvete de chocolate ou de baunilha, lanchar no MC Donald’s ou comer uma salada, casar ou comprar uma bicicleta, viajar ou juntar dinheiro… e não importa quais sejam as nossas escolhas, é bom que a gente acredite que foram as melhores, porque se tem uma coisa que nunca vai dar para saber é como teria sido se…

Dizem que tudo está escrito, que as coisas já estão todas determinadas e destinadas a acontecerem a partir do momento em que nascemos. E se isso for verdade? Então, no fundo, tudo isso é Deus brincando de deixar a gente acreditar que decide alguma coisa, só pra gente não se sentir tão impotente?

Taí mais um “e se” para se pensar. Taí mais um “e se” que eu não quero pensar agora…

Doutor, cadê meus remedinhos?

Roberta Simoni

O inferno são os outros

O cheiro da pólvora ao riscar o fósforo. A água fervendo no fogão velho. O café com açúcar. As ruas ainda vazias. Os pés pisando em folhas secas. O primeiro raio de sol batendo no rosto gelado na manhã de inverno. A música tocando nos fones da alma. O cachorro de rua abanando o rabo. O plástico bolha. A palavra escrita. O gosto da Nutella no pão dormido. Os sonhos de quem não dormiu ainda acordados. As angústias dormindo até mais tarde. Meus dilemas sonolentos e silenciosos até agora. O banho quente e demorado antes de ir para o trabalho: de todas as minúsculas felicidades do meu dia, nenhuma até agora inclui pessoas.

Vejam bem, apesar de parecer, não sou leviana… assumo que muitas das minhas alegrias são provocadas por outras pessoas… mas as desgraças também.

Sou filha de Paulo Cardoso, sendo assim, não é de se estranhar que eu deseje 100 vezes por dia ir embora, morar numa casinha de pau-a-pique, lá no alto do cerrado, para onde eu levarei a Rosinha depois de tudo arrumado. Só eu, a Rosinha e uns quadros colados na parede com fita durex. E se um dia Rosinha chegar dizendo que quer morar na cidade, eu vendo aquela merda e a Rosinha que se foda, eu vou morar num puteiro.

Morar com a tal Rosinha não é exatamente o que eu desejo para o meu futuro, tampouco num puteiro. Na verdade, eu só estou me apropriando do poeminha infame que eu aprendi com o meu pai, contado (e mal cantado) pelo também infame Ary Toeldo. Mas, o fato é que mandando a mala da Rosinha à merda ou não, querendo morar numa casinha de pau-a-pique ou num puteiro, parece que não há muitas alternativas. No fim, a vida é isso mesmo: um grande puteiro. Todo mundo querendo foder todo mundo, e antes fosse no melhor sentido.

O problema não é a casinha, nem a ingrata da Rosinha. O problema é querer que a Rosinha goste da casinha, é esperar que ela seja grata pelos quadrinhos que o sujeito colou para ela na parede com tanto carinho e alguns metros de fita durex.

Agora pense em várias casinhas com várias Rosinhas dentro. Isso é, basicamente, a sociedade. Tem sempre alguém decepcionando e/ou sendo decepcionado, ferrando ou sendo ferrado na arte (ou desastre?) do convívio.

Quando o ser humano não está ocupado criando expectativas, está criando atritos, conflitos e enormes equívocos. Todo mundo competindo o tempo inteiro para ver quem é o melhor e o mais forte enquanto o que deveria importar mesmo é conseguir ser mais flexível. Competição, inclusive, é uma coisa que nunca vai entrar na minha cabeça. Pra mim, competir só faz sentido se for por medalha olímpica, fora isso, acho desperdício de tempo e energia.

Estão comprando brigas que nem são deles só pelo prazer de brigar. Inventam lorotas, falam abobrinhas, alugam meus ouvidos, mas nunca me pagam o aluguel. Levantam a voz no lugar de melhorar os argumentos. Andam comendo ovo e arrotando caviar, embrulhando o meu estômago e a minha vontade de manter o convívio que, diga-se de passagem, nunca foi lá muito grande.

Seres humanos me atraem e me repelem na mesma medida, peso e proporção. Não por acaso, eu ando pensando excessivamente na Casa do Sol, onde vivia a diva Hilda Hilst, num belo sítio, rodeada por livros e cachorros.

Enquanto isso, eu vivo na cidade, rodeada de gente, ora adorando, ora buscando enlouquecidamente a indicação de saída mais próxima. Ainda sem uma casinha no meio do mato para onde eu possa fugir. No entanto, para o azar dos meus estimados leitores, continuo munida de um computador conectado à internet, bancando a Phina enquanto digitocheia de desaforos na ponta dos dedos.

Roberta Simoni

Festa estranha com gente esquisita

O mundo tá cheio de gente, repleto, lotado… é verdade. Agora, tenta achar alguém que te interesse de verdade nessa multidão pra você ver como o mundo não começa, de repente, a parecer despovoado, deserto, terra de ninguém.

Nem se eu usasse todos os dedos das minhas mãos (e dos meus pés) daria para contar a quantidade de gente bacana que eu conheço que está solteira à procura de uma pessoa minimamente compatível para tomar milkshake no mesmo canudo enquanto conversam sobre trivialidades, dormir (depois passar a noite em claro) na mesma cama e, com sorte, compartilhar os sonhos e dividir a conta do jantar. Assim, nada muito sofisticado.

E eu nem estou falando só da quantidade de mulheres bonitas, independentes e inteligentes que estão sozinhas, mas dos homens também. Não estão em quantidade tão numerosa quanto as mulheres, mas reclamam exatamente da mesma coisa: só tem gente maluca!

Nós reclamamos que só encontramos homens malucos e eles reclamam que só aparece mulher louca! Gente, o hospício é aqui e agora. Ninguém percebe porque toda essa gente doida anda fantasiada de sanidade por aí, disfarçados dentro de vestidos tubinho na night carioca, de terno e gravata na Avenida Paulista, por trás de sorrisos lindos artificialmente clareados, em páginas de Facebook, @s de Twitter e fotos com filtros bonitinhos no Instagram.

Como identificá-los? Simples! Pena eu não fazer a menor ideia, caso contrário eu não permitiria que malucos ainda entrassem na minha vida, fizessem estragos consideráveis e depois saíssem por aí, bagunçando a vida de outras mocinhas indefesas como eu. Ok, nem tão indefesas, nem tão mocinhas assim, mas, no mínimo, ingênuas.

Agora, quer atrair gente doida de todas as idades, cores, tamanhos e classes sociais? Pergunte-me como.

Veja bem, não me refiro aos esquizofrênicos diagnosticados e tratados em clínicas psiquiátricas. Costumo me entender muito melhor com eles do que com gente considerada “normal” pela sociedade. Me refiro aos loucos que sequer supõem que são loucos.

A maluca disfarçada de auto-suficiente que fala em casamento no segundo encontro. O doido travestido de bom moço que se apaixona pela moça, manda flores, pede em namoro e, uma semana mais tarde, se nega a beijá-la porque perdeu o interesse na menina. A desesperada que parece sensata e manda 20 torpedos por dia. O conservador que se passa por liberal e desmerece a mulher que transou com ele no primeiro encontro. A bandida que incorpora a santa e se nega a sair com o cara depois de não saber mais como se insinuar pra ele. O medroso que banca o destemido e foge ao primeiro sinal de envolvimento. E assim caminha a humanidade…

Passar por situações como essas tem lá suas vantagens. Eu só não descobri ainda quais são. Talvez seja bom porque pode-se eliminar, logo de cara, qualquer possibilidade de levar adiante alguma coisa com alguém que apresente um desses comportamentos suspeitos. O problema é quando os sinais não são tão claros e só começam a ficar evidentes depois de um tempo: o bonzinho-bonitinho-da-mamãe só revela que é sadomasoquista depois de um ano de namoro. Ela só confessa que é fã do NX Zero na porta da igreja. Tenso.

Enquanto isso, gente interessante de verdade se esconde em casa porque perdeu a fé na humanidade ou porque está com medo e/ou preguiça de se relacionar de novo.

E lá fora tá rolando aquela festa estranha com gente esquisita que eu ando me recusando a participar.

Roberta Simoni

Amar é… (ou A Romântica Enrustida)

Já era madrugada quando o telefone tocou. Era a minha avó. Também estava com insônia e, sabendo que eu sofro do mesmo mal, me ligou para colocar a conversa em dia. As coisas não mudaram muito desde a época em que ficávamos acordadas até tarde na sala da casa dela, assistindo o programa do Jô, conversando e fazendo crochê. Pensando bem, mudaram sim. Tudo mudou. Menos o fato de continuarmos insones, ela lá e eu cá.

E aí quando eu me vejo contando para a minha avó sobre a minha última empreitada amorosa e escuto ela contando sobre como ela tem feito para livrar-se do meu avô que, aos 85 e gozando de uma saúde bem precária, ainda teima em dar umas investidas sexuais na relação – sem sucesso, pois minha véia não quer mais saber dessas saliências – eu percebo que não tenho uma família, tenho amigos de bar. O que, com muita sorte, dá na mesmo.

É claro que nem todo mundo lá em casa é assim, tão moderninho. Minha irmã, por exemplo, tem quase a mesma idade que eu e é mais conservadora do que a minha mãe e a minha avó juntas. Eu jamais ligaria para ela contando sobre uma frustração sexual, por exemplo, como já fiz com a minha mãe. Mais de uma vez, é verdade.

Minha mãe e eu já fizemos compras em sex shop juntas. Pois é. Diante disso é difícil imaginar que falar sobre sexo seja um problema pra mim ou que haja qualquer outro assunto que me intimide ou me bloqueie. Mas há. Ninguém é assim tão bem resolvido a ponto de conseguir transitar descalço por todos os universos com a maior segurança do mundo, sem medo de entrar um espinho no pé ou de pisar num caco de vidro.

O que me intimida? O amor. Esse bicho de sete cabeças grandes e monstruosas, com cara de bicho papão. Amor e matemática. São duas coisas que – dizem – têm lógica, mas eu não compreendo lá muito bem. Faria sentido para mim se fosse uma equação mais ou menos assim: eu + você + amor = felicidade. Mas sempre tem algo a mais. Ou a menos.

Falo do amor romântico, desse que faz a gente se imaginar vestida de branco, segurando um buquê de flores e dizendo sim para um noivo bonitão tipo o Ken da Barbie. E se eu falo tanto sobre o amor e se escrevo sobre ele com uma frequência considerável, não significa que eu saiba o que estou dizendo sempre. Sinto decepcioná-los caros leitores, mas, às vezes, eu não faço a menor ideia. Ok, quase sempre.

Bom, eu idealizo. Nisso eu sou boa. Eu invento. E eu minto. Eu crio. E eu até vivo um pouquinho do que eu escrevo de vez em quando. Não é como se eu não soubesse amar. Não é como se eu soubesse também. Eu penso que sei, mas posso estar equivocada, tanto que se você me surpreender com um pergunta do tipo “o que é o amor?”, eu vou demorar tanto para te responder quando se você me perguntar quanto é sete vezes oito.

Calma, eu ainda tô pensando! … Cinquenta e seis? Certo? Certo!

Ah… o amor? Bom. Isso é muito relativo. Vai de pessoa para pessoa, depende. Tá… eu tô enrolando. Tá vendo? Eu me perco. Fico com medo de ser piegas, de parecer idiota. Não fui preparada para isso. A verdade é que os tempos mudaram, o amor romântico tá na moda de novo, é a tendência dessa estação e, ao que tudo indica, da próxima também, e eu sou péssima para seguir qualquer tipo de modismo. Tenho meu próprio estilo de mulher moderna, independente e… bom, de romântica enrustida.

Veja bem, os tempos são outros. Eu nasci numa época em que as mulheres sonham com carreiras de sucesso e cargos importantes. Um bom marido, na maior parte das vezes, funciona como um acessório de enfeite, um brinco de diamantes, uma pulseira de ouro, um anel de esmeralda. Em suma: virou artigo de luxo. Muitas sonham, poucas têm. A maioria acaba se conformando em conseguir ser bem sucedida profissionalmente. Embora haja quem ande por aí, exibindo um amor falsificado pendurado na orelha.

Fosse o amor tão simples como nas figurinhas do “Amar é…”, seria tudo mais interessante e divertido. E talvez seja. A gente é que complica, idealiza demais e realiza de menos. O meu amor talvez seja como o meu álbum de figurinhas do “Amar é…” que, desde criança, eu colecionava e já naquela época eu devia ser uma romântica em potencial, só que enrustida. A coleção ainda não tá completa e eu ainda tô saindo do armário. Mas olhando assim, para essas figurinhas todas, amar me parece coisa demais. Amar é coisa que muita gente tenta. Amar é muita coisa para quem tenta. Amar é coisa de gente grande em figurinha pra criança. Amar é coisa muita pra pouca gente e pra muita gente, é pouca coisa.

Pra mim (respondendo, por fim, à fatídica pergunta), o amor é um não-ideal. Não tem fórmula, lógica, razão nem por quê. O amor deve ser qualquer coisa parecida com uma vontade insubstituível e irresistível de acordar todos os dias e ver aquela mesma pessoa ali, do mesmo lado da cama. O resto inventa-se, o resto dá-se o nome que quiser…

Roberta Simoni