Dialogando no Escuro

11986920_534492090037212_1941642039491381151_n

Quando o Mário Di Poi, meu amigo paulistano, me convidou para visitar a exposição “Diálogo no Escuro” e me contou que a INPUT Arte Sonora era responsável pela produção e instalação de som, fiquei animada. O trabalho desses caras é sempre incrível e eu sou fã de carteirinha do Alexandre Guerra, amigo querido, que foi quem compôs a trilha sonora da exposição.

Mas até aí tudo que eu sabia era que havia um dedinho do Alê e do Mário na exposição e isso já era um prenúncio de boa coisa, mas foi só quando cheguei no Museu Histórico Nacional e entrei na exposição é que comecei a ter uma vaga noção da experiência que eu viveria nos próximos minutos. Mesmo assim ainda era uma noção muito, mas muito vaga.

De antemão já digo que, de todas as exposições interativas que visitei até hoje, essa foi a que mais gostei e a que certamente nunca vou esquecer do que “vi”, impossíveis de fotografar e de registrar com a memória visual porque – como o nome da exposição já sugere – ela acontece toda no escuro e, na ausência do sentido da visão, os outros sentidos (especialmente o da audição e do tato) ficam apurados e viram os nossos “olhos”.

O conceito da exposição é mostrar como é o mundo sem o sentido da visão. Os visitantes são conduzidos por guias deficientes visuais através de salas totalmente escuras, em que cheiro, som, vento, temperatura e textura apresentam as características de ambientes cotidianos como parques, ruas, comércios e praias.

Durante 45 minutos a sensação é a de estar na pele de um deficiente visual. E o que eu achei mais emocionante durante o percurso foi ter confiado plenamente cada passo meu na voz da minha guia, que também não podia ver, mas já condicionada à cegueira, é capaz de enxergar no escuro tudo o que eu não consigo ver.

Dentre as várias sensações, reflexões e desafios que a exposição proporciona, a de sair da nossa zona de conforto para mergulhar num universo completamente novo é uma das mais ricas. Nessa inversão de papeis, somos nós que damos passos cegos num terreno desconhecido e que, no entanto, é o mundo comum dos nossos guias.

Logo que se entra no primeiro ambiente, mesmo com a possibilidade de se apoiar nas paredes e usar a bengala, a sensação de cegueira absoluta é um tanto angustiante. Nossos olhos aflitos ficam buscando algum ponto de luz para usarem como referência e, como não encontram, nossa audição toma o controle da situação e é a voz de quem nos guia que nos conforta e nos faz sentir seguros, além, é claro, da consciência de estarmos dentro de um ambiente especialmente projetado para que pessoas sem o menor traquejo consigam transitar no escuro em segurança.

Quando a angústia passa e nos sentimos mais à vontade no breu é que começamos, de fato, a dialogar no escuro. E é aí que a magia acontece.

A exposição já passou por vários lugares do mundo, esteve em São Paulo e está no Rio desde o começo de março e eu não teria ouvido falar a respeito dela se não fosse pelo envolvimento dos meus amigos na montagem. Tenho falado da exposição para todo mundo na intenção de divulgá-la, uma vez que não vejo divulgações pela cidade e considero uma experiência única e imperdível, tanto que repeti a dose ontem, com a desculpa de levar minha amiga Gabs para conhecer.

As duas visitas foram incríveis. Se a primeira foi mais emocionante pelo fator surpresa, a segunda foi mais interessante, pois já estando um pouco familiarizada com o ambiente, consegui prestar mais atenção nos detalhes e testar melhor meus sentidos. Cibele e Verônica, as duas moças que me guiaram durante minhas visitas, foram adoráveis (e pacientes, respondendo minhas perguntas, que não foram poucas) . Foi graças a elas também que o passeio foi tão prazeroso.

Mais do que isso não vou dizer pra não dar spoiler e para que você, que tá no Rio (ou que estará nos próximos meses) termine de ler esse texto e vá correndo viver essa experiência. A exposição fica na cidade até outubro, mas há um limite de visitas por dia, por isso os ingressos (R$12 – inteira) são vendidos antecipadamente. Mais detalhes aqui.

Acho difícil alguém sair daquelas salas escuras do mesmo jeito que entrou. Minha empatia natural por deficientes visuais só fez crescer. Mais do que enxergá-los com outros olhos, eu também passei a ver a vida sob uma perspectiva diferente (e eu não tô falando só da ótica visual). Além de sensibilizar e conscientizar, a exposição aproxima universos e quebra barreiras.

Mexeu comigo de um jeito que eu ainda não consigo descrever. Alcançou uma parte de mim que na claridade não dá pra ir porque é impossível encontrar o caminho. Um lugar que só se chega tateando o escuro. Uma paz que eu só encontro quando me perco.

Uma vez um moço fazedor de poesia, domador de palavras e notas musicais, de olhar inquieto e e gestos doces, passou por aqui e disse que meus olhos são como o breu. Talvez seja isso.

Roberta Simoni

A cobra da minha avó

Cobra de Estimação

Dona Norma, minha avó paterna, nunca se encaixou no estereótipo da avó tradicional dos anos 80. Era uma senhora baixinha e gordinha, fora isso não tinha qualquer semelhança com a Dona Benta. Foi criada de maneira rígida e com rigidez criou os filhos. Não era lá muito maternal, tampouco sutil. Falava aos berros e vivia se queixando da vida. Os domingos de visita à sua casa entrariam para a lista dos mais entediantes nas minhas recordações.

Vovô Chiquinho – que ainda vive mas nem tanto, pois está acamado há muitos anos, em estado vegetativo – era quem conseguia tornar aqueles domingos menos torturantes, sobretudo quando o encontrávamos de péssimo humor. O mau humor era seu estado natural, mas havia dias em que nem ele se suportava e quando calhava disso acontecer num domingo era uma tremenda sorte nossa! O velho rabugento falava e gesticulava sem parar, sempre indignado com alguma coisa ou com alguém, do Presidente da República ao pernilongo, ele sempre tinha o que reclamar dizer.

Era ótimo assistir meu avô dando um espetáculo (ainda que fosse de ira) e meus pais gargalhando compulsivamente. Eu não decifrava muito bem o que eles diziam, mas entendia que estavam se divertindo e ver adultos se divertindo me deixava curiosa e animada. Não era todo dia que eu via um panda, assim como era raro ver um adulto feliz. Uma coisa exótica de tal maneira que eu parava o que estivesse fazendo para assistir.

Vovó Norma, entre uma queixa e outra, oferecia todo tipo de fruta que tinha em casa. E insistia. Insistia. E insistia de novo. Era o jeito dela de demonstrar carinho. Pena que eu só fui me dar conta disso quando já era tarde para aceitar um daqueles pedaços de melancia com afeto.

*Nota: até hoje quando eu fico muito insistente, papai só me olha e diz: “Não queeero, Norrrrrma”. Às vezes é só assim que eu entendo. Cada um tem a herança que merece, afinal.

Minha irmã e eu estávamos mal acostumadas com a nossa avó materna, com quem passávamos a maior parte do tempo. Ela preparava (e prepara até hoje) sobremesas incríveis e abastecia a dispensa com todo tipo de guloseima para receber a “netaiada” toda. Daí vinha a outra vó e oferecia fruta? “Não, não vó, brigada, a gente tá sem fome”. Quando ela se dava por vencida, falava entre os dentes: “ai, crianças chatas!”

Mas era quando ela insistia pra gente almoçar que o bicho pegava. Verdade seja dita, vovó não era boa cozinheira. Exceto meu pai, que jamais concordará comigo, pois tem um paladar nada exigente (além disso, estamos falando mal da mãe dele aqui), nós comíamos sem o menor prazer. Eu e meus primos, inclusive, tínhamos o péssimo habito de enterrar no quintal o que a gente não conseguia digerir. Era uma atitude pouco inteligente, mas achávamos que nunca seríamos descobertos…

Um dia vovó apareceu com uma novidade: foi regar as plantas e deu de cara com uma cobra enorme. E venenosa!

Costumávamos ser crianças destemidas, mas não a ponto de brincar num lugar onde havia uma cobra venenosa à solta, de modo que comecei a passar longe do quintal que – aos meus grandes olhos de menina pequena que enxergava imensidão em tudo – parecia uma floresta, repleta de plantas enormes, pé de tudo quanto era fruta, hortas e flores de várias cores. Era um jardim selvagem e caótico, mas tinha vida. Tudo ali respirava. Era o que fazia dele bonito. Pena que a presença de um bicho peçonhento fez minha pequena selva ganhar um tom sombrio.

By Christian Schloe

Eu, que já era curiosa antes mesmo de me entender como gente, todo domingo chegava lá ansiando por notícias da cobra. Vovó só faltava passar um relatório completo das aparições da bicha. “Hoje mesmo, um pouco antes de vocês chegarem, ela estava atrás daquele arbusto, mas a miserável fugiu quando seu avô foi atrás”. Minha irmã e eu ficávamos com os olhos arregalados, atentas a qualquer movimento rastejante. Por mais que ela garantisse que a cobra não entraria em casa, eu sempre me sentava sobre minhas pernas, temendo ser pega desprevenida e levar um bote.

Com o passar do tempo, a cobra foi ganhando um espaço no quintal e na vida da minha avó que nem ela poderia supor. “Hoje ela estava pendurada naquele abacateiro ali, né Chiquinho?” e meu avô só balançava a cabeça, concordante. Mamãe e papai não se manifestavam. Não alimentavam o medo que vovó tinha plantado na gente, mas também não podiam desmenti-la. Imagino o quão difícil tenha sido para o meu pai, que sofre de excessos, de sinceridade em especial, a ponto de ter nos poupado de lidar com a frustração da inexistência do Papai Noel, por exemplo. Ele nos oferecia a verdade pra variar, já que o mundo se encarrega de oferecer infinitas fomas de ilusão.

Mas a cobra era o espantalho contra netos da minha avó. O quintal era dela e isso lhe dava o direito de colocar um espantalho para cada neto se assim o quisesse. E quem se opusesse a isso teria dois trabalhos: o de confrontar a baixinha invocada e o de se conformar em perder o confronto.

Sei que eu não colocava meus pés miúdos naquele quintal nem por um decreto. Morria de medo. Antes disso uma cobra era só uma cobra, não uma ameaça. Eu gastava minha cota de medos como qualquer outra criança: com fantasmas, monstros e bruxas, embora meus pais tentassem me convencer de que eles não eram reais.  A cobra não. Ela existia. E eles não podiam negar.

E eu, que já tinha uma relação ambígua desde cedo com o medo, capaz de me paralisar e de me motivar, comecei a me desafiar a colocar um pé no quintal. Depois os dois. Depois a dar dez passos, tocar no pé de fruta do conde e voltar correndo. Um dia decidi desbravar o terreno à procura da cobra e quanto mais acelerado batia meu coração, mais excitada eu ficava. Tudo ia bem, eu ia vencendo os desafios criados por mim mesma paulatinamente, até vovó descobrir minha ousadia e no domingo seguinte me contar que a cobra deu cria.

Não sei por quantos anos vovó alimentou essa fantasia, também não sei por que ela sentia necessidade de inventar tantas histórias se uma só já bastava para nos manter afastados das suas plantas. Talvez ela tenha passado a acreditar na própria mentira depois de ter contado tantas vezes. A única certeza que tenho é que seu jardim se manteve conservado graças àquela mentira. Só quando estávamos mais crescidinhos e já não representávamos tanta ameaça ao seu quintal, ela contou que tinha encontrado a cobra morta. Cheguei a ficar de luto pela bicha e preocupada com as cobras órfãs.

Ao sentenciar a morte da peçonhenta, vovó matava sua mentira conveniente e a minha fantasia de encontrá-la. Ela só não matou o meu medo porque eu mesma já tinha tratado de dar fim nele algum tempo antes, mais ou menos na mesma época que perdi o interesse pelo seu quintal.

Passei boa parte da minha vida acreditando ingenuamente na existência daquela cobra por um simples motivo: eu não tinha razões para duvidar. Nunca passaria pela minha cabeça que alguém pudesse inventar uma mentira tão cabeluda quando podia simplesmente pedir, proibir ou me educar a não fazer determinada coisa. Era assim que meus pais costumavam agir comigo e isso era tudo o que eu conhecia sobre limites.

Anos mais tarde, quando meu primo contou (achando muito engraçado) que aquilo tudo não tinha passado de uma farsa, eu me senti uma tola. Vovó nunca soube que me magoou, mas se tivesse sido comunicada certamente teria me mandado deixar de ser chata, como fazia quando eu me negava a comer uma de suas suculentas frutas.

A sensação de ter sido enganada não foi a das mais agradáveis, mas não era a primeira vez que acontecia, nem seria a última. E passou longe de virar um trauma, pois não havia potencial para tanto. Dramaturgicamente falando seria até mais interessante se eu tivesse desenvolvido alguma fobia por serpentes ou rancor pela minha avó, mas fato é que nada disso aconteceu. Quando me tornei adulta, lembrava disso de um jeito cômico e com um certo saudosismo de uma fase livre de qualquer desconfiança. E agora, enquanto escrevo, percebo como o quintal e a cobra são simbólicos pra mim.

Quando eu fiz a disciplina de filosofia na faculdade e li sobre o Mito da Caverna de Platão fui automaticamente transportada ao quintal de Dona Norma. A grosso modo, o mito conta que prisioneiros passavam a vida inteira presos numa caverna, de frente para uma parede, onde sombras enormes eram projetadas através da luz da chama de uma fogueira. Eram apenas sombras de coisas que existiam e aconteciam do lado de fora, mas eles acreditavam que eram seres malignos e que se tentassem sair, seriam mortos por eles, dessa forma, o medo os mantinha presos. Quando um dos prisioneiros consegue sair da caverna, descobre a verdade e volta para contar aos outros, ninguém acredita nele e preferem continuar vivendo na caverna.

A base dessas duas histórias é a mesma: uma mentira sendo usada para gerar medo e manter alguém sob controle.

Eu não fui esperta o suficiente para descobrir sozinha que a cobra era um mito, mas fui corajosa a ponto de enfrentar o medo que eu sentia e isso diz muito sobre a pessoa que eu já dava indícios que me tornaria.

Vovó só antecipou um tipo de situação que eu voltaria a enfrentar muitas e muitas vezes no quintal da minha própria vida e na minhas cavernas particulares, algumas das quais eu já me libertei e outras onde ainda sou prisioneira porque nem sequer descobri que estou presa ou porque já descobri mas não encontrei um jeito de sair. E tem também aquelas cavernas onde permaneço porque não me dei conta de que a saída já está desobstruída.

No quintal dos outros há sempre o risco de ser habitado por cobras, então eu piso com cuidado. Algumas vezes eu nem piso, porque já pressinto a ameaça. Há ainda aqueles quintais com placas sinalizando perigo. Automaticamente eu acredito nas placas e não me aproximo, mas às vezes o quintal é tão lindo que eu entro pra conferir se não é como era o da minha avó. Pode acontecer de uma cobra me picar. E pode não acontecer também. Quando vale a pena, eu assumo o risco. Ou assumo que já fui bem mais destemida e não vou. Tem dias que qualquer minhoca me paralisa e não há nada no mundo que me faça encostar meu dedo mindinho num canteirinho.

Quando não há metáfora barata que me convença a sair da minha caverna ou a entrar no quintal do Papa é porque o cagaço tá mesmo grande. Aí eu faço como um sábio amigo me ensinou: vou de fraldas, mas vou mesmo assim.

Do quintal da minha avó só sobrou uma roseira que meu pai plantou lá em casa e colocou uma plaquinha onde se lê “Dona Norma”. Na primavera ela fica linda, apesar de papai raramente podá-la. Suspeito que ele goste de vê-la crescendo desordenada com seus espinhos afiados, arredia como sua mãe. Eu não me atrevia a mexer nela, mais intimidada pelo nome gravado na placa do que pelos espinhos. Até que um dia Arthur, meu sobrinho de cinco destemidos anos de vida, com a ajuda do avô, foi lá, tirou uma rosa e me ofereceu.

Tá bom, Dona Norma. Eu entendi.

Papai e Arthur

Arthur e a rosa da Dona Norma

Arthur e a rosa da Dona Norma

Roberta Simoni

A mulher que restou

8058802c71d41effe9e9807e55964d54

Minha vida está num lugar onde já esteve outras vezes e ao mesmo tempo onde eu nunca estive na vida. Se por um lado eu tenho a sensação de estar me repetindo e me repetindo e me repetindo, por outro, tudo parece novo. Ou velho, mas diferente. Eu já conheço esse lugar, tudo me é familiar, exceto eu mesma.

Eu saí despedaçada de um longo relacionamento porque, ao que tudo indica, eu não consigo sair de outro jeito. Ou não conseguia. Ainda é cedo para dizer. Até hoje foi assim: eu me dando inteira, me partindo ao meio e depois catando os meus caquinhos pelo chão. Só que, dessa vez, eu não consegui juntar todos os cacos. Cheguei a tentar colar os pedaços que trouxe comigo um monte de vezes. Era o que eu sempre fazia. Me colava aqui, me costurava acolá, fazia uma emenda com os fios soltos e voilà, ficava razoavelmente funcional outra vez para amar.

Só que, dessa vez, os pedaços de mim que ficaram pelo caminho eram de tal forma essenciais que nada pôde ser feito. Ficou faltando um monte de cacos para colar, de retalhos para costurar e fios para ligar. Não teve como dar jeito. O que se perdeu em mim, se foi para sempre. Para nunca mais.

Deixei mobília, objetos pessoais, peças de roupas íntimas e o que eu era para trás. O homem que eu amei conheceu uma mulher que homem nenhum voltará a conhecer. Deixei ela lá, para ele continuar fazendo o que bem entender dela. Ferir. Amar. Maldizer. Possuir. Ela já era muito mais dele do que minha.

Como pude ter sido tanto de alguém e tão pouco minha? A parte que ficou de mim sempre questiona isso. Me indaga, magoada. Peço perdão a ela todos os dias. Ela ainda não aceita. Por enquanto só se ressente. A parte que ficou é mais intransigente do que eu gostaria que fosse. “É para o seu próprio bem” – ela se defende.

Os buracos que antes me doíam de maneira aguda, as lacunas que jamais voltarão a ser preenchidas, as feridas que ficaram abertas, me deixando febril e inflamada passaram a incomodar menos quando parei de urrar de dor. Quando silenciei, deixei de ouvir o eco que fazia o meu grito estridente no vazio que ficou. Ainda dói. Vai doer por mais algum tempo, mas eu aceitei a dor. Já desisti de ficar tentando juntar os cacos que me faltam. Eles sempre vão me faltar, mas não necessariamente vão me fazer falta para sempre. Fazem menos agora que desisti de me emendar.

E eu já não sei se tenho interesse em recuperar o que eu era. Prefiro deixar tudo pra ele, sem divisão de bens. O que eu era vai morrer com ele, a menos que ele decida doar para alguém. Não importa mais.

Uma vez eu disse a ele que não tinha heranças para deixar depois que eu partisse dessa para melhor. Eu estava enganada. Ainda não havia me dado conta do valor de tudo que ele herdaria. Ele ficou com tudo que eu perdi. E tinha também um bocado de coisa bonita e valiosa ali. Tinha a doçura das coisas frágeis. Tinha eu com tudo que até então eu conhecia sobre mim.

Depois que eu parti (e foi mesmo para melhor), ele quis saber se já havia um novo amor. Há, mas eu não disse. Ele não entenderia. Meu novo amor é essa mulher desfigurada que me encara diante do espelho. Uma quase estranha, que eu tenho me dedicado a conhecer, compreender, respeitar e a gostar. Isso, é claro, quando ela não fica me lembrando que eu fracassei de novo, quando não esfrega na minha cara as cicatrizes que ganhou por minha causa. É doloroso ter de olhar pra ela. Mesmo assim eu olho. Todos os dias.

Nos dias bons, quando eu coloco um olhar mais demorado sobre ela, vejo-a através das marcas e das perfurações impossíveis de retocar. Algumas vezes consigo até ver uma certa beleza nessa mulher que restou. Foi tanto o que ela perdeu que ficou mais leve. Mais simples. Mais ela.

Desde que eu fui embora, nunca mais estive inteira. Quando me olho no espelho só enxergo uma parte de mim, mas essa parte, a que ficou, eu amo profundamente.

Roberta Simoni

Procura-se Sentido


Amelie Poulain

Os sábios dizem que a gente veio ao mundo para aprender. Os religiosos defendem a ideia de que viemos ao mundo para evoluir. Os espiritualizados dizem que reencarnamos para queimar carmas. Os cabalistas acreditam que estamos aqui para receber e compartilhar luz. Há, ainda, quem garanta que pedimos para nascer, que escolhemos estar aqui e passar por tudo o que passamos. Não sei a resposta, mas todas essas alternativas fazem muito sentido pra mim, embora a vida, boa parte do tempo, não me pareça ter o menor sentido.

Na minha inocência infantil, eu passei muito tempo achando que eu tinha vindo parar aqui para ser feliz, quando, por fim, notei que felicidade é coisa que dá e passa, assim como os sentimentos de todos os gêneros. Mas então, peraí… a gente tá aqui para sofrer? É isso? Também não. Mas para ser feliz, garanto que não é. Se fosse, felicidade seria uma conquista ou um direito de todos, seria como na música do Chico: “(…) e pela minha lei, a gente era obrigado a ser feliz.” Somos obrigados a fazer uma lista infinita de coisas, muitas em nome da lei, mas cadê a lei que obriga a gente a ser feliz. Cadê?

Vai daí que um belo dia você acorda e descobre que tudo é cíclico. O que é bom por um lado, pois ganha a compreensão de que não há mal que seja eterno, e ruim por outro lado, pois entende também que não há bem que dure para sempre. Ok, entendi, vida. Mas e quando a gente cansa dessa gangorra interminável que é você? Eu, inutilmente, por vezes peço para o mundo parar porque eu quero, desesperadamente, descer. Mas o mundo continua ali, me ignorando e rodando, me ignorando e rodando. Porque, né, eu tô longe de ser o centro do universo.

Uma vez, no parque de diversões, eu fiz um brinquedo parar para eu descer. Aos berros e prantos, sem me importar com a vergonha de expôr o meu medo diante de todo mundo, esgoelando a minha coragem, firmada com tanto afinco após tantas subidas em grandes árvores e escaladas de altos muros, sem me importar com a chacota das outras crianças, eu não dei outra alternativa ao maquinista senão parar a geringonça que me jogava para o alto e para baixo, de um lado para o outro sem parar. Quem dera a vida fosse um parque de diversões. Mas aqui não tem pirraça que faça mudar o curso natural das coisas, não há maquinista que se sensibilize com meus singelos apelos.

Aí a gente acorda, come, toma banho, trabalha, estuda, toma banho, come, dorme e no dia seguinte faz tudo de novo e depois e depois. Tudo isso sem sequer parar para pensar no sentido de cada ação. Nesse intervalo, a gente ri, chora, se sente feliz, triste, animado, frustrado, excitado, angustiado, eufórico, indisposto. Vazio de tudo, cheio de nada, vazio de nada, cheio de tudo.

De repente, um sorriso muda tudo, um beijo, um olhar de cumplicidade, um pôr-do-sol, uma palavra, uma noite bem dormida, uma boa notícia, um orgasmo. Um único gesto traz de volta o sentido de tudo e outro, lá na frente, rouba o sentido das coisas novamente. Um acontecimento ou um não acontecimento. Gangorra acima, gangorra abaixo. Sobe e desce. Vai e volta. Perde e ganha. Cai e levanta. Até o fatídico dia em que a gente não levanta mais. Tudo vira pó, açúcar, nuvem. Lembrança e saudade pra quem fica aqui, de pé.

Vida, essa sucessão de batalhas físicas e psicológicas das quais enfrentamos sem compreendermos nem a metade. Esse mistério que eu nunca vou conseguir desvendar, mas não sem protestar por uma pausa, uma descida do balanço, um tempo da gangorra, um bocado de dignidade e algumas porções (mesmo que venham em pequenos frascos) de qualquer coisa parecida com equilíbrio.

Ah… e o sentido? Bom, acho que só tem um: pra frente.

Roberta Simoni

Enquanto você não vem…

Graças a Deus começou a chover de novo. A chuva lava a culpa que eu sinto por ter passado o dia inteiro procrastinando e, veja só, logo agora que me obriguei a botar a cara na rua, chove de novo. Você sabe, São Pedro é meu camarada.

Eu tenho câimbra nos pés toda vez que eles ficam gelados, no coração também. Mas, por sua causa, de uns tempos pra cá, fico com câimbra só nos pés, e só quando você não está por perto.

Eu deveria ter vergonha de andar por aí assim, com meus quatro pneus arriados, e deveria ter medo de parecer idiota quando fico te olhando desse jeito, e de dormir com a porta aberta… mas se eu trancá-la, como você vai continuar entrando aqui de madrugada, trazendo ovos e me pedindo para fritá-los às 2h da manhã pra gente comer com pão?

Ainda agora senti uma vontade súbita de comer arroz-doce. O arroz-doce que vovó Verinha sempre preparava. O mais estranho desse desejo é que eu nunca fui fã de arroz-doce. Tá, eu comia, beliscava, mas não amava. Acho que o que eu amava mesmo era saber que na casa dela sempre haveria arroz-doce. Mas não há mais arroz, nem doce. Aí eu já não sei se meu desejo procede ou se é só necessidade de sentir o gosto daquela época na boca de novo. Só sei de uma coisa: detesto, com todas as minhas forças, o fato de eu ser tão nostálgica.

Laura, minha depressão, me mandou um torpedo essa semana, avisando que está bem. Pois, veja você… o médico disse que tenho depressão, essa estranha, a quem eu decidi batizar de Laura. Acho chique, um nome forte, misterioso, mais ou menos como essa doença que eu ainda não entendo direito e que eu sempre achei que fosse coisa só de gente fina, elegante e sincera. Tá, sincera eu sou mas, francamente, fina e elegante?

Trabalhei feito um ser humano nos últimos meses e demorei esse tempo todo para escrever porque, juro, pensei que eu não sabia mais como fazê-lo. Mas, como pode ver, cá estou, de um jeito ou de outro, te dizendo essas bobagens todas.

Você acha graça do fato de eu saber assobiar. O que mais você sabe fazer, menina? – você me pergunta, impressionado com as minhas aptidões extra-curriculares relevantíssimas. Também consigo estralar os dedos dos pés com meus próprios pés. Sei ficar vesga, abrir bem minhas narinas e dobrar minha língua, quer ver?

Eu bem que podia ser menos engraçada e mais sexy, mas é tão divertido te ver perdendo o fôlego de tanto rir de mim, como naquele dia que a resistência do chuveiro desarmou e você, na porta do banheiro, precisou sentar no chão para suportar suas gargalhadas ao me ver pulando feito uma perereca debaixo daquela água gelada. Ou quando, no meio de uma tentativa frustrada de fazer caras e bocas para te seduzir, ouvi você dizendo: “Deus, como você é engraçada!”

Eu deveria te incentivar a parar de fumar, mas adoro a forma como você traga o seu cigarro e a maneira como você me traga. Na verdade, a culpa é minha. Se você fuma é porque eu quis assim. Você é um personagem que eu criei e – seus pulmões que me perdoem! – mas na minha imaginação você é fumante… e tem mãos enormes, uma voz grossa e uma cabeça tão, tão linda. E você acha esquisito o fato de eu achar a sua cabeça bonita, diz que nunca achou que receberia um elogio tão estranho. Mas você também não achou que pudesse ser amado por alguém tão estranha, que adora a sua cabeça com tudo isso que ela tem dentro, e veja só.

Você fica com os olhos cerrados quando está triste e cinzentos quando está irritado, e quando você se aborrece, sua boca, língua e voz perdem completamente a funcionalidade. E quando sou eu quem provoca qualquer uma dessas suas reações, fico igual ao meu cachorro quando faz besteira: te olhando com cara de piedade, te rodeando, dando a patinha pra ganhar carinho e roçando nas suas pernas, tentando me desculpar com você, mas, diferente do meu cachorro, eu não consigo te convencer a fazer carinho na minha barriga, pelo menos não nas primeiras 24 horas. Você é duro na queda.

Você oxigena antes de falar e eu acho lindo. E dilacerante. Fico te olhando feito espectadora, paralisada diante da tela do cinema na cena final do filme. Quando você fala, chego no clímax e quando você só suspira, eu fico balbuciando coisas sem sentido pra ver se adivinho o que você está tentando me dizer. Eu falo demais, culpa dessa minha verborragia incorrigível, você sabe… o meu mal é ter o cérebro muito perto da boca.

Queria passar o restante do dia aqui, escrevendo impropérios, criando metáforas, sendo redundante enquanto digo o quanto te amo e te contar pela milésima vez como eu te quis desde a primeira vez que te vi, mas não posso, parou de chover de novo, isso significa que eu preciso fingir que sou um ser humano normal, com atividades normais. Tenho que ir ao banco, depois ao supermercado, ligar para minha avó que não faz mais arroz-doce, fazer as unhas, revisar um texto, levar o carro no borracheiro para consertar os pneus arriados, esperar você chegar… essas coisas de gente ocupada demais, diferente desses escritores que passam o dia tomando água com gotas de limão enquanto se dedicam só a criar. Esses, sabe? Esses que eu queria ser…

Não demora muito pra chegar, tá? E faz o favor de trazer a chuva de volta com você quando vier.

Roberta Simoni

Abstração no jardim abstrato

Já faz mais de duas semanas que eu fui atropelada e alguns dias que fiz aniversário e eu gostaria imensamente de escrever sobre como me sinto após esses dois acidentes, mas hoje eu só consigo escutar Janis Joplin e Nina Simone sem parar, só pensando em não pensar.

Em pensar que um dia eu já fui uma garota à frente do meu tempo… agora eu ando me sentindo mais viva ouvindo a voz de mulheres que já morreram.

Por enquanto eu me aproveito de umas costelas afundadas para passar as noites em claro porque não encontro posição para dormir. Mas depois que as costelas voltarem para o lugar, eu voltarei a ser a mesma estranha de sempre, com os mesmos motivos errados para me manterem acordada, tentando dormir angústias que me acordam, mas nunca me tiram o sono.

Tenho sono de todas as minhas angústias, tão antigas e previsíveis quanto as missas de domingo, que eu posso passar mais vinte e tantos anos sem ir, sem nunca esquecer cada oração. Sei a hora exata em que cada angústia minha vai sentar, levantar, me fazer ajoelhar e por fim, dizer amém.

Oremos.

Um poeta me disse que uma pessoa sem angústias deixa de ser interessante. Na mesma hora me senti “a atraente”, como se eu fosse, de alguma forma, diferente. Não sou. Todo mundo vive angustiado por algum motivo, e, partindo desse princípio, todo mundo é atraente. Mas entendo o raciocínio. Entendo e compartilho. Parece que quanto mais angustiada uma pessoa se sente, mais ela se esforça para parecer radiante, especialmente se ela tiver uma rede social para usar de palco para sua encenação. Preguiça.

Preguiça é a palavra. Tenho um corpo de quase 30 e o cansaço de quase 300. Trezentos anos. Trezentas pessoas. Já vi tanta coisa repetida, tanta gente parecida. Já vejo onde tudo vai terminar e é inevitável sentir uma profunda preguiça de começar. E então bocejo longo e gostoso, sem pressa de acabar, pensando seriamente em devolver o ingresso na bilheteria.

E só agora, no inverno, eu soube que quase perdi um amigo na primavera passada. Logo ele que eu não tenho preguiça de assistir. Ele que sabe que não pode morrer. Ele que me disse que não vai, que não vamos, que somos imortais. Eu com minhas costelas de aço e ele com seus olhos azuis que amarelo nenhum pode roubar.

Eu tenho visitado mais hospitais e cemitérios do que gostaria. Mas perto deles tem um pátio bonito onde a gente se encontra de vez em quando e ri solto. As flores são de plástico, mas nem parece, ou parece, mas a gente finge que não acha porque ainda sente alguma preguiça de cultivar girassóis.

Roberta Simoni

Incondicionalmente

Fotografia genial do genial Elliott Erwitt

O Théo, meu cachorro, não sabe brincar de bola. Ele não entende o fundamento básico da brincadeira entre o cão e o homem que consiste em devolver a bola para o homem para que ele possa jogá-la para ele ir buscar. No mundo dele, a brincadeira funciona assim: a maior interessada em pegar a bola sou eu, e se eu quiser pegá-la, tenho que enfiar a mão dentro daquela bocarra cheia de dentes enormes e arrancar a bola toda babada de lá, na marra. E enquanto eu não fizer isso, ele não me deixa em paz.

Não é a coisa mais agradável do mundo, mas também não é a pior, é por isso que volta e meia a minha mão está dentro da boca do Théo, um labrador grande, gordo e lindo de quase 10 anos de idade que ainda se comporta como se tivesse 2 e que nunca-jamais-sob-hipótese-alguma tem a intenção de morder ninguém, mas que vez ou outra acaba me machucando na tentativa de me acordar com uma patada de “leve” na cara, pulando no meu colo para demonstrar o quanto está feliz com a minha chegada ou abocanhando a minha mão quando ela está segurando a sua bola. Ele não tem a menor noção do próprio tamanho, peso e força. Age como se tivesse o porte atlético de um pequinês ou de um porquinho da Índia.

Foi brincando assim que ontem ele arrancou a pele do meu dedo e eu dei um grito de susto e de dor – mais de susto do que de dor – e ele largou a bola na mesma hora e veio lamber a minha ferida. Até nisso os cães são mais nobres do que nós, eles não esperam a ferida se cicatrizar para tentarem se retratar conosco. Orgulho é só mais uma característica humana entre tantas que os cães desconhecem.

Ele me feriu e lambeu minha ferida em seguida. É quase como morder e assoprar, coisa que as pessoas fazem o tempo todo, inclusive com quem amam. A diferença é que alguns humanos só mordem. Alguns só assopram. E outros machucam sem usar os dentes.

Faz 10 anos que tento, inutilmente, ensinar ao Théo a maneira correta de brincar de bola. Faz 10 anos que explico para ele que a brincadeira não funciona desse jeito…

Às vezes penso que Théo é burro. E faz 10 anos que ele pensa exatamente a mesma coisa a meu respeito, mas não desiste de mim. Incondicionalmente.

Roberta Simoni

Amar é… (ou A Romântica Enrustida)

Já era madrugada quando o telefone tocou. Era a minha avó. Também estava com insônia e, sabendo que eu sofro do mesmo mal, me ligou para colocar a conversa em dia. As coisas não mudaram muito desde a época em que ficávamos acordadas até tarde na sala da casa dela, assistindo o programa do Jô, conversando e fazendo crochê. Pensando bem, mudaram sim. Tudo mudou. Menos o fato de continuarmos insones, ela lá e eu cá.

E aí quando eu me vejo contando para a minha avó sobre a minha última empreitada amorosa e escuto ela contando sobre como ela tem feito para livrar-se do meu avô que, aos 85 e gozando de uma saúde bem precária, ainda teima em dar umas investidas sexuais na relação – sem sucesso, pois minha véia não quer mais saber dessas saliências – eu percebo que não tenho uma família, tenho amigos de bar. O que, com muita sorte, dá na mesmo.

É claro que nem todo mundo lá em casa é assim, tão moderninho. Minha irmã, por exemplo, tem quase a mesma idade que eu e é mais conservadora do que a minha mãe e a minha avó juntas. Eu jamais ligaria para ela contando sobre uma frustração sexual, por exemplo, como já fiz com a minha mãe. Mais de uma vez, é verdade.

Minha mãe e eu já fizemos compras em sex shop juntas. Pois é. Diante disso é difícil imaginar que falar sobre sexo seja um problema pra mim ou que haja qualquer outro assunto que me intimide ou me bloqueie. Mas há. Ninguém é assim tão bem resolvido a ponto de conseguir transitar descalço por todos os universos com a maior segurança do mundo, sem medo de entrar um espinho no pé ou de pisar num caco de vidro.

O que me intimida? O amor. Esse bicho de sete cabeças grandes e monstruosas, com cara de bicho papão. Amor e matemática. São duas coisas que – dizem – têm lógica, mas eu não compreendo lá muito bem. Faria sentido para mim se fosse uma equação mais ou menos assim: eu + você + amor = felicidade. Mas sempre tem algo a mais. Ou a menos.

Falo do amor romântico, desse que faz a gente se imaginar vestida de branco, segurando um buquê de flores e dizendo sim para um noivo bonitão tipo o Ken da Barbie. E se eu falo tanto sobre o amor e se escrevo sobre ele com uma frequência considerável, não significa que eu saiba o que estou dizendo sempre. Sinto decepcioná-los caros leitores, mas, às vezes, eu não faço a menor ideia. Ok, quase sempre.

Bom, eu idealizo. Nisso eu sou boa. Eu invento. E eu minto. Eu crio. E eu até vivo um pouquinho do que eu escrevo de vez em quando. Não é como se eu não soubesse amar. Não é como se eu soubesse também. Eu penso que sei, mas posso estar equivocada, tanto que se você me surpreender com um pergunta do tipo “o que é o amor?”, eu vou demorar tanto para te responder quando se você me perguntar quanto é sete vezes oito.

Calma, eu ainda tô pensando! … Cinquenta e seis? Certo? Certo!

Ah… o amor? Bom. Isso é muito relativo. Vai de pessoa para pessoa, depende. Tá… eu tô enrolando. Tá vendo? Eu me perco. Fico com medo de ser piegas, de parecer idiota. Não fui preparada para isso. A verdade é que os tempos mudaram, o amor romântico tá na moda de novo, é a tendência dessa estação e, ao que tudo indica, da próxima também, e eu sou péssima para seguir qualquer tipo de modismo. Tenho meu próprio estilo de mulher moderna, independente e… bom, de romântica enrustida.

Veja bem, os tempos são outros. Eu nasci numa época em que as mulheres sonham com carreiras de sucesso e cargos importantes. Um bom marido, na maior parte das vezes, funciona como um acessório de enfeite, um brinco de diamantes, uma pulseira de ouro, um anel de esmeralda. Em suma: virou artigo de luxo. Muitas sonham, poucas têm. A maioria acaba se conformando em conseguir ser bem sucedida profissionalmente. Embora haja quem ande por aí, exibindo um amor falsificado pendurado na orelha.

Fosse o amor tão simples como nas figurinhas do “Amar é…”, seria tudo mais interessante e divertido. E talvez seja. A gente é que complica, idealiza demais e realiza de menos. O meu amor talvez seja como o meu álbum de figurinhas do “Amar é…” que, desde criança, eu colecionava e já naquela época eu devia ser uma romântica em potencial, só que enrustida. A coleção ainda não tá completa e eu ainda tô saindo do armário. Mas olhando assim, para essas figurinhas todas, amar me parece coisa demais. Amar é coisa que muita gente tenta. Amar é muita coisa para quem tenta. Amar é coisa de gente grande em figurinha pra criança. Amar é coisa muita pra pouca gente e pra muita gente, é pouca coisa.

Pra mim (respondendo, por fim, à fatídica pergunta), o amor é um não-ideal. Não tem fórmula, lógica, razão nem por quê. O amor deve ser qualquer coisa parecida com uma vontade insubstituível e irresistível de acordar todos os dias e ver aquela mesma pessoa ali, do mesmo lado da cama. O resto inventa-se, o resto dá-se o nome que quiser…

Roberta Simoni

E invento você

Não fala nada, não… chega assim como a brisa. Me beija o rosto como o sol beija o mar, ou como o Banderas beijou a Zeta Jones naquele filme… serve também. Não precisa ficar pra sempre, mas passa por aqui antes do próximo abril, antes do fim do inverno, antes do gelo derreter, da neve ferver. Chega depois que a lua aparecer, nova, cheia ou crescente, mas, por favor, não chega minguante.

Enrola meu cabelo nos teus dedos, depois me pede para eu deixar ele crescer outra vez, mas diz que eu fico bonita também de cabelo curto, que eu fico linda de qualquer jeito, até quando eu acordo de uma noite não dormida porque o barulho da minha inquietação me despertou e me arrancou do meu sono outra vez. Mente pra mim. Vez ou outra mente, por favor. Mas mente sinceramente. Não precisa ser todo dia, nem o tempo todo. O tempo todo só me engole.

Me entope de informação desimportante, de risada fora de hora, de cultura inútil. Me ensina todas essas coisas de utilidade pública e grande relevância para a humanidade, como erguer uma sobrancelha só ou encostar a língua na ponta do nariz. Me ajuda a montar um castelo de areia, outro de cartas. Me escreve uma carta? Não precisa dizer nada. Só desenha um coração bem grande no meio da folha. Dentro do coração, coloca as iniciais dos nossos nomes. Eu vou achar bonitinho, cafona, mas bonitinho. As palavras você pode espalhar no tapete da sala, na cama do nosso quarto, no pé do meu ouvido…

Me beija na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê, sobretudo na chuva. A casinha não precisa ser de sapê, pode ser de tijolo mesmo. Me faz correr para entrar na internet só pra ver se o seu signo combina com o meu. Preenche as minhas reticências, ocupa os meus espaços, rouba as minhas horas. Me faz perder a hora. Do trabalho, do dentista, do oculista. Me deixa enxergar mal, eu não quero corrigir o grau das minhas lentes agora.

Não tem problema se você vier de camisa velha, mas vem. Só faz a barba se você quiser. Mas eu vou gostar se você não fizer. E se você fizer é provável que eu goste também. Tá, eu não vou nem notar. Mas se você esquecer de propósito a sua escova de dentes na pia do meu banheiro eu vou perceber. E pior: vou gostar. Vou adorar ter minha liberdade ameaçada por um objeto inanimado.

Trinca os dentes com vontade de me apertar até me sufocar. Me afoga nos teus beijos, mas depois faz respiração boca-a-boca para me salvar. Me leva pro mar, me atira aos tubarões. Se atira comigo. Mergulha fundo até perder o ar. Seja estúpido. Tolo. Menino. Seja faminto. Instinto. Tubarão. Sinta fome de mim no café da manhã que eu me sirvo de você na mesa do jantar. Depois a louça é sua… tá na sua vez de lavar. Eu te ajudo a secar, mas só amanhã, quando eu acordar pra sonhar.

Fica pra sempre até eu terminar de te inventar.

Roberta Simoni

Tia Bernadete

Me colocou sentada no banquinho do piano e apertou o play do toca-fitas. Eu tinha o quê? Uns 10, 11 anos…? Por aí. Mas me sentia com 20, 21 quando estava com ela.

Falei orgulhosa para os garotos lá da rua: – não vou brincar com vocês hoje, tenho que estudar francês com tia Bernadete.

“Un, deux, trois, quatre, cinq…”

Passei anos da minha vida dizendo que sabia falar francês quando tudo que eu conseguia balbuciar eram os números 1, 2, 3, 4 e 5, que aprendi durante as noites que deixava de jogar bola e brincar de queimado na rua para ficar na casa de cima com tia Bernadete, escutando a voz da professora na fita cassete mandando ela repetir frases em francês. Lembro bem mais de tia Bernadete rindo do que conseguindo pronunciar qualquer palavra. Toda vez que tentava falar, fazendo um biquinho nada sexy e se sentindo ridícula quando abria a boca, nós duas caíamos na gargalhada.

Talvez ela preferisse a minha companhia porque sabia que uma criança não questionaria a utilidade de aprender a falar francês quando se tem trinta e tantos anos e tanta coisa mais importante para fazer, talvez porque se sentia como uma criança aprendendo a falar ou talvez fosse só porque ela era mesmo imatura. Fato é que me fazia sentir importante toda vez que descia lá em casa para me chamar para ajudá-la com as lições do cursinho.

Nesse período, morávamos no mesmo quintal, minha tia vivia com os pais, meus tios avós. Tia Bernadete era, na verdade, minha prima de segundo grau, mãe das minhas primas de terceiro grau, Raphaela e Cristina. Alguns anos antes, perdemos Cristina, que caiu do telhado tentando resgatar um gato (ou, pelo menos foi o que me contaram e sustentam até hoje: o gato subiu no telhado e…), tínhamos mais ou menos a mesma idade, Cristina e eu, e – dizem – um gênio bem parecido, éramos os moleques de saia da família mas, para o alívio de todos, brincamos poucas vezes juntas e não chegamos a causar grandes danos à humanidade. Morávamos em cidades diferentes e tínhamos pouco contato.

Cristina teve suas córneas transplantadas para outra criança. Hoje existe alguém enxergando esse mundão com os olhos dela e eu torço para que essa pessoa se sinta feliz por isso todos os dias quando acorda. Uma vez tia Bernadete me disse que sonhou que ela e Cristina estavam usando vestidos brancos, sentadas num jardim bonito, comendo o bolo de chocolate que vovó Verinha fazia (e faz divinamente até hoje). Pouco tempo depois, tia Bernadete morreu. Desde então, toda vez que penso nas duas, é desse jeito, contentes, com mãos, bocas e vestidos lambuzados de chocolate. Não poderia ter confeccionado uma imagem mais genuína e divertida delas.

A sala onde tia Bernadete e eu “estudávamos” era um dos meus lugares favoritos no mundo todo, no meu mundo todo de menina que conhecia quase nada além do bairro da Vila Nova. Era uma sala cheia de quadros, com uma mesa de jantar grande, uma cristaleira, um piano que, de vez em quando, tia Wilma me deixava tocar e a família toda aplaudia, me fazendo acreditar que eu estava, de fato, emitindo qualquer som parecido com música.

Aconteceram muitas festas naquela sala, hoje só há poeira e silêncio. E a saudade da menina que sentava no banco giratório do piano, colocava as pernas pro alto e pedia para tia Bernadete fazê-la girar, girar, girar…

Sonhava com ela no princípio, depois os sonhos pararam de acontecer. Da última vez que estivemos juntas – há mais de 16 anos – tia Bernadete já estava muito debilitada e, enquanto os adultos discutiam as medidas que tomariam com o avanço da doença, nós duas assistíamos televisão na cama dela quando, durante uma apresentação da Claudia Ohana num desses programas de auditório, eu gritei: “olha tia, ela tem um monte de cabelo no suvaco!”. Tiveram que me retirar do quarto porque tia Bernadete começou a ter uma crise de riso. E foi essa gargalhada que ela me deixou como última recordação.

Uma vez eu li em algum lugar que uma pessoa só morre de verdade quando ninguém mais lembra dela. Se isso for verdade, eu a forço a viver e não sei até onde isso está certo.

Mas essa não é a história de uma mulher que morreu, é a história da mulher que viveu. Morrer não difere ninguém.

Vovó conta que tia Bernadete era ousada, destemida, inconsequente, intensa, fez muitas escolhas erradas e, até onde eu sei, nunca foi bom exemplo (e não é depois de morta que vai virar). Vai ver foi isso que aproximou a gente…

É claro que ela nunca aprendeu a falar francês. Nem eu. Mas quem se importa? Morrer se divertindo é melhor do que morrer bilingue.

Roberta Simoni