Você tá precisando transar

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Numa bela manhã, mandei uma mensagem para o WhatsApp da minha mãe contando que eu havia marcado um horário pra ir naquela consulta médica que ela estava insistindo tanto pra eu marcar, também tinha conseguido agendar a renovação da minha habilitação e, de quebra, dado entrada numa documentação burocrática que eu andava postergando. Era uma manhã atípica. Eu estava orgulhosíssima de mim, mostrando meu feito pra minha mãe como eu fazia quando era criança, na época que eu estava aprendendo a nadar. Cada vez que pulava na piscina sem as boias nos braços, eu gritava: “Olha, mãe!”, ela parava o que estivesse fazendo para me olhar. Quando eu voltava à superfície, procurava o olhar de aprovação dela, que sempre vinha seguido de alguma exclamação do tipo “Muito bem!” ou “Que linda! Já sabe nadar sozinha!”

Perceba que, com meus trinta anos, continuo agindo da mesma maneira. Os anos vão passar e, enquanto eu continuar tendo a minha mãe, muito provavelmente vou continuar me sentindo no direito de agir como filha. E ela vai continuar gostando de agir como mãe. Pra minha sorte ela é incansavelmente maternal.

A única diferença é que, com o passar dos anos, minha mãe virou minha amiga. A melhor. Dessas que apoiam na hora que tem que apoiar e sacaneiam (no melhor sentido) quando o momento é apropriado.

Assim que mandei a mensagem pra ela contando todas as coisas que eu tinha conseguido agilizar naquela manhã, ela respondeu: “Não tô acreditando. Aposto que você andou transando!”

O que dizer? Eu tinha mesmo feito sexo na madrugada que antecedeu aquela manhã gloriosa de resoluções. Depois que consegui parar de gargalhar com a constatação precisa dela, perguntei: “Como foi que você adivinhou?”

Ela não precisou responder o óbvio. Minha disposição para resolver todas aquelas coisas chatíssimas só podia mesmo ter a ver com uma energia vital, que ela prontamente deduziu como energia sexual, embora eu não tivesse ligado os pontos até que ela começasse a me sacanear. Agora, toda vez que uma de nós fica mal-humorada, dizemos uma pra outra: “Você tá precisando transar”. É o nosso código para “você tá muito chata e precisa fazer alguma coisa prazerosa pra mudar seu humor”. Pulamos a parte de tentar encontrar alguma atividade prazerosa e sugerimos logo sexo. Obviamente existem outras formas de sentir prazer e de espantar o mau humor, mas a primeira que nosso cérebro processa é a que encabeça a lista de “atividades prazerosas”.

Num mundo perfeito, sair por aí sugerindo que as pessoas façam sexo não seria considerado ofensa e sim um excelente conselho. Mas o mundo infelizmente não se resume a relações tão espontâneas assim.

Na semana passada o jornalista Ricardo Boechat mandou o pastor Silas Malafaia procurar uma rola. Muita gente considerou a frase extremamente grosseira e ofensiva. Eu entendi como um conselho valiosíssimo, que se aplica ao malfadado Malafaia e à grande parte da humanidade. Em outras palavras, o que ele estava dizendo era: vá procurar uma atividade prazerosa – como, por exemplo, se divertir com uma rola – no lugar de ficar disseminando o mal e se preocupando com o cu alheio.

Que tal lançarmos a campanha “Você tá precisando transar”? Podemos começar dizendo isso para aqueles amigos com quem temos mais intimidade, até que o conselho se estenda a quem somos obrigados a conviver e que está precisando transar urgentemente e se ocupar em alcançar e proporcionar orgasmos, seja para se reconciliar com o lado prazeroso da vida ou para melhorar o humor e a disposição e, com isso, tornar-se mais funcional e menos intragável.

Isso não significa que o aconselhado vá aceitar a sugestão, mas talvez faça com que perceba que está desperdiçando energias poderosas em coisas, lugares e pessoas erradas. A lógica é simples: pessoas sexualmente ativas são mais felizes e pessoas felizes enchem menos o saco dos outros.

Por um mundo onde as pessoas façam mais sexo e menos mimimi.

Roberta Simoni

Adeus às juras de amor eterno trancadas sobre o Rio Sena

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A Pont des Arts, em Paris, que ficou popularmente conhecida como “Ponte do Amor” por ter se tornado um santuário para casais apaixonados que procuravam imortalizar seu amor deixando um cadeado com suas iniciais preso às grades metálicas de proteção da ponte se tornou uma ameaça à segurança. Segundo a prefeitura de Paris, os cadeados estragam a estética da ponte, são estruturalmente ruins e podem provocar acidentes.

Depois de uma parte da grade ter entrado em colapso por causa do peso, representando um risco potencial para a navegação no rio Sena, as autoridades decidiram pela retirada dos milhares de cadeados, que representavam um peso de mais de 45 toneladas. As grades serão substituídas por painéis cobertos de arte de rua e, posteriormente, ganharão uma proteção de acrílico para impedir que o ritual romântico seja retomado.

Um casal de turistas, que saiu da América e viajou até a Europa com o intuito de eternizar seu amor em Paris declarou: “Nós viemos com a ideia de colocar um cadeado, mas descobrimos que está fechado e agora é ilegal, por isso nós vamos prendê-lo aqui no final da ponte para que ninguém possa ver.”

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A partir da declaração do casal, na notícia que li no site do G1, construí a seguinte trama. Acompanhem:

Satisfeitos por terem conseguido prender o cadeado num cantinho escondido e menos cobiçado da ponte, marido e mulher recém-casados, voltaram para o hotel onde haviam acabado de se hospedar, trocaram mais juras de amor eterno e fizeram amor como nunca. Depois, com os corpos entrelaçados debaixo dos lençóis, com a respiração ainda ofegante, lembraram do feito ilegal mais cedo, na ponte, e riram. Tudo era motivo de riso, sobretudo porque estar em Paris já é motivo suficiente para alguém se sentir feliz, em especial para o casal, que planejou a viagem de lua-de-mel com tanta antecedência e guardou suas economias durante tanto tampo para tornar aquela viagem possível.

Sendo assim, o sonho de conhecer Paris não estaria completo se não conseguissem prender o cadeado que simboliza o amor eterno dos dois, mesmo que pra isso precisassem passar por cima da lei vigente que proíbe o feito. “Ninguém vai perceber”, pensaram.

No segundo dia em Paris, ele queria conhecer o Museu do Louvre, mas ela insistia em ir até a Torre Eiffel para tirar uma foto e postar no Facebook, afinal, estar em Paris e não tratar de ter logo um registro diante do maior símbolo da cidade era como se não estivessem lá. O dia amanheceu nublado e logo que saíram do hotel começou a chover fininho. Diante da temperatura climática pouco favorável, o marido fez de tudo para tentar convencer a mulher a abandonar a ideia de visitar a Torre Eiffel naquele dia. Mas nem a chuva nem o argumento de que ainda teriam uma semana para passear pela cidade fez a mulher mudar de ideia. Ela estava irredutível.

Aquela teimosia sem um propósito louvável, fez com que ele se irritasse profundamente a ponto de não pronunciar uma só palavra no trajeto até o local. E quanto mais ela perguntava o que estava acontecendo, mais ele se irritava. As fotos do casal diante da Torre foram, possivelmente, as piores de toda a viagem. Não porque a chuva tivesse atrapalhado ou porque a falta de luz por conta do céu cinzento tivesse prejudicado tanto assim mas, porque ele saiu de cara emburrada em todas as fotos. Ela acabou escolhendo a foto onde aparecia sozinha para publicar no Facebook. Na legenda, escreveu: “Nem mesmo esse tempo chuvoso é capaz de tornar Paris menos bonita, ainda mais na companhia do meu amor.”

Enquanto ele tentava traduzir o cardápio do restaurante para decidir o que pedir para o almoço, ela verificava o celular. Centenas de curtidas na foto. Quando ele começou a reclamar que ela não largava o telefone, ela finalmente o colocou sobre a mesa, mas toda vez que chegava uma notificação, ela tornava a pegá-lo para ver quem havia curtido a foto e o que haviam comentado. Ele só queria que eles decidissem o que iam pedir, pois estava faminto. Ela, no entanto, parecia plenamente satisfeita saciando sua vaidade.

Na manhã seguinte, ela acordou animada, foi até a janela, abriu a cortina e disse: “Bom dia, meu amor… está fazendo um dia lindo lá fora. Acorda! Vamos sair.” Ele olhou o relógio. Ainda nem eram oito da manhã. Colocou o travesseiro na cara para tentar se esconder da claridade e voltar a dormir. Ela sabia que ele não ia conseguir levantar tão cedo, então tratou de deixá-lo na cama por mais algum tempo enquanto tomava banho e se arrumava. Quando já estava pronta, tornou a acordá-lo. Ele custou alguns minutos para sair da cama, e custou ainda mais tempo para sair do banheiro e, quando saiu, ainda estava só de cueca. Ela tentou apressá-lo para não perderem o café da manhã do hotel. Ele argumentou que não sente fome de manhã, pediu que ela fosse sozinha e prometeu que quando voltasse, estaria pronto para saírem. Só que quando ela voltou, deu de cara com ele dormindo, do mesmo jeito que estava quando o deixou. Naquele dia, eles nem saíram do hotel, de tanto que brigaram.

No outro dia ela resolveu ceder e concordou em irem até o Louvre, embora preferisse infinitamente fazer compras. Ele ficou maravilhado com o museu, e aquilo a deixou feliz. Eles pareciam estar finalmente se entendendo. O que ela não supunha é que para conhecer o Louvre, eles precisariam percorrer o museu por muitas horas, talvez o dia inteiro. Logo a felicidade se transformou num tédio incontrolável, que refletiu em queixas de cansaço, fome e vontade de ir ao banheiro. Assim que alcançaram o salão onde fica exposto o quadro da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, ela o convenceu a irem embora. Ele saiu frustrado por não conseguir conhecer o museu todo.

Dali em diante, todos os passeios, por mais bonitos e ensolarados que estivessem os dias, foram chatos. Nem mesmo a grandiosidade da Catedral de Notre-Dame ou a beleza do Jardim de Luxemburgo os encantaram. E eles discutiam o tempo todo, por qualquer bobagem.

No último dia de viagem, depois de fazerem o check-out no hotel, tomaram um táxi para o aeroporto. No caminho, passaram pela Pont des Arts. Ela viu homens trabalhando e guindastes retirando as grades repletas de cadeados. Notou que até mesmo a última grade da ponte, onde haviam prendido o cadeado e feito juras de amor, tinha sido retirada. Suspirou, chateada.

Embora namorassem há algum tempo, aquela era a primeira viagem que faziam juntos. E acabaram descobrindo, da pior forma, que não eram parceiros ideais em viagens. O que levou ambos a questionarem se não eram, também, compatíveis na vida. Tão logo voltaram para casa e começaram a rotina de casados, se descobriram profundamente infelizes. Não demorou muitos meses até que optassem, de comum acordo, pela separação.

Ele decidiu que casamento não era coisa pra ele. Ela, até hoje, acha que a culpa é do cadeado, que deu azar.

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O que aprendemos com a retirada das grades com os “cadeados de amor” da Pont des Arts na história sem final feliz do casal de turistas? 

Nada. No máximo, que uma coisa não tem nada a ver com a outra. O casamento pode não der dado certo por inúmeros motivos: porque eles não se empenharam tanto, porque não havia amor suficiente, porque eles não tinham nada em comum ou simplesmente porque não era pra ser. Mas o cadeado, coitado, nada tem a ver com o rumo dessa história.

A verdade é que nós adoramos rituais românticos ou, pelo menos, boa parte da humanidade gosta e, por isso, lamentamos o triste fim da “Ponte do Amor”, especialmente os casais que tinham seus cadeados presos à ela.

Agora, o que aprendemos com a retirada das grades com os “cadeados de amor” da Pont des Arts do ponto do vista metafórico?

Aprendemos que se nem uma ponte com grades de metal suporta o peso de tantos cadeados, o que dirá nós? Cadeados pesam. Também prendem e protegem mas, sobretudo, pesam.

Além do óbvio, que é senso comum, sobre juras de amor não serem eternas (e também o amor que, quase sempre, acaba tendo o mesmo fim que os cadeados presos às grades), estou usando a ponte descaradamente como metáfora para chegar a mais uma conclusão: a gente faz com os nossos relacionamentos algo bem semelhante àquilo que os casais apaixonados fizeram com a ponte francesa. Colocamos cadeados enormes e pesadíssimos nas nossas relações amorosas. Existem cadeados de vários formatos, cores, tamanhos e pesos, mas o maior e mais pesado deles é o cadeado da expectativa.

A gente sabe disso e, mesmo assim, entra e sai das relações insistindo nesse erro. Nós somos realmente muito bons nisso. Temos verdadeiros “criadouros de expectativas”. Então, se a gente decidir seguir em frente com isso, que, pelo menos, as chaves dos cadeados não sejam jogadas no rio, de onde é praticamente impossível recuperá-las mas, entregues nas mãos dos nossos parceiros, para que eles decidam o que fazer com elas: permanecer acorrentados aos cadeados, tentando suprir ou alcançar nossas expectativas, ou se libertar deles.

No melhor dos mundos a gente não chega nem a usar cadeados para, no fim, ninguém ter que decidir o que fazer com chave nenhuma.

Criar expectativas acerca do outro e/ou em torno da relação é quase tão inevitável quanto impedir que uma ponte repleta de cadeados desabe. Para evitar que alguém saia ferido de um possível acidente, a prefeitura de Paris está tomando providências. Sigamos o exemplo da Cidade Luz.

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Foto: Stephane De Sakutin/AFP

Roberta Simoni

Os Imortais

Imortais

Havia anos que eu não passava dias mais longos com meus pais. Minhas visitas aconteciam num intervalo de dois ou três meses, sempre nos fins de semana, que passavam voando entre a casa deles, da minha irmã e da minha avó, roteiro que eu seguia à risca todas as vezes que visitava a cidade. Normalmente não sobrava tempo para andar distraída por aí, para ver o mar que eu mergulho desde menina ou para ficar num bar até mais tarde jogando conversa fora com amigos de uma vida inteira.

No verão deste ano eu fui para passar mais dias e, sem aquela pressa costumeira das minhas visitas de médica, mais do que passar, eu passeei pela cidade como não fazia há muito tempo. Ou talvez como eu nunca tenha feito enquanto morava lá. Eu caminhava até a praia todos os dias, escolhia os cantos menos badalados e ficava por lá até a hora que me desse vontade, depois pegava o caminho mais longo e ia passando por vários bairros (que me remetiam a muitas situações memoráveis que vivi) até chegar na casa dos meus pais, que até hoje chamo de “lá em casa”.

Sou de Cabo Frio, uma pequena cidade litorânea no estado do Rio, onde a maior parte da minha família vive até hoje e onde vivi por 19 anos. Poderiam ter sido 30 se eu não tivesse teimado em ir embora na primeira oportunidade que tive, ou melhor, na primeira oportunidade que criei, verdade seja dita. Mais do que o desejo de fazer a faculdade de jornalismo, eu estava determinada a viver uma outra vida. Acabei vivendo várias. Algumas boas, outras nem tanto. Mas todas absolutamente diferentes daquela que eu tinha, que não era nada mau, era apenas previsível, o pesadelo de toda alma inquieta.

A questão é que não importa o quão longe você vá e o quão boas ou ruins sejam as lembranças do lugar de onde você veio, em algum momento você acaba se esbarrando com elas numa dessas esquinas da vida. E, considerando o tamanho da cidade onde nasci e cresci, eu devia saber que a probabilidade de eu dar de cara com as minhas em algum momento era bem grande.

Donde se presume que esses belos dias que passei em Cabo Frio não se resumiram só a experiências prazerosas. Numa tarde de segunda-feira, quando acompanhava minha mãe numa ida ao banco, dei de cara com dois fantasmas de carne e osso. O primeiro estava bem na esquina da agência bancária e atende pelo nome de “Professor Marcelo”, meu terror durante quatro longos anos da minha infância, meu professor de natação, com quem eu tinha encontros marcados todas as terças e quintas-feiras, pontualmente às sete da manhã, fizesse sol ou chuva.

Foi graças a ele que descobri que eu era barriguda. Característica física, inclusive, que possuo até hoje, só que em maior proporção. Como esquecer do jeito singelo como o professor Marcelo me fez notar minha barriga proeminente? “Vamo lá, Robertinha, vamo perder essa barriguinha!”. Eu enrolava toda vida para fazer os exercícios abdominais antes de começar o treino e ele não deixava barato: “Ô Roberta, que preguiça é essa? Assim você vai ficar barrigudinha pra sempre. Mais 20 abdominais para deixar de ser mole”. Ele falava isso alto o suficiente para eu sentir sua saliva espirrando na minha cara enquanto ele segurava meus pés até que eu terminasse o exercício. Eu queria morrer e matá-lo mas, no lugar disso, só sentia raiva mesmo, embora eu tenha plena consciência que se eu tivesse alguém como ele, me fazendo lembrar todos os dias que estou barriguda, muito provavelmente eu estaria mais satisfeita com a minha forma física hoje.

Minha irmã Elisa e eu com nossos professores de natação. Eu sou aquela ali, com os braços cruzados, tentando esconder a barriguinha, ao lado do professor Marcelo.

Minha irmã Elisa e eu com nossos professores de natação. Eu sou aquela ali, com os braços cruzados, tentando esconder a barriga, ao lado do professor Marcelo.

E Marcelo não só estava na esquina como também fez questão de me abraçar e me beijar. E quando eu perguntei se ele se lembrava de mim, ele garantiu que sim, com aquela risada inconfundível dele, que me fez ter a certeza de que não estava blefando.

Atravessando a rua, lá estava o segundo fantasma: tia Olinda. A dentista que colaborou muitíssimo para transformar o medo das minhas idas ao consultório odontológico em pânico absoluto por toda uma vida. Minha mãe e ela se cumprimentaram alegremente, tia Olinda olhou para mim e perguntou para minha mãe: “Essa é a sua caçula?”. Ela nem sequer se lembrava de mim, enquanto eu jamais esqueceria dela: a dentista que não tinha o menor jeito e paciência com criancinhas assustadas que fugiam de seu consultório e saiam correndo pelo corredor aos berros, fazendo uma pirraça fenomenal, como se estivessem sendo condenadas à morte na cadeira elétrica, quando tudo que ela tentava fazer era tratar de uma cárie. Obviamente, esse não era o tipo de coisa que uma menina comportada e boazinha como eu fosse capaz de fazer. Foi apenas uma história que ouvi por aí.

Esses dois encontros no espaço de três minutos e de um único quarteirão me fizeram pensar em como certas experiências determinam o rumo de uma vida inteira e de como as pessoas se eternizam na nossa memória de maneira inabalável.

Tanto ele quanto ela são muitas outras coisas além de professor e dentista, possuem qualidades e defeitos que eu desconheço e, muito provavelmente, são pessoas diferentes daquelas que conheci. Em mais de vinte anos eles devem ter se transformado um monte de vezes e se eu os conhecesse hoje, certamente os enxergaria de outro jeito, talvez até gostasse deles. Acontece que suas passagens pela minha vida os tornaram – nas minhas lembranças – figuras distorcidas de quem são na realidade.

Coincidentemente (ou não), eu li recentemente A Imortalidade, do Milan Kundera (livro que recomendo fortemente) e passei a compreender a imortalidade de um jeito completamente novo e que vem de encontro com esses dois personagens que esbarrei naquele dia: imortal não é aquele ou aquilo que vive para sempre, mas a maneira como cada pessoa ou experiência se eterniza na nossa memória.

Digamos que o Professor Marcelo e a Tia Olinda não tenham se eternizado da maneira mais legal de todas na minha memória mas, de certo, se imortalizaram. Convenhamos que não é todo mundo que passa pelo nosso caminho que se imortaliza, portanto, o mérito é inteiramente deles.

Trago comigo uma multidão de imortais magníficos também, que vão viver enquanto eu estiver viva, ou enquanto continuarem lendo as coisas que escrevi sobre eles.

E como uma reflexão sempre me leva à dezenas de outras, estou aqui a pensar de que maneira eu ando me imortalizando por aí. Não tenho a ilusão de ser lembrada com carinho por todo mundo cujas vidas eu participei de algum jeito em algum momento, nem sequer tenho a ilusão de nunca ser esquecida, tenho, inclusive, a consciência de que posso ser a “tia Olinda” de alguém, e mesmo assim tô achando um bocado bonito e divertido essa possibilidade de existir de várias formas.

A Imortalidade, Milan Kundera

Roberta Simoni

Eu queria ser do tipo que berra!

Carminha Épica

Às vezes eu queria ser do tipo que berra. Que quebra as coisas, se descabela. Que atira pratos contra a parede quando contrariada. Queria ser tipo aquelas mulheres que a gente vê nos filmes e nas novelas. Acho essas cenas épicas. São de um histerismo libertador, mas só olho admirada porque existe uma televisão entre mim e os atores que estão compondo a cena. Quando é ao vivo e a cores, além de eu não ter coragem de quebrar nem um copo de requeijão, também fico tremendamente perturbada se alguém começar a fazer isso comigo ou com outra pessoa na minha presença.

Ou seja, eu queria ser do tipo que berra, mas sou do tipo que chora. Que treme e que procura um lugar para se esconder. Não bastando me comportar de maneira tão irritantemente frágil quando alguém começa a gritar comigo, se sou eu quem está tomada pela cólera, pela revolta ou pela mágoa, eu também choro, no lugar de gritar ou de jogar um utensílio ou outro contra a parede para aliviar a tensão.

Muitas vezes, tudo o que eu queria era não pensar em nada na hora da raiva. Mas penso. Quando sinto vontade de gritar, me preocupo em perturbar a paz dos vizinhos. Quando tenho o impulso de quebrar alguma coisa, penso no trabalho que vai dar para limpar tudo depois. Pior ainda se for alguma coisa de valor, penso logo no prejuízo que vou ter.

No momento, estou numa relação complicada com meu computador. Já me imaginei mil vezes pisoteando-o até que ele perca a forma de um notebook e não se aproveite dele mais nem uma tecla. Mas é claro que não o faço, porque além de ter custado para pagar todas as prestações, ele é o único que tenho e preciso desse cretino para trabalhar. Aí penso: talvez quando eu comprar um novo, eu possa ter o prazer de destruir esse daqui. Mas aí, desisto logo em seguida, porque quando ele não servir mais pra mim, ainda poderá servir pra outra pessoa.

Um dia, quando eu ainda morava com meus pais, acordei com um barulho estranho vindo do quintal. Quando fui ver o que era, dei de cara com meu pai ajoelhado sobre umas folhas de jornal, martelando uma garrafa térmica. Quis saber o que a garrafa tinha feito de tão mal a ele para ter um fim tão trágico. Não sobrou nada da pobre coitada.

Passado o momento de raiva, ele me contou que todo santo dia pedia para minha mãe não travar a garrafa porque ele tem o costume de beber café o dia inteiro e toda hora que ia se servir, tinha que destravar a garrafa. Custava ela deixar destravada? Não custava, obviamente. E ela não fazia para provocar, mas, por hábito, não conseguia evitar. Até que nesse dia ele acordou determinado. Foi à loja e comprou um modelo diferente, desses que não tem trava, basta apertar. Colocou a garrafa térmica nova na cozinha, foi lá fora, cobriu o chão com papel de jornal velho para não ter que catar os estilhaços depois, nem correr o risco de alguém pisar e se machucar e usou o martelo para acabar com a bandida (Coronel Mostarda matou a Garrafa com um Martelo no Quintal – quem se lembra do jogo Detetive?)

Na época eu ri e considerei aquela mais uma maluquice do meu pai. Hoje eu o compreendo perfeitamente. Ele fez com a garrafa, muito provavelmente, o que sentia vontade de fazer com a minha mãe toda vez que ele encontrava a garrafa travada. Mas antes de acabar com a garrafa, ele planejou sua morte minunciosamente, sem causar danos a ninguém e sem que o prejuízo de comprar uma nova sobrasse para outra pessoa. Final feliz pra todo mundo. Ele parou de reclamar com minha mãe por causa da maldita garrafa, ela parou de ter que se justificar toda hora por uma coisa aparentemente banal e ninguém se machucou. Só a garrafa (in memoriam).

Outra cena memorável foi a luta que ele travou contra um sorvete enquanto assistíamos tevê. A gente adorava ver filme no quarto deles, minha irmã, eu e meus pais ficávamos aninhados na mesma cama. Meu pai estava recostado na parede tomando sorvete quando uma colherada caiu no seu peito, ele levantou resmungando e se limpou. Voltou, continuou tomando o sorvete e derrubou de novo e, com a própria colher, tirou o excesso do peito. Na terceira vez que caiu, ele virou o pote todinho de sorvete em cima dele e continuou assistindo o filme como se nada estivesse acontecendo. A essa altura, a gente já estava às gargalhadas e minha mãe mandando ele ir se limpar para não sujar os lençóis. Ele se levantou satisfeito dizendo: “ganhei do sorvete”. O fato de ter ficado todo lambuzado, pouco importou pra ele que, afinal, venceu a batalha contra um sorvete fugitivo.

Apesar de eu achar essas anedotas hilárias quando se tratam de objetos inanimados, o mesmo não se aplica a conflitos humanos. Se você não sabe o que é ter vontade de gritar, socar a cara de alguém ou de esfrega-la no asfalto, nunca entenderá essa aflição.

Quando eu tô muito, muito puta, eu grito contra o travesseiro que é pra não incomodar ninguém. E de preferência, choro no banheiro que é pra ninguém ver. Mas se a vida fosse um cenário de novela, eu me aproveitaria disso para quebrar o estúdio inteiro quando estivesse furiosa.

“Perdi o controle” é uma frase justificativa quase bonita. Não que eu ache bacana quem perca a cabeça por qualquer coisa. Na verdade, eu não acho nada admirável alguém que perde o controle, faz escândalo, cria barraco… embora pareça que é isso que estou dizendo desde o começo deste texto. O que quero dizer com isso tudo é que pessoas que agem dessa maneira reprovável, mesmo causando estragos materiais em grandes proporções, se libertam. Extravasam, não reprimem seu ódio, colocam pra fora de algum jeito. Enquanto eu sigo me esforçando para controlar as minhas emoções nocivas.

Além disso, pessoas que se comportam de maneira explosiva vivem em sociedade sob uma certa vantagem. Quem convive ou conhece pessoas que reagem assim, já vive sobreaviso. Precisam ter mais cautela com o que dizem – e como dizem – para alguém que se descontrola facilmente, porque sabe que corre o risco de ter que tapar os ouvidos para os gritos que eventualmente ouvirá e fechar os olhos para não ver os objetos que, muito possivelmente, começarão a voar sobre suas cabeças. Nem vou entrar no mérito da violência física, pois a considero reprovável em qualquer circunstância e não é disso que estamos falando aqui.

Quem lida com pessoas histéricas vive eternamente pisando em ovos, é uma vida difícil. Já para os histéricos, suponho que a vida seja mais fácil porque, além de não reprimirem suas emoções, não são eles que precisam lidar com sua própria histeria. Sempre sobra pra quem tá mais perto e que, além de tudo, precisa relevar e entender que “ela(e) é assim mesmo”.

Contrariando tudo que eu disse até aqui, faço terapia exatamente para aprender a lidar com as minhas emoções e não desejo ser conhecida por qualquer tipo de escândalo ou barraco. Eu fujo dos conflitos como o meu cachorro foge do banho. Mas guardo minhas desconfianças de que talvez eu pudesse ser mais feliz se perdesse o controle de quando em vez.

Bom, nesse caso, talvez fosse preciso que eu esquecesse a educação que meus pais me deram (sim, porque meu pai é um lorde, acredite. Ele é a educação e gentileza em pessoa. A verdade é que ele não passa de um assassino de garrafas térmicas). E para conseguir isso, acho que só morrendo e nascendo de novo. Ou mudando de profissão, entrando no ramo das artes cênicas e torcendo para conseguir um papel dramático de mulher histérica à beira de um ataque de nervos. Porque só assim para receber aplausos no final desse tipo de cena.

Roberta Simoni

Boneca que anda, fala e xinga

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Uma dúvida universal: o que leva os homens a acharem que podem seguir uma mulher na rua e falar um monte de sacanagens pra ela?

Estava à caminho do trabalho quando um sujeito dentro de um carro começou a me seguir e me chamar de gostosa e outras palavras chulas, acompanhadas de gestos também chulos. Eu, na tentativa de ignorá-lo, atravessei a rua. Ele, não satisfeito, se deslocou para o lado da calçada que eu estava e continuou com os impropérios.

Eu apertei o passo e ele seguiu com as provocações porque quanto mais eu fugia, mais ele parecia gostar da brincadeira. Depois de falar o que queria fazer e deixar de fazer comigo na cama, ele completou dizendo que eu era linda e que parecia uma bonequinha que anda.

Finalmente parei de andar, virei na direção dele e respondi: “Olha só, a bonequinha também fala! Por que você não vai tomar no seu (a partir daqui vou substituir os palavrões porque vocês não são obrigados) orifício anal, seu filho de uma meretriz?” Falei tudo isso, é claro, num tom de voz compatível com a minha indignação e, para dar ênfase à minha educada frase, me pus a mostrar meu dedo do meio pra ele.

Ele, que deve estar acostumado a fazer isso diariamente com várias mulheres que, assim como eu, ficam constrangidas e inicialmente sem saber como agir, diante daquela nova reação, me olhou assustado, acelerou o carro e sumiu do meu campo de visão. E eu fiquei ali, com aquele dedo em riste, cuspindo palavrões.

Quando dei por mim, estava fazendo tudo isso bem na entrada do jornal onde trabalho e que, para a minha infelicidade, estava repleto de funcionários na portaria, que me olhavam confusos, tentando entender meu comportamento, enquanto eu os desejava um bom dia sorridente, como de costume.

Pois vejam só, a bonequinha sempre tão educada está xingando e mostrando o dedo feio para o moço, porque ela não é, nem de longe:

1 – obrigada

2 – objeto sexual

3 – uma lady

4 – uma boneca (tampouco inflável)

Homens, apenas PAREM.

Roberta Simoni

Um café com gelo, por favor?

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– Um café com uma pedra de gelo, por favor.

– Desculpa?

– Quero café e gelo, por favor.

– Minha senhora… nós não servimos café com gelo aqui.

– Não?

– Não. As opções que temos para acompanhar o café são: leite, açúcar ou adoçante.

– Vou querer açúcar… e gelo.

– Mas, minha senhora…

– Ok. Vamos começar de novo. Vocês servem café aqui, certo?

– Certo.

– E servem bebidas com gelo também, certo?

– Certo.

– Então por que eu não posso querer meu café com gelo?

– Porque não faz sentido.

– Sentido? Se você tem o café e tem o gelo e eu quero os dois juntos, qual o sentido de você não me servir?

– Não prefere um café gelado?

– Não. Gostaria muito mesmo de tomar um café bem quente… com uma pedra de gelo.

– Tudo bem, como quiser. Já trago.

O garçom se afasta para preparar o café de Laura. Por detrás do balcão, ela o vê cochichando com a garçonete, que olha na sua direção e dá uma risadinha sem graça quando percebe que ela os observa.  Alguns minutos depois, ele volta com seu pedido. Laura bebe seu café sob olhares de desconfiança e estranheza, coisa que não a incomoda nem um pouco. Já faz tempo que Laura deixou de se importar em fazer papel de louca.

– A conta, por favor.

– A senhora deseja mais alguma coisa?

Desejo. Na verdade, o café com gelo não funcionou como eu esperava. Eu preciso que você me arrume alguma coisa bem quente para me aquecer por dentro e outra bem gelada para esfriar a minha cabeça, você consegue? Daquelas que fazem o cérebro doer de tão congelantes, sabe? Só que eu preciso das duas coisas ao mesmo tempo: aquecer meu coração e esfriar a minha cabeça. – é o que Laura sente vontade de responder mas, na verdade, só diz:

– Não, obrigada.

– Posso incluir os 10%?

– Claro! Aproveita e inclui o café com gelo no cardápio de vocês. – brinca.

– Farei o possível senhora, afinal, o cliente tem sempre razão, não é?

– Olha, ter razão faz tanto sentido pra mim quanto o café com gelo faz para você.

Laura paga a conta e vai embora pensando sobre o quanto gostaria de trocar todo aquele monte de razões que vem acumulando a vida toda por um bocado da tranquilidade daqueles que desconhecem o peso do certo e errado. Laura não quer ser a mulher que faz a coisa certa, a cliente que tem razão. Laura quer cometer erros fantásticos e ter a cabeça fria e o coração aquecido. Mas sabe que isso é tipo café com gelo: simplesmente não funciona.  

Roberta Simoni

De repente 30

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Nem tão de repente assim quanto a menina do filme que pula dos treze para os trinta anos num passe de mágica, mas garanto que virei balzaquiana numa velocidade intrigante, para não dizer assustadora.

Vi um monte de amigos chegando aos trinta em plena crise existencial e sabia que dentro de poucos meses chegaria a minha vez. E chegou, completei três décadas de vida há duas semanas, mas a crise não veio no pacote “brinde de aniversário”, não até agora. E pelo adiantado da hora, acho que não vem mais.

Eu, que sempre penso demais a respeito de tudo, que vivo mergulhada num mar revolto (e tedioso de sempre tão agitado) de dúvidas e dilemas da vida, simplesmente saí dos vinte e tantos e entrei na casa dos trinta assim, dormente. Quase indiferente.

Por tradição, meu aniversário não costuma ser um dos dias mais felizes do ano pra mim, bem como o Natal, o Ano Novo ou o Dia dos Namorados. Há muito barulho nessas datas, muita gente se esforçando para entrar no “modo felicidade”. É como se existisse uma atmosfera propícia à alegria, letreiros gigantes piscando “FIQUE FELIZ, FIQUE FELIZ!!!” em caixa alta e com luzes florescentes, de modo que estar pleno em dias assim virou quase uma obrigação. Não vejo mal nenhum na plenitude, mas, pelo menos pra mim, ela não vem com data e hora marcada.

Diferente do inferno astral – aquele período infernal, que antecede nosso aniversário, onde tudo que pode (e o que não pode também) dar errado, dá  – que tem o costume de ser bem pontual. Fiquei realmente boa nisso de viver meu inferno astral com o passar dos anos.

Na verdade, foi um alívio descobrir que existia um nome para a angústia que eu sentia sempre à véspera do meu aniversário. Quer dizer então que essa maré de azar, essa aflição que parece não ter fim, tem a ver com astrologia??? Cê jura? Sou ignorante o suficiente para não entender muito dos astros, e esperta o bastante para não duvidar deles. Então tá. É culpa do inferno astral. Aliás, tudo acabou virando culpa dele. “É que eu tô no meu inferno astral”. Me peguei dizendo isso uns dois ou três meses antes do meu aniversário, e algumas semanas depois. A pessoa realmente resolveu achar que a razão de tudo o que acontece no universo é porque o sol começou a caminhar através da última casa do seu mapa astral. Quanta pretensão!

Só que esse ano, contrariando as estatísticas, tudo fluiu muito bem, apesar do esforço de uma gente esquisita, que anda por aí, meio perdida no mundo, tentando agourar a vida alheia.

Só sei que não funcionou. Fiquei bem a ponto de esquecer do inferno astral esse ano. Logo este ano, que entrei para o clube das balzacas. A verdade é que a ideia de chegar aos trinta nunca me pareceu propriamente ruim. Sempre achei essa idade fascinante. E apesar de não existir qualquer lógica para tal fascínio, passei os últimos anos acreditando que essa devia ser uma das fases mais lindas da mulher. Lembro que desde os meus remotos vinte anos eu já achava as mulheres de trinta e poucos (ou tantos), umas divas. Mais seguras, mais inteligentes e mais bonitas.

Bom, cheguei aos famigerados trinta, e, mesmo estando longe de ser uma diva, até que eu tô curtindo! Nada mau ser trintona, viu? Olho para trás e raras vezes sinto saudades das várias vidas que tive até chegar aqui. Cansaço, sim. Isso eu sinto bastante. Quando lembro que, aos vinte e poucos, eu trabalhava numa editora de livros de 8h às 18h, fazia hora extra até às 21h, ainda ia para a faculdade depois para assistir as últimas aulas, passava as madrugadas em claro escrevendo minha monografia, fazia estágio não remunerado aos sábados e domingos numa rádio para poder me formar, vendia bijuterias para pagar meu aluguel e ainda conseguia encontrar com meus amigos e ter um namorado nos minutos vagos, fico até sem fôlego. Se valeu a pena? Ô, e como! Valeu demais. Cresci, amadureci, aprendi muito e, se você me perguntar se eu faria tudo isso de novo, eu vou te responder que, sem sombra de dúvidas, NÃO. Nem fodendo.

Ainda faço mil coisas ao mesmo tempo, me divido em várias funções, mas finalmente desacelerei um pouco. Não me livrei da síndrome do “quero-fazer-tudo-ao-mesmo-tempo-agora”. Continuo me assustando diariamente com a passagem do tempo e sofrendo com as pessoas que ele leva depressa, mas, hoje em dia, consigo até desfrutar de uma certa experiência que ele traz. Ainda não realizei nem 1/3 dos meus desejos, não conheci nem a metade dos lugares que planejo conhecer, ainda não aprendi direito nenhuma outra língua, não plantei uma árvore, não fiz um filho, nem publiquei um livro exclusivamente meu, embora já o tenha escrito. Não li nem 10% dos livros que ainda quero ler, nem escrevi 5% das ideias de histórias que julguei geniais quando as imaginei, mas acabei por engavetá-las, assim como alguns sonhos e planos.

Mesmo assim, gosto de pensar que ainda me sobra algum tempo para fazer – ao menos parcialmente – as coisas que ainda não fiz, por falta de oportunidade, de vergonha na cara ou por excesso de medo e preguiça.

Enquanto isso eu tô aí, preenchendo as páginas da minha vida, de modo que faço dela única e exclusivamente minha, embora os fatores externos constantemente me inclinem a cumprir deveres que não quero ou não tô afim de fazer. É um jeito que a vida encontra de esfregar na minha cara que sou dona do meu nariz e do meu destino só até a segunda ou terceira página.

Sou uma mulher de trinta anos bem vividos, que muito provavelmente vai passar os próximos trinta oscilando entre a garota destemida e feliz (que mal dava para saber se era garota ou garoto pelo comportamento impróprio para meninas), a moça adulta, responsável, correta, racional (e chata pra cacete), e a velha despudorada, que fala o que pensa, faz o que quer, coleciona histórias magníficas para contar e que já sacou que o que se leva da vida é a vida que se leva.

Roberta Simoni

Minhas malquistas e malfadadas listas

Fritando a Mufa

Tudo na vida é questão de prioridades. E toda semana eu faço uma lista enorme delas. Quando chego na semana seguinte, acabo quase sempre repetindo mais da metade dos itens da semana anterior. Já cheguei num ponto em que ter ao menos uma das demandas cumpridas, é uma vitória. Diante disso, venho pensando seriamente em incluir nas minhas listas, coisas do tipo: escovar os dentes e tomar banho todos os dias. Só para poder garantir mais riscos no caderno e obter aquela sensação única de dever cumprido, ainda que a sensação seja meramente ilusória e ilustrativa, porque eu não estaria fazendo nada mais do que a minha obrigação.

A felicidade, meus amigos, está em riscar pelo menos um item na lista de deveres semanais.

E falando em felicidade, eu venho pensando muito nela essa semana e isso, obviamente, vem ocupando meu tempo e me atrapalhando a cumprir minhas metas. A não ser, é claro, que eu inclua agora mesmo na minha lista o seguinte item: “Refletir a respeito da felicidade”.

Eu ando sentindo os dias passando não como quem está na beira da praia e sente a brisa do mar, mas como quem entrou no furacão na segunda-feira e, quando saiu dele, poucos segundos depois, já era domingo. Quando dou por mim, mais uma semana acabou e o meu caderno tá lá, me encarando, repleto de listas de prioridades mais uma vez não realizadas. Prova cabal da minha incompetência em alcançar minhas metas pessoais.

Dois meses para conseguir um horário com uma médica. Duas horas de espera para ser atendida no dia da consulta. Duas semanas para conseguir agendar um horário no laboratório para realizar os exames solicitados pela médica. E apenas dois minutos para a atendente do laboratório voltar com meus pedidos avisando que não foi possível realizar meus exames porque a doutora requisitada os rasurou com liquid paper. Agora eu tenho que conseguir um novo horário com a tal médica, para fazer novos pedidos, para marcar novos exames, para esperar mais dois meses até, por fim, receber um diagnóstico dela. Quer dizer… se o paciente estiver doente, até lá já morreu, né?

Acabo de perceber, aliás, que paciente é chamado assim porque para ser paciente, o sujeito precisa ter paciência em abundância. Qualidade que, infelizmente, não está inclusa no meu pacote, pois trata-se de um combo básico. Por ora, a paciência está para mim bem como os canais da HBO estão para o meu bolso: ainda não tenho o suficiente para adquirir mas, um dia, quem sabe?

Eu tento fugir da burocracia, mas a burocracia, meus amigos, sempre me encontra, até mesmo quando eu tento cuidar da minha saúde. Ela está para mim como um vilão está para uma nação. Um sonho: que a burocracia fosse um vilão do naipe do Bin Laden, que ninguém nunca mais encontrou em lugar algum e, quando encontrou, já estava morto. Aprenda com ele, burocracia.

Acabou de chegar um e-mail na minha caixa de entrada com o seguinte título: “Eu sei o que você NÃO fez no verão passado”. É um e-mail da Gabs, me avisando que sabe que nesse exato momento eu estou fazendo qualquer outra coisa que não inclui estar escrevendo o meu livro. Ela sabe também o que eu não fiz na primavera, no outono e no inverno passado. E, neste inverno, não pareço estar agindo de forma muito diferente do anterior.

Em minha defesa devo dizer que esse esquema de vídeos no Facebook que começam a passar sem a gente dar play não estão colaborando. Quando me toco, já estou entretida (pra não dizer hipnotizada) com outra bagaceira que dificilmente vai acrescentar alguma coisa na minha vida. A propósito, o que eu tenho de inútil para cumprir meus deveres, eu tenho de talento para perder tempo com o que não presta.

Estou há mais de uma semana para responder um e-mail da Namárcia e me escondendo dela por motivos de: vergonha na cara. Respondo uma mensagem no celular que recebi de um amigo. Aí, ele manda de volta: “Beta, tem dois dias que te enviei essa mensagem”. Pois é. Essa sou eu, deixando de fazer bom uso do que há de instantâneo no mundo, com exceção do miojo, que sempre tenho estocado na dispensa para um momento de emergência, que acontece mais ou menos uma vez a cada semana, nos dias em que estou determinada a não cozinhar. Determinação para isso não me falta, diga-se de passagem.

É claro que eu não sou tão imprestável assim quanto estou me descrevendo. No meio de toda essa procrastinação crônica, eu faxino, lavo a roupa, cozinho até com alguma decência, e trabalho, trabalho muito, dentro e fora de casa. Passei as últimas semanas me dedicando à oficina literária de escrita criativa que ministro com a Maria Rachel e devo dizer que ensinar a outras pessoas aquilo que eu faço de melhor é maravilhoso. É a oportunidade de partilhar a minha melhor parte, mesmo quando eu não estou fazendo uso dela em benefício próprio, pelo menos não diretamente. O que eu percebi é que enquanto ensino, além de aprender, eu escrevo um bocado, embora seja restritamente para os meus alunos. Portanto, tem sido deles a maior e mais recheada fatia do bolo.

Talvez se eu incluir “ser uma professora eficiente” na minha listinha, eu obtenha resultados gloriosos. Ou talvez eu perca a eficiência só porque transformei em meta aquilo que funciona perfeitamente melhor fora das minhas listas de tarefas.

Já é segunda-feira de novo e a lista de prioridades desta semana começa assim:

1 – Rever minhas listas de prioridades.

2 – Escrever no blog. Check.

3 – …

Roberta Simoni

Oficina de Escrita Criativa

Dia 08 de maio vamos dar início a uma nova turma de oficina literária através do Terapia da Palavra. O curso será ministrado por mim e pela também jornalista e escritora Maria Rachel Oliveira.

Nosso próximo módulo será uma introdução à escrita criativa, baseado no livro Palavra por Palavra, da Anne Lemmot; em exercícios da Oulipo (Oficina de Literatura Potencial, iniciada na França na década de 60) e práticas já consagradas no Terapia da Palavra. 

O curso é online, portanto, qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo pode participar, mas as vagas são limitadas!

Para obter maiores informações e fazer sua inscrição, clique aqui.

Passando pela janela…

Não passo por aqui há um tempo por motivos de: estou escrevendo. A-há! Achou que eu fosse dizer que estou sem tempo, atarefada com o trabalho ou com preguiça, etc… aquela minha mesma ladainha de sempre, né? Mas a verdade é que – pasme! – eu ando mesmo escrevendo. Só não tenho publicado quase nada do que escrevo porque, bom… logo logo eu conto. Prometo! 😉

Na semana passada escrevi um artigo para o site Amor Crônico (onde sou uma das autoras colaboradoras), e pensei em compartilhar aqui na Janela de Cima, de onde ando tão sumida e pra onde sempre volto, por mais que demore um pouquinho, porque vivo saudosa desse cantinho.

Então, chega de conversa e vamos ao texto, que você logo vai descobrir que continuará sendo uma longa e divertida conversa. Vem comigo que no caminho eu te explico!

[…]

O amor é lindo. Às vezes.

Via Amor Crônico

O amor tem cara de bicho

Oi, Leitor. Vou te chamar assim, de Leitor, com essa maiúscula aí na primeira letra porque não sei o seu nome próprio, então vou te batizar de Leitor até que eu descubra seu nome. Isto é, caso você queira se identificar ao final deste texto. Fique absolutamente à vontade quanto a isso, pois eu estou totalmente confortável aqui, falando e você aí, lendo, mesmo sem talvez a gente ainda nem se conhecer.

Então, Leitor, eu não sei quantas vezes você já acessou esse blog, quantos textos já leu, não sei qual é o seu perfil, qual o seu estilo preferido de narrativa, não sei o que você espera encontrar quando você entra num site chamado “amor crônico”, mas, me colocando no lugar de alguém que entra aqui pela primeira vez, suponho que espere encontrar textos falando sobre amores crônicos. Viajei? Ou para você, a palavra crônica é só uma alusão ao gênero de narração?

Fato é que andei lendo nossos textos (incluindo os meus) mais criticamente – e agora corro o risco de ir para o paredão das escritoras e ser eliminada deste espaço crônico pelas minhas parceiras autoras – e notei que andamos falando mais do amor em sua beleza e plenitude do que propriamente em sua essência crônica e aguda. O que me levou a pensar: o amor sempre é belo, a vida sempre é bela, nós somos todas belas ou andamos floreando um cadinho a vida pra ela ficar mais agridoce?

É claro que todas nós temos vidas distintas e vivemos momentos distintos. De modo que vivenciamos o amor de forma absolutamente diferente umas das outras a julgar pelo momento que atravessamos. O mesmo vale para você, Leitor, que pode se identificar ou não com o que você está lendo dependendo da fase que você está atravessando agora, certo? Certo.

Sendo assim, caro Leitor, deixo aqui um aviso para que você decida prosseguir ou não adentrando comigo por entre essas linhas retas repletas de raciocínios tortos: este texto é sobre o amor num estilo mais próximo ao de Miguel Esteves Cardoso em “O Amor é Fodido” ou ao de Charles Bukowski em “O Amor é um Cão dos Diabos”. Obviamente não me comparando a nenhum desses dois gênios literários, apenas fazendo uma singela menção a abordagem de amor feita por eles nesses clássicos. Não se preocupe, pois você não precisa ter lido nenhum desses livros para saber que não estamos falando aqui do amor na sua forma mais poética e romantizada, uma vez que os títulos são totalmente autoexplicativos, não é mesmo?

Eu, que já falei do amor tantas vezes, eu, que sou criatura assumidamente sentimental e passional, eu, que acho o amor uma coisa tão linda, essencial, esplêndida, maravilhosa (e creia-me: não existe qualquer vestígio de ironia nessa afirmação), eu, que preciso de amor para viver, eu, que acredito em toda forma de amor, eu, que aposto todas as minhas fichas no amor, devo assumir: o amor, muitas vezes, é mesmo um cão dos diabos.

Você, Leitor, que ainda continua aí, não se sinta mal por achar que o amor, às vezes, passa longe de ser divino. Você não está sozinho. Alguma vez você sofreu por amor, Leitor? Sofreu, né? E quando isso aconteceu, alguém deve ter dito a você que se fosse amor de verdade, não te traria sofrimento, não é? Pois é. Mas isso não é verdade! O amor quase nunca é um mar de rosas. Que o amor é fogo (que arde e não se ver e blá blá blá…) todo mundo sabe, mas se ele vai aquecer o seu coração ou se vai incendiar a sua casa, nunca se sabe. Algumas vezes ele vai te levar ao céu. Outras vezes, direto para o inferno, sem escalas. Amor é coisa de matar e morrer, de fazer muita gente sã perder o juízo, a cabeça e até o famigerado amor próprio.

Têm dias que amar é o maior desafio de todos, têm dias que amar é um verdadeiro ato de coragem.“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Beleza. Bora amar o próximo, mas dá pra não ficar tão próximo assim, por favor? Imagine-se amando aquele seu “colega” filho da puta lá da firma, aquele cretino que te deu uma fechada no trânsito hoje mais cedo ou aquele safado que se aproveitou para te dar aquela roçada básica no ônibus lotado hoje de manhã. Pois é.

Nem precisamos ir tão longe, né Leitor? Às vezes é difícil amar até mesmo quem a gente ama muito, muito mesmo. Quem normalmente a gente ama genuinamente, sem precisar fazer qualquer esforço. Você me entende, Leitor? Sabe aqueles dias que amar o seu próximo mais próximo vira uma verdadeira missão? Amar seu filho lindo quando ele esgota toda a sua paciência. Amar sua mulher incrível quando ela está no auge da TPM. Amar seu maridão quando ele faz aquela grosseria gostosa e gratuita com você. Amar a sua simpática sogra ou a sua adorável mãe quando elas se intrometem desenfreadamente na sua vida. Amar o seu cãozinho fofo quando ele faz cocô no seu tapete persa. Amar o seu gatinho quando ele destrói o seu sofá novinho.

Entenda uma coisa, Leitor: amar é uma arte. Agora, entenda outra coisa: não é todos os dias que acordamos artistas. Ou vai me dizer que você se sente sempre inspirado, Leitor? Que todos os dias seu coração está cheio de amor pela vida e por todos os seres vivos? Bom, então vou para de te chamar de Leitor e vou passar a te chamar de “E.T.” a partir de agora, pode ser? Corta essa! Só estamos eu e você aqui, não tem ninguém olhando, não precisa fazer cena!

O amor costuma exigir sacrifícios enormes e eventualmente ele vai deixar o seu coração partido, em frangalhos. O amor não vai ser lindo todos os dias. Eu aposto que você sabe disso, Leitor, mas se você ainda não sabe, eu, que já criei certa afinidade contigo depois de todas essas linhas, me sinto na obrigação de te alertar: têm dias que o amor vai ser fodido, amaldiçoado, dolorido, feio e vai ter cara de bicho.

Ele vai te meter medo, vai te assustar e te fazer sentir dores em partes do seu corpo que você nem supunha que existiam. Mas sabe o que é mais louco nisso tudo, Leitor? É que essa porra de amor continua sendo a coisa mais alucinante, maravilhosa e intensa que eu, você e qualquer ser humano já chegou perto ou vai chegar de sentir na vida. No fim das contas, Leitor, o amor é o que faz da gente parte de um mesmo todo, é que nos aproxima e me faz estar aqui escrevendo e você aí, lendo. É o que faz a gente começar tudo de novo, todos os dias, apesar de tudo, apesar de todos, apesar de mim e de você.

Vai entender, Leitor, vai entender…

Roberta Simoni