Pra ver a banda passar…

Eu, por Amaro Lima

E quando, no meio de um tempestuoso dia de sol, você se pega observando o mundo enquanto deveria estar se abrigando da chuva de problemas que resolveram cair sobre a sua cabeça, você entende que molhar-se pode ser melhor do que correr para comprar um guarda-chuva ou se proteger debaixo da marquise mais próxima.

Tenho tido dias tão insanos quanto eu. Correndo de um lado pro outro, trabalhando feito louca para, no fim do dia, poder riscar mais uma pendência no meu caderno. Às vezes eu consigo. Outras vezes eu como. Há vestígios de páscoa por toda a casa. Mas têm dias em que nem chocolate resolve. Em dias assim, há aqueles que me salvam das frustrações desse “mundo cruel”, mesmo sem saber que são salvadores. E foi enquanto eu esperava a heroína do dia chegar, na saída do metrô, que eu parei – pela primeira vez em dias – pra ver a banda passar.

A banda passou, cantando coisas de amor. Mas ninguém dançou. Ninguém ouviu a banda tocar, todo mundo estava falando ao celular. Mulheres andando apressadas, executivas montadas em seus saltos altos. Homens olhando pra baixo, sisudos de terno e gravata. Todos com ar de cansaço, carregando o peso da existência nas costas. Indo e vindo da rotina, ou do trabalho. Nenhum sorriso detectado. E eu ali, parada, observado a banda passar e, logo atrás, o bando surdo e apático.

E o que fazer com a incômoda verdade de que tantas vezes eu estou marchando com o bando sem ouvir a banca tocar nem vê-la passar?

Eu corro pra chuva e me molho, pra lembrar que não sou feita de matéria impermeável.

Roberta Simoni