É, você tem razão…

Concordância

É, ontem não choveu. Pois é, fez um lindo dia de sol. Nada. Eu não fiz basciamente nada, a não ser ler e escrever um bocado. Sim, aqui perto têm alguns parques, mas, não, eu não quis ir a nenhum. Ora, porque eu me cansei de parques, parques, parques! Me sinto um peixe Beta fora d’água aqui, não tenho culpa. Não, não é que eu não esteja me esforçando para me adaptar à cidade, mas… ah, que seja…

Cansei de tentar achar bonitinho um monte de crianças melequentas gritando num parque lotado de pessoas pegando sol na grama; de achar exótico adolescentes vestidos de preto com suas espadas de “Jedi” – de plástico – acreditando que estão mesmo guerrilhando nas estrelas; de tentar entender a capacidade que o ser humano tem de se divertir praticando peteca a tarde inteira; de achar graça em ficar horas rodando atrás de uma vaga para estacionar o carro no parque, e tudo isso para ver essas bizarrices?

É, realmente, o meu conceito de diversão é esquisito mesmo, tenho que admitir. Você tem toda razão, eu não estou vendo o lado positivo das coisas. Eu sei. Um tratamento psicológico não seria nada mal, concordo. Sair um pouco? Ir ao shopping agora? Puxa, não vai dar, tô com aquelas cólicas, sabe como é, né? Coisas de mulher. Imagina… eu estou ótima, não se preocupe. Hãããã? Desde quando pessimismo é doença? Eu não sou pessimista, só estou um pouco… pessimista.

Amanhã? Huuuuuum… a previsão do tempo diz que amanhã fará sol o dia inteiro. Pois é, mas sempre acaba chovendo no fim da tarde. Que coisa, né? Não vai dar mesmo, me desculpa. Além do mais, ainda estarei com cólicas até lá, tenho certeza. Se isso é desculpa minha? Imagiiiiiina… Por que? Quem? Eu? Não sei mentir direito? Mentiiiiiiiiira

A vida é mesmo bela. Eu acho lindo os passarinhos cantando e a luz do sol entrando pela janela do meu quarto. De verdade. Não, não estou sendo irônica. Acordei poética hoje, não posso? Sim, sinto uma tremenda falta do mar. Não, não dá… a praia mais próxima fica a horas daqui. Não, não é um pouco longe, é muuuuuuuuuuuuito longe. Ué, pra mim, é. Que ótimo você achar normal enfrentar horas de engarrafamento e desenbolsar dezenas de reais em pedágios para curtir o sol se pondo na praia. Não!!!!!! Juro que não é sarcarsmo, caramba! Eu realmente te admiro por não se aborrecer com nada disso. É, eu é que não sou evoluida o bastante, sabe?

Sim, eu sei, essa cidade é maravilhosa. Eu acredito. Aham, é… eu imagino. Deve ter muita coisa boa para se fazer aqui mesmo. Eu é que ainda não descobri. Claro! Eu vou aprender a gostar daqui sim. É verdade, o Rio de Janeiro é caótico. Você tem toda razão, aquele lugar é horrível, não sei porque chamam aquela cidade de Maravilhosa. Não! De jeto nenhum! Claro que eu não quero voltar pra lá. Deus me livre…

… … … … … … … … …

Porque chega uma hora que é melhor concordar. E apenas concordar.

Roberta Simoni

Lamentações de uma Carioca

Os paulistanos que me perdoem, mas eu preciso desabafar…

Antes de tudo, deixo claro que nada tenho contra São Paulo, tampouco contra os paulistanos, e absolutamente ninguém tem culpa da escolha que fiz de morar aqui, mas também não posso fingir que estou me sentindo no “País das Maravilhas”, como a Alice, da série da HBO.

A série conta a história de uma mulher chamada Alice, interpretada pela atriz Andreia Horta, de vinte e poucos anos, que veio de Palmas – Tocantins para São Paulo para ir ao funeral do pai, que cometeu suicídio. Na hora de voltar para casa, ela fica presa no engarrafamento (típico da cidade…) e perde o vôo. Várias coisas acontecem e ela acaba ficando em São Paulo, até não querer mais voltar para Palmas. Termina o noivado, faz novos amigos, novos amores, consegue um trabalho, ganha uma vida social ativa, vive as experiências mais loucas, das melhores às piores e sente-se viva como nunca. Ela se perde e se encontra na terra da garoa, e vai descobrindo que aqui é o seu verdadeiro país das maravilhas.

É uma série que foge do padrão, com uma fotografia que dá gosto de ver, várias atuações fantásticas (outras nem tanto), que fala de coragem, aborda temas polêmicos, e faz você pensar sobre a vida e sobre como reinventá-la. Alice terminou há poucas semanas, mas todos os capítulos (13 ao todo) estão disponíveis na internet.

Quanto a minha relação com São Paulo, o buraco é mais embaixo. Há quase seis meses venho tentando me adaptar, e não consigo. Quando entreguei o meu apartamento no Rio, saí da editora onde eu trabalhava, me separei dos amigos com quem eu tinha um convívio super agradável e fiquei ainda mais longe da família, que mora em Cabo Frio, na Região dos Lagos, o meu discurso era de que estou acostumada a ter uma vida de nômade, que sou extremamente adaptável e me sairia bem. Mas, não foi bem assim…

Eu jamais vivi longe do mar e não fazia idéia da falta que isso me faria, esse foi o tipo de coisa que eu não imaginei que chegaria a ser um problema, mas está sendo. Eu preciso estar em contato com o mar, preciso mergulhar regularmente, é um ritual pessoal de “lavagem de alma”, só o fato de ver o mar me acalma, me energiza, mas, tudo bem, eu estou sobrevivendo.

Busco alternativas, penso positivo, procuro outras formas de me energizar. Vou ao parque, mas está sempre tão lotado que perco o humor, tenho verdadeira fobia de lugares cheios. Tento ir à praia no fim de semana, mas só de pensar no tempo que ficarei presa no trânsito até chegar ao litoral, desanimo. E quando, apesar disso, consigo me animar, chove ou faz frio… como faz frio! Pois é, carioca não sabe o que é frio, de verdade.

Mas, o que é isso perto da falta de emprego, não é mesmo? Taí outra coisa inédita na minha vida: o ócio! Trabalhei por mais de 10 anos sem parar (pois é, tenho só 24, mas comecei cedo…), intercalando com os estudos, e depois com a faculdade, e agora não consigo um emprego. Tenho me apegado à leitura e à escrita para não perder o tino, afinal, não posso enferrujar.

São Paulo é a cidade das oportunidades, o mercado de trabalho está todo concentrado aqui, mas de que adianta? Num mundo onde as pessoas só conseguem uma oportunidade se tiverem “Q.I.” (Quem Indique), pouco valor – ou nenhum – tem o seu currículo, ou o seu talento. Conseguir um lugar ao sol é difícil em qualquer lugar, não é exclusividade de São Paulo, mas tenho a sensação de que aqui até o sol tem dificuldade de conseguir um espacinho.

Mesmo depois de tanto tempo vivendo aqui, ainda sinto os efeitos da poluição do ar na minha pele e na minha cabeça, que dói constantemente. E, definitivamente, não consigo achar normal sair de casa de carro e ficar mais de uma hora para conseguir dobrar a esquina, ou ainda, enfrentar uma fila de espera quilométrica para conseguir jantar.

Toda mudança é difícil, e o processo de adaptação costuma mesmo ser lento, a questão é que o estilo de vida daqui é absurdamente diferente do que eu tinha, e gostava. Claro que não existem apenas pontos negativos em viver na maior cidade do Brasil, há algumas coisas melhores que no Rio sim, mas, para mim, ainda não compensam. Pode ser que um dia eu passe a gostar de viver aqui, me esforço e torço para que isso aconteça, de verdade.

Pode ser que isso dure, pode ser que não, enquanto o futuro é incerto – e ele sempre será – eu vou tentando me enquadrar no estilo paulistano de ser, o que, vocês sabem, é uma tarefa árdua para uma carioca. Mas quem tem que se adaptar a São Paulo sou eu, e não São Paulo a mim.

Roberta Simoni