E daí?

Pinto as segundas-feiras das cores que quero. Algumas vezes gosto de usar as tintas dos sábados.

E daí que era segunda-feira? E daí que os meus projetos fossem adiados por mais um dia? E daí que as contas ficassem atrasadas pela primeira vez e que a minha semana de tarefas, cansaços e obrigações começasse só na terça?

– Já pensou se lá atrás, quando a gente era criança, alguém chegasse e mostrasse uma cena da gente no futuro, tipo essa de hoje? Eu e você aqui, na praia em plena segunda-feira, conversando sobre nossos projetos profissionais, tão adultos…

– Pensaríamos que estamos bem de vida. Ou que nos tornamos dois irresponsáveis.

– Ficaríamos eufóricos quando descobríssemos que você se tornou jornalista e eu, biólogo! Mal saberíamos que não há glamour nenhum nisso, como pensávamos que haveria…

– Perceberíamos que, na verdade, pouca coisa mudou. Não viramos astronautas, não mudamos o mundo, nem o nosso bairro…

– …E que até agora, perto dos trinta, ainda não tivemos filhos, nem escrevemos nenhum livro e não plantamos árvores. 

– Mas aposto que eu me preocuparia mais com o tamanho da minha barriga no futuro do que com o desmatamento…

E daí que a gente ainda não tenha se realizado profissionalmente? E daí que segunda-feira seja dia de estar no escritório, na redação ou no laboratório em vez de estar na praia? E daí que eu tenha engordado? Não importa (mentira! Importa, sim!). Mas se tivesse como dar uma espiada no futuro e assistir essa cena, a gente morreria de alegria por saber que, uma década e meia depois, continuamos amigos.

Roberta Simoni