A mulher que restou

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Minha vida está num lugar onde já esteve outras vezes e ao mesmo tempo onde eu nunca estive na vida. Se por um lado eu tenho a sensação de estar me repetindo e me repetindo e me repetindo, por outro, tudo parece novo. Ou velho, mas diferente. Eu já conheço esse lugar, tudo me é familiar, exceto eu mesma.

Eu saí despedaçada de um longo relacionamento porque, ao que tudo indica, eu não consigo sair de outro jeito. Ou não conseguia. Ainda é cedo para dizer. Até hoje foi assim: eu me dando inteira, me partindo ao meio e depois catando os meus caquinhos pelo chão. Só que, dessa vez, eu não consegui juntar todos os cacos. Cheguei a tentar colar os pedaços que trouxe comigo um monte de vezes. Era o que eu sempre fazia. Me colava aqui, me costurava acolá, fazia uma emenda com os fios soltos e voilà, ficava razoavelmente funcional outra vez para amar.

Só que, dessa vez, os pedaços de mim que ficaram pelo caminho eram de tal forma essenciais que nada pôde ser feito. Ficou faltando um monte de cacos para colar, de retalhos para costurar e fios para ligar. Não teve como dar jeito. O que se perdeu em mim, se foi para sempre. Para nunca mais.

Deixei mobília, objetos pessoais, peças de roupas íntimas e o que eu era para trás. O homem que eu amei conheceu uma mulher que homem nenhum voltará a conhecer. Deixei ela lá, para ele continuar fazendo o que bem entender dela. Ferir. Amar. Maldizer. Possuir. Ela já era muito mais dele do que minha.

Como pude ter sido tanto de alguém e tão pouco minha? A parte que ficou de mim sempre questiona isso. Me indaga, magoada. Peço perdão a ela todos os dias. Ela ainda não aceita. Por enquanto só se ressente. A parte que ficou é mais intransigente do que eu gostaria que fosse. “É para o seu próprio bem” – ela se defende.

Os buracos que antes me doíam de maneira aguda, as lacunas que jamais voltarão a ser preenchidas, as feridas que ficaram abertas, me deixando febril e inflamada passaram a incomodar menos quando parei de urrar de dor. Quando silenciei, deixei de ouvir o eco que fazia o meu grito estridente no vazio que ficou. Ainda dói. Vai doer por mais algum tempo, mas eu aceitei a dor. Já desisti de ficar tentando juntar os cacos que me faltam. Eles sempre vão me faltar, mas não necessariamente vão me fazer falta para sempre. Fazem menos agora que desisti de me emendar.

E eu já não sei se tenho interesse em recuperar o que eu era. Prefiro deixar tudo pra ele, sem divisão de bens. O que eu era vai morrer com ele, a menos que ele decida doar para alguém. Não importa mais.

Uma vez eu disse a ele que não tinha heranças para deixar depois que eu partisse dessa para melhor. Eu estava enganada. Ainda não havia me dado conta do valor de tudo que ele herdaria. Ele ficou com tudo que eu perdi. E tinha também um bocado de coisa bonita e valiosa ali. Tinha a doçura das coisas frágeis. Tinha eu com tudo que até então eu conhecia sobre mim.

Depois que eu parti (e foi mesmo para melhor), ele quis saber se já havia um novo amor. Há, mas eu não disse. Ele não entenderia. Meu novo amor é essa mulher desfigurada que me encara diante do espelho. Uma quase estranha, que eu tenho me dedicado a conhecer, compreender, respeitar e a gostar. Isso, é claro, quando ela não fica me lembrando que eu fracassei de novo, quando não esfrega na minha cara as cicatrizes que ganhou por minha causa. É doloroso ter de olhar pra ela. Mesmo assim eu olho. Todos os dias.

Nos dias bons, quando eu coloco um olhar mais demorado sobre ela, vejo-a através das marcas e das perfurações impossíveis de retocar. Algumas vezes consigo até ver uma certa beleza nessa mulher que restou. Foi tanto o que ela perdeu que ficou mais leve. Mais simples. Mais ela.

Desde que eu fui embora, nunca mais estive inteira. Quando me olho no espelho só enxergo uma parte de mim, mas essa parte, a que ficou, eu amo profundamente.

Roberta Simoni

Uma carta de amor… próprio.

Uma carta de amor endereçada a mim, escrita por mim. Estava lá, entre as centenas de folhas de um dos meus cadernos que, sem propósito (ou por pura falta do que fazer) resolvi remexer ainda há pouco. Parece que já tem décadas, mas a carta foi escrita em março deste ano, esse mesmo 2012 que, ao menos para mim, parece interminável, eterno, a continuação da História Sem Fim…

A vantagem de ter uma memória deficiente é a de ser surpreendida com uma carta que você escreveu à você mesma, da qual você havia esquecido completamente, além, é claro, de poder encontrar – com uma frequência satisfatória – cédulas de R$10, 20 e até 50 perdidas nos bolsos das minhas calças e jaquetas. Esse é o tipo de prazer que gente funcional jamais conhecerá. Ho ho ho.

Na carta, um pedido: “Não se perca…”. E na última linha, nada de despedida com beijos, abraços ou um até breve, mas uma única palavra: amor. Não me lembro de ter sido tão doce e afável assim comigo alguma outra vez durante essa existência. Costumo ser o oposto: extremamente auto-crítica, rude e insensível.

O que me causa estranheza nem é o fato de eu escrever uma carta pra mim, mas a doçura com que a fiz. Quando me trato bem assim sempre penso mal de mim. Epa! O que você tá querendo em troca disso, hein?

No geral, meu trato comigo mesma é… digamos, um tanto pejorativo. Quando erro, é comum me flagrar utilizando xingamentos inspirados na fauna (anta, burra e similares são os campeões de audiência…), e considerando o “cerumano” errante que sou, às vezes, viro a fauna completa.

Mas não nessa carta, que escrevi no último dia da minha viagem à Itália, dentro de uma daquelas igrejas fenomenais, que mesmo eu, criatura livre de qualquer apelo religioso, me emocionava e arrepiava inteira a cada igreja que visitava. Agora eu lembro que eu estava sentada num banco isolado, dentro do Duomo de Florença (Santa Maria del Fiore) e tinha os olhos marejados de emoção, sentia uma vontade inquieta de ficar, mas, uma vontade que não chegava a arranhar minha determinação de partir. Sentia saudade de véspera daquele país impressionante que eu passei a vida inteira sonhando em conhecer e que eu deixaria nas próximas horas por escolha própria, pois tinha conseguido trabalho e moradia para ficar, caso eu quisesse. Mas tinha também uma saudade atrasada do que – e dos que – deixei no Brasil, e uma certeza tão absoluta de que eu precisava voltar para casa que chegava a me soar insultante, ainda que, por outro lado, fosse tão reconfortante.

Ao fim daquela viagem, após constatar que eu estava voltando pra casa inteira (diferente, mas inteira), ciente das barreiras que superei sozinha, especialmente as psicológicas, abri meu caderno e me escrevi essas palavras:

“Obrigada, querida, por ter vindo, por ter enfrentado o desconhecido, por ter sido capaz, por ter chorado de medo e mesmo assim não ter recuado, por ter se permitido emocionar tantas vezes com tantas miudezas, pela intensidade com que viveu cada nova experiência, por me fazer sentir o orgulho que sinto de você agora. Continue. Não pare. Não se perca. Amor, B.”

Tá. Eu não conquistei o nobel da paz nem ganhei uma medalha de honra por ter feito uma simples viagem, as pessoas fazem isso o tempo todo. Não descobri a cura para o câncer, não curei um paraplégico, não transformei água em vinho, nem sequer salvei a vida de um inseto, mas realizei um sonho antigo, e um sonho é um sonho, não se mede tamanho ou proporção, quando realizado, é de se orgulhar.

E poucos meses depois eu já tinha me esquecido do orgulho que senti de mim, do afago que me fiz e do bem que me causei. Voltei a apontar os meus defeitos e as falhas sem a menor condescendência. Coisa que, provavelmente em algum momento da vida, outras pessoas já fizeram comigo e vice-versa. Bendita memória fraca.

Diante dessa carta de amor próprio, eu percebi que a relação que tenho comigo merece tanto cuidado, atenção e, sobretudo, lapidação quanto qualquer relacionamento que tenho com as pessoas com quem convivo, seja por amor, obrigação, laços sanguíneos ou as três alternativas anteriores.

Eu sei, parece papo de livro de auto-ajuda ruim (e existe algum bom?), mas não se trata só de amor próprio, auto-suficiencia ou condescendência, vai além. Ou não. Vai ver é só papo furado mesmo que eu deveria ter a sós comigo mesma e não aqui. Mas o blog é meu e eu escrevo o que quiser (ui, que malcriada!). Para o seu azar, caro leitor, aqui não existe democracia, mas para sua sorte, a sessão de terapia acabou.

Por hoje, a exemplo da carta que recebi de mim, tratarei-me com carinho e até falarei no diminutivo (sabe, Betinha?). Durante os constantes diálogos que tenho comigo mesma, não me ofenderei (muito) nem me xingarei (merecidas férias para a fauna) e amanhã procurarei fazer o mesmo, e depois, e depois e… hã?

… Maldita memória fraca.

Roberta Simoni