Soninha de Verdade

Soninha não queria sair da cama. Menos pela preguiça matinal e mais pela vontade de fazer sexo. De novo. Olhou pro lado e Ricardo dormia profundamente, ressaqueado da noite anterior. Acabou pegando no sono outra vez e não se deu conta do lapso de tempo entre o momento em que decidiu voltar a dormir até a hora em que foi acordada por Ricardo encostando seu corpo no dela, abraçando-a por trás e roçando sua ereção entre as suas pernas. Ela considerava aquele o melhor jeito que um homem poderia encontrar de desejar “bom dia” a uma mulher. Acordaram devorando-se como há tanto tempo não faziam.

Ela só saiu do quarto mais tarde para ir até a cozinha buscar o número do delivery no imã da geladeira. Ele só vestiu um short para receber o entregador de pizza. Até ao banheiro foram juntos, tomaram banho no box apertado entre risadas, shampoo, sabonete e beijos molhados. Transaram no chuveiro. De novo.

Ricardo insistiu para Soninha ficar até segunda-feira de manhã. Poderiam passar outra noite juntos, sairiam no mesmo horário para trabalhar no dia seguinte. Soninha não quis, tinha outro compromisso. Mentira! O único compromisso que tinha era com o medo. Temia se deixar levar e acabar voltando para Ricardo. Ainda gostava dele. Menos do que antes, mas gostava. E era exatamente por isso que não podia ficar.

Passaram-se meses, talvez um ano ou mais, desde que se separaram. Ela saiu com outras pessoas. Ensaiou novos amores, mas ficou só no ensaio. Um dia resolveu ceder às incontáveis e incansáveis investidas de Ricardo. Saíram para jantar. Ele levou flores. Ela levou um escudo invisível. Por trás do escudo, um vestido vermelho impecavelmente lindo.

Era óbvio que ele ainda a amava. Todo mundo sabia. Sempre falava nela e não escondia de ninguém o que sentia, se relacionou superficialmente com outras mulheres e nem delas fez questão de esconder Soninha debaixo da cama ou atrás da cortina.

Como é típico, de longe Soninha voltou a ser a personificação da perfeição para Ricardo. “É a mulher da minha vida!”

Soninha sabia disso. Instintivamente sabia. Por isso, impôs limites à essa “nova-antiga” relação. Usou fitas de isolamento imaginárias. Seria só a Soninha de Mentirinha dele. Ele ficaria com o melhor dela e só nos dias propícios, e ela ficaria com o que de mais maravilhoso ele podia oferecer à Soninha de Mentirinha. Era um plano perfeito… teoricamente.

O que ela – nem ninguém – imaginava era que ele fosse sentir saudades da Soninha de Verdade. Mas ele sentiu. Mais do que isso: a desejou. Quis ficar com ela quando ela teve a primeira crise de TPM, quis acordar ao lado dela também nas segundas-feiras mal-humoradas, sentiu saudades de ouvi-la reclamando do banheiro molhado e dos copos sujos na pia da cozinha. Teve o impulso de buscá-la no trabalho quando falaram ao telefone e sentiu que ela estava num dia ruim. Virou homenzinho. Se tardiamente ou não, só nossa Soninha poderia responder.

O problema é que a Soninha de Verdade temia ser outra além da Soninha de Mentirinha com Ricardo. Por ora estava satisfeita em mergulhar no raso, sentia-se segura e confortável. Talvez, quando sentisse vontade de fazer apnéia numa profundidade maior, desse uma chance a um novo homem ou, quem sabe, uma nova chance a Ricardo? O que sabia era que agora só se sentia capaz de ser a Soninha que ele merecia: a de mentirinha, dentro do seu impecável vestido vermelho. Aquela Soninha que, afinal, ele tanto quis um dia.

Roberta Simoni

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Soninha de Mentirinha

Ali Michael por Sofia Sanchez e Mauro Mongiello

À Gabs, por estimular continuamente minha inspiração.

Soninha chegou em casa sem a alma e sem os sapatos. Não sabia ao certo onde tinha deixado sua alma, mas os sapatos, pelo menos, ela trazia nas mãos, em segurança. Bebeu, mas não estava bêbada. Apesar de ter se esforçado a noite inteira para não ficar sóbria, a adrenalina causada pela briga atrapalhou seus planos de diversão. Se negou a entrar no carro de Ricardo na hora de ir embora, apesar da insistência dele por saber que àquela altura da madrugada ela não conseguiria pegar nenhum táxi de volta para casa, mas Soninha é uma amostra dessas mulheres que começaram a pipocar aos montes entre meados da década de setenta e oitenta. Essas que hoje estão entre os vinte e tanto e trinta e poucos anos, independentes, modernas, loucas por sexo, que não perdem tempo com picuinhas e ciúmes bobos e são auto-suficientes, isto é, até a primeira crise de carência aguda.

“Volto a pé, mas não volto com ele, nem que seja descalça porque essa desgraça de sapato me dá um calo terrível, mas é lindo e eu ainda tô pagando…”

Soninha é do tipo de mulher que à primeira vista chama a atenção pela beleza, e à segunda vista chama mais ainda pelo jeito cativante, extrovertido e com um intelecto pra ninguém colocar defeito, apesar dos cabelos loiros aparentemente denunciarem outra coisa. Cabelos naturalmente loiros, longos e lisos, diga-se de passagem. O sonho de toda patricinha que gasta rios de dinheiro com a mesma tintura que a Ana Hickman usa, chapinha de última geração e escova de tudo quanto é nacionalidade. Ela joga o cabelo de um lado pro outro, amarra, solta, faz coques sem o menor esforço nem intenção de fazer charme, o que torna cada movimento despretencioso ainda mais sensual e também insultante para as demais mulheres. Seu corpo não é sarado porque, como ela mesma anuncia aos quatro ventos, prefere gastar seu tempo e dinheiro exercitando seu cérebro a seu bumbum, mas, ainda assim, ele está visivelmente em cima. Não é do tipo de parar o trânsito, mas já fez um sujeito cair da bicicleta ao se perder no decote que deixava parte dos seus seios à mostra, seios que, por sinal, não são de silicone.

A mãe queria que ela fosse médica, o pai, advogada, mas ela saiu de casa com outra ideia na cabeça. Queria ser publicitária, e foi. Mudou de cidade, arrumou trabalho e pagou a faculdade sozinha, depois o aluguel do apartamento, a prestação do carro, e se acha no direito de dividir a conta do restaurante com o namorado quando necessário. Não era o caso de Ricardo. Eles estavam juntos há dois anos e ele nunca deixara ela pôr a mão na carteira, o que ela aceitava de bom grado porque sabia que não era nenhum sacrifício pra ele.

Se conheceram quando Ricardo, que ocupa um cargo de importância numa concessionária, contratou a agência onde Soninha trabalha para fazer a próxima campanha publicitária da empresa. Era ela quem estava à frente do projeto, a ideia tinha sido dela e o processo de criação do produto também. Ricardo não conseguia se decidir se ela era linda, competente, criativa ou gostosa. Na verdade, ela era tudo isso e mais um pouco, coisa que ele foi descobrindo a cada novo encontro profissional e, mais tarde, íntimo. Desnecessário falar que ele se apaixonou perdidamente.

Na verdade, é fácil se apaixonar por Soninha, Ricardo não era o primeiro e nem seria o último. Ela tem qualquer coisa genuína de menina, qualquer coisa avassaladora de mulher e essa mistura dá samba, inclusive na cama.

Ela acreditou mesmo que com Ricardo ia ser diferente. Bem na verdade ela assustava os caras e não era pra menos, sempre com uma resposta afiada na ponta da língua, indomável quando contrariada, destemida e determinada. Teimosa feito uma mula e toda trabalhada no discurso de que não precisa de homem para ser feliz, como se a gente acreditasse. Mas Ricardo gostava do jeito arredio da moça, soava como um constante desafio pra ele, que tinha um jeitinho todo especial de amolecer o coração dela. Quando Soninha se dava conta, estava fazendo tudo o que o Ricardo queria, e com o maior gosto do mundo.

Mas aí, veio a primeira briga boba, a segunda e depois a terceira. Ricardo descobriu que a Soninha perfeita era de mentirinha, a Soninha real sofria de TPM, acordava mortalmente mal-humorada e era tão densa e frágil às vezes. Soninha ficava altamente quebrável quando se sentia carente, coisa que a princípio Ricardo tirava de letra, mas depois de constatar que sua namorada não era tão diferente assim das outras mulheres, foi deixando sua paciência se esvair aos poucos. Até que o episódio do bar, onde discutiram por nada, ou por tudo, tornou tudo muito óbvio: Ricardo até gostava de Soninha, mas nunca esteve apaixonado por ela, mas pela ideia que tinha dela.

Na verdade, é muito mais fácil se apaixonar por uma ideia do que por uma pessoa. E, no mundo de Ricardo, só existia a Soninha segura, feliz, a publicitária que ele tanto admirava. Não estava preparado para lidar com a Soninha insegura, passando por uma crise na carreira e frágil daquele jeito. Não sabia como agir com a namorada e, sem perceber, começou a negligenciar o relacionamento.

Soninha sentiu vontade de chorar, mas não conseguiu, ou queria ter vontade de chorar, mas nem isso teve. Não estava muito longe de casa quando se deu conta de que estava repetindo padrões, namorando caras que, involuntariamente se apaixonavam por um ideal de mulher no qual ela parecia se encaixar perfeitamente, até demonstrar as primeiras falhas ou ficar inoperante em determinados dias. E isso fazia com eles perdessem total ou parcialmente o interesse por ela, coisa que, quando ela detectava, era fatal.

Quando estava entrando em casa, Ricardo ligou preocupado, ela disse que estava bem e que só precisava de um tempo para pensar na vida. Sabia que se separariam, senão amanhã, dali a algum tempo, mas terminou com ele no dia seguinte. Já estava acostumada a ver seus relacionamentos acabando assim, podia até começar diferente, mas sempre terminava do mesmo jeito, achou que não fosse chorar, porque já estava acostumada a sentir aquela dor, mas chorou – e de soluçar. Lá estava sua alma de volta, enfim.

Se olhou no espelho com aquelas olheiras enormes, os olhos vermelhos, a cara inchada, o cabelo embaraçado e desejou que alguém pudesse vê-la naquele instante e se apaixonar por ela bem daquele jeito.

Roberta Simoni

Sabor de fruta mordida (ou calcinha da sorte!)

Já é dezembro e outra vez a gente se pega pensando: mas, já?

O ano tá acabando de novo, e sempre rola um “momento retrospectiva” nessa época. Me lembro de, ao final da retrospectiva 2009 chegar a uma drástica – porém real – conclusão: tive um ano ruim. Ponto. Arrisco dizer que um dos mais difíceis da minha vida. Logo, as expectativas para 2010 não poderiam ser melhores, com perspectivas mais promissoras: eu simplesmente não esperava nada além de um ano melhor do que aquele que estava acabando. Moleza, né?

Não teve festa na virada, só uma longa caminhada na praia, sem pular as sete ondinhas, sem pedidos nem promessas, sem paixão, apreensão ou qualquer sentimento latente, sem indícios de alegria, nem vestígios de mim, usando aquela velha e confortável calcinha bege. Minha despedida daquela versão então triste, sem vida, sem graça, cor-de-pele-desbotada. Meu luto conformado, repleto de uma serenidade que só a maturidade sabe.

Aí veio 2010 e eu nem ouso contar a quantidade de coisas e de vezes que a minha vida e eu mudamos em um ano. Tem gente que diz que a minha vida daria um livro, acredito. Duvido que seria um Best-seller, mas diria que só o capítulo dos últimos meses daria uma enciclopédia, só que divertida, especialmente se resumida aos melhores e menos prováveis fatos, sublinhados de amarelo fluorescente nas minhas páginas favoritas.

2010 não foi um ano, foram 10 em um só. Exagerada? Quase nada… é que eu ando mesmo “meio Cazuza”, inventando amores para me distrair, (des)inventando ausências para me iludir, transformando o tédio em melodia, cansada de tanta babaquice, tanta caretice, dessa eterna falta do que falar, me cobrindo de sonhos numa tarde branca, interessada em mentiras sinceras, contando meus segredos de liquidificador às orelhas frias dos sete ventos, jogada aos pés da mais intensa paixão da última semana, mulher sem razão, de coração viciado em amar errado, sua flor, seu bebê…

Achando a vida muito louca, muito breve, forrando as paredes do meu quarto com as misérias das manchetes, pra lembrar que nada é tão sério, nadando contra a corrente só para exercitar, tentando algum trocado pra dar garantia, tomando meu trem para as estrelas, sendo artista no nosso convívio, pelo inferno e céu de todo dia, provando do meu próprio veneno antimonotonia que não me deixa pregar os olhos noite e dia, só na batida, no embalo da rede, matando a sede na saliva com aquele gosto bom de fruta mordida… doutra saliva já tão conhecida, do doce sabor amargo dessa famosa desconhecida tão cobiçada: a sorte de um amor tranquilo…

E em meio a todo o amor que há nessa vida, me aparece aquela que eu não quero levar para a festa, logo ela, bem no centro do meu universo: uma espinha gigante no meu rosto, que mais parece um segundo nariz, ou um terceiro olho. E só o que me resta é levá-la para dançar comigo, ou não ir à festa… vou dormir com a cara toda trabalhada na pomada, aí ele me olha e diz assim: “que coisa mais linda!”, com uma sinceridade quase comovente. Procuro minuciosamente em todos os cantos, mas não vejo nenhum sinal de ironia nele.

A senhora calcinha bege tão pouco formosa pode não ser milagrosa, mas tem lá o seu valor. E 2011 já vem chegando, vai que… 😉

Roberta Simoni

É você, a razão e o porquê.

Pense num amor muito, muito, mas muito grande. Pensou? Então… é maior.

É assim o nosso amor. Quando eu penso que já não tem mais pra onde crescer, ele se estica, e, de tão elástico, vem aqui todas as noites, me beijar antes de dormir.

Eu fui embora pra tão longe, parti tantas vezes e todas as vezes te deixei com o coração partido, me jogando beijos do portão, sem conseguir disfarçar o aperto no coração. Me pediu pra eu ligar quando chegasse e pra eu não demorar a voltar, mas eu sempre demoro demais. Me abraçou forte, me deu um beijo demorado na testa e me fez prometer que eu me cuidaria. Prometi, mas é claro que não acreditou. Ninguém me conhece tão bem quanto você a ponto de saber que eu não sei me cuidar direito.

Me acordou cantando Bossa Nova, abriu a cortina para o sol me ver e deixou a porta aberta para o cheiro do feijão entrar. Ahhhh, você preparou a minha comida favorita, não foi? Fez o meu suco de maracujá com bastante açúcar, abasteceu a geladeira com caixinhas de todynho e botou o pote de nutella na mesa do lanche. Sentou à minha frente, ficou me olhando comer com prazer e me perguntou como tem sido os meus dias. Falei sem parar. Contei do trabalho, dos meus novos projetos, dos amigos que tenho feito pelo caminho, da bebedeira do último sábado, da ressaca terrível no domingo e da estupidez que cometi na semana passada. Esperei que me reprovasse, mas só concordou que fui tola outra vez e manteve a mesma ternura no olhar.

Filha de Vera, a primavera chegou junto com você que, há cinquenta anos, torna o mundo mais florido, minha bela margarida despedaçada, de infância ferida que teve tantas pétalas perdidas. Cresceu sem ser regada, teve sede, murchou tantas vezes, pensou que fosse secar para sempre, mas se viu girassol quando, na primavera seguinte, nasceu seu primeiro botão de rosa, e depois, quando no inverno, brotou sua segunda flor, tão fora de época, mas recebida com o mesmo amor. Uma rosa, a outra vermelha. Regou suas flores como nenhuma outra jardineira, se emocionou ao vê-las desabrocharem tão saudáveis no seu jardim, mas teve que deixá-las florirem o jardim da vida, onde se despedaçaram tantas vezes quantas voltaram para serem cuidadas por ti.

Foi com você, minha linda Elizabeth, mulher com nome de rainha e fibra de guerreira, que eu aprendi a amar, que eu aprendi a ser gente. Foi você o meu primeiro amor. É você o meu grande amor. E sempre será seu o meu amor maior, nessa e em quantas vidas nos forem dadas.

Cresci achando que eu tinha a melhor mãe do mundo, hoje eu sei um bocadinho mais sobre o mundo e descobri que tenho muito mais do que isso. Sou a sortuda que foi gerada pela mais fantástica das mulheres, das covinhas mais lindas que já vi na vida. Tenho a melhor parceira e amiga, o cafuné mais gostoso que existe, o melhor purê de aipim do planeta, o colo mais aconchegante, o cheirinho incomparável de mãe, o amor que não se mede, que não se esgota, que vai além.

Já cheguei ao mundo vivenciando o encontro mais importante da minha vida: o de nós duas. Você me alimenta com os sentimentos mais genuínos.

Ai de mim se não fosse você, Dona Beth… ai de mim!

Mãe, veja bem, é você a razão e o porquê.

Roberta Simoni

Quando os fantasmas se telefonam

Eu não sei se quem começou primeiro foi ela ou ele, mas eu também não sei se quem nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, nem nunca vou saber, ainda que existam tantas teorias, na prática, ninguém sabe. Eu arrisco dizer que foi o pinto, mas… vai saber?

Só o que eu sei é que um dia se apaixonaram. Namoraram de perto e de longe. Resistiram a distância dele vivendo um ano em Londres. Depois dela em Nova York. Se amaram nos lugares menos prováveis do mundo. Ficaram três dias trancados num quarto de hotel em Portugal, e acreditariam se qualquer um chegasse e dissesse pra eles que estavam, na verdade, em São Paulo ou em Bangladesh.

Sei também que um dia brigaram. Um não, vários. O amor que tinham era doce e se acabou. Ou, pelo menos, foi o que pensaram. Se separaram partilhando lembranças amargas. Tanta mágoa em vão. Não sabiam que o tempo tem memória seletiva e faz questão de guardar só o que foi bom.

Ela lembrou da bagagem que teve extraviada em Lisboa e achou graça vendo suas fotos da viagem, sempre vestida com a mesma roupa. Ele se pegou rindo, lembrando dela usando a camiseta dele por três dias seguidos. Ela sentiu saudades de acordar fazendo amor com ele. Ele se flagrou, de novo, comparando-a com as outras depois dela. Seres nostálgicos. Me disseram que eles se telefonam de vez em quando e assumem a saudade. Como se precisasse…

Sei que ele a esconde no fundo do armário. E dizem que ela o guarda até hoje na gaveta da cabeceira. Nunca se trancaram lá dentro, e fizeram questão de perder as chaves.

Roberta Simoni

Foi (des)propósito

Ela saiu de casa contrariada para comprar absorventes. Ele se arrastou para descer e ir comprar um efervescente para curar a ressaca. Eram vizinhos. Não sabiam. Se esbarraram na farmácia da esquina. Ele cedeu a vez a ela na fila do caixa. Ela agradeceu. Ele desejou que não estivesse com a ressaca estampada na cara. Mas estava. Ela desejou não estar vestindo o seu moletom mais surrado e sua havaiana-rosa-choque-velha-de-guerra. Mas estava. O caixa ao lado desocupou. “Próximo!”. Pagaram ao mesmo tempo. Saíram juntos da loja. Ela foi andando um pouco mais a frente e apostou consigo mesma que ele estava olhando para sua bunda. Ele estava, e até que gostou. Ela também, de ser desejada. Só não gostou mais porque estava vestindo aquele moletom, logo aquele…

Ele acelerou o passo. Ela desacelerou. Ele se ofereceu para carregar sua sacola. Ela recusou. Mas sorriu. “Não precisa, tá leve!”. Ele sorriu de volta com algum esforço, sentindo náuseas. Ela percebeu, achou melhor não perguntar nada. Ele se adiantou: “Gastrite”. Mentira, era o fígado reclamando da noite passada. Ela contou que só ficou boa do estômago com muito chá de boldo. Ele se fingiu interessado. “É mesmo?”. Ela fingiu acreditar no interesse dele. Viraram a esquina. Pararam na portaria do mesmo prédio. “Coincidência!”. Entraram.

Ele abriu a porta do elevador. Ela entrou. Apertou o 8. “Fico aqui”. Ele perguntou se talvez ela não teria folha de boldo em casa. Ela disse que não. Ele se odiou um segundo depois de ter perguntado. “Mas posso ver se consigo pra você…” – ela acrescentou antes de sair, se odiando por ter negado no segundo anterior.

Sorriram sem conseguir disfarçar que o boldo era só disfarce.

E foi com tamanho despropósito que eles começaram a revezar as noites nas camas um do outro. Ela andava desejando um novo amor não era de hoje. Ele andava cansado das noites vazias, de acordar solitário e com a impressão de ter um elefante sentado acomodadamente na sua cabeça. Ela pensou que encontraria alguém interessante numa galeria de arte, no teatro, talvez… Ele ficaria mais contente se ela fosse loira, e um pouco menos magra, talvez… Ele apareceu com olhos fundos de ressaca, mas até que era bem bonitinho, cedeu seu lugar na fila, ofereceu de carregar a sacola dela e abriu a porta do elevador para ela entrar primeiro. “É o homem da minha vida!”. Ela não tinha uma bunda exatamente redonda, mas era bonita, além disso, sua blusa marcava seios rijos e lindos. “Preciso levar essa mulher pra cama!”

Ela descobriu que ele não só era gentil e educado, como sabia cozinhar, era inteligente, bem dotado e bom de cama, sabia fazê-la rir como nenhum outro a fez antes, e – muito importante – não era casado. Ele descobriu que ela não tinha só peitos durinhos, mas até que transava bem direitinho, tinha uma bela tatuagem na virilha, não era dessas mulheres frescas das quais ele andava cansado, era bastante culta, gostava dos mesmos livros que ele e não era uma ciumenta neurótica como as outras. Apaixonaram-se.

Não foi de propósito e mesmo assim – e por isso mesmo – foi lindo. O acaso ignora os planos e as metas, ele ri da cara dos propósitos. O acaso é o sarcasmo em pessoa, fantasiado de coincidência, irônicamente vestido à caráter.

Até foi quase propositalmente que se apaixonaram, quando fizeram a soma de qualidades + vontades, mas foi o despropósito que tratou de esbarrá-los na esquina de casa. E o despropósito estava de havaianas rosa choque, com uma tremenda ressaca, dessas que faz o sujeito prometer que nunca mais vai beber na vida, tinha um pacote de absorvente nas mãos, vestia o seu moletom mais surrado, aquele, sabe…? Que é também o mais confortável e aconchegante de todo o guarda-roupas…

… parecido com o amor que nem sempre aparenta vestir bem, não costuma andar na moda, mas, se duvidar, é a malha mais gostosa de todas e caí bem em você como nenhuma outra.

Roberta Simoni

Sobre amores e temores

Agora talvez eu seja mais temor, mas, por tanto tempo fui só amor. Amor purinho, da melhor qualidade. E morria de dó dos meus amigos que tiveram o coração partido e não conseguiam juntar seus cacos. E não entendia porque os casais se destruiam enquanto tentavam construir um relacionamento, uma vida juntos, uma casa com um quarto a mais para as crianças e um quintal grande para os cachorros. No lugar de levantar paredes de tijolos, montavam um castelo de areia, que a cada vento mais forte que batia, desmoronava.

Eu já construí os meus castelos de areia por aí. Mas a gente nunca vê isso com clareza na hora da construção, ou até percebe, mas ignora, finje que os grãos de areia são tijolos e toca com a obra, até o dia do primeiro vendaval tornar a falta de tijolos gritante!

Por dois ou três relacionamentos seguidos eu me surpreendi com a minha capacidade de colar os pedaços partidos do meu coração e mantê-lo lá, aberto, ainda que fragilizado, exposto para amar de novo. Só que, com tanta exposição, eu peguei uma bactéria perigosa chamada medo.

Mas, não se preocupem, tem cura. De medo eu não morro! Só que essa bactéria causa um tipo de reação ao organismo que, se não houver um tratamento adequado, de hospedeira em “corpo estranho”, ela passa a ser moradora fixa, com contrato de locação e tudo. O processo de cura é lento e demorado, mas quase sempre eficaz.

Enquanto sigo com meu tratamento, observo meus amigos (na maioria homens), verdadeiros românticos – felizmente – incorrigíveis e fico tão orgulhosa deles. Não sei se é influência do Dia Internacional da Mulher que está me deixando deveras sensível, se são meus hormônios, se é a quantidade de filmes românticos que tenho visto ou o excesso de romances que tenho lido, só sei que essa fase “temor” não está combinando nada com o universo romântico ao meu redor hoje.

“Eu não sei viver sem amor”, foram as palavras que o meu amigo usou ao me relatar sua história de amor com uma moça que vive em outro continente. “Beta, você é como eu, precisa de paixão, de bilhetinhos românticos, de cartas de amor, tenho certeza que vai me entender…” afirmou um outro amigo ao me mostrar a carta de amor que fez para a nova namorada. Muitas mulheres dariam a vida para receber uma carta daquelas, e qualquer mulher que lesse aquilo, se derreteria. Comigo, é claro, não foi diferente. Desgraçado! Me fez chorar… e de soluçar!

Tinha um vendedor ambulante no centro da cidade ainda agora rodeado por tanta gente que pensei: “Opa, deve tá vendendo 3 bombons Serenata de Amor por R$1,00, também quero!” . Só quando cheguei perto é que vi que o moço estava vendendo rosas avulsas, cercado exclusivamente por homens. Que lindo !!!

Na avenida Rio Branco estava rolando uma passeata, homens e mulheres protestavam pelos direitos das mulheres. No metrô o vagão estava cheio de moças carregando flores nos braços. Bravo, bravo! Senti vontade de bater palminhas empolgadas de “tiazinha”, e dar saltos de alegria feito criança pequena! Lindo, lindo, lindo!

Aí eu abro a porta de casa e vejo um envelope. De repente me senti num filme… sabe aquelas comédias românticas onde o amor sempre vem, mesmo que chegue pelo correio? Então… mas era só a fatura do meu cartão de crédito que, como de costume, me deixou tensa. “Good bye love, welcome fear!” Medo, muito medo ao abrir o envelope e ver o resultado de um dia de fúria (leia-se TPM), sanado provisoriamente com a compra de um scarpin. Eu disse provisoriamente! Eis que sempre chega o momento fatídico de efetuar o pagamento.

Mas nem a fatura de cartão de crédito mais cara quebraria o encanto do dia de hoje. Nem mesmo o meu pensamento sujo de que seria muito bom se eu tivesse um homem que bancasse as minhas contas, como acontecia antes da minha avó ter queimado aquele maldito sutiã em praça pública!

Eu sigo acreditanto no amor, continuo chorando nos casamentos das minhas amigas, me emocionando com cartas de amor, chorando de boca aberta com filmes e romances de banca de jornal, achando liiiindo de viver constatar que os homens românticos estão se proliferando e, acima de tudo, feliz por ver tanta gente com o coração aberto para amar, mas agora eu preciso pensar num jeito de conseguir mais trabalho para pagar o meu scarpin. Urgente!

Outros scarpins me esperam, e ainda me resta amor… muuuuito amor!

Roberta Simoni

Amor Explícito

“Me dá um beijo?

Hummmm… que beijo gostoso!

Eu amo tanto você, mas tanto… um dia você vai entender o quanto é grande e importante esse amor…”

Eu e quem mais estava na escada rolante do shopping olhou para trás para ver quem falava. Foi inevitável…

Foi indiscrição minha, eu sei. Mas eu tive que olhar… foi então que eu vi um homem (bonito, por sinal) com um menino no colo, e era com a criança que o pai falava. Derreti na hora, claro! Talvez seja meu instinto materno aflorando… (ui, meda!)

Demonstração de amor, assim? Em público?!? Hoje em dia, isso chama mais atenção do que briga de marido e mulher no meio da rua, convenhamos.

Cheguei no andar seguinte do shopping pensando na cena, enquanto pai e filho ainda riam, brincavam e se abraçavam. Fiquei hipnotizada e por pouco não segui os dois, mas ainda me resta algum bom senso, e fui na direção oposta…

Ok, o pai não era de se jogar fora, mas essa foi a última coisa que reparei, de verdade. Relações e demonstrações afetuosas me atraem mais do que pessoas bonitas. Foi a cena de amor gratuito e explícito que me saltou aos olhos.

Mas, para me forçar a lembrar que o mundo não é cor de rosa, poucos dias depois, no mesmo shopping (sim, tenho ido lá com uma frequência considerável no horário de almoço por pura falta de opção…) testemunhei uma cena lastimável: uma mãe que gritava com o filho, na frente de todos, e, não satisfeita, enchia o braço magro do garoto de socos de punho fechado. Lamentável, desnecessário… ainda que eu saiba que tem muita criança sendo educada dessa forma pelo mundo afora, prefiro não ver, considerando que não há muito o que eu possa fazer.

Ainda assim, essa cena despertou menos a atenção alheia do que os beijos de pai e filho, dias antes. As pessoas olhavam discretamente, fingindo que não estavam vendo a mulher humilhando o garotinho que, independente do que tivera aprontado, não justificava a punição que sofria. Enquanto eu olhava chocada, sem a menor intenção de disfarçar o meu desgosto.

Sou eu que estou sensível demais ou são os valores do mundo que estão se invertendo? Arrisco dizer que são as duas coisas.

Acho que agora amor é o que escandaliza, especialmente esse amor cheio de pureza, gratuidade e desinteresse.

De qualquer forma, seria ótimo testemunhar mais vezes demonstrações de afeto como essa… quem sabe essa moda não pega?

Eu estive pensando, sabe? (é… isso acontece, às vezes!) Não seria nada mal se o amor fosse um vírus contagioso, transmitido pelo ar ou através de contato físico como os outros vírus, seria?

Roberta Simoni

Por favor, consumam-me com moderação!

Consumir

Eu sou uma exímia consumidora, quase sempre… algumas vezes – confesso – eu dou uma de “joão sem braço” e compro mais do que, de fato, preciso. Tipo aquela blusinha vermelha liiiinda de frio que eu estou precisando tanto e que está suuuuuuper baratinha naquela loja que eu adóóóóóro, que acaba indo para a sacola acompanhada daquela outra camisetinha azul que está uma graça e com um preço imperdível.

Mas esse é o meu limite de extravagância: precisar da blusa de frio vermelha e acabar levando a camisetinha azul para casa também. Mesmo assim, antes de comprar eu faço as contas e vejo se vai dar para pagar. Se der, eu me permito, se não, é só sentar e esperar a vontade passar.

Fora os chocolates – que consumo de maneira desregrada quase sempre – e esses pequenos deslizes esporádicos, sou uma consumidora exemplar. Por isso, gostaria de ser consumida da mesma maneira. Seja por pessoas, tarefas ou, principalmente, por sentimentos. Eu explico:

Sabe aquelas pessoas que te sugam com um canudo como se você fosse a última gota de coca-cola da latinha? Pois então, essas pessoas são capazes de fazer isso de maneiras adversas: algumas sugam a sua energia só pelo simples fato de existirem, outras por falarem demais, por cobrarem demais ou por fazerem de menos. Ainda existem aquelas que abusam da sua boa vontade e te sugam por todos os seus poros, te explorando o quanto podem. Essas são só algumas formas de ser consumido por alguém.

Tarefas que te consomem são aquelas que roubam todo o seu tempo contra a sua vontade e te irritam e estressam profundamente. Mas os sentimentos… ah, esses são mais do que meros consumidores de você, eles são consumistas.

Sentimento brando é carinho, ternura, fé, tranquilidade, serenidade, sobriedade, por exemplo. Esses são sentimentos (ou sensações) que não te tiram de órbita, ao contrário, te colocam no eixo. Mas aí, de repente, você é consumido por uma ansiedade, por um tédio, um ódio ou uma paixão que te sugam e te deixam imune.

E se sua imunidade fica baixa, você inevitavelmente acaba caindo doente. Doente de quê? Você pensa que é febre, virose, resfriado, mas, que nada… você está doente de ansiedade, de amor, de ódio, de tédio, de paixão ou até mesmo de saudade. Sinto lhe informar que a doença física foi apenas a última coisa que você desenvolveu.

Antonella PuglieseEu estou para a ansiedade como o chocolate está para mim. E acho que a ansiedade realmente me venera, adora e me  deseja com urgência, por isso me consome tanto.

A ansiedade faz comigo algo bem parecido que já fiz com o amor: bebi até a última gota, depois ainda virei o copo no alto, na direção da minha boca aberta, com a ponta da língua para fora, na esperança de cair aquela última gotinha que não mata a sede, mas me dá a sensação de não ter desperdiçado nada.

O problema é que, de certa forma, a gente escolhe o que quer consumir, mas não é sempre que dá para escolher o que – ou quem – consome a gente. Mesmo assim, eu insisto aos consumistas: consumam-me com moderação! 😉

Roberta Simoni

Créditos: Foto de  Antonella Pugliese – uma das minhas fotógrafas favoritas.