De repente 30

de-repente 30

Nem tão de repente assim quanto a menina do filme que pula dos treze para os trinta anos num passe de mágica, mas garanto que virei balzaquiana numa velocidade intrigante, para não dizer assustadora.

Vi um monte de amigos chegando aos trinta em plena crise existencial e sabia que dentro de poucos meses chegaria a minha vez. E chegou, completei três décadas de vida há duas semanas, mas a crise não veio no pacote “brinde de aniversário”, não até agora. E pelo adiantado da hora, acho que não vem mais.

Eu, que sempre penso demais a respeito de tudo, que vivo mergulhada num mar revolto (e tedioso de sempre tão agitado) de dúvidas e dilemas da vida, simplesmente saí dos vinte e tantos e entrei na casa dos trinta assim, dormente. Quase indiferente.

Por tradição, meu aniversário não costuma ser um dos dias mais felizes do ano pra mim, bem como o Natal, o Ano Novo ou o Dia dos Namorados. Há muito barulho nessas datas, muita gente se esforçando para entrar no “modo felicidade”. É como se existisse uma atmosfera propícia à alegria, letreiros gigantes piscando “FIQUE FELIZ, FIQUE FELIZ!!!” em caixa alta e com luzes florescentes, de modo que estar pleno em dias assim virou quase uma obrigação. Não vejo mal nenhum na plenitude, mas, pelo menos pra mim, ela não vem com data e hora marcada.

Diferente do inferno astral – aquele período infernal, que antecede nosso aniversário, onde tudo que pode (e o que não pode também) dar errado, dá  – que tem o costume de ser bem pontual. Fiquei realmente boa nisso de viver meu inferno astral com o passar dos anos.

Na verdade, foi um alívio descobrir que existia um nome para a angústia que eu sentia sempre à véspera do meu aniversário. Quer dizer então que essa maré de azar, essa aflição que parece não ter fim, tem a ver com astrologia??? Cê jura? Sou ignorante o suficiente para não entender muito dos astros, e esperta o bastante para não duvidar deles. Então tá. É culpa do inferno astral. Aliás, tudo acabou virando culpa dele. “É que eu tô no meu inferno astral”. Me peguei dizendo isso uns dois ou três meses antes do meu aniversário, e algumas semanas depois. A pessoa realmente resolveu achar que a razão de tudo o que acontece no universo é porque o sol começou a caminhar através da última casa do seu mapa astral. Quanta pretensão!

Só que esse ano, contrariando as estatísticas, tudo fluiu muito bem, apesar do esforço de uma gente esquisita, que anda por aí, meio perdida no mundo, tentando agourar a vida alheia.

Só sei que não funcionou. Fiquei bem a ponto de esquecer do inferno astral esse ano. Logo este ano, que entrei para o clube das balzacas. A verdade é que a ideia de chegar aos trinta nunca me pareceu propriamente ruim. Sempre achei essa idade fascinante. E apesar de não existir qualquer lógica para tal fascínio, passei os últimos anos acreditando que essa devia ser uma das fases mais lindas da mulher. Lembro que desde os meus remotos vinte anos eu já achava as mulheres de trinta e poucos (ou tantos), umas divas. Mais seguras, mais inteligentes e mais bonitas.

Bom, cheguei aos famigerados trinta, e, mesmo estando longe de ser uma diva, até que eu tô curtindo! Nada mau ser trintona, viu? Olho para trás e raras vezes sinto saudades das várias vidas que tive até chegar aqui. Cansaço, sim. Isso eu sinto bastante. Quando lembro que, aos vinte e poucos, eu trabalhava numa editora de livros de 8h às 18h, fazia hora extra até às 21h, ainda ia para a faculdade depois para assistir as últimas aulas, passava as madrugadas em claro escrevendo minha monografia, fazia estágio não remunerado aos sábados e domingos numa rádio para poder me formar, vendia bijuterias para pagar meu aluguel e ainda conseguia encontrar com meus amigos e ter um namorado nos minutos vagos, fico até sem fôlego. Se valeu a pena? Ô, e como! Valeu demais. Cresci, amadureci, aprendi muito e, se você me perguntar se eu faria tudo isso de novo, eu vou te responder que, sem sombra de dúvidas, NÃO. Nem fodendo.

Ainda faço mil coisas ao mesmo tempo, me divido em várias funções, mas finalmente desacelerei um pouco. Não me livrei da síndrome do “quero-fazer-tudo-ao-mesmo-tempo-agora”. Continuo me assustando diariamente com a passagem do tempo e sofrendo com as pessoas que ele leva depressa, mas, hoje em dia, consigo até desfrutar de uma certa experiência que ele traz. Ainda não realizei nem 1/3 dos meus desejos, não conheci nem a metade dos lugares que planejo conhecer, ainda não aprendi direito nenhuma outra língua, não plantei uma árvore, não fiz um filho, nem publiquei um livro exclusivamente meu, embora já o tenha escrito. Não li nem 10% dos livros que ainda quero ler, nem escrevi 5% das ideias de histórias que julguei geniais quando as imaginei, mas acabei por engavetá-las, assim como alguns sonhos e planos.

Mesmo assim, gosto de pensar que ainda me sobra algum tempo para fazer – ao menos parcialmente – as coisas que ainda não fiz, por falta de oportunidade, de vergonha na cara ou por excesso de medo e preguiça.

Enquanto isso eu tô aí, preenchendo as páginas da minha vida, de modo que faço dela única e exclusivamente minha, embora os fatores externos constantemente me inclinem a cumprir deveres que não quero ou não tô afim de fazer. É um jeito que a vida encontra de esfregar na minha cara que sou dona do meu nariz e do meu destino só até a segunda ou terceira página.

Sou uma mulher de trinta anos bem vividos, que muito provavelmente vai passar os próximos trinta oscilando entre a garota destemida e feliz (que mal dava para saber se era garota ou garoto pelo comportamento impróprio para meninas), a moça adulta, responsável, correta, racional (e chata pra cacete), e a velha despudorada, que fala o que pensa, faz o que quer, coleciona histórias magníficas para contar e que já sacou que o que se leva da vida é a vida que se leva.

Roberta Simoni