Por favor, consumam-me com moderação!

Consumir

Eu sou uma exímia consumidora, quase sempre… algumas vezes – confesso – eu dou uma de “joão sem braço” e compro mais do que, de fato, preciso. Tipo aquela blusinha vermelha liiiinda de frio que eu estou precisando tanto e que está suuuuuuper baratinha naquela loja que eu adóóóóóro, que acaba indo para a sacola acompanhada daquela outra camisetinha azul que está uma graça e com um preço imperdível.

Mas esse é o meu limite de extravagância: precisar da blusa de frio vermelha e acabar levando a camisetinha azul para casa também. Mesmo assim, antes de comprar eu faço as contas e vejo se vai dar para pagar. Se der, eu me permito, se não, é só sentar e esperar a vontade passar.

Fora os chocolates – que consumo de maneira desregrada quase sempre – e esses pequenos deslizes esporádicos, sou uma consumidora exemplar. Por isso, gostaria de ser consumida da mesma maneira. Seja por pessoas, tarefas ou, principalmente, por sentimentos. Eu explico:

Sabe aquelas pessoas que te sugam com um canudo como se você fosse a última gota de coca-cola da latinha? Pois então, essas pessoas são capazes de fazer isso de maneiras adversas: algumas sugam a sua energia só pelo simples fato de existirem, outras por falarem demais, por cobrarem demais ou por fazerem de menos. Ainda existem aquelas que abusam da sua boa vontade e te sugam por todos os seus poros, te explorando o quanto podem. Essas são só algumas formas de ser consumido por alguém.

Tarefas que te consomem são aquelas que roubam todo o seu tempo contra a sua vontade e te irritam e estressam profundamente. Mas os sentimentos… ah, esses são mais do que meros consumidores de você, eles são consumistas.

Sentimento brando é carinho, ternura, fé, tranquilidade, serenidade, sobriedade, por exemplo. Esses são sentimentos (ou sensações) que não te tiram de órbita, ao contrário, te colocam no eixo. Mas aí, de repente, você é consumido por uma ansiedade, por um tédio, um ódio ou uma paixão que te sugam e te deixam imune.

E se sua imunidade fica baixa, você inevitavelmente acaba caindo doente. Doente de quê? Você pensa que é febre, virose, resfriado, mas, que nada… você está doente de ansiedade, de amor, de ódio, de tédio, de paixão ou até mesmo de saudade. Sinto lhe informar que a doença física foi apenas a última coisa que você desenvolveu.

Antonella PuglieseEu estou para a ansiedade como o chocolate está para mim. E acho que a ansiedade realmente me venera, adora e me  deseja com urgência, por isso me consome tanto.

A ansiedade faz comigo algo bem parecido que já fiz com o amor: bebi até a última gota, depois ainda virei o copo no alto, na direção da minha boca aberta, com a ponta da língua para fora, na esperança de cair aquela última gotinha que não mata a sede, mas me dá a sensação de não ter desperdiçado nada.

O problema é que, de certa forma, a gente escolhe o que quer consumir, mas não é sempre que dá para escolher o que – ou quem – consome a gente. Mesmo assim, eu insisto aos consumistas: consumam-me com moderação! 😉

Roberta Simoni

Créditos: Foto de  Antonella Pugliese – uma das minhas fotógrafas favoritas.

A alma também precisa beber.

Sede

Hoje eu acordei sem despertar. Ou despertei sem acordar. Simplesmente levantei. Mas levantar não significa – necessariamente – acordar. E apesar de não estar sonâmbula, agi como tal.

Coisa rara é alguma coisa conseguir me tirar da cama durante o meu sono. Normalmente eu vou direto, até o dia seguinte. Mas eu senti uma sede tão grande que minha boca secou.

Fui até a cozinha, abri a geladeira sem conseguir abrir os olhos direito e virei meio litro de água goela abaixo, depois voltei para a cama com a ajuda de todos os meus outros sentidos, menos a visão.

Quando voltei para debaixo das cobertas meus olhos resolveram abrir e decidiram permanecer assim pelas horas seguintes. Sem que eu percebesse, o meu sono deve ter escapado e se escondido dentro da geladeira enquanto eu bebia água, distraída.

Me recusei a ligar a tevê às 3h da manhã. E me determinei a não acender a luz, nem a pegar o livro que estava na cabeceira e ler até o sol nascer. De qualquer forma, vi o dia amanhecer, sem a ajuda do livro ou da tevê. Perturbada de sede!

Mas não era sede de água. Não era o meu corpo pedindo líquido. Era sede na alma mesmo. Percebi que eu ando cuidando tão mal do corpo quanto da alma, que está claramente desidratada.

Era tanta sede para ser sentida àquela altura da madrugada. E tudo o que eu queria era um gole de água, enquanto, na realidade, tudo o que eu precisava era de um gole de várias outras coisas… um gole só!

Um gole de força para hidratar minha coragem. Um gole de calma para saciar minha ansiedade. Um gole de luz para eu enxergar na escuridão. Um gole de energia para motivar o meu corpo. Um gole de paixão para turbinar o meu tesão pela vida. Um gole de paciência para controlar essa ânsia de viver tudo tão intensamente.

Um gole de cada coisa agora, para quando a felicidade chegar, eu me sentir no direito absoluto de beber tudo de uma só vez, sem parar para respirar…

E você?  Anda sentindo sede de quê?

Roberta Simoni